Polly
3 Corto suas asas sujas
Notas iniciais
Polly invadiu meus sonhos mais uma vez.
Em meu sonho ela era um anjo. Nua de maldade. Nua literalmente, coberta apenas por asas muito alvas. Porém, à medida que eu me aproximava dela as asas se tornavam sujas, escuras. E quando me dei conta lá estava eu cortando-as violentamente. Seus gritos por socorro nenhum efeito causavam em mim. Em resposta eu repetia uma fria e monstruosa verdade:
– Você não pode fugir para lugar algum.
Acordei num sobressalto. O despertador me trazendo de volta à realidade. Mas eu não queria encará-la. Nem a realidade e muito menos Polly.
Foi quando enfim me deparei com a seriedade do meu ato. Um estuprador. Não, não estou arrependido pelo que fiz. Não posso controlar meus desejos. E não foi a primeira vez. Mas consequências, assim como os meus atos, são quase impossíveis de controlar.
Se eu fosse preso seria o meu fim. Todos nós sabemos o que acontece com estupradores na cadeia. No entanto todos nós sabemos que é mais fácil um camelo entrar no buraco de uma agulha do que um rico permanecer na cadeia. Não que eu seja rico, sou apenas um professor. Mas tenho minhas heranças. Tantas que não faz sentido eu ser um professor. Estou aqui por causa de ninfetas como Polly.
Mas o mundo não irá parar por minha causa. Desse modo me dirijo para o banheiro, mesmo sabendo que um bom banho dessa vez não resolverá meus problemas.
***
Para minha grande surpresa não sou barrado assim que chego ao colégio, e ninguém suspeita do solitário professor de história. Tudo parece normal, exceto pelo desaparecimento de Polly. A sala está como sempre. Persianas abertas cobrindo as janelas. Carteiras de madeira livre de rabiscos. Cartazes coloridos e as meninas de xadrez que colorem a cena. Mas o lugar de Polly está vazio. Também não a vejo nos corredores. A curiosidade chega ao desejo de visitar o seu quarto, mas isso me causaria sérios problemas. E Polly já me causou diversos problemas por uma tarde.
Mas a curiosidade é um mal que começa pequeno e vai se estendendo conforme as horas. De modo que ao término da aula procuro minha única fonte. Uma criaturinha de lisos cabelos negros e pequenos olhos asiáticos, a qual todos chamam de Nina. Percebe-se que é a melhor amiga de Polly. Na certa deve saber de algo.
– Nina! Vem cá. – Eu a tiro do meio das outras garotas.
– Que foi? – Ela pergunta irritada.
– Sua amiga Pollyana não veio hoje. Pode me informar o por quê?
Ela estranha meu súbito interesse. Nina não é ingênua. Ou talvez já saiba de algo. Estremeço só de pensar.
– Ninguém sabe o que aconteceu. Ela chegou tarde ontem toda descabelada e com as roupas rasgadas. Estava toda machucada porque caiu na rua várias vezes. E ainda por cima levou uma bronca do colégio e está suspensa até segundo aviso. Não falei com ela desde que voltou para casa dos pais.
Para meu azar, Polly não foi nem um pouco discreta. Será que irá procurar a delegacia? Será que ainda tem as provas? Sua roupa contém informações perigosas a meu respeito. E o seu corpo também. Queimei todas as provas em minha casa. Queimei com o mesmo maçarico que ela usou para fugir. Cada um com o seu meio de alcançar a liberdade.
Não sei quanto tempo gastei pensando em todas as provas, mas o olhar impaciente de Nina revela uma garota nada contente.
– Que estranho. Mas ela disse o que aconteceu? – Pergunto, desconcertado.
– Acho que você não processou a informação. Eu disse que ela estava em estado de choque, e ninguém a deixou se explicar porque a receberam com um grande sermão. O senhor foi capaz de entender agora ou quer que eu simplifique numa linguagem para mentes fracas?
Quem essa garota pensa que é?
– Entendi, obrigado. Sua gentileza esclareceu minha mente.
Ela não parece ter se atingido com minha ironia. Tão superiora. Muito interessante também. Posso imaginá-la em trajes asiáticos e...
Não. Ela é esperta demais. Já vi o que costuma ler. Se eu cometesse qualquer deslize para com ela seria o meu fim.
– Minha teoria é que ela foi assaltada. Isso explicaria seu estado de choque e suas roupas. Polly sempre foi sensível. Mas é claro que há outras hipóteses muito piores, que eu prefiro nem imaginar...
Ela diz olhando de um jeito estranho para mim. Como se procurasse dentro dos meus olhos qualquer vestígio de culpa, ou apenas os meus segredos. Estou começando a achar que Nina possui poderes sobrenaturais. Ou apenas uma sagacidade invejável. Penso em perguntar mais uma coisa, mas minha iniciativa é cortada por seu telefone que desata a vibrar.
– É ela! – Nina sussurra e atrai totalmente a minha atenção.
Por sorte estamos na saída da sala. A maioria das alunas está no pátio. O silêncio e a altura do som do celular me permitem ouvir a voz de Polly.
– Nina?
– Polly? O que aconteceu? Como você está? Por que não quer falar com ninguém? Você me mata de preocupação, guria.
– Desculpe, Nina. Eu não estou nada bem. Eu não posso e não quero voltar para o colégio. Meus pais me perguntam o tempo todo o que aconteceu. – Ela parece chorar.
– E o que aconteceu, Polly?!
– Eu... eu não posso falar. É muito vergonhoso!
– Vergonha de quê? O que você fez de tão constrangedor?
– Eu não fiz nada! Muito pelo contrário!
–Pois então! Como você pode sentir vergonha ou culpa por algo que você não fez?
Essa Nina é perigosa. Sua mente está cheia de idéias que podem livrar Polly e aprisionar o verdadeiro culpado. Pensamentos são perigosos.
– É complicado. Eu estou com medo, Nina. Muito medo. A escola não é mais segura.
– Medo de que? De quem? Polly! Não desligue o...
Tarde demais. Nina olha desapontada e confusa para a tela do celular, mas sabe que não encontrará as respostas ali. De repente ela dispara seus olhinhos puxados para mim, num olhar indagador. Seus olhos parecem se darem conta de algo absurdo, porém abaixa-os, logo se convencendo de algo absurdo demais para acreditar.
– Ela pensa que pode fugir de mim. Pois eu não vou descansar até descobrir o que aconteceu. – Ela murmura, mas tenho certeza de que seu objetivo era que eu a ouvisse.
Depois disso não me restam dúvidas de que ela desconfia de mim.
***
Decido me esconder na sala dos professores. Preciso de café, preciso de cafeína. Tento me concentrar apenas na cafeteira, mas minhas mãos tremem descontroladamente. Pego uma xícara com urgência e me volto para a janela. Preciso de cafeína e ar puro. Com certeza o ar frio da serra me fará bem. E me esquecer do súbito desejo de fazer Nina aprender uma lição que não tem nada a ver com história.
Creio estar sozinho, mas a solidão não é um luxo de muitos.
–Então... Como foi o passeio ontem, Marcus?
A voz surpreendente de Edith me faz saltar e abandonar a xícara na janela. Viro-me e me deparo com a sua figura de braços cruzados, e em seu rosto um claro sinal de interrogação que já conhece a resposta.
– Como? – Finjo-me de desentendido.
– Bom, ao ver o estado da sua acompanhante ontem, imagino que tenha sido uma aventura e tanto. – Ela me alfineta, com seu sorriso medonho que representa tudo, menos alegria.
O sapato alto faz um ruído acusador enquanto ela caminha lentamente, me cercando. Estou realmente cercado. Pensei que teria que me livrar apenas da asiática, mas agora vejo que Edith também está no meu caminho.
Mas talvez eu não tenha que me livrar dela. Oh Edith... Como anda seu estranho interesse por homens de caráter duvidoso?
– Então Edith. Aquela ida à cafeteria ainda está de pé?
***
Estamos sentados em uma das mesas do lado de fora da cafeteria, e enquanto Edith faz o pedido eu preparo minha habilidade de persuasão. Sinto que terei de usá-la muito de agora em diante. Preciso ganhar sua confiança, fazê-la acreditar em minha história e trazê-la para o meu lado.
– Faz tempo que eu não saio assim, depois do trabalho. É sempre bom, não acha? Ela diz, puxando o assunto.
– É ótimo. Melhor ainda em boas companhias. – Eu sorrio galante.
Ela parece retribuir o sorriso, mas tão logo sua expressão se fecha, assim como o tempo bipolar do sul. Sei exatamente o que deve estar pensando. Tão previsível!
– Edith... sobre ontem, não é nada do que está pensando. – Toco no assunto com cautela.
– Lê pensamentos agora, Marcus?
– Eu posso imaginar. Olhe, não quero fazer sua mente. Apenas contar a minha versão da história. – Hesito antes de continuar.
– Prossiga. – Ela disse indiferente.
Respirei fundo. Seja convincente, disse para mim mesmo.
– Pollyana me procurou ontem. Disse que precisava sair do colégio com urgência. De acordo com ela, seu pai sofrera uma parada cardíaca. Pedi que eu a deixasse no parque abandonado atrás do hospital. Eu a levei até lá, preocupado com o pai é claro. E bom... ela quis me agradecer de um outro jeito, se você me entende. – Fingi demonstrar desconforto ao contar isso. Na arte de enganar, os gestos mudam tudo.
– E então? – Ela parecia não estar nada contente.
– Então eu disse que não, obviamente. Expliquei-lhe todos os motivos e foi então que ela surtou. Eu fiquei assustado. Imagino que deva ter sido uma crise adolescente, mas nunca vi nada igual. Eu a segurei firme, mas ela se debateu e fugiu para o parque. Fui atrás dela, mas não a encontrei. Pensei em ligar para o colégio, mas não queria causar problemas para ela.
Que história surreal, mas brilhante. Com isso eu explicava os hematomas nela, no meu “ato heroico” de tentar detê-la. E com a fuga do parque para o denso bosque eu explicava a roupa suja, causada pelos labirintos do meu jardim. Edith me olhava assombrada, o que confirmava minha atuação perfeitamente convincente.
– Oh meu Deus... – Ela levou a mão à boca, temerosa.
– Eu sei... depois disso eu só pude pensar em algum problema ou transtorno.
– Nada consta nos papeis. É uma menina saudável e muito inteligente. Por isso estranhei tanto aquele surto.
Edith olha para os lados, confusa e penosa. É o momento certo para conquistá-la.
– Sabe Edith, eu não queria expor a Pollyana desse jeito, mas ela quer me prejudicar. Quando percebi que a senhora estava se enganando a meu respeito, tratei logo de desmentir. Não queria perdê-la. És muito especial.
Minha mão rastejou até a sua como uma cobra ao encontro de sua presa. E minha presa parecia muito feliz com o ataque.
– Eu sou especial?
– Claro que é. –Afirmei, levando sua mão aos meus lábios. Um gesto de cavalheiro que não presta.
– Lamento ter lhe julgado. É um homem decente. – Ela disse ingenuamente.
Edith... quarenta anos sofridos, e nada aprendeu dessa vida?
– Tudo bem, Edith. Estavas certa em suspeitar. As pessoas são surpreendentes. Mas, outras podem desconfiar de mim. Preciso de sua ajuda. Preciso que confie em mim. – Segurei firme suas mãos ásperas.
– Pode contar comigo, Marcus. Eu confio em você. – Ela ergueu a sua xícara. – Um brinde a nós? –Ela propôs.
E as nossas xícaras se chocaram, dando início a uma nova parceria. A uma nova cumplicidade.
***
Muitos dias se passaram desde o desaparecimento de Polly. Muito se falou sobre o seu surto e suspensão, mas nada foi esclarecido. “Esse silêncio todo me atordoa, mas atordoado permaneço atento.” Tratei de calar a única testemunha contra mim. Ainda resta uma faísca de dúvida de Nina, mas não sinto que preciso me preocupar com ela. Lentamente, meu terror em ser descoberto logo deu lugar a outra coisa.
Eu sinto a sua falta. Seu lugar parece eternamente vazio. Embora eu sinta que talvez nunca mais tenha aquele momento outra vez, eu gostaria de vê-la. Contudo ainda me resta a lembrança daquele momento. Polly vai crescer, tornar-se uma mulher madura demais, porém sempre terá doze anos em minhas lembranças.
A caminho do colégio eu me dei conta de que talvez Polly jamais volte. Ela irá sumir do colégio e meu crime irá junto com ela. Será difícil nunca mais vê-la, ou tocá-la. Mas ainda sim, me restam as preciosas lembranças.
***
Chego ao colégio atrasado, de modo que todas as alunas estão dentro de sala quando entro em disparada. Prefiro não enfrentar seus olhares e como de costume olho para o antigo lugar de Polly. Vazio, como esperado. Um sinal de que devo me acostumar a sua ausência. É o melhor para todos. Se Polly voltar, pode significar minha ruína.
– Perdão pelo atraso. Atenção à chamada.
Começo a chamá-las uma por uma. Do A de Aline até chegar lentamente ao P.
– Paula.
–Presente.
No próximo nome, antes tão presente, nem hesito antes de pôr falta.
– Pollyana. – Uma angústia pronunciá-lo, logo seguido de um breve silêncio. O único presente. Presente. Lembre-se Marcus, sua ausência é o melhor presente.
– Pre...sente.
Como se tivesse levado uma bofetada, levanto minha cabeça e procuro entre as aulas a responsável pela galhofa sem graça. Mas todas estão olhando para uma única direção. O fundo. Onde está Nina a me observar de braços cruzados e olhar desapontado. E do seu lado um estranho ser de capuz vermelho. E como se sentisse a atenção de todos para si, ela decide mostrar o rosto. E lá estão eles. Os olhos negros sem porém, e os densos cachos dourados, agora bem afastados do sol.
– Presente. – Polly me fuzila com os olhos, denunciando minha ruína iminente.
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