Polly

10 Encontro explosivo


Notas iniciais
Mil desculpas pela demora, mas aqui está o capítulo! Alguns leitores reclamaram de reviews não respondidos. Bom, eu respondi todos eles rsrs. Talvez seja algum problema do site, mas se isso continuar me avisem via MP que eu responderei. Espero que gostem do capítulo. Muito obrigada por estarem lendo! Boa leitura!

Quando acordo, sinto minha cabeça latejar e por um momento não me lembro de nada. Tento me mexer, mas estou presa a alguma coisa. Uma cadeira. Olho para a janela. Já é noite e nenhum sinal de Janine. Ela não seria capaz de fazer isso comigo.

Então quem seria?

Estou sentada de frente a uma mesa branca e fria, iguais aquelas usadas em cenas de interrogação. Não sei aonde estou, mas não estou na sala confortável que eu me lembro. A julgar pelos armários, o freezer e os frios azulejos brancos, eu estou na cozinha. Tento lembrar do que aconteceu, mas a dor lancinante confunde a minha mente. Não gosto de ficar presa, e dessa vez não são cordas. São algemas.

– Socorro! ­– Grito em vão, pois estou no meio do nada e ninguém pode me ouvir.

– Ninguém pode te ouvir, Polly. – Uma voz masculina repete o que não é nenhuma novidade.

Albert se aproxima lentamente de mim. Seu rosto sombriamente calmo. Eu reconheço essa expressão. É o êxito de nos ter domadas bem a sua frente. Começo a ter medo do que Albert fará comigo. Está presa num lugar distante de tudo com um homem que eu não confio e aparentemente quer me matar não me traz boas lembranças. Sei que é inútil mas começo a me debater, tentando me livrar daquilo.

– Acalme-se! Parece um peixe se debatendo no barco! – Ele exalta a voz.

Seu rosto está colado ao meu e eu me esquivo o quanto posso. Encaro um brilho prateado na gola de sua camisa roxa. É a chave da algema.

– O que você quer de mim, Albert?!

– Quero passar um tempinho com você. Tem muito que me explicar, Polly justiceira.

Agora tudo parecia fazer sentido. Albert estava atrás de mim, porque sabia que eu era a culpada pelos crimes que a polícia havia investigando. Eu estava perdida. Tive chances de fugir dessa vida, mas agora é tarde demais. Eu estava totalmente à mercê.

Permaneci em silêncio enquanto ele pegava o envelope laranja onde eu tinha me deparado com a minha investigação.

– Como deu para perceber, investiguei você durante um mês. O que me chamou atenção não foi a mesma luva que eu havia encontrado numa das cenas do crime, mas sim a cicatriz curiosa no seu pulso.

Encaro meus pulsos presos pela algema de prata. Aquilo foi um gesto de estupidez, mas eu gostava de deixar a minha marca. Enquanto fazia questão de esconder a minha. Mas num momento de desleixo fui descoberta.

– Mais do que depressa eu sondei tudo sobre você. Sua família, amigos, escola, trabalho. Tudo. Eu segui você. Descobri sobre o grupo, e mais rápido descobri que sua próxima vítima seria eu.

Minha respiração falhou naquele instante. Albert acabara de confessar sua culpa no estupro de Rachel. Ele estava o tempo todo bem na minha frente e eu sequer cogitei.

Nunca me senti tão fraca e fracassada na minha vida. Comecei a chorar, mas nem me importava mais em parecer vulnerável.

­– Agora eu entendo porque você sempre defendia os estupradores. – Eu deixei escapar.

Albert não se manifestou. Ficou em silêncio como que a pensar. Depois voltou a me fitar com seus olhos assustadores.

– Esqueci de perguntar se gostou dos biscoitos. – Ele disse entre um sorriso.

Sentia tanta repulsa dele como nunca havia sentido antes. Tinha vontade de pisoteá-lo, cuspir em seu rosto. E eu cuspi.

Albert foi surpreendido pelo meu ataque, mas logo se recompôs e limpou o rosto na camisa. Estranhamente ele não parecia se importar. Mas foi uma fração de segundo até ele despejar uma bofetada em meu rosto.

– Ainda continua audaciosa a essa altura? Polly, você não quer cooperar mesmo.

Eu permaneci em silêncio enquanto sentia meu rosto latejar e a vergonha queimá-lo.

– Vejo que não gostou dos biscoitos. Mas e da atuação de Amanda, gostou?

Nem havia parado para pensar em Amanda.

– Pelo visto ela foi bem convincente.

– Explique isso melhor. – Eu pedi.

Albert tinha uma risada assustadoramente calma. Senti que ele zombava da minha total ingenuidade para com Amanda.

– Amanda é uma atriz fracassada. Estava passando fome, e eu prometi que a ajudaria se fizesse um favor para mim. E ela fez. Muito bem, diga-se por sinal. Pensei que seria mais difícil ganhar a sua confiança.

Às vezes nós pensamos e pensamos, mas nunca iremos entender como é possível cometer tamanha estupidez ao confiar nas pessoas.

Mais uma vez eu havia me metido numa enrascada por confiar nas pessoas.

– Você vai me matar. – Digo sem querer adiar o inevitável.

– Não me leve a mal, Polly. Isso é um jogo. Se você nunca tivesse pegado no meu pé talvez eu te poupasse. Mas você quem escolheu essa vida, não foi? – Ele diz, acariciando meu rosto com apenas um dedo.

Mais uma vez ajo sem pensar e mordo o seu dedo com toda a força. Ele grita um palavrão e só tira o dedo da minha boca quando já sinto o gosto do seu sangue. Em resposta, Albert despeja um soco forte no meu rosto, o que me faz ficar desnorteada graças à dor lancinante.

Eu decido não desistir. Tento jogar meu corpo contra ele, mas nada do que aprendi com Ian poderá me ajudar agora. Estou presa, incapaz de me defender. Exatamente como estive há dez anos. Sinto o conhecido pânico tomar conta de mim agora.

Albert me encara de um jeito estranho agora. E de alguma forma consigo sentir o que ele pretende fazer. Mais uma vez entro em desespero. Não ligo se eu morrer agora. Mas nunca mais irei passar por aquele trauma de novo.

– Pare com isso! – Ele grita sem um pingo de paciência agora.

Albert despeja uma série de socos em todo o meu corpo. Um soco forte na barriga me faz gritar de dor. Cada vez mais movido pela raiva, Albert agarra o meu pescoço com toda a sua força e fúria. Sinto-me sendo estrangulada pouco a pouco. Meus pulmões implorando por ar, enquanto eu digo a eles que desistem logo de lutar e aceitem a derrota. Minha visão começa a embaçar, e eu penso em todas as coisas que nunca poderei fazer. Muitas coisas. Eu não queria morrer. Mas mesmo assim essa opção parece melhor que a outra.

Aquela cena já estava se esvaindo de mim, e eu estava prestes a conhecer o maior mistério da nossa vida que nunca conhecemos enquanto vivos, mas escuto um grande estrondo. Não sei mais se estou sonhando, mas tenho a vaga impressão de ver os volumosos cabelos de Amanda. Eu não tenho forças nem para chamar o seu nome. Mas ela parece estar mais ocupada com Albert, já estendido no chão. Vejo um vulto vermelho e muito assustado se aproximando. Sempre imaginei que tivesse algum anjo com a mesma aparência de Rachel, e é ele que vem me buscar.

Amanda parece entregar algo para Rachel. Sinto alguém pegar as minhas mãos, antes delas caírem finalmente libertas das algemas. Não tenho nenhuma força no meu corpo. Sinto que estou sendo carregada com dificuldade. Sempre fui bem alta, e se Rachel estiver me carregando então nunca sairemos do lugar.

– Temos que sair daqui o mais rápido possível. Essa porra toda vai explodir a qualquer hora! ­– Agora consigo ouvir o que só pode ter vindo de Amanda.

Sinto que elas correm comigo agora. Amanda e Rachel apertam a minha cintura, justamente onde Albert deveria ter despejado seus vários socos. Fecho os olhos, pois a dor é insuportável, e somente depois de ouvir um estrondo insuportável eu navego no mar da inconsciência.

***

Quando abro os meus olhos fico contente ao ver os desenhos cinza dos prédios projetados na janela do carro. Uma música relaxante toca agora no carro, que quase alivia as profundas dores nos lugares onde Albert me bateu. Estou deitada nas poltronas de trás, e vejo a ponta dos cabelos ruivos de Rachel no banco do motorista, em contraste com a grande juba de Amanda ao seu lado.

– É uma pena ter explodido. O chalé era muito lindo. – Ouvi a voz doce de Rachel.

– Quando você teve tempo para reparar no chalé?! – Amanda exclamou perturbada.

Ela não conhecia o olhar artístico de Rachel como eu.

Naquele momento eu me lembrei do que Amanda tinha feito. No momento da fúria não me interessava que ela estivesse passando fome. Muita gente passa fome, mas permanece honesto. Claro, eu nunca fui um exemplo de gente honesta, mas quando ganhava a confiança de alguém, eu prezava isso. Por isso sem pensar, avancei no seu pescoço com o pouco de força que eu tinha.

Rachel soltou um grito agudo e pelo movimento do carro eu percebi que ela havia perdido o controle. Todo o esforço que eu fazia no pescoço de Amanda parecia nulo, pois ela apenas segurava os meus braços, tentando me acalmar.

– Eu sinto muito, Polly. Eu não sabia o que fazer! – Ela dizia arrependida.

Senti o carro frear bruscamente. Rachel olhou para mim com os cabelos todos na frente do rosto, como aquelas cenas de filmes de terror.

­– Polly acalme-se. Vamos para casa agora resolver tudo isso. – Ela ordenou cheia de autoridade.

Lancei um olhar fulminante para Amanda, que continuava com a expressão de arrependimento. Mas como eu poderia confiar nela?

***

A última vez que o carro freou foi em frente à casa de Rachel. Ambas saíram rapidamente, e Amanda estendeu os braços para me ajudar.

­– Eu consigo me levantar sozinha. – Neguei com prazer a sua ajuda.

Claro que doía ao me levantar, ou andar, ou até mesmo respirar. Albert não era um suspeito qualquer. Ele era um policial com anos de experiência, e só não me matou depressa porque queria me ver sofrer. Era um jogo, como ele havia dito.

Rachel pegou as suas chaves eu percebi que ela tremia, ainda assustada. Seu rosto estava mais vermelho que o comum. Vestígios de um choro que eu não pude conter.

A casa de Rachel continuava a mesma. Sentei no seu sofá e ela me cobriu com a manta bordada branca que estava em cima do sofá. Amanda enfim percebeu que eu precisava de espaço e se sentou afastada de mim, embora continuasse a me fitar.

Havia um espelho com uma moldura antiga de madeira na parede ao lado, acompanhado de diversas molduras sem nenhum quadro. Resolvi consultar o meu reflexo e me arrependi quase que imediatamente.

Meus lábios estavam mais inchados que uma experiência mal feita de botox. Havia um corte no lábio superior. Meus olhos estavam roxos e fundos, me lembrando dos socos. Havia um corte em cima da minha sobrancelha que eu não me lembrava. Talvez tivesse levado uma pancada quando me resgataram, antes de desmaiar. Havia estilhaços de vidro no emaranhado do meu cabelo, que consequentemente produziram diversos pequenos cortes pelo meu corpo. Levantei a minha blusa para ver aonde doía, e vi o grande hematoma roxo, que medonhamente combinava com o meu sutiã roxo.

Amanda olhava para mim com um misto de curiosidade e remorso. Eu retribuí o olhar furiosamente. Ela sabia que aquilo era em parte – e em grande parte ­– sua culpa.

– Vou fazer alguma coisa para comer. Aceitam?

– Claro! – Disse Amanda mais do que depressa.

– Ok. Amanda cuide dos ferimentos de Polly.

– Eu sei me cuidar sozinha.

– Não, não sabe. – Rachel me olhou sério antes de voltar para a cozinha.

Amanda estava com suas características roupas rasgadas, e havia muito mais estilhaços no seu cabelo. Também tinha pequenos cortes, mas nada tão grave. Ela limpou os meus cortes e fez curativos.

– Tome este saco de gelo. Para esse estrago na sua barriga. – Ela disse.

Gemi de dor ao entrar em contato com o gelo, mas logo depois relaxei. Eu queria realmente começar a bater em Amanda, mas em respeito a Rachel eu não fiz isso.

– O que aconteceu? – Eu perguntei finalmente.

– Eu bati em Albert, mas ele caiu em cima da botija de gás. Fazendo todo o gás escapar. E ele estava com um maçarico.

Não entendi de súbito o porquê do maçarico, mas logo pensei. Ele também queria deixar a sua marca.

– Ele está morto? – Eu perguntei logo me dando conta do óbvio. Amanda me respondeu com um olhar sarcástico, e eu voltei para o meu silêncio.

– Olha Polly, eu sinto muito. Eu realmente precisava de ajuda, e Albert foi tão gentil comigo. Pagou um quarto para mim, me deu roupas novas, dinheiro e o mais importante de tudo: comida!

– Eu não sei por que você estava passando fome. Você atua medonhamente bem.

Amanda não sabia se aceitava aquilo como elogio ou mera provocação.

– Depois eu te conheci eu fiquei muito arrependida de estar fazendo isso com você. Albert estava lá ouvindo a nossa conversa através de um microfone no meu brinco. Ele viu que eu queria desistir e começou a me ameaçar. Eu não tive escolha, Polly!

– Essa é a nossa diferença. Eu jamais arriscaria a vida de alguém para salvar a minha.

– Eu sei. E eu realmente sinto muito. Por isso procurei a Rachel e...

– Como você sabia o endereço dela?

– Albert sabia o endereço de todas elas.

Esse cara não tinha vida?

– Continuando, Rachel me disse onde você tinha ido e logo eu percebi que era uma armadilha. Expliquei a ela pelo caminho e chegamos até lá. Bem a tempo.

– Não espere que eu diga obrigada.

– Não espero. Só quero que me perdoe.

– Eu até perdoo. Mas não confio em você.

– Entendo. – Ela parecia triste. – Eu não sou tão mau caráter assim, sabia?

– Veremos. – Eu disse.

Rachel voltou segurando uma bandeja branca com três grandes pedaços de bolo de chocolate, sendo que o seu já estava na boca. Três canecas de bolinhas traziam alguma coisa bem quente. Um de seus chás sem gosto, logo imaginei. Rachel adorava aquilo.

– Sirvam-se. ­– Ela disse orgulhosa da bandeja.

Amanda não hesitou em se servir. Pegou o maior pedaço de bolo e com uma mordida já havia comido quase a metade.

– Quer que eu te sirva igual àquelas mamães que mimam seus filhotes? – Ela disse com aquela voz de criança. Olhei bem para Rachel dessa vez. Ela também estava arranhada graças aos estilhaços.

– Não vou comer nada. Nem consigo. Eu só quero um remédio. – Eu disse levando a mão a barriga agora gelada.

– Quer remédio melhor que isso? Tome este chá e logo estará melhor. – Ela disse praticamente enfiando a caneca na minha boca. O chá tem o mesmo sabor de nada para mim. Rachel nunca foi muito fã de remédios.

– Se realmente fizessem bem para a saúde não teriam o nome de droga. – Ela sempre usava esse argumento.

Meu pensamento logo se expandiu para a seriedade daquele dia. Cheguei enfim a uma verdadeira conclusão.

– Preciso parar com isso, Rach. ­ – Eu disse, lacrimosa. – Sinto muito.

Rachel me abraçou com cuidado para não me ferir e me pôs em seu colo.

– Não tem com o que se desculpar, Polly. Você não precisa cuidar de ninguém. Deixe que cuidem de você uma vez na vida. – Ela afagou lentamente meus cabelos, enquanto retirava cada estilhaço. Um por um.

Era hora de ter um pouco de paz. Eu não poderia ir atrás de todos eles, e por mais que eu custe acreditar, existem policiais decentes que tentam punir esses monstros. Era por conta deles agora. As ruas dariam adeus aos meus vis atos de justiça.

Mas eu ainda precisava de uma coisa. Meu ato final. Aquele que traria toda a paz que eu precisava. Dizem que a vingança traz um terrível vazio para a vida daqueles que a praticam, mas eu não ligo se isso me trouxer um pouco de paz.

– O que você vai fazer agora? – Amanda enfim se pronunciou, ainda de boca cheia.

Eu vou atrás de Marcus. Mas isso não é da conta dela, nem de Rachel, só minha. E ninguém pode me impedir. Nem mesmo um tolo medo de infância. Tudo isso vai passar junto com a morte dele.

Saboreio o sabor da minha vingança e dos meus planos futuros em silêncio, antes que meus olhos comecem a pesar. Tão pesados a ponto de não conseguir mantê-los aberto. Decido desistir da luta enquanto sinto minhas dores se calarem um pouco, enquanto saboreio os efeitos do chá.

Notas finais
Então o que acharam? Preciso da opinião sincera de vocês! Espero encontrá-los no próximo capítulo, onde Polly finalmente irá embarcar atrás de sua vingança.