Polly
25 Epílogo
Notas iniciais
As surpresas são sempre inesperadas, pois nos pegam no momento mais vulnerável. E assim eu estava, do lado de fora da casa de Nina, com um notebook nas mãos e a calma de uma tarde sem ao menos um vento forte. Uma calmaria de domingo que deve ser vista com desconfiança, pois a qualquer momento tudo pode mudar.
Mas estava ocupada demais pensando no futuro, um hábito que recentemente voltara a cultivar, dividindo minha atenção entre a coluna que precisava escrever e preços de chalés. Sonhava em recomeçar minha vida ao lado de Ian, e um pouco mais independente de Nina. Ela cuidava tanto de mim, que há muito parecíamos mãe e filha. E eu adoraria manter uma simples e real amizade agora.
Estava quase perdida em meus devaneios e na música que soava em meus fones de ouvido, quando senti um puxão, retirando meus fones e minha paz. Era Nina, como de praxe, e seu rosto parecia estar um pouco tenso.
— Você precisa ver isso. – Ela disse, puxando-me para dentro de casa novamente.
Segui Nina até o corredor. Poderia até mesmo perguntar sobre o que se tratava, mas sabia que ele não me explicaria. Ou me explicaria na hora em que desejasse. Estávamos em frente à sala pessoal de Ian, o lugar onde ele treinava longe de seu trabalho.
— Já estive aqui várias vezes, Nina. O que tem de diferente para me mostrar? – Perguntei, antes que ela abrisse a porta.
— Uma nova aluna. E eu acho que ela quer treinar com você.
Aquilo não poderia ser possível. Ian só treinava outras pessoas no seu local de trabalho. Aquele lugar era pessoal. E por que alguém iria querer treinar comigo? Eu não era uma professora de luta, apesar de ter ensinado algumas técnicas de luta para minhas “protegidas”.
Alguém queria lutar comigo. Só poderia haver um motivo. Um péssimo motivo.
Ian abriu a porta, provavelmente por ter escutado nossa conversa. Também tinha o olhar sério. Escutei, ao fundo, o som de um saco de pancadas sendo atacado com muito ódio.
— Acho que temos um possível problema para conter. – Ian disse, e algo em seu rosto indicava experiência.
Quando entrei na sala fui atingida pela surpresa, assim como o saco de pancadas era atingido pelos socos de Anna. A pequena Anna dos desenhos assombrosos, que quase nunca falara, pois dividia o mesmo trauma comigo. Aquela a quem prometi matar Marcus, o nosso monstro em comum. A minha maior culpa. Talvez se não fosse tão parecida comigo, estaria livre de todo o trauma e ainda seria uma criança inocente.
Quando a conheci era a personificação da fragilidade. Talvez fosse ideia do pai, pensei. Aliviar a eterna culpa fazendo a filha aprender a se defender. Mas senti, ao entrar naquela sala, que toda aquela determinação vinha apenas dela. Seus cabelos claros puxados em um coque. O suor que escorria em seu rosto, viajando por uma veia pulsante. E o olhar, um olhar que mostrava o fundo da sua alma. E havia muito ódio e muito desejo pela vingança. Era como olhar em um espelho que revelasse o seu passado.
Anna parou por um momento. Retirou as luvas, e virou seu olhar para mim. Estava decidida a não ser mais uma vítima. Mas o que pretendia fazer? Ele estava morto.
— Estou feliz em te ver de novo. Acho que vou aprender muito com você. – Ela disse, aproximando-se de mim e apertando minha mão. Com uma força nunca antes vista nela. Com uma voz que antes ninguém escutara. Aquela voz silenciada pelo medo.
Senti um presságio terrível com aquele aperto de mãos. Como se todas as suas intenções fossem lidas por mim. Queria nunca mais passar por isso, era óbvio. Mas queria mais. A essa altura, já devia saber que existiam vários Marcus no mundo. Seu olhar de morte era dirigido a todos eles. Assim como eu tentei fazer uma vez.
Tirei vidas. Fiz famílias sofrerem. Criei pesadelos que nunca consigo afastar. Nem com todos os filtros dos sonhos pendurados sob minha cama. Quase fui morta. Saí ferida várias vezes. Era um capítulo da minha vida que adoraria esquecer,pois foi tudo em vão. Isso não diminuiria em nada. O fim para todas aquelas atrocidades era bem mais difícil.
Mas Anna não poderia saber. Em sua idade, eu sentia o mesmo. Adoraria ter uma máquina do tempo para voltar e dizer a mim mesma que seria em vão. Eu não poderia fazer isso, assim como também não poderia mudar o passado de Anna. Mas em hipótese alguma eu permitiria que ela cometesse os mesmos erros que eu. Não compartilharia outro trauma em comum com ela.
Olhar para ela é assustador. É como uma viagem ao passado. Uma segunda chance para mudar tudo.
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