Polímata Mila Livro 1: A Praga

1 Capítulo 1 | Adeus, Vila Galilei


A pequena cozinha da taberna Cisne Sem Asa estava a todo vapor. Homens vestidos de branco da cabeça aos pés corriam de um lado para o outro, empratando um leitão tirado do espeto, regando o cordeiro com azeite de ervas, checando os pães no forno de barro, ralando noz-moscada no recheio da torta, limpando as bancadas…

— Capitão, posso mandar servir o pato assado? — perguntou um dos cozinheiros.

O homem a quem o cozinheiro se referiu como capitão tinha um olhar severo. A expressão de raiva e descontentamento ficara marcada pelas rugas da idade.

O capitão cortou um pedaço mínimo do pato e provou-o.

— Você experimentou essa coisa? — perguntou o capitão, disse ele levantando a faca na altura dos olhos.

— É… Sim… — respondeu ele com uma cara de confuso.

— Corrija isso agora ou você está demitido! — exclamou ele, sem se preocupar em dizer o que estava errado com o prato.

— Sim, senhor capitão — disse o subordinado.

Os olhos frios de seu chefe acompanharam-no por todo o percurso até a bancada, o que só aumentava a culpa do cozinheiro.

— Capitão Herald — disse uma voz atrás do mesmo.

— O que foi dessa vez? — disse ele, virando-se pensando tratar-se de mais uma pergunta impertinente de seus subordinados. — Quem é você e o que quer?

Era uma menina de onze anos de idade, vestindo um avental de garçonete. As pontas de seus cabelos ruivos, quase vermelhos, do lado direito encaracolavam-se naturalmente, mas as do lado oposto eram quebradiças e arrepiadas. Em seu rosto, um sorriso de desdém ou talvez de convencimento, os dentes não ficavam à mostra e a bochecha direita era levemente mais levantada.

— É lógico que o senhor já me conhece. Sou eu, Mila. Pois bem, gostaria de fazer uma sugestão.

— Sugestão?! Você não vê que eu estou ocupado, menina? Vá fazer seu trabalho ou eu te chuto daqui — exclamou o chefe, de costas para ela, indo em direção do caldeirão de sopa.

— É sobre os cortes de carne bovina. Pelos pedidos que recebo, notei que esse tipo de carne não é muito popular entre os clientes. Preferem porco, galinha, cordeiro. O problema é que a carne é muito dura. Acho que deveríamos parar de servir esses pratos para evitarmos desperdícios com sobras e armazenamento… Ou poderíamos mudar a forma de preparo… — insistiu Mila, seguindo o capitão.

— Acha que pode melhorar a minha receita? Quem diabos você acha que é? Você é só uma garçonete que não tem onde cair morta. Toma, sirva isso daqui e suma da minha frente! — disse ele, entregando-lhe um prato fundo de sopa.

Calada, ela pegou o prato das mãos do chefe. O rosto ficou quase da mesma cor do cabelo. Mila bateu o pé no chão com força e exclamou:

— Pro inferno com essa taberna também. Eu me demito!

Ela jogou o prato de sopa no uniforme do chefe, pois achou que seria cruel demais jogar em sua cara. O líquido amarelado escorreu por suas roupas, manchando-as todas, até os sapatos. Algumas gotas da sopa ainda caíam ao chão, seu corpo queimava, Capitão Herald estava prestes a explodir de raiva, quando a garota estalou os dedos.

— Fagulha! — gritou ela.

De repente, o fogo do forno e do fogão ficaram descontrolados. As chamas subiram até o teto e se espalharam pelas bancadas e o teto, ambos de madeira.

— Tirem os cogumelos do fogo! A galinha vai queimar. Apaguem esse maldito fogo! — gritava o chefe para que salvassem seus pratos. O risco de incêndio nem passou por sua cabeça.

Enquanto isso, Mila fugia. Ela saiu pela passagem entre a cozinha e o salão e mergulhou no meio dos clientes. Olhou ao redor à procura de algo. Eram por volta das seis horas da tarde, as pessoas já haviam saído do trabalho e agora lotavam as estalagens e tabernas da vila. Num canto do estabelecimento, uma pequena multidão reunia-se ao redor de um músico, tocando alaúde, muito bem por sinal. A menina foi até o músico e forçou sua passagem até o palco.

— Stella! — chamou ela. — Temos que ir embora. O Capitão Herald está furioso com a gente. Ele vai nos matar.

O músico era uma garota da mesma idade de Mila, era um palmo mais alta que ela, era mais magra também, o cabelo armado tinham a cor de um campo de trigo na época da colheita e os olhos eram claros como o mar. Stella, perdida nas cordas de seu alaúde, demorou a responder o chamado de Mila, mas logo que a percebeu no meio da plateia, pegou o chapéu do chão com algumas moedas que recebera por sua apresentação e fugiu junto à amiga.

— O que você fez dessa vez, Mila? — perguntou a musicista, ainda correndo.

Mila não respondeu até tomarem distância o suficiente. Ofegantes, as duas encostaram-se num carvalho para descansar.

— Eu não fiz nada. — Mila parou por um segundo para recuperar o fôlego. — Foi aquele cozinheiro de quinta. Recusou uma sugestão minha, sequer ouviu o que eu tinha para falar e ainda me humilhou na frente de todo mundo. Mas nada disso importa. Eu não estava aprendendo nada lá mesmo. Nem cozinhar eu pude.

— Eu estava gostando de lá, sabia? E ganhando mais do que nunca… E você não sabe cozinhar tão bem assim — disse ela, pensando nos biscoitos-teste, que a amiga fizera algumas semanas atrás.

— Então, minha cara amiga. Faz um tempo que temos dinheiro para sairmos dessa vila. Só estávamos precisando de uma desculpa. Não é o seu sonho tocar em todas as grandes cidades de Lecardia?

Stella colocou o seu chapéu preto com uma pluma branca na ponta, levantou a aba que cobria seus olhos e respondeu Mila com um sorriso e um leve balançar de cabeça em sinal negativo, que significava algo como “essa menina não tem jeito”.

***

Mila arrumava as malas desde a noite passada e já eram por volta da uma da tarde. Demorara para achar todos os itens da lista, fora o tempo que se dedicou a escrever uma carta para os pais, avisando da sua partida. O conteúdo não era o problema, o que a fez demorar tanto foi o fato de querer que sua caligrafia estivesse impecável, principalmente para a sua mãe.

Ela riscou de sua lista os últimos itens, alguns livros das mais variadas áreas do conhecimento, ervas medicinais, um mapa, uma bússola, uma adaga e, não menos importante, a luneta de ouro gravada com o nome da família, dada pelo seu avô. Um dia, Stella tentara convencê-la a vender o objeto, porém, por mais que precisassem de dinheiro, aquilo tinha muito valor sentimental para ser vendido. Ela olhou para a luneta com carinho e guardou-a na mochila.

A luz do sol entrava pelo vitral, iluminando a casa de verde, roxo e azul, algo que a garota sempre adorou naquele lugar. Da porta, deu uma última olhada para dentro e partiu.

Stella já a esperava na praça do centro junto com os seus pais. Uma carruagem de quatro lugares puxada por dois cavalos estava estacionada próxima deles.

— Ah, olha se não é a pequena Galilei — disse o pai de Stella ao ver Mila.

— Bom dia, Senhor e Senhora Teller — cumprimentou ela, claramente incomodada com o “pequena”.

— Finalmente, não aguentávamos mais esperar — disse Stella. — Pai. — Ela estendeu a mão para ele. Surpreso, o pai apertou a mão dela e sorriu. Ele tinha certeza que a filha seria uma mestra musicista de sucesso.

— Mã…

A mãe entrou no meio dos dois e abraçou-a com força. Por trás do ombro de Stella, viu Mila olhando-as com estranheza.

— Cuide bem de minha filha, por favor — disse ela. — Tenho certeza que se seu vô estivesse na vila, ele estaria muito orgulhoso de você. Os seus pais também.

Mila não conseguiu conter o sorriso, imaginando se um dia teria a chance de visitar o vô.

— Ela cuidar de mim? Seria mais seguro estar sob os cuidados de um urso selvagem — disse Stella, soltando-se do abraço.

— Cale a boca, Stella. Vamos logo.

Ao partirem, pela janela de trás da carruagem, Mila viu as construções rústicas da vila se distanciarem cada vez mais e mais. Stella tocava uma música tranquila e de poucas notas, uma trilha sonora perfeita para a ocasião.

— Adeus, Vila Galilei — disse Mila, quando passaram pelos portões.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.