Polissuco
23 O fim de uma era
Notas iniciais
–Com licença, posso sentar aqui? –Perguntou Hermione timidamente aos dois loiros que ocupavam o último vagão. O trem estava lotado, o que era muito estranho já que esse ano Hogwarts estava recebendo apenas metade do total de alunos em comparação aos outros anos.
Graças à Guerra, muitos estudantes perderam as vidas ou aqueles que amava, não retornando a Hogwarts. Como Voldemort destruíra todos os registros de nascidos trouxa que possuiam magia, e todos estavam em uma correria para consertar os danos da Guerra, Hogwarts não recebeu alunos novos nesse ano. Com a pouca quantidade de alunos, somada a todos os problemas causados pela Guerra e ainda o incentivo ao "Fim do preconceito", que mesmo com a vitória não foi conquistado, McGonagall decidira ir contra os quatros fundadores e anular a divisão por casas, pelo menos naquele ano.
–Eca, Granger, não! Você e esse seu sangue imundo vão contaminar o vagão! –Respondeu o loiro, Draco Malfoy, suas palavras encharcadas em nojo e desprezo. Hermione o olhou perplexa, ela esperaria essa resposta do Malfoy quatro anos antes, mas agora a pior resposta que ela podia esperar dele era um “Não, já está ocupado”. A loira ao seu lado, Astoria Greegrass, parecia prestes a dar um tapa no garoto quando ele começou a rir.
Draco parou de rir subitamente ao ver as expressões das duas meninas.
–Merlin, o que houve com o senso de humor de vocês? Vocês realmente acreditaram nisso?
Quando as meninas continuaram o encarando seriamente, ele continuou:
–Claro que você pode sentar aqui, Granger! Eu reservei um lugar aqui no meu lado pra você. –Ele disse com um sorriso malicioso, dando dois tapinhas no espaço livre ao seu lado. Hermione revirou os olhos e caminhou até eles sem esconder um sorriso no rosto, mas, para a tristeza de Draco, sentou-se ao lado de Astoria.
–Eu senti falta de vocês. –Admitiu Hermione depois de alguns segundos de silêncio. Draco apertou a mão dela por cima da mesa e sorriu, um sorriso triste, Hermione percebeu, mas ainda sim um sorriso. Astoria jogou os braços ao redor da amiga e disse:
–Nós também sentimos sua falta! Principalmente o Draco...
O Malfoy pensou seriamente em voar no pescoço da melhor amiga, mas decidiu que mudar de assunto era uma ideia melhor.
–Então, a que devemos a sua companhia? O que o Weasel e o Potty fizeram para você não estar com eles? AAAAAIIIIII –Essa última parte foi resultado do beliscão que Astoria lhe dera por debaixo da mesa. Ela fala besteira e eu que sofro? Pensou Draco.
–Não Astoria, tudo bem, ele tem todo o direito de perguntar. –Disse Hermione assim que Tori abriu a boca para dar um sermão no amigo. –Eu não estou com o Harry ou com o Ron porque eles não voltaram para Hogwarts. Harry conseguiu uma vaga de auror sem nem mesmo fazer um exame, já que ele matou Voldemort e tal. Ron foi chamado para ser goleiro de um time da segunda divisão de quadribol, e junto com o que ele ganha ajudando Jorge na loja ele consegue um salário suficiente para ter um bom padrão de vida.
Um ano inteiro sem o Potty e o Weasel? Draco não pôde conter a alegria ao descobrir que passaria um ano inteiro sem a dupla.
–E você? Eu tenho certeza de que você também recebeu dezenas de propostas! Você é tipo uma estrela agora. –Disse Astoria, empolgada, fazendo Hermione rir modestamente.
–É, verdade, eu recebi algumas propostas, mas antes de sequer pensar em aceitar alguma eu quero acabar a escola.
–Ah, falando nisso, eu vou estudar com vocês esse ano. –Comentou Astoria como se estivesse apontando uma coisa qualquer, sem importância alguma.
–O QUE?!?! –Perguntaram Draco e Hermione em uníssono. –Mas você é um ano mais nova!
–Sou mesmo, mas enquanto você — Ela disse apontando para Hermione. –estava muito ocupada caçando Horcruxes, e você estava em casa porque era odiado por toda a escola, eu cursei o sexto ano, o que significa que esse ano eu vou fazer o sétimo com vocês.
–Nossa... –Disse Draco, surpreso por não ter pensado nisso antes. O que ele achava que ia acontecer? Que os alunos que estudaram no ano da guerra reprovariam?
–Isso é ótimo! –Disse Hermione empolgadamente, sem perceber que tinha completado a frase de Draco. –Já que esse ano não haverá casas, você pode ficar lá no quarto! Uma das meninas não... você sabe... sobreviveu à guerra.
–Claro! Por que não? –Respondeu Astoria, tentando conter a alegria na voz, ela não sabia por quanto tempo ela aguentaria as sonserinas com quem costumava dividir o quarto. Tori então jogou a cabeça pra trás e suspirou. –Aaah, esse ano vai ser maravilhoso! Só nós três, como nos velhos tempos! Ou quase...
E ela estava certa. Durante o último ano os três foram quase inseparáveis. Mesmo sendo odiado por metade da escola, aquele foi o melhor ano da escola para Draco, Hermione e Astoria concordavam sem hesitar por um segundo. Talvez eles achassem isso porque era o último ano em Hogwarts, talvez porque era um recomeço para os três, talvez porque a guerra os fizera valorizar as pequenas coisas, talvez porque os três tivessem ido super bem nos N.I.E.Ms, talvez porque tinham uns aos outros. Nenhum deles podia negar que o ano foi, de fato, maravilhoso.
As lembranças do primeiro dia de aula vieram à tona no minuto em que Draco pisou nos degraus de mármore. Agora, encarando a menina vestida de branco na grande porta, Draco via nitidamente cada precioso momento do seu último ano em Hogwarts.
–Você está linda. –Ele disse, absorvendo cada detalhe da menina. Desde a cachoeira de cachos que escapavam do penteado, passando pelas pequenas pérolas do longo vestido branco, até os saltos prateados que o vestido tentava cobrir. –O Weasley é um cara de sorte.
–Draco, por favor, não começa com isso outra vez... –Hermione disse assim que notou uma pitadinha de tristeza na voz do loiro.
–Você tem certeza de que quer ir com ele? Se quiser eu posso ir com você...
Hermione revirou os olhos e estava prestes a responder, pela milésima vez, que ela e Ron estavam em um relacionamento sério e que ela realmente o amava quando Astoria surgiu marchando no corredor erguendo as sandálias que segurava e gritando, para que eles pudessem ouvir:
–DRACO LUCIUS MALFOY, EU NÃO DEI O FORA EM CINCO MENINOS PARA SER TROCADA NO DIA DO BAILE! NÃO, NÃO, EU FIZ ISSO PORQUE O MEU MELHOR AMIGO DESPREZA METADE DAS GAROTAS DA ESCOLA E A OUTRA METADE OU O ODEIA OU SÃO SUAS EX!
Como ela me ouviu?
–Você sabe que estava brincando Tori, eu não te trocaria por nada! –Disse Draco, passando o braço pelos ombros da amiga, que o empurrou pra longe. Era verdade, ele estava brincando, era orgulhoso demais para falar uma coisa dessas seriamente, mas uma parte dele realmente esperava que a Granger mudasse de ideia, o que não aconteceu.
Só então ele parou para prestar atenção na amiga, que calçava os sapatos com ajuda da varinha. Ele sempre fora consciente da beleza de Astoria, a família Greengrass não pecava nesse quesito, mas agora ela estava absurdamente linda, estonteante. O vestido branco de renda fazia com que a pele dela parecesse mais bronzeada do que de fato era, combinando perfeitamente com os olhos verdes da menina, que hoje se destacavam mais que o normal graças à maquiagem, as bochechas perfeitamente rosadas eram enquadradas pela cortina de cabelos dourados, que formavam cachos perfeitos nas pontas.
–Foi mal Granger, eu sei que você quer muito ir comigo, mas eu já tenho par. Um par absurdamente lindo, por sinal.
–Aw isso foi quase fofo, se você não tivesse tentado me trocar eu até te daria um beijinho. –Disse Astoria, citando uma piada interna.
–Eu não estava tentando te trocar, eu estava testando a fidelidade da Granger ao Weasley! É sério, Tori, eu estava fazendo um favor ao ruivo! Eu ainda ganho um beijinho?
–Não. –Respondeu a Greengrass tentando não rir do drama do amigo. –Falando nele, a que horas o Weasley vem, Mione?
–Ele já devia estar aqui, ele disse que-
–Ah não, a gente vai ter que esperar o Weasel? –Interrompeu Draco.
–Claro que sim! Ou você acha que a Mione entraria sem par no baile?
–Se você quiser vocês quiserem vocês podem ir antes, eu espero o Ron.
–E te deixar sozinha na minha casa? De jeito nenhum! –Argumentou Astoria. Draco concordava com ela, ele não deixaria Hermione sozinha em uma casa que não era nem sequer dela, mas ele não estava nem um pouco a fim de ver o Weasley, principalmente de ver o Weasley com a Granger.
–Tori, eu praticamente moro aqui, todo mundo dessa casa já está acostumado comigo, eu não vejo problema nenhum. Além disso, o Ron e o Draco não se dão muito bem, e você estaria fazendo um favor aos dois indo antes, e... –Hermione parou por um segundo para medir as palavras. –E eu adoraria um tempinho às sós com o Ron, nem que fossem alguns minutos.
–Se você prefere assim... –Disse Astoria, então segurou a mão de Draco e disse: -Vamos?
Por algum motivo, as palavras pareciam entaladas na sua garganta, então Draco apenas assentiu e segurou a cintura da melhor amiga, que já tinha botado as mãos em seus ombros. Um segundo antes de eles desaparatarem, uma outra figura aparatou no jardim, uma figura alta, com os cabelos ruivos e um smoking branco exatamente igual ao de Draco. Antes que o loiro pudesse sequer processar o que vira, porém, ele já não estava mais no jardim dos Greengrass, ele estava em Hogsmeade, as luzes do castelo brilhando ao fundo.
***
–Uau. –Suspirou Astoria ao entrar no salão. A reação de Draco, e de todas as outra pessoas que entravam no salão, foi a mesma. As paredes do que costumava ser o refeitório estavam coberta por roseiras, que cresciam e se moviam pelo salão. Essas roseiras, porém, possuíam as folhas e caules negros e as rosas brancas, para representar a paz e a esperança no meio de todas as trevas. No canto mais distante da sala, um enorme palco em L flutuava, sobre o qual uma a famosa cantora bruxa Celestina Warbeck cantava algo sobre “Um caldeirão fumegante de amor”. Na ponta do palco, uma escada em caracol prateada brotava do chão e ia até o teto, mas diferente das escadas trouxas, os degraus dessa subiam, mantendo a forma do caracol. Embaixo do palco, no chão, havia uma pista de dança, mas não havia luzes, o próprio ar do salão se iluminava, mudando de cor aqui e ali, piscando no ritmo da música. As quatro mesas que ocupavam o centro do salão foram tiradas e trocadas por pequenas mesinhas redondas, uma para cada aluno e suas respectivas famílias.
Mas o que tirava o ar de qualquer um que entrasse no salão era o efeito das luzes nas roupas dos alunos. Esse ano todos os formandos e seus respectivos pares deviam ir à festa vestidos de branco, para representar a paz que finalmente se estabeleceu após a guerra. Assim, com o ar iluminado, as roupas pareciam mudar de cor conforme o ritmo da música.
–Senhor Malfoy, senhorita Greengrass, sejam muito bem vindos. Permitam-me guiá-los ao lugar onde os formandos devem esperar, vocês já sabem como vai ser, não sabem? –Perguntou a diretora McGonagall assim que os dois entraram no salão. Eles assentiram e foram guiados pela diretora em direção ao fundo do salão.
Ou todos estão vestindo branco, ou só tem alunos aqui, pensou Draco, observando as poucas pessoas que ocupavam o salão.
–Os familiares só chegarão em, no mínimo, meia hora, nós pedimos que todos os alunos chegassem mais cedo para que pudéssemos organizá-los. –Explicou McGonagall enquanto eles ziguezagueavam pelas mesas. Draco não pôde evitar uma pontada de tristeza, afinal a mesa da Família Malfoy seria ocupada por apenas duas pessoas: ele e a mãe. Até a Granger, cujos pais nem lembravam da existência, estaria em uma mesa cheia e animada, a mesa dos Weasley.
A diretora os deixou no fim do salão, junto com os outros formandos. Aos poucos, mais pessoas foram chegando, incluindo a Granger e o Weasley, a Weasley e o Potter. Em pouco tempo todos os formandos já estavam alinhados em uma fila, e as mesas ocupadas pelos familiares.
–Para muitos de nós, Hogwarts foi, por todos esses anos, um lar, uma parte muito importante das nossas vidas. –Ecoou a voz da Granger pelo salão no minuto em que a música parou. Todos estavam olhando para cima, então Draco fez o mesmo, apenas para ver a Granger no palco. –Aqui nós vivemos os melhores momentos, aqui nós crescemos, aqui nós construímos uma vida.
Draco deixou as palavras da Granger ecoarem pelo seu cérebro à medida que imagens dos seus anos em Hogwarts invadiam a sua mente, ele não podia acreditar que tudo aquilo havia chegado a um fim, ele não tinha ideia de como a vida seria dali em diante.
Astoria notou que o amigo estava meio distante, preocupado com alguma coisa. Ela não podia culpá-lo, o dia seguinte ditaria o seu futuro, e se isso não é suficiente para deixar alguém apavorado, Astoria não sabia o que seria. Ela se amaldiçoou mentalmente por fazer isso com a amiga, mas ela desviou completamente a atenção das palavras de Hermione e se virou para Draco.
–Ei, vai dar tudo certo, você sabe né? –Ela sussurrou, segurando a mão do melhor amigo. Ele levou um susto ao toque, mas aceitou a mão da menina sem pensar duas vezes.
–Não, eu não sei Tori! Quando eu estava em Hogwarts o futuro sempre parecia certo, eu sempre sabia o que eu ia fazer no dia seguinte, quais aulas eu teria, até tinha planos para um futuro mais distante, com uma família, um emprego no St. Mungus... Mas agora eu não tenho ideia de como o futuro vai ser. Eu consegui a vaga no St. Mungus, é verdade, mas isso não vai valer nada dependendo de amanhã. Amanhã eu posso ser jogado em uma cela em Azkaban ou posso ganhar uma medalha de honra, eu posso destruir meu futuro ou começar a construí-lo.
–Você não fez nada de errado, Draco, você não teve escolha! E no final de tudo, você foi um herói!
–Eu tive escolhas! Eu tive vária escolhas, mas eu preferi não fazer nada, porque eu sou um covarde! E de que adianta fazer uma coisa boa depois de tantas coisas horríveis? –Sussurrou Draco, juntando todas as forças para não levantar a voz. Só então que ele percebeu que falou quase as mesmas coisas que a Granger no dia da Guerra.
–De que adianta? Se não fosse você Voldemort teria vencido! Você tem ideia de quantas vidas você salvou? De quanto sofrimento você evitou? –Astoria estava segurando a mão dele agora com mais força, como se aquilo pudesse de alguma forma acordá-lo e fazê-lo ver a verdade.
Draco não respondeu, continuou olhando para o nada.
–O que mais me preocupa é meu pai. –Sussurrou Draco depois de um estranho silêncio, tão baixinho que Astoria se perguntou se ela não tinha imaginado as palavras. –Desde a guerra, desde que eu e a minha mãe “Traímos” Voldemort, meu pai tem estado muito mal. Ele nos trata como estranhos e parece muito doente, como se a vida para ele não tivesse mais sentido. E o pior de tudo é que eu e minha mãe não fizemos nada de errado, tecnicamente, no final nós até ajudamos o outro lado, mas meu pai fez coisas terríveis, meu pai não moveu um dedo sequer pra ajudar o outro lado. Eu tenho medo do julgamento dele, eu tenho medo que ele volte pra Azkaban, você não tem noção de como ele e minha mãe ficaram mal quando ele estava preso. Eu não quero que eles passem por isso outra vez.
–Vai dar tudo certo. –Repetiu Astoria, o abraçando, mas os dois sabiam que era uma promessa vazia. Para mim, nada nunca dá certo, pensou Draco, triste, mas grato pelas palavras de conforto da amiga. Ele beijou a sua testa e retornou a sua atenção para o discurso da Granger.
–...vencemos as barreiras do preconceito. É uma honra ser a primeira oradora -de muitas, eu espero- nascida-trouxa. É em nome de todos os alunos da escola que eu agradeço a cada um de vocês, professores, funcionários, amigos e familiares por nos ajudarem a não só construir nosso futuro, mas a construir nossos caracteres.
E com isso o salão explodiu em aplausos, que logo foram silenciados por McGonagall.
–Muito obrigada, senhorita Granger, a honra de te ter como oradora é toda nossa. Agora, vamos à entrega dos diplomas aos nossos prestigiados formandos. Anna Abbott.
A lufana foi até a escada em caracol e subiu no primeiro degrau, a escada subiu e parou quando a menina estava no nível do palco. Mcgonagall a entregou o diploma e o salão, mais uma vez, explodiu em aplausos e, mais uma vez, a diretora os silenciou.
–Astoria Greengrass. –Astoria seguiu os mesmos passos da Abbott, mas, quando o salão aplaudiu Draco começou a gritar “Gostosa!” e ela não pôde evitar uma crise de risos.
–Barney Portney. –Chamou a diretora enquanto Astoria ria sem parar.
Draco ajeitou a gravata. Não demoraria muito para seu nome ser chamado.
***
–Você ainda gosta dela. –Observou Astoria. Quando ouviu as palavras da amiga, Draco pareceu despertar de um transe. Ela estava aqui o tempo todo? Hã? Sobre o que ela está falando? É impressão minha ou ela soou um pouco... decepcionada? Sua mente estava meio esfumaçada, e parecia não responder às suas vontades. Só depois de dois longos segundos que ele percebeu que estava olhando diretamente para o lugar onde a Granger e o Weasley dançavam lentamente, seus corpos tão colados quanto possível.
–Não, claro que não, já faz mais de dois anos, Tori!
Astoria o lançou um olhar que dizia “Você tem certeza?”.
–Não que eu esteja contando. –Draco acrescentou rapidamente ao perceber o que tinha dito. O que tem de errado comigo? Ele se perguntou.
–Ah sim, eu estou vendo como você a superou. É exatamente por isso que você passou o ano todo indo pra onde ela fosse e evitando qualquer menina que pudesse ser mais que uma amiga pra você. –A mente de Draco demorou alguns instantes para compreender as palavras encharcadas de sarcasmo de Astoria, mas notou mais uma vez uma pontada de decpção, ou será que ele estava imaginando coisas? Ele se virou para a amiga, pronto para perguntar a ela o mesmo, por que ela parece evitar qualquer menino que ameaçasse ser mais que amigo dela? Ela ainda gosta do Nott? Antes, porém, ele decidiu se fazer a mesma pergunta, afinal não era normal Draco Malfoy evitar as garotas, e quase que imediatamente encontrou uma resposta. Pela primeira vez na noite, toda a névoa da sua mente tinha se dissipado, tudo estava claro.
Antes que Astoria pudesse entender o que estava acontecendo, Draco já havia segurado seu rosto com as duas mãos e grudado os seus lábios nos dele. A sonserina se permitiu fechar os olhos por dois segundos e absorver o gosto do loiro antes de o afastar.
–Draco! –Ela reclamou, seu coração tinha parado no momento em que ele a beijara, mas agora ele batia tão rápido que parecia prestes a explodir.
–Tori, eu te amo! –Falou Draco, com as mãos ainda no rosto de Astoria.
–Não, você não me ama! Você está bêbado! Você ama a Granger! –Protestou Astoria, tirando as mãos do sonserino do próprio rosto. Então acrescentou, sem tentar esconder a decepção na voz dessa vez: — Você sempre vai amar a Granger.
–Não, não, não, você não entende! Eu achava que amava a Granger, ela foi diferente de todas as outras, ela me mudou, ela foi muito importante para mim, ela é muito importante pra mim, mas nós não fomos feitos um para o outro. Você não entende, Tori? Sempre foi você! Sempre que eu estava triste a única pessoa que eu sabia que podia me ajudar era você, sempre que eu estava feliz a primeira pessoa com quem eu queria compartilhar era você, mesmo quando o meu futuro é incerto, você é a única coisa da qual eu tenho certeza. Eu te amo, Tori, eu só não tinha percebido antes.
Draco Malfoy falando que ama alguém? Draco Malfoy ignorando o próprio orgulho assim? Não, alguma coisa está muito errada, pensou Astoria. Eu gosto do Draco, disso ela já sabia há muito tempo, mas sempre tentara se convencer que estava confundindo amizade com algo a mais. Mas ela também sabia, desde o segundo em que o conheceu propriamente, que ele gostava da Granger, e já tinha aprendido a suprimir os próprios sentimentos, ela realmente queria que os amigos fossem felizes. Percebendo o que havia de errado com o comportamento do Malfoy, ela pegou o copo que estava em cima da mesa, cheio de uma substância roxa viscosa. Era impressão dela, ou ela vira um tentáculo saindo da bebida?
–Você está bêbado! –Ela repetiu, apontando para o copo. E se ele não estivesse bêbado, ele teria feito tudo isso? Astoria se perguntou, sabendo que a resposta era um não. Não pôde evitar uma onda de culpa, afinal, boa parte do vício do amigo era culpa dela, ela que o embebedara várias vezes, ela que bebera com ele várias vezes.
–Isso não tem nada a ver com o que eu sinto! –Draco percebeu que estava quase gritando, então baixou a voz: — Você não acredita em mim, acredita?
O olhar da loira se fixou nas próprias sandálias. Ela balançou a cabeça sem desviar o olhar do chão. Ela tinha medo do que veria se o olhasse nos olhos.
–Tori, -Draco agora estava quase sussurrando. –Você gosta de mim?
Ele colocou o polegar embaixo do queixo da garota, forçando-a a olhá-lo nos olhos. Astoria queria fugir dali, desaparatar, para se livrar daquela situação constrangedora. Se ela falasse que sim, ela nunca mais seria capaz de para Draco, de tão constrangida, e não queria perder o melhor amigo, mas ela não podia mentir assim pra ele, ela simplesmente não conseguia. Então ela deu a resposta mais estúpida que ela podia dar:
–Claro que eu gosto de você, Draco! Você é, tipo, o meu melhor amigo!
–Não assim! –Ele disse daquele jeito lento que só os bêbados falam. –Você sabe como! Você gosta de mim, Tori?
Astoria tentou abaixar a cabeça outra vez, mas o polegar o Malfoy a impediu. Olhando agora aqueles olhos cinzentos que apelavam para uma resposta, a loira sentiu a sua armadura cair, sentiu todas as camadas que escondiam seus sentimentos mais profundos se dissiparem, ela se sentiu vulnerável, não podia esconder mais nada dele. Lentamente, sem desgrudar seus olhos dos dele, ela assentiu.
Os cantos da boca dele subiram em um sorriso um segundo antes dele se curvar e beijá-la. Ela não recuou dessa vez, nem na seguinte, nem na seguinte... Ela, como já tinha feito várias vezes na vida, deixou as preocupações de lado e se entregou ao momento que parecia surreal.
Na pista de dança, Hermione, ainda deslizando pelo salão com Ron, viu a cena e não pôde conter um sorriso meio triste.
–O que foi? –Perguntou Ron, vendo a expressão da namorada.
–Nada. É só que... –Hermione tentou entender o que estava sentindo naquele exato momento. Ela olhou para o ruivo e disse: -Eu te amo.
Ron pareceu pego de surpresa pela declaração repentina. Ele tentou formar um pensamento coerente, mas tudo o que saiu foi:
–Obrigada... éérrr... quer dizer... eu também.
Ela sorriu o beijou. Há alguns anos ela jamais imaginaria que teria alguma coisa com o Ronny, muito menos com o Malfoy. O destino é mais imprevisível do que eu pensava.
***
Naquela noite, nem Astoria nem Draco dormiram. Enquanto ela estava preocupada com como as coisas ficariam depois dessa noite, como ela conseguiria olhar outra vez para Draco depois do que aconteceu, a mente dele estava a mil, ele não tinha certeza do que acontecera exatamente entre ele e Astoria essa noite e, pela primeira vez, ele estava incerto sobre a garota estar do seu lado, ele sentia que tinha perdido a melhor amiga que já tivera. Além disso, não fazia ideia de como seria o julgamento no dia seguinte, como ficaria a sua família, o que ele faria agora que não voltaria mais para Hogwarts.
Talvez, ele pensou, otimista, a bebida ainda fazendo efeito, esse não seja o fim de uma era. Talvez, esse seja o início de uma.
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