Polissuco
21 Crucio
Notas iniciais
–Draco! Draco! –Gritou Narcissa Malfoy do andar de baixo. Draco, confuso e assustado pelo tom urgente da mãe, franziu a testa. Por que ela não mandou um elfo doméstico me chamar? O menino deixou o livro que estava lendo de lado e pegou a varinha, segurando-a em posição de defesa. Cautelosamente, desceu os degraus, pronto para atacar qualquer invasor que estivesse com a sua mãe. Mas quando chegou à sala de estar não encontrou nada fora do usual, apenas os pais de costas.
Ah não, mais uma reunião de família não, pensou o Malfoy, prevendo que assuntos constrangedores os pais trariam à tona dessa vez.
–O que é isso? –Draco ouviu o pai perguntar.
–Eles dizem que pegaram o Potter. –Respondeu Narcisa. –Draco, venha aqui.
Draco não sabia como a mãe o havia visto, mas se aproximou da família sem questionar. À medida que foi chegando perto, percebeu que os pais não estavam sozinhos. Fenrir Greyback, Scabior, e mais uma dupla de seguidores de Voldemort, estavam na sala, segurando pessoas que pareciam estar prestes a desabar. Draco examinou os sequestrados, rosto por rosto. Seu olhar passou de um menino com o rosto inchado para Dino Thomas, quem mal conhecia e mesmo assim desprezava, então para um duende ranzinza, para o ruivo sardento que tanto odiava e, finalmente, para a menina frágil no canto. Granger.
Ela estava muito mais magra do que de costume. O cabelo estava sujo e embaraçado. O rosto mais pálido do que nunca, colorido apenas pelo roxo de um hematoma na bochecha.
Ele desviou o olhar imediatamente. Sabia que tudo aquilo era culpa sua. Se não tivesse levado os comensais para Hogwarts, Dumbledore não estaria morto, a escola ainda seria um lugar seguro para os nascidos trouxas, Voldemort não teria tomado o ministério e ela não precisaria viver assim.
— Bem, Draco... — disse Lúcio Malfoy sem conter a empolgação na voz. — É ele? É o Potter?
— Eu não... Eu não tenho certeza. — disse Draco, que estava mantendo-se distante de Greyback, e parecia com tanto medo de olhar para o Harry, quanto o Harry estava de olhar para ele. Não queria saber se era o Potter ou não, não queria fazer qualquer coisa que fosse machucar Hermione.
— Mas olhe para ele com cuidado, olhe! Chegue mais perto! — Draco nunca ouvira o pai tão excitado. — Draco, se nós entregarmos Harry Potter para o Lorde das Trevas, tudo será perdoado...
— Agora, nós não vamos esquecer quem foi que realmente o capturou, eu espero, Sr. Malfoy. –Interrompeu Greyback, ameaçadoramente.
— Claro que não, claro que não. — disse Lucius impacientemente. O Sr. Malfoy caminhou lentamente até os prisioneiros, parando desnecessariamente perto do menino de rosto inchado. Durante três segundos ninguém disse nada, parecia que todos na sala estavam prendendo a respiração, observando enquanto Lucius examinava cada detalhe do rosto do menino. — O que vocês fizeram com ele? Como ele ficou nesse estado?
— Não fomos nós.
— Parece um Feitiço de Ferroadas pra mim. — disse Lúcio. Seus olhos cinza vasculharam Harry. — Tem alguma coisa aqui — murmurou Lucius, mais para si mesmo do que para os outros. — Poderia ser a cicatriz esticada... Draco, venha aqui, olhe direito! O que você acha?
Relutante, Draco se aproximou do pai. Enquanto Lucius estava fora de si de tanta empolgação, Draco queria que toda aquela cena evaporasse, que tudo não passasse de um terrível pesadelo. Essa é a diferença entre nós, pensou Draco enquanto fingia que estudava o rosto do Potter.
— Eu não sei. — Disse o loiro, e caminhou em direção à lareira, onde sua mãe estava assistindo. A mãe sabia que havia algo entre ele e Hermione, ela mencionara isso no ano anterior. Draco lançou um olhar desesperado para Narcisa, torcendo para que ela entendesse que aquela era a menina da Bulgária, a menina que mudou tudo.
— É melhor que tenhamos certeza, Lúcio. — Narcisa falou, sua voz clara e fria, sua cabeça assentindo levemente para Draco em reconhecimento. — Devemos estar completamente certos de que é o Potter, antes de chamarmos o Lorde das Trevas... Eles dizem que isso é dele. — ela estava segurando uma varinha. Draco podia ver as engrenagens da sua mente trabalhando o mais rápido o possível para encontrar uma solução para tudo aquilo. Enquanto isso ela estava ganhando tempo. — Mas não parece com a descrição do Olivaras... Se nós estivermos enganados, se chamarmos o Lorde das Trevas aqui para nada... Lembra o que ele fez com Rowle e Dolohov?
— E quanto a sangue-ruim, então? — grunhiu Greyback. Draco evitou olhar para a Granger, não queria ver o seu sofrimento, não queria lidar com a decepção e o ódio que encontraria em seus olhos e, principalmente, não queria trazer todas aquelas lembranças cautelosamente enterradas de volta.
—Olhe, Draco, não é a garota Granger? –Sussurrou Narcisa, mas no silêncio da sala todos escutaram e se viraram para Draco. Narcisa percebeu seu erro tarde demais.
O Malfoy mais novo sentiu o rosto corar, como se todos ali pudessem ver o que se passava na sua cabeça. Todas as noites nas masmorras, as fugidas durante os fins de semana em Hogsmeade, até mesmo alguns livros trouxas que ela o emprestara e que, por mais que ele odiasse admitir, ele adorou.
— Eu... Talvez... –Draco tentou raciocinar, pensar em alguma saída para aquela situação, mas a sua mente parecia empenhada em pensar em como as bochechas da Granger coravam com facilidade, como os seus cachos caiam delicadamente sobre as suas costas, como os seus olhos brilhavam toda vez que falava sobre os direitos dos elfos domésticos.
Lucius Malfoy lançou ao filho um olhar cheio de expectativas, um olhar típico dos pais, um olhar que diz por favor, não me decepcione agora.Esse olhar foi suficiente para trazer Draco de volta à sala de estar, foi suficiente para derrubar qualquer barreira que Draco tivesse construído entre ele e o pai. Antes que pudesse evitar, a palavra explodiu da sua boca: — É.
Assim a palavra escapou da sua boca, Draco sentiu o mundo desmoronar à sua volta, a pouca sanidade que lhe restava se esvaindo da sua mente. Ele sentiu sua mãe passar um braço pela sua cintura, percebendo que o filho estava prestes a desabar.
— Mas então, esse é o garoto Weasley! — gritou Lúcio, rodeando os prisioneiros amarrados para encarar Ron. — São eles, os amigos de Potter, Draco? Olhe para ele, não é o filho do Arthur Weasley, qual é o nome dele?
— É... — disse Draco novamente. Ele se odiava por isso, mas agora já era tarde demais para consertar o que tinha feito— Pode ser.
A porta da sala de visitas abriu-se atrás dos prisioneiros. Um ninho de cabelos crespos entrou na sala, acompanhado de uma voz esganiçada
— O que é isso? O que aconteceu, Ciça?
Bellatriz Lestrange andou lentamente entre os prisioneiros e parou à direita de Harry, encarando Hermione, através de seu olhos pesados.
— Mas certamente... — disse ela — Essa é a garota sangue-ruim? Essa é a Granger?
— Sim, sim, essa é a Granger! — afirmou Lúcio — E junto dela, nós achamos Potter! Potter e seus amigos, pegos finalmente!
— Potter? — Repetiu Bellatriz, então se virou para olhar melhor para Harry — Você tem certeza? Bem, então o Lorde das Trevas tem que ser informado de uma vez por todas!
Ela puxou a manga esquerda, estava prestes a tocar a Marca Negra quando Lucius segurou o seu pulso.
— Eu ia chamá-lo! — disse Lúcio— Eu devo chamá-lo, Bella. Potter foi trazido para a minha casa e por isso está sob minha autoridade –
— Sua autoridade?! — perguntou em tom de deboche, tentando se livrar do aperto de Lucius. — Você perdeu sua autoridade quando perdeu sua varinha, Lucius! Como ousa? Tire suas mãos de mim!
— Isto não é da sua conta, você não pegou o garoto...
— Com o seu perdão, Senhor Malfoy, — interferiu Greyback — mas fomos nós quem capturamos Potter, e somos nós que reclamaremos o ouro...
— Ouro?! — riu Bellatriz, ainda na tentativa de afastar seu cunhado, sua mão livre apalpando o seu bolso à procura da varinha. — Pegue seu ouro, seu lixo imundo, o que eu quero com ouro? Busco somente a honra dessa... Dessa...
Ela parou de lutar, seus olhos escuros se fixaram sobre algo que Harry não pôde ver. Vendo que Bellatriz finalmente desistira, Lucius largou a mão dela de si e levantou a própria manga.
— PARE! — Gritou Bellatriz — Não toque isso, todos nós iremos morrer se o Lorde das Trevas vier agora!
Lúcio congelou, seu indicador suspenso no ar acima da sua Marca. Bellatriz andou até o fim da sala, onde bolsas e suprimentos estavam empilhados.
— O que é isso?
— Espada... — grunhiu um dos raptores fora de vista.
— Dê-me isso!
— Não é sua, senhorita, é minha, eu creio que fui eu quem achou!
Bellatrix não perdeu tempo discutindo como homem, em uma fração de segundos ela pegou a varinha e o estuporou.
— Com quem você acha que está brincando, mulher? –Perguntou Scabior.
— Estupefaça! — ela gritou — Estupefaça!
Eles não eram páreo para ela, mesmo que houvesse quatro deles contra ela. Ela era uma bruxa com uma habilidade prodigiosa e sem consciência. Eles caíram onde estavam, todos exceto Greyback, que foi forçado a se agachar, seus braços estendidos.Bellatrix caminhou com a cabeça erguida até a pilha de suprimentos, tirando de lá uma espada incrustada com rubis.
— Onde você pegou essa espada? — murmurou para Greyback enquanto ela puxava a varinha de sua mão.
— Como você tem coragem? — rosnou ele, sua boca era a única coisa ele conseguia mexer enquanto ele era forçado a contemplá-la. Mostrou seus dentes pontudos. — Solte-me!
— Onde você achou essa espada? — repetiu a bruxa, brandindo a varinha em sua cara — Snape a enviou para o meu cofre no Gringotes!
— Ela estava com eles! — falou Greyback — Liberte-me, eu digo!
Ela brandiu a varinha e o lobo pulou nos seus pés, mas parecia muito cauteloso de se aproximar dela. Ele se escondeu atrás de um armário, suas imundas unhas curvas agarrando as costas dele.
— Draco, tire essa escória daí! — disse Bellatriz, indicando o homem inconsciente. — Se você não tiver coragem para dar um fim neles, leve-os para o para jardim para mim.
— Você não ouse falar com Draco como... — disse Narcisa furiosamente, sabia que o filho não aguentaria aquela situação por muito mais tempo, ainda mais com a irmã o tratando feito um escravo.
— Fique quieta! A situação está mais grave do você sequer possa imaginar, Ciça! Nós temos um sério problema! –Interrompeu Bellatriz.
Ela se levantou, ofegante, olhando para baixo da espada, examinando o cabo. Então tornou a olhar o silencioso prisioneiro.
— Se este é realmente o Potter, ele não pode ser ferido. — resmungou, mais para si que para os outros — O Lorde das Trevas quer dar um fim no Potter... Mas se ele descobrir... Eu tenho... Eu tenho que saber...
Voltou-se para a irmã novamente.
— O prisioneiro tem que ser colocado na cela, enquanto eu penso no que fazer!
— Esta é a minha casa, Bella, e você não dita ordens na minha...
— Faça isso! Você não tem ideia do perigo que corremos! — gritou Bellatriz, alucinada. Draco se perguntou como a tia chegou a esse estado de loucura e se um dia ele deixasse o pequeno fio de sanidade que havia na sua cabeça se romper ele ficaria igual à tia.
Narcisa hesitou por um momento, então se dirigiu ao lobisomem.
— Leve esses prisioneiros para a cela, Greyback!
— Espere... — disse Bellatriz violentamente — Todos exceto... Exceto a sangue-ruim.
Grayback deu um uivo de prazer. Draco sentiu os joelhos cederem outra vez. Narcisa apertou os ombros do filho firmemente, como se dissesse, aguenta firme, isso só vai piorar.
— Não! — gritou Rony — Você pode ter a mim, fique comigo!
Draco podia ter mil e um motivos para odiar o ruivo, mas tinha de admitir, respeitava e até invejava a coragem do menino. A coragem de fazer o que eu deveria ter feito, pensou Draco, talvez ela mereça alguém como o tapado do Weasley, talvez ela mereça alguém melhor do que eu.
Bellatriz acertou a face de Rony, o barulho ecoando pela sala.
— Se ela morrer enquanto a interrogamos, pegarei você depois. — ameaçou a comensal. Não,eu não vou deixar que você a mate, pensou Draco com os músculos contraídos, ódio borbulhando em seu peito, não tinha certeza se iria se controlar para não voar no pescoço da tia. — Traidores de sangue estão logo abaixo de sangues-ruins pra mim. Leve-os para baixo, Greyback, e faça com que eles fiquem seguros, mas não faça mais nada com eles, ainda.
Ela jogou a varinha de Greyback de volta para ele, então pegou uma pequena faca prateada de dentro de suas vestes. Libertou Hermione dos outros prisioneiros, então a arrastou pelo cabelo até o meio da sala, enquanto Greyback forçava o resto deles a passar por outra porta em uma passagem sombria, sua varinha segura a sua frente, protegendo-o com uma invisível e irresistível força.
— Será que ela me dá um pedaço da garota quando terminar com ela? — sussurrou Greyback enquanto os forçava ao longo do corretor. — Acho que pegaria um pedaço ou dois, não?
Ao ouvir o comentário Draco cerrou os olhos e jogou a cabeça para trás. Não queria ver nada daquilo, não queria ouvir nada daquilo, não queria viver nada daquilo.
–Onde vocês conseguiram a espada? –Draco ouviu Bellatriz rosnar. –Hein? Você invadiram o meu cofre, não invadiram? Como vocês entraram lá? ME RESPONDE SUA SANGUE RUIM!
–N-nós não invadimos. É-é-é uma c-cópia. –Draco podia sentir o esforço de Hermione para pronunciar cada palavra. Ele se perguntou quando foi a ultima vez que ouvira essa voz e se ela sempre soara tão frágil.
–Então vai ser assim? Você vai mentir pra mim? –Perguntou Bellatriz e Draco arriscou uma espiadinha na cena, só para encontrar a tia com a varinha apontada para a Granger. –CRUCIO!
Draco fechou os olhos bem a tempo de ver a menina ser atirada do chão e gritar de dor. Lembrou-se de quando encontrou Timoty torturando Gwen atrás do restaurante na Bulgária, como ele teve coragem de enfrentar o menino e ajudar Gwen. Ele queria ter aquela coragem devolta, mas seu corpo parecia petrificado, as pálpebras coladas, sua mente imaginando a cena dez vezes pior do que ela de fato era.
A cada grito da menina ele sentia a mãe apertar a sua mão, a mesma mensagem, sem parar, aguenta firme, filho.
Quando os gritos finalmente cessaram, Draco arriscou abrir os olhos novamente, apenas para descobrir que os gritos foram trocados pelos soluços da menina que se contorcia no chão, o rosto brilhando com as lágrimas que se misturavam com o sangue que escorria do canto da sua boca.
A cena já havia se tornado insuportável para Draco quando a tia parou de torturar a menina. Hermione abriu os olhos, examinando a sala a sua volta, procurando um rosto pálido que ela conhecia muito bem. Seus pulmões gritavam por ar, seu coração batia mais rápido do que ela pensava ser possível, ela sentia o sangue que passava por suas veias queimando, como veneno, e o gosto amargo de bile.
Para a surpresa de Draco, quando os olhos da menina o encontraram ele não viu dor, ou sofrimento, nem mesmo traição, ele viu pena. Apesar de tudo que ele fizera a ela, tudo o que ela sentia era pena dele. Pena por ser tão covarde, pena por ter que aguentar tudo isso, pena por ele não ter escolha. Isso não é justo, pensou Draco, eu que deveria ter pena de você!
–O que me dá mais raiva, -Começou Bellatriz, caminhado ao redor do corpo da menina. –é que vocês são iguais a nós por fora. Todos vocês, sangue ruins, o pior da raça humana, deveriam ser identificados assim como nós, os melhores. –Ela ergueu a manga para mostrar a marca negra.
Hermione abriu a boca para responder, mas tudo o que saiu de lá foi um grito mudo de dor, enquanto seu braço esquerdo era engolido pelas chamas que saiam da varinha de Bellatriz.
Draco deu um passo à frente, mas as chamas pararam antes mesmo que ele pudesse dar o segundo. Braço de Hermione estava intocado, exceto por algumas marcas ainda queimando no seu antebraço. Todos na sala se aproximaram para ler o que estava escrito ali. “Sangue-ruim”.
–Essa sangue-ruim é mais forte do que eu imaginei, ela já deveria estar morta ou doida à esse ponto. –Comentou Bella, depois de um estranho silêncio na sala, interrompido apenas por pequenas exclamações de choque. –Se o que ela disse for verdade, então a minha espada ainda está a salvo em Gringotes, assim como os meu tesouros. Tragam o duende.
A sala continuou naquele estado de choque até que o duende ranzinza foi arrastado por um dos comensais, falando palavrões tão sujos que Narcisa lhe lançou um olhar de reprovação.
–O que você quer sua va... –Começou Grampo, mas Bellatriz o entregou a espada antes mesmo de ele acabar a frase. Com a varinha apontada para ele, Bella perguntou:
–Essa espada, é verdadeira? Forjada por duendes, mergulhada em veneno de basilisco, incrustada com rubis?
Grampo examinou a espada cautelosamente, chegou até a lambê-la.
–Não, certamente não. Essa espada não passa de uma imitação, muito bem feita por sinal, da espada de Gryffindor.
Bellatriz deixou um leve suspiro escapar, segundos antes de o lustre cair.
Um elfo doméstico surgiu no meio da sala, acompanhado pelo que parecia o Potter e o Weasley.
Draco reconheceu Dobby quase que imediatamente, o elfo trabalhara na sua casa por quase toda a vida. Dobby lançou um sorriso de desculpas a Draco antes de o menino ser nocauteado por trás. Draco tentou lutar para manter a consciência, mas a dor era forte demais para ignorar.
Quando finalmente recobrou a consciência, Draco abriu os olhos lentamente, captando um flash de Dobby sendo acertado por uma faca e desaparatando com a Granger enquanto sangrava.
O Malfoy não conseguia parar de pensar no que acabara de acontecer, em como ele ficou parado vendo a Granger sofrer, sem mexer um dedo sequer por ela. Ele se odiava mais do que nunca, e tudo o que queria naquele momento era parar de existir. Não morrer, morrer só pioraria as coisas para todo mundo, e ele não era egoísta a esse ponto, simplesmente parar de existir.
Ele abriu a passagem secreta e desceu a escada em espiral que levava à adega dos pais. Desmoronando no chão, ele pegou a garrafa mais próxima e a abriu. Whisky de fogo, ele reconheceu o cheiro. Ao contrário dos pais, ele não ligava para a idade, ou a prensa, ou a marca, tudo o que ele queria era algo que amenizasse toda essa dor, que o fizesse esquecer tudo o que tinha feito, e aquela garrafa parecia dar conta da missão. Claro, ele podia simplesmente apagar a própria mente, mas não tinha coragem de ser tão covarde, se é que isso faz sentido.
Depois de alguns goles –Ou muitos, Draco já tinha perdido as contas- começou a soluçar, se era por causa da bebida ou por que estava chorando, Draco não fazia ideia. Tudo o que queria era acabar com aquela dor. E a cada gole a dor parecia mais distante, substituída por uma queimação na garganta.
Foi então que ele teve uma ideia genial. Uma ideia que, na sua cabeça, não podia esperar para o dia seguinte.
Com um sorriso no rosto, ele aparatou.
–Draco?? –Perguntou Astoria, apressando-se em ajudar o loiro a subir as escadas, o que ele parecia estar tendo certa dificuldade. –O que você está fazendo aqui a essa hora?
–Vamos fugir, Tori! –Ele respondeu, os olhos brilhando de empolgação. Astoria reconheceu o cheiro de bebida assim que ele abriu a boca, e revirou os olhos. –Vamos para o Peru! Nós podemos criar lhamas ou alpacas ou seja lá o que eles criam lá, nós podemos viver longe de tudo isso, longe da Guerra! Se você quiser pode chamar o Nott pra ir também, vocês fazem uma família, eu arrumo uma peruana, ou se você quiser nós podemos ter a nossa própria família, a gente aprende a se amar, então nós mandamos nossos filhos para a escola de magia no Brasil e morremos bem velhinhos, em paz, longe de tudo isso.
Astoria não pôde evitar as gargalhadas, mas logo parou quando reconheceu o olhar que o loiro lhe lançou. Antes que ela pudesse fazer alguma coisa para evitar, Draco começou a chorar. Com as mãos em seus ombros, o menino implorava:
–É sério, Tori, vamos fugir! Não precisa ser para o Peru, pode ser para Nova Guiné, ou para a Indonésia, para onde você quiser! Eu só quero sair daqui, eu não aguento essa guerra, esse sofrimento, eu não aguento essas mentiras, eu preciso sair daqui! Por favor, Tori!
–O que aconteceu, Draco? –Perguntou Astoria, o mais suavemente possível. A pergunta pareceu quebrar alguma coisa dentro de Draco.
–Ela... ela... capturada... torturada... espada... Weasley... Bellatriz... marca... sangue-ruim... D-dobby... –Astoria tentou entender o que o menino estava dizendo, mas as suas palavras vinham intercaladas com soluços, o que dificultava tudo. Com um suspiro, ela abriu a porta para ele e disse:
–Entra.
–O que você ‘tá fazendo? Você vai fugir comigo? –Perguntou Draco enquanto a menina o guiava para a sala. Astoria abriu o armário próximo à lareira e tirou de lá uma garrafa não muito diferente das que Draco havia bebido.
–Eu estou te ajudando, é pra isso que servem os amigos. – Ela deu um grande gole e passou a garrafa para o amigo. –Então, -Começou Astoria enquanto Draco virava a garrafa, um pequeno sorriso estampava o canto da sua boca. –Nós vamos criar alpacas ou lhamas?

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