Pokémon - Reconquest
5 Capítulo 4: Honra
Notas iniciais
Ryla olhava do Cyndaquil para Kristen, parecendo completamente atordoada. Quem de fato tomou a iniciativa foi sua pequena Eevee, que se posicionou entre a treinadora e o Pokémon selvagem, grunhindo baixo, no que o Cyndaquil ajeitou-se debilmente nas patas traseiras, assumindo uma clara e inocente posição de luta.
- Mas... mas eu... – gaguejou Ryla
Kristen se levantou, olhando feliz para o Pokémon, que agora estava saudável a ponto de querer lutar.
- Isso é ótimo. Pokémon selvagens costumam ter medo de humanos. Eles não lutam a menos que sejam ameaçados. Se puderem, fogem. Ou quando são agressivos, eles simplesmente atacam, não pedem por uma batalha.
Ryla franziu o cenho novamente, olhando apreensiva para o pequeno zaglosso dentado. Ela se levantou, mas não parecia muito confiante do que deveria fazer, o que não passou despercebido a Kristen.
- Vamos, Ryla, o que está esperando?
- Mas... se eu vencer, terei de capturá-lo, não?
- Sim, acredito que seja essa a intenção dele. E, de qualquer modo, não pode largá-lo machucado na floresta se vencer.
- Mas...
Ryla não conseguia se sentir à vontade. Kristen não compreendia e Cyndaquil agora piscava suas chamas sub-desenvolvidas impacientemente, demonstrando que estava cheio de energia para gastar.
- Qual o problema? Não gosta de Cyndaquils?
- Eu... eu quero ficar com ele... Mas isso não está certo! Eu ia espantá-lo, você deu comida a ele. Você deveria ficar com ele!
Kristen abriu a boca, estupefato. Ela era muito mais orgulhosa do que ele pensara.
- Que seja... meu Tyrogue não está em condições de luta e não tenho outro Pokémon ainda. Eu não me incomodo se ele estiver com você, apenas me prometa que vai cuidar bem dele se realmente pegá-lo.
Sem dizer mais nada, Ryla postou-se atrás de seu Eevee, sentindo-se ridícula com aquele casaco gigante. Percebendo que seu insistente desafio fora aceito, Cyndaquil grunhiu e piscou as chamas mais uma vez. Sem aviso, ele correu na direção de Eevee.
- Desvie, Eevee!
Ele era desajeitado, mas a ausência da caixa de comida às suas costas o fazia ser razoavelmente rápido para alguém com poucos dias de nascido. Ainda assim, Eevee não teve dificuldades para se desviar de sua cabeçada; manobrando as quatro patas, saiu da frente do golpe e Cyndaquil quase bateu no tornozelo de Ryla.
- Contra-ataque agora!
Antes que ele pudesse se virar, foi atingido no flanco por uma investida de Eevee, que claramente pegara leve, pois ele capotou três vezes de lado, mas conseguiu se pôr de pé com alguma dificuldade. Cyndaquil retomou a postura ofensiva, mas nem teve tempo de atacar novamente,
- Use a areia, Eevee!
Obedecendo, Eevee repetiu a manobra que tivera sucesso contra o Spearow. Mostrando a cauda ao Cyndaquil, escavou o chão abaixo de si e encheu-o de areia, obrigando-o a se virar de costas para proteger o rosto, por possuir os braços curtos demais para servirem de escudo.
Quando o golpe cessou, ele ainda tentava espanar alguma areia de si, mas Eevee acertou-lhe uma segunda cabeçada, desta vez no meio de sua espinha, atordoando-o e fazendo-o cair esparramado no mesmo lugar.
Ryla praguejou contra o casaco imenso de Kristen, pois se atrapalhou bastante para alcançar o próprio cinto. Quando finalmente conseguiu apanhar uma Pokébola vazia no seu estoque, Cyndaquil já começava a se mexer outra vez. A esfera atingiu o Pokémon próximo dela e tombou no chão, sacudindo-se na grama enquanto todos os presentes prendiam a respiração.
Tão repentinamente quanto começara a tremer, ela parou, tornando-se um simples objeto de metal sossegado na grama. Ryla abaixou-se e apanhou-a, olhando-a sem acreditar; sua primeira batalha contra um selvagem e sua primeira captura. E ele era tão fofinho. Eevee e Kristen também chegaram perto.
- Parabéns, você conseguiu. Dizem que Cyndaquils são muito leais.
- Cala a boca! Esse vestido que você me emprestou quase me fez perder a captura!
Gargalhando, Kristen voltou para a barraca. Ryla abaixou-se para fazer um longo cafuné em Eevee e mostrou a Pokébola a ela, que cheirou-a com bastante felicidade.
- Viu, Eevee? – disse ela baixinho – É possível fazermos outros amigos. Pokémon e humanos também.
Eevee lambeu-a na mão em resposta e as duas companheiras inseparáveis voltaram à frente da barraca, onde Kristen folheava um livro de capa bastante colorida. Ao ver as duas se aproximarem, ele se virou para Ryla, sorridente, e disse:
- Aqui, veja. – mostrou a página que lia do livro, onde se viam diversos textos e meia dúzia de imagens em ângulos diferentes de um Cyndaquil, todas devidamente legendadas – Ele realmente parece que tem menos de uma semana de vida, pelo tamanho. Segundo o livro, ainda devia estar amamentando.
- O que será que aconteceu à mamãe dele? – perguntou Ryla, preocupada.
- Talvez nunca saibamos. Só espero que ela não esteja vagando pela floresta, procurando por ele...
Sentados à grama, ambos trocaram mais algumas palavras sobre o Cyndaquil e a noite cansativa, até que Ryla deixou escapar um longo e enfático bocejo, que até despertou Eevee, encrespada em seu colo e acalentada por uma longa sessão de cafunés.
- Acho melhor você ir dormir. – emendou Kristen — Eu preferia que fôssemos ao Centro Pokémon assim que amanhecesse.
Sem responder, Ryla levantou-se enquanto Eevee alongava as patas da frente, bêbeda de sono. Ryla retornou-a à Pokébola e retirou seu cinto da calça, agora já habituada ao casaco gigante, atirando-o dentro da barraca. Kristen estalou o pescoço e guardou na segurança da lona a própria mochila.
- Bom... boa noite então. Te acordo ao nascer do sol, pode ser?
- Odeio acordar cedo... – resmungou Ryla — Mas os Pokémon são prioridade, né, então fazer o que.
Kristen acomodou-se na árvore ao lado da barraca – uma velha mangueira sem frutos àquela época do ano. Sentando-se com as pernas cruzadas e as costas apoiadas na árvore, Kristen se assustou quando viu Ryla de pé diante dele, bem próxima.
Ela carregava uma tristeza ofensiva. Olhava para o chão com uma mistura de vergonha e dor profunda que Kristen não entendia muito bem, mas que suspeitava que tivesse algo a ver com toda aquela desconfiança.
- Ahn... Ryla-chan, aconteceu alg...?
- Naquela hora – cortou Ryla – você me perguntou se eram ladrões. A princípio eram. Eles queriam Pokémon fortes e raros, mas eu disse que só tinha um Eevee no início do treinamento. Como eu também não tinha dinheiro nenhum... eles disseram que eu teria de pagar de outra forma.
Kristen sentiu um calor de ódio fugir pelos seus poros quando Ryla fechou os olhos. Uma pessoa triste só fechava os olhos para lutar contra as lágrimas – ele sabia disso muito bem. Por um instante, lamentou não ter corrido atrás dos criminosos, mesmo sabendo racionalmente que provavelmente não acharia nenhum deles naquele escuro e ainda corria o risco de expor a própria Ryla e os Pokémon a algum perigo.
- Na hora em que você chegou, eles estavam decidindo entre eles quem seria o primeiro. E me disseram que se eu gritasse mais uma vez, eles iam... iam fazer coisas ainda mais terríveis e depois me matar. Então achei que devia saber que eu sou muito grata por você ter aparecido.
Kristen abriu a boca, mas ela não lhe deu chance de falar nada. Saiu pisando firme para dentro da barraca e fechou a lona com força, deixando o pensativo rapaz meditando solitariamente em seu mais novo abrigo.
No interior da barraca, Ryla secou os olhos com o casaco emprestado. Os lençóis brancos de Kristen estavam limpos sobre o grande colchão. Ela logo notou que Kristen só achava a barraca pequena por causa de seu tamanho desproporcional, pois aquela ripa de espuma de dois metros coberta com lençóis na grama era a cama mais confortável em que Ryla se lembrava de ter dormido em toda sua vida.
Aninhando-se no lençol mais grosso, que servia de cobertor, ela enfiou a cabeça sobre o travesseiro e o braço sob este e virou-se de lado, sentindo-se feliz e deprimida ao mesmo tempo.
Estava exausta, mas um turbilhão de pensamentos, medos e esperanças não lha deixou dormir. Ela achava que havia mais de duas horas que se revirava, tentando achar uma posição confortável, mas não podia ter certeza, pois relógios eram caros demais. Foi quando ouviu um barulho inquietante e inconfundível ao seu redor, cada vez mais constante.
Por uns dois ou três minutos, permaneceu em torpor, sem conseguir organizar os pensamentos, mas um estalo à trouxe de volta à razão e então ela se moveu de gatas até o quadrado espelhado na lona, onde podia ver Kristen do lado de fora, sentado de olhos fechados na mesma posição de antes e ignorando completamente a chuva que já começava a formar poças na grama. Se ele não brincasse de girar os dedos no colo, ela podia jurar que ele estaria dormindo.
Ryla perguntou-se o motivo de tudo aquilo. Por que alguém ficaria sentado na chuva voluntariamente sem reclamar? Sua memória era cruel com ela mesma.
Ela se lembrou de quando era uma criança frustrada, gordinha e sem amigos. Sabia que seu pai não gostava que entrassem naquela parte da casa, mas ela sabia também onde ele guardava a chave. Era uma menina esperta já aos cinco anos.
Quando o pai saiu para o trabalho, ela fingia dormir, mas caminhou sorrateiramente para fora do quarto que dividia com os sete irmãos mais velhos assim que ouviu a porta da sala bater.
Usando a chave que pegara da cabeceira do pai sem acordar a mãe no quarto dos dois, ela destrancou a porta proibida e ficou maravilhada com a imensa coleção de livros mal iluminados sob a luz de uma vela quase acabada em cima da mesa. Sua casa era minúscula e seus irmãos não tinham onde dormir tranqüilos, amontoando-se uns sobre os outros, mas o fato do pai ter um cômodo inteiro reservado aos livros como aquele não a deixou brava.
Ler era a única coisa que gostava de fazer na escola. Mas sua escola também era muito pobre e ela já tinha lido todos os livros, incluindo os que os professores lhe emprestavam de má vontade.
Sem saber que livro retirar primeiro, Ryla não pôde conter as lágrimas ao saber que seus dias não seriam mais tão chatos quanto antes. Passou os dedos pelas lombadas e sentiu o cheiro horrível de poeira, concluindo que nunca cheirara nada tão delicioso.
Quando finalmente escolheu um livro, sentiu a espinha gelar. Antes de puxá-lo da prateleira, a porta que ela deixara entreaberta se escancarou quando o pai voltou para apagar a vela que esquecera acesa. Vendo-a ali, ele foi assumindo as feições furiosas que ela tanto temia, mas ela sabia, já nessa idade, que era inútil se esconder.
Ele arrastou-a pelos cabelos enquanto ela lutava para segurar os gritos, sabendo que isso o irritaria mais. Sempre segurando-a, ele trancou a porta e aproximou bem a boca do ouvido dela, sussurrando com a voz trêmula e bastante assustadora:
- Se eu te pegar aqui outra vez... eu juro que lhe dou uma surra. Uma como você nunca levou antes.
Mas ela não ia desistir. Alguns dias depois repetiu o mesmo processo com mais cautela e obteve sucesso. Mas perdeu-se na imaginação e fantasia do primeiro livro e simplesmente se esqueceu da hora. Sabia que a mãe e os irmãos não iam procurá-la, deduzindo que estava simplesmente por aí, como sempre. Mas o pai chegou e arrancou o cinto, fechando a porta atrás de si.
- Eu lhe disse, não foi? Hoje eu vou te mostrar que um homem sempre cumpre suas promessas.
E o pai tirou o cinto e açoitou a pobre criança de cinco anos como se ela fosse um homem adulto. Mas ela não desistiu e tentou por diversas vezes devorar toda aquela biblioteca. Ele mudava a chave de lugar, mas ela descobria. Quando adolescente, aprendeu a arrombar portas.
Apanhara com uma toalha molhada, levara socos, pontapés e até madeiradas. Uma vez seu pai acertou sua cabeça com a capa do grosso livro de poesias que ela estava quase terminando de ler.
Todas as vezes em que ele a encontrou no seu local proibido, ela apanhou como um criminoso apanharia nos sistemas políticos mais extremistas. E assim ela aprendeu, em várias lições, que um homem sempre cumpria suas promessas.
Ryla se lembrou do que a fizera parar de gritar mais cedo em sua barraca. Lembrou-se exatamente das palavras de um dos homens: “nós prometemos que vamos ser bonzinhos com você. Mas se você grita mais uma vezinha sequer, não lhe sobrarão pregas nem língua para você contar a história, eu juro”.
Kristen dissera que não ia entrar na barraca, que não ia incomodá-la. E agora ela estava confusa, pois ele era um homem cumprindo sua promessa a qualquer custo. Mas nunca tinha visto um homem fazer uma promessa boa.
Teve vontade de sair, chamá-lo para entrar na barraca e se desculpar por seu egoísmo e sua paranóia. Vontade de dizer que havia sido uma idiota e que ele não precisava se molhar daquela forma por causa dela. Teve vontade de dizer muitas outras coisas, mas faltou-lhe a coragem.
Sentindo um aperto terrível no coração, Ryla atirou-se de volta à cama, com remorsos profundos por nunca ter sido bem tratada em toda sua vida e agora estar retribuindo dessa forma. Pegou no sono de exaustão, torcendo para que suas lágrimas não tivessem deixado vestígio quando Kristen viesse chamá-la.
O sol se apresentava timidamente, refletindo-se nas folhas molhadas deixadas de herança pela chuva. Kristen admiraria toda aquela beleza a manhã inteira se pudesse, mas seu Tyrogue precisava de ajuda e ele se levantou, alongando as costas, braços e pernas, para, em seguida, sacudir a lona diante dele.
Quase imediatamente, ouviu movimentos assustados no interior da barraca, lembrando-se imediatamente do quanto Ryla era paranóica. Ela entreabriu um vão na lona e espiou Kristen com aqueles impressionantes olhos arregalados.
- Bom dia. Er... pode me passar uma toalha? Tem uma perto da bacia, acho.
Ryla abriu de vez a lona e logo saiu da barraca, carregando consigo a toalha que Kristen pedira. Não fez comentários quando ele despiu a camisa molhada e secou os cabelos, o rosto e o tronco com pressa.
- Ufa... agora sim. Podemos ir andando?
Ryla não conseguiu retribuir o sorriso dele, mas sentia-se profundamente contente em ver que ele não parecia doente. Cerca de quinze minutos depois, a lona e as estacas estavam devidamente desmontadas, secas e acomodadas na mochila de Kristen, que permanecia sem camisa. Ryla lavou o rosto e os cabelos na bacia d’água e se dispôs a carregá-la, já que era leve e Kristen precisava lidar com a roupa molhada.
Ambos saíram do miolo da floresta, beirando a pé a Rota 31 no sentido Rota 32. Ainda era feriado, portanto era ridícula a quantidade de carros que passava por eles em ambos os sentidos. Enquanto andava, Kristen retorcia a própria blusa, deixando caírem quantidades cada vez menores de água. Já Ryla seguia um pouco atrás, parecendo chateada.
- O que tanto te incomoda, Ryla-chan?
- Sono. – mentiu Ryla – Você viu que horas tivemos que levantar? Por falar nisso, não está com sono?
Kristen não pôde deixar de sorrir, afinal ouvia essa pergunta com bastante frequência.
- Eu sou atleta, procuro dormir sempre que dá. Mas infelizmente meu metabolismo não ajuda muito.
Ryla preferiu se manter calada no restante da caminhada e Kristen resolveu respeitar, mesmo percebendo que havia algo mais errado além de uma simples noite mal dormida. Foi com bastante satisfação que ele divisou os contornos do pequeno prédio branco e rosa junto à Estação Rota 31, onde um trem estava parado naquele exato momento.
Quando se aproximaram, as portas duplas se afastaram magneticamente e Kristen entrou no mais tranqüilo dos ambientes que visitara desde o início da jornada. Uma menina um pouco mais velha que eles mexia num computador, sentada atrás do balcão e parecendo bastante entediada.
As paredes ao redor estavas tomadas por pôsteres de todos os tipos: anúncios de Pokémon desaparecidos, avisos de torneios, pôsteres oficiais da Elite Four, fotos de Ash Ketchum e das veneradas enfermeiras Joy – nos tempos em que ainda eram todas iguais — e até anúncios de troca e venda de Pokémon.
A expressão da menina mudou de tédio para uma sincera satisfação quando notou a chegada dos dois novos visitantes, pois o único ruído que perturbava o local vazio era o trem sacolejando para da estação. Ela rapidamente largou o computador e ficou de pé, ajeitando os óculos sob os longos cabelos vermelho-sangue e mostrando que usava uma roupa completamente branca.
- Bom dia! Bem-vindos ao Centro Pokémon. Meu nome é Alice Joy, do que precisam?
- Bom dia, hã... viemos só tratar os nossos Pokémon. Os dela parecem bem, só cansados de batalhas, mas meu Tyrogue tem um ferimento feio causado por um Spearow, pode dar uma olhada?
- Sua identificação, por favor?
Kristen depositou a mochila no balcão e retirou do meio de sua bagunça – com certa dificuldade – um pequeno cartão vermelho e branco plastificado, que entregou à enfermeira. Ryla simplesmente guardara o dela num pequeno bolso lateral e não teve dificuldades em retirá-lo.
O cartão lhes fora entregue na sua admissão. Os treinadores iam ao local credenciado pela Elite Four mais próximo e podiam escolher entre pagar uma pequena taxa para receber um dos Pokémon iniciais do país ou levar seu próprio Pokémon, tendo ele de estar no seu primeiro estágio evolutivo e não ser superior ao level 5, além de obrigatoriamente manifestar interesse de estar ao lado do treinador.
Para medir o level, era feito um teste de seus DVs e, em seguida, diversos testes bioquímicos e de desempenho bastante simples. O treinador podia ter acesso gratuito aos testes aos demais, mas era necessário pagar uma taxa maior se quisessem acesso aos DVs de seu Pokémon.
Sendo admitidos, eles recebiam um cartão oficial da Liga correspondente ao país, que continha impressas apenas informações pessoais de identificação e emergência – foto, nome completo, cidade natal, tipo sangüíneo, data de nascimento e o local e data de emissão do documento.
Porém, quando inserido no hardware correspondente, ele dava um verdadeiro histórico detalhado do treinador. Ali havia a espécie de seu inicial e todos os Pokémon capturados eram registrados assim que o treinador os curava num Centro Pokémon próximo. Ginásios da Liga, lojas e diversos outros estabelecimentos também faziam registros no cartão do treinador.
Em poucos instantes, a menina conferira no computador as duas identificações e havia dado a volta no balcão, carregando consigo uma bandeja de pequeno porte com seis furos esféricos do tamanho perfeito de Pokébolas.
- Por favor, depositem suas Pokébolas aqui.
Kristen e Ryla colocaram seus Pokémon devidamente guardados sobre a bandeja e Alice assobiou, no que um enorme ovo róseo com avental e chapéu de enfermeira surgiu pelo corredor, trotando alegremente. Ryla soltou uma exclamação de alegria.
- Chansey!
Kristen notou que os olhos dela brilhavam quando o Pokémon-enfermeira fez o caminho inverso pelo corredor. Alice ajeitou os óculos e sorriu, tornando a se sentar.
- Podem se acomodar, alguém virá avisá-los de tempos em tempos sobre o estado dos seus Pokémon.
Kristen agradeceu e ele e Ryla sentaram-se lado a lado na última fileira de cadeiras, afastados da televisão sem som que passava algum programa matinal que mostrava Pokémon ajudando numa enorme lavoura.
Menos de dez minutos depois, ele e Ryla haviam trocado apenas poucas palavras quando a porta se abriu e um menino muito gordo entrou. Ele era pouca coisa mais alto que Ryla, mas possuía uma papada tripla sob o queixo e os punhos semelhantes a imensas peças de presunto. As cordas de sua mochila gigante estavam tensionadas ao máximo e ele se aproximou, respondendo com um seco “bom dia” aos cumprimentos animados de Alice, depositando, sem mais palavras, suas quatro Pokébolas e a identificação sobre a bandeja e se sentando algumas fileiras à frente de Kristen e Ryla.
Ele retirou da mochila um videogame portátil e um pacote de salgadinhos cuja mastigação era bastante barulhenta. No instante seguinte o telefone de Alice tocou. Ela trocou poucas palavras com quem a chamara e então se levantou, dirigindo-se sorridente até a última fileira; Kristen pôs-se de pé.
- Seus Pokémon parecem muito bem cuidados, parabéns. A médica que está atendendo disse que o Cyndaquil é ainda muito pequeno, mas que parece saudável. Apenas o Tyrogue teve de levar alguns pontos no ombro, mas a doutora acredita que daqui a algum tempo não restará nem cicatriz. Dentro de alguns minutos, eles virão até vocês.
Kristen enchia a mulher de agradecimentos quando a porta abriu mais uma vez e um adolescente pálido de olhos verdes muito penetrantes entrou trajando uma quantidade de casacos que, somada, devia pesar mais do que ele mesmo.
Ele olhou friamente de canto de olho para Kristen e Ryla quando passou, mas ignorou-os, se dirigindo ao balcão e esperando a enfermeira, que se desculpou com Kristen e Ryla e correu a atendê-lo. Ele fora muito mais gentil que o gorducho, trocando algumas palavras e colocando sua única Pokébola sobre a bandeja junto com a identicação. Quando se dirigiu às cadeiras, porém, fez cara de surpresa ao ver o jovem rechonchudo maltratando as teclas de seu portátil com os dedos oleosos.
- Hey, Karui!
O rapaz sentado ergueu os olhos e apertou a mão dele alegremente, arrastando as nádegas para a cadeira do lado para que o companheiro pudesse se sentar.
- Clarion, não esperava vê-lo por aqui tão cedo.
- Pois é, decidi cortar caminho pela floresta, se andar pelo asfalto quase não encontro Pokémon. Como vai a jornada?
- Recheada. Peguei três novos durante a semana. Acontece que...
As palavras deixaram de fazer sentido para Kristen e Ryla quando vinham pelo corredor Tyrogue, Eevee e Cyndaquil agarrado ao pêlo deste último, todos fazendo festa para seus treinadores. Kristen e Ryla levantaram-se da cadeira, acariciando seus Pokémon e Kristen notou que Alice vinha logo atrás com uma folha branca nas mãos.
- Mais uma vez, parabéns pelos seus Pokémon. Caso não tenham identificado o sexo do Cyndaquil ainda, o teste está nessa folha, assim como os índices bioquímicos de todos eles. Se vocês quiserem se consultar com o pesquisador da região, custa um valor bastante simbólico e vocês podem se informar melhor sobre o Pokémon que capturaram por aqui. O expediente dele começa dentro de uns quarenta minutos, assim vocês podem tomar um café enquanto esperam...
Ryla desta vez agradeceu sozinha, pois um carrilhão de palavras suspeitas desviaram a atenção de Kristen para os dois rapazes que conversavam animadamente sobre seus progressos.
- ...estou quase desistindo desse Totodile, bicho inútil. Me dei ao trabalho de passar quatro dias com ele só treinando, mas quando resolvo batalhar... ele me fez o favor de ser derrotado por uma Quilava prenha anteontem.
- Putz, que mancada!
Kristen cerrou os punhos perigosamente, pressentindo que não queria ouvir o que viria a seguir. Não reparou que agora até Ryla, a enfermeira e os Pokémon prestavam atenção.
- Mas eu também nem queria. Fêmeas não servem pra nada... achei que podia ganhar uma grana, já que eles são raros de achar na natureza. Sem falar que já é evoluído, talvez servisse para treinar o Totodile direito.
- É verdade... o DV de ataque é mais baixo, realmente não ia servir pra treinar. Mas talvez rendesse bons filhotes.
- Não tenho saco pra chocar ovos. O fato é que eu fui à forra com a desgraçada. Dei um bico nela, bem na barriga. Fiz ela voar longe. Aposto que cagou os filhotes na mesma hora.
Os dois complementaram a piada com uma sonora gargalhada, mas Kristen não parecia nada feliz. As duas meninas abriram a boca, chocadas com a crueldade declarada, mas Ryla sentiu um novo sentimento aflorar quando Kristen caminhou devagar na direção dos moleques: medo. Conhecia-o havia menos de 12 horas, mas algo dentro dela lhe dizia que não queria estar na pele do rapaz agora.
- Hey!
Clarion mal se virara quando as duas mãos de Kristen o agarraram pelos dois lados do colarinho com firmeza, arrancando-o da cadeira como se ele fosse um boneco de plástico. Kristen arrastou-o até a parede e suspendeu-o com as costas coladas a ela. Clarion sentiu a parte de trás da cabeça latejar, mas ainda não entendia o que estava se passando, só podia ver o rosto de Kristen a centímetros do dele.
- O que foi que você disse que fez com a Quilava?
- Senhor... deixe disso, por favor. – suplicou, desesperada, a enfermeira.
- Repita se você for homem. O que foi que fez com a Quilava grávida? – Kristen perguntou ameaçadoramente, ignorando completamente o pedido de Alice.
- Hey, vai com calma, cara, era só um Pokémon...
Kristen bateu a cabeça dele com mais violência ainda contra a parede e ele gritou de dor, no que seu amigo gorducho levantou-se da cadeira. Sem se virar, Kristen disparou:
- Fica sentado aí quieto, o próximo é você, assim que eu resolver a vida desse aqui.
- Calma, cara. – tentou argumentar Clarion – Você é treinador, eu também. Por que não resolvemos isso numa batalha?
Kristen atirou o jovem no chão. Sentiu uma vontade quase incontrolável de pisar na cabeça dele, mas não bateria em alguém indefeso caído no chão sem a menor necessidade.
- E o que te faz pensar que você merece guiar o seu Pokémon em mais alguma batalha?
No entanto, Kristen foi interrompido, desta vez por Tyrogue. Este se adiantou, berrando. Trazia uma longa gaze branca no ombro esquerdo e ainda deixava transparecer as discretas marcas dos arranhões no peito. Mas Kristen viu o ódio profundo nos olhos dele ao encarar o moleque derrotado caído no chão e não precisou de mais do que isso para compreender.
- Você está com sorte. Parece que meu Tyrogue quer lhe ensinar algo sobre como tratar os Pokémon.
Clarion olhou de rabo de olho para o Tyrogue, agradecendo profundamente por ter se livrado da surra, pelo menos temporariamente.
- Tá ok, cara. Mas você precisa prometer que não vai me bater se eu ganhar.
- Negócio fechado. Por outro lado... se você perder vai deixar seu Pokémon e sua identificação aqui e vai assinar um Termo de Desistência.
Clarion engoliu em seco. Termos de Desistência eram assinados por treinadores que desejavam abandonar sua jornada e podiam ser preenchidos em qualquer Centro Pokémon, onde tinham a opção de depositar seu Pokémon ou conservá-lo para outros fins, que não fossem as batalhas.
- Hey, pera aí. Não precisamos pegar tão pesado...
- Eu vou lá pra fora pra não arrebentar a sua cara agora mesmo. Você tem quinze minutos para sair pronto para a batalha ou eu vou te arrastar pela orelha a pé daqui até a sede da Liga.
Kristen deixou Clarion caído no chão e se dirigiu a passos firmes para a saída, acompanhado de perto por seu Tyrogue. No caminho, ele afundou o cotovelo no rosto do gorducho complacente, que despencou ruidosamente para trás com a mão sobre a boca, que agora era uma apenas bolha de sangue.
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