A claridade ofuscou meus olhos no momento em que sai do carro. Tudo era tão branco e tão claro. O chão, o céu, não havia uma divisão exata entre um e outro, era tudo apenas uma coisa só.

– Charlie, você tem óculos escuros pra isso – meu pai me lembrou rindo e dando um pequeno peteleco na minha testa.

– Ai, é mesmo – disse pegando meus óculos de cima da cabeça. Nunca achei que precisaria de óculos escuros em um local como aquele. Não pelo menos em um lugar onde a temperatura quase nunca fosse acima de zero.

Bom, pelo jeito eu precisaria me acostumar. Pelo menos nos próximos longos meses.

– Venham, o alojamento de vocês fica por aqui – o motorista do carro nos guiou por um caminho de pedras em meio à terra coberta de neve.

– Nossa, eu acho todo esse frio tão emocionante – minha mãe disse alto para que o motorista e meu pai escutassem e depois sussurrou ao meu ouvido – esperomesmoque eles tenham algum tipo de aquecedor super potente dentro daquele lugar, senão eu juro que largo tudo isso amanhã mesmo e vamos direto pra Califórnia – seu tom era brincalhão, mas no fundo, eu sabia que era verdade.

E vamos dizer que eu não estava exatamente contente com essa história toda de morar no Alasca. Quero dizer, eu havia acabado de me formar no ensino médio, eu tinha 18 anos. E bom, nunca foi bem meu sonho virar um esquimó. Muito menos picolé de ursos. Mas eu não tive muitas escolhas quando meus pais foram chamados para gravar um documentário sobre a fascinante fauna do Alasca.

– Chegamos – o motorista anunciou. Era meio difícil de ver seu rosto, e seu tipo físico, porque num frio congelante de — 20 graus Celcius, todas as pessoas estão com tantas roupas que nem é possível diferenciar se ela é gordinha ou se é a quantidade de roupas – Este é o alojamento de vocês e dos outros pesquisadores.

O lugar era realmente fantástico. Algumas partes eram construídas de alvenaria comum, enquanto outras eram feitas de madeira, para segurar a temperatura mais elevada, imaginei. Possuía algumas janelas largas, mas apenas para a entrada de luminosidade, não para a ventilação. Era um prédio realmente enorme de três andares, com algumas interconexões com prédios menores, talvez eixos administrativos ou laboratórios de pesquisas.

Ao entrarmos tive um alívio quase que imediato em relação ao frio que estava sentido que quase poderia mexer novamente meus dedos, que já estavam praticamente congelados.

– Ufa, achei que teríamos que fazer xixi uns nos outros para nos esquentarmos – meu pai suspirou aliviado.

– Credo, amor! – minha mãe o reprimiu – não fale essas coisas tão alto! – ela sussurrou a última parte.

– Mas pai, eu acho que o xixi iria congelar no mesmo momento que ele saísse ... – disse calmamente, no que minha mãe respondeu com um olhar do tipo “sem mais nenhuma palavra!”, a que eu obedeci prontamente. Como se não fosse ela que tivesse ensinado técnicas de sobrevivência com o xixi pra esquentar a temperatura corporal e evitar o congelamento – ok, ok, parei, juro! – fiz um gesto como se estivesse fechando minha boca.

– Boa tarde – minha mãe sorriu dizendo à uma atendente que se encontrava atrás de um balcão ao fundo do enorme salão principal, de piso de madeira e iluminação artificial – Meu nome é Margo Campbell, e estes são meu marido, David, e minha filha, Charlie. Acabamos de chegar de New York, viemos gravar um documentário sobre a fauna daqui.

– Oh, certo, certo, Senhor e Senhora Campbell, é um prazer recebê-los ao Centro de Pesquisa do Alasca. Esperamos fazer da sua estadia o mais confortável possível – ela sorriu com sinceridade. Eu gostei dessa parte, significava que eu não precisaria me preocupar com meu pai fazendo xixi em mim por achar que estou com hipotermia – Por favor, queiram me acompanhar ao dormitório de vocês.

Enquanto a mulher nos guiava entre corredores espaçosos e aconchegantes, com pisos de madeira e fofos tapetes no chão, eu olhava distraidamente por algumas janelas que havia. Não posso negar que a paisagem era simplesmente linda, ao mesmo tempo que um tanto depressiva. Havia neve, neve, neve e neve por todo lugar, encobrindo montanhas, depressões e planícies. Tudo. E impressionantemente, a pequena caminhada começava a me dar calor.

– E este – a moça disse abrindo a porta, e eu nem havia reparado que estávamos parados – é o dormitório de vocês.

Nosso quarto era um local modesto. Havia um banheiro, uma pequena sala com televisão, poltronas e uma mesa de centro, além de uma cama de casal encostada na parede bem ao centro e um beliche, ao canto. E havia uma enorme janela de vidro com uma linda vista para montanhas nevadas.

– O local é simples, por conta disto temos a sala de convivência no térreo, que possui mais alternativas para os dias de nevasca. E servimos as refeições todos os dias nos horários que são ditos neste DVD, juntamente com todas as regras adicionais da nossa Central. Por favor, assistam atentamente e caso tenham alguma dúvida, liguem para a recepção! – a moça sorriu e respirou profundamente tomando ar. Ela falou aquilo tudo num tom tão robótico que achei que se jogasse água nela, haveria risco de curto circuito.

Assistir um DVD sobre regras do local onde eu moraria pelos próximos indeterminados meses. Eu acho que poderia fazer isso.

– Muito obrigada, Susan! – minha mãe sorriu educadamente. Susan? Quando ela tinha dito o seu nome que eu nem percebi? – Ligaremos caso tenhamos mais dúvidas.

– Agora deixarei vocês se acomodaram, se me derem licença – Susan respondeu e se retirou sorrateiramente.

– Eu tenho uma dúvida: como eles mantêm a temperatura tão boa?? – sorri para meus pais jogando a mochila que carregava na parte de cima da beliche, que claramente, seria minha cama.

– Bom, talvez eles expliquem neste DVD, eles são todos nerds nesse lugar, devem perguntar com frequência – meu pai respondeu lutando para abrir a caixinha que continha o CD dentro.

Todos nerds, incluindo meus pais.

Com muita luta, ele conseguiu inserir o DVD no aparelho e ligar a televisão de tela plana corretamente. Então, apareceu um moço de meia idade, cabelos grisalhos, barba por fazer e vestindo um jaleco comum, com o símbolo do Centro de Pesquisa no bolso, o urso pardo com estrelas em volta. Estava na frente de um fundo azul marinho, o que destacava seus olhos incrivelmente verdes.

Ele falava com uma voz aveludada, calma, porém imponente. Seu nome era Bernard Schmidt.Dava-nos as boas vindas, sobre a equipe, sobre o centro de pesquisa e suas partes, mostrando imagens incríveis do local e da paisagem ao redor. Aparentemente, havia incríveis laboratórios ali dentro, de todo tipo de pesquisa, biológicas, físicas, químicas, geográficas e até sociológicas. Havia também uma sala para convívio (segundo o moço, para que não nos sentíssemos solitários), com televisões, jogos, e, pasmem, vídeo games. Todo o local era provido de rede wifi, o que possibilitava acesso com o mundo e nossos familiares.

E claro, falava sobre algumas regras. Sobre não fazer barulho depois das dez nos corredores, irmos ao refeitório nos horários corretos, sem roubar pesquisas alheias, sem brigas, enfim. Coisas básicas. Além disso, caso precisássemos nos distanciar da Central, eles poderiam disponibilizar carros e, nessa parte eu realmente achei estranho, trenós, que apenas poderiam ser concedidos com o condutor. Uau, trenós com cachorros de verdade! Então se despediu e nos desejou uma boa estadia.

Centro de Pesquisa do Alasca era um belo hotel cinco estrelas, sem piscina no meio do gelo.

– Acho que posso me acostumar à isso – Senhora Margo sorriu, com seus belos dentes brancos, seus olhos castanhos brilhavam – sem preparar comida, lavar a louça ou limpar a casa. Me sinto quase em uma colônia de férias! – e jogou os cabelos castanho escuro para trás, e sentou-se em uma das poltronas.

– É benzinho, mas nossas filmagens serão todas do lado de fora! – Senhor David lhe deu um tapinha nas costas. Depois se jogou na poltrona ao lado, colocando os pés na mesa de centro e bagunçando os cabelos grisalhos.

– Aliás, vocês terão uma equipe ajudando vocês com isso, não é? Porque se dependerem de mim pra filmar, o documentário será um tanto... estilo surrealista – perguntei enquanto tirava umas duas camadas de roupa que eu estava, ficando apenas com uma calça jeans básica , uma camiseta de mangas compridas com um colete por cima e meus grossos cabelos ondulados em um rabo de cavalo.

– Claro! – meu pai respondeu prontamente – imagina, um documentário com você filmando. A National Geographic riria da nossa cara.

– Conheceremos nossa equipe amanhã de manhã – mamãe disse pegando todas as malas e abrindo, tirando as roupas de dentro – enquanto isso, vou começar a arrumar nossas coisas.

Minha mãe e sua incrível mania de não parar nem um segundo. Ela era uma bióloga, escrevia vários artigos, fazia parte de vários projetos e dava aulas em e uma escola próxima da casa.

Já meu pai era geógrafo, ele viajava bastante para identificar rochas, tipos de solo e sei lá mais o que. E assim, os dois se tornavam uma dupla perfeita para documentários. Juntamente com suas vozes suaves e seus rostos bonitos e joviais. Eles já haviam feito ao menos três documentários para vários canais televisivos, mas eu apenas tinha presenciado um, no México, quando eu era bem pequena.

– Charlie, venha me ajudar com isso aqui! – Dona Margo ordenou carinhosamente.

– Claro, mestre – sorri, abrindo uma das malas que estavam em cima da cama. Afinal, eu teria muito tempo para explorar tudo por ali.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.