Pokémon - Reconquest

22 Capítulo 20: Passado


Notas iniciais
Fala, pessoal. Estou de volta depois de um mês bastante turbulento. Entre vários afazeres, tive a semana do meu aniversário (na qual passei 90% do tempo bêbado), mas agora estou de volta e espero que com força total. XD
Forte abraço e boa leitura.

James mal se moveu quando ouviu a pesada porta começar a se abrir. Mantinha os dedos entrelaçados e os cotovelos apoiados sobre a mesa. Ela era prateada e quadrada, tão polida que ele podia encarar seu rosto maltratado no tampo. De onde estava sentado, James encarava diretamente a porta do outro lado da sala e havia uma cadeira vazia idêntica à sua – também totalmente prateada – posicionada daquele lado da mesa. Assim como a mesa, todo o restante da saleta – paredes, teto, chão e porta – era prateado e brilhante, o que poderia causar um efeito abusivamente claustrofóbico num prisioneiro sozinho por horas.

“Se eles tivessem idéia do quanto a loucura faz parte da minha vida, não tentariam essas táticas patéticas.” Pensou consigo mesmo enquanto estalava o pescoço e ouvia as correntes retinirem.

A sala tinha exatos oito metros medidos entre quaisquer paredes e dois metros e quarenta do teto ao chão. As únicas manchas no visual prateado eram as quatro câmeras distribuídas pelos vértices superiores do cômodo. Ele sabia, porém, que apenas uma delas funcionava. Seria custoso demais manter tantas câmeras funcionando em todas as salas de interrogatório e a maioria delas – como todas as outras coisas presentes na sala – estavam ali para exaurir a mente de um interrogado, fazê-lo se sentir vigiado, pressionado, fazê-lo pensar que não tinha escolha a não ser colaborar.

- Estava me perguntando quando você ia aparecer. – disse simplesmente quando a pesada porta se fechou e sua companhia se sentou silenciosamente à outra cadeira.

A primeira coisa que Kristen reparou foi que não havia mais traço de triunfo ou de orgulho em sua voz. Nem mesmo o fanatismo comovido que ele empregara às palavras quando tentara recrutar o próprio Kristen daquela maneira desastrosa em Violet City. Também não havia temor nem nenhum sinal de desespero; ele apenas parecia entediado e agia de forma fria e impessoal.

- Eu provavelmente não viria. – disse Kristen, igualmente desprovido de emoções – O Delegado Baromy não quer que ninguém chegue perto de você. Parece que ele pensa que você pode matar alguém com uma caneta, um fio de náilon escondido no cabelo ou algo assim.

Percebendo que Kristen estava brincando com ele propositalmente para descontrair o clima, James levantou a cabeça e encarou-o. Notou que ele sorria, provavelmente satisfeito com o fato de James ter terminado preso, apesar de tudo.

Ele não entendia. Não entendia o quanto aquilo tudo era necessário. Achava que James era apenas mais um fanático. James desejou não ter as mãos e os pés atados por dolorosas e pesadas correntes.

- Particularmente – como não havia resposta, Kristen continuou –, eu fiquei ofendido com isso. Estivemos cara a cara em cima do Charizard e eu, mesmo sem o menor hábito de lutar num solo daquele, acabei com você. Na verdade, tecnicamente foi um empate. – Kristen complementou com um sorrisinho – Mas me dê um desconto, eu tinha uma grande desvantagem. No nosso último encontro, eu dei fim a qualquer dúvida, te derrubei bem rápido. Achei que Baromy-san fosse me dar algum crédito.

Ambos se encararam firmemente por vários segundos. James sabia que essa batalha mental ia se arrastar por quanto tempo ele ficasse por ali. Descontrair para checar o nível de desconfiança do interrogado para com você, em seguida provocar e, caso não desse resultado, ofender com o objetivo de chocar para que ele respondesse alguma coisa – qualquer coisa – e aí o elo estaria firmado, abrindo espaço para outras perguntas. Raciocinando dessa maneira, pareciam táticas avançadas de interrogatório, mas James sabia que essa era a metodologia instintiva de toda pessoa que quisesse informações de outra, desde adolescentes querendo arrancar permissões de seus pais até agentes secretos interrogando terroristas.

Decidiu espontaneamente que não tinha paciência para esperar todo aquele processo se desenrolar e, após pensar por uns segundos, descobriu que não tinha motivo algum para ignorar Kristen sem nem sequer saber o objetivo real de sua visita. Talvez ele mesmo pudesse sair dali com alguma informação, afinal de contas.

- Claro que você luta melhor que eu. Não sei se parou pra pensar, mas há anos ninguém derrota você num torneio oficial, onde as pessoas treinam pra isso. Eu nem mesmo sou um lutador. Veio aqui só pra zombar da minha cara por eu não conseguir te acertar nenhuma vez? Francamente, você já derrubou caras melhores que eu em situações mais complicadas que aquele Charizard.

Kristen exibiu um sorriso travesso. James sabia que ele estava comemorando pessoalmente sua breve vitória e que era a vez d’ele ficar calado por uns segundos, insinuando que não estava desesperado por aquela conversa. Previsível como qualquer pessoa.

- Aquele seu chute em cima do Charizard quase me pôs numa cadeira de rodas. – disse James, dando continuidade ao estudado contato – O médico disse que foi por muito pouco que eu não tive danos numa vértebra. Até pouco tempo atrás ainda doía, embora agora eu tenha outras dores pra me preocupar. – acrescentou, passando a língua obscenamente sobre os dentes partidos.

- Precisa concentrar sua guarda em cima. – disse Kristen, apontando para o rosto dele à guisa de professor – Os melhores artistas marciais da história chegaram todos à mesma conclusão: não vale a pena minar os braços bloqueando golpes no meio ou embaixo. Você pode treinar incansavelmente seus músculos do tronco e da perna e eles logo estarão bem mais resistentes que seus próprios braços. Então você os sacrifica quando precisa defender algo que não pode ser treinado com muita eficiência...

- ...o rosto. – interrompeu James – É, eu sei. Um dos meus trabalhos antes de tentar te recrutar foi pesquisar sobre sua vida. Eu já vi você dizer algo parecido na TV.

A conversa novamente cessou por uns instantes. Ambos se olharam nos olhos, estudando-se por pouco mais de quarenta segundos. Desta vez foi Kristen que interrompeu o gelo:

- Vai gostar de saber que o Meowth provavelmente vai sobreviver... embora não sem algumas seqüelas.

Kristen não pôde deixar de notar que, pela primeira vez desde que o conhecera, James desviara o olhar. Corrigira o movimento a tempo; foi breve, mas Kristen havia encontrado a brecha.

- A médica mencionou algo sobre os ossos dele serem frágeis ou qualquer coisa do tipo. Ele tinha mesmo comentado comigo que tem osteoporose, agora que estou lembrando... Enfim, parece que aquele chute concentrado mais o impacto d’ele ter rolado e quicado várias vezes no chão causou lesões irreparáveis em pelo menos três patas. Praticamente não sobrou nenhuma costela inteira, sendo que duas perfuraram pulmões (a médica deu um jeito nisso) e também teve traumatismo craniano leve. Mas o que é realmente grave é que ele tem uma série de lesões na espinha e ela disse que é praticamente impossível solucioná-las na idade dele. Sinto muito.

James não sabia se o que o irritava mais era o fato de não sentir o pesar que deveria pelo estado crítico de um de seus mais antigos amigos ou se era a sinceridade de Kristen ao lhe comunicar os pêsames. Ele parecia realmente se importar com o estado de Meowth.

- Eu devo... dar algum recado a ele se ele acordar? – perguntou Kristen, um pouco hesitante.

- Você é um lutador bem incomum, Kristen. – zombou James.

- Escuto isso desde criança. – respondeu Kristen em tom melancólico – Várias pessoas já me disseram isso e cada uma delas queria dizer uma coisa diferente. Exceto jornalistas, eles são quase todos iguais... Você, a que se refere?

- Mesmo não sendo muito pesado (diria até que você é magro para um lutador), você é absurdamente forte pra sua categoria. Chega a ser engraçado ver os caras arriando com um ou dois socos bem encaixados só. Você, sem dúvidas, é o cara mais rápido que já conheci. Provavelmente o mais técnico também. E, apesar de todas essas qualidades, nenhuma delas é o grande segredo das suas vitórias.

- Hum. Muitas pessoas já tentaram analisar minha maneira de lutar. Em geral, essas análises são genéricas demais para ter utilidade ou completamente erradas. A sua está entre as primeiras.

- Eu não terminei. Você não é um campeão mundial tão novo por causa da sua força ou da sua agilidade. Nem mesmo por causa da sua técnica. Tudo isso é um monte de merda.

- Você acha então que é sorte? – perguntou Kristen, parecendo se divertir.

- Não. Você é um moleque esperto. Você brinca com seus oponentes. Deixa eles baterem a esmo enquanto estuda o que eles fazem e só move um músculo além do necessário quando tem certeza de que vai atingi-los. Você também é esperto o bastante pra não torrar a sua fortuna explodindo o nariz com coca ou transando com vinte garotas por noite. Você é esperto o bastante pra não lutar pelo dinheiro. Quando você possui um objetivo puro e livre de intenções extras, isso gera um foco. Quando você tem determinação suficiente para se prender unicamente a esse foco, nada pode te deter.

- Devo reconhecer que é uma análise original. Mas eu não brinco com meus oponentes. Eu os respeito.

- Não disse nesse sentido.

- Eu entendi o que quis dizer. – Kristen inclinou a cabeça sobre a mesa, excluindo qualquer traço amistoso de sua voz e estreitando os olhos de forma ameaçadora – O Delegado Baromy me devia um favor. Eu não gastei esse favor pedindo pra entrar aqui pra ficar discutindo minhas qualidades como lutador. Eu preciso de respostas.

James exibiu seu sorriso enviesado. Finalmente ele mostrara as garras.

- Você tem o Meowth, paralisado e sob seus cuidados. Ele tem a memória muito melhor do que a minha e tem menos possibilidades de resistir. Além do mais, duvido que tenha salvo a vida dele sem ter a intenção de...

- Salvei a vida dele porque ela corria perigo. – esbravejou Kristen, interrompendo-o grosseiramente – Se ele colaborar comigo, ótimo. Mas se não colaborar, eu irei fazer o que for possível por ele do mesmo jeito.

- Engraçado ouvir isso de alguém cujo próprio Pokémon o colocou nesse estado.

- Durante a batalha. Durante a batalha, você não deve medir forças. Eu aprendi assim e ensino assim a todos os meus alunos; Tyrogue não seria uma exceção. Mas quando acabou, acabou. Não há motivo para pisar num oponente caído.

- Belas palavras. – debochou James – Ficariam lindas num filme do Jing Wu. Na vida real, não passam de besteira. Se fôssemos nós os vencedores, eu e Meowth não hesitaríamos em laminar as gargantas de vocês só pra evitar problemas futuros.

Kristen se levantou repentinamente, espalmando as duas mãos no tampo da mesa e afastando a cadeira para trás vários centímetros. Seu rosto agora estava um nível acima do de James e distante do dele apenas trinta centímetros.

- Vocês costumavam ser bons. Ash Ketchum descreveu vocês como boas pessoas mais de uma vez.

- Amnésia. – James deu de ombros, agora olhando para cima – Provavelmente. Afinal, antes de fazermos isso, nós tentamos roubar o Pikachu e outros Pokémon dele algumas centenas de vezes. Sem falar no tanto em que tentamos machucá-lo, prendê-lo ou das táticas digamos... pouco delicadas que testamos para pôr as mãos naquele rato amarelo maldito.

- Vocês seguiam aquela ideologia distorcida da Equipe Rocket. Mas, mais de uma vez, quando as coisas realmente saíram de controle, vocês se colocavam ao lado dele. Ajudaram a colocar aquele crápula do Giovanni atrás das grades. Agora vocês me aparecem representando uma organização que leva o nome de Ash no nome, mas contraria cada palavra que ele deixou de legado sobre as relações entre humanos e Pokémon. Não tente me fazer acreditar nessa sua máscara de vilão cruel; eu não sou idiota! Quero saber o que há por trás de tudo isso.

- Quem disse que levamos na roupa apenas seu nome? – perguntou James com ar divertido – Você está fazendo suposições demais. Eu disse que era esperto, mas tente não deixar esse elogio subir demais à cabeça.

Kristen encarou-o firmemente durante alguns segundos. Percebendo que ele sustentava seu olhar sem ceder uma fibra sequer, puxou a cadeira de forma irritadiça e tornou a se sentar.

- Você vai querer me convencer de que Ash Ketchum está envolvido nesse negócio de FLAK? Que não são só um bando de malucos usando o nome dele estampado na camisa, por causa de alguma visão de mundo distorcida? Conta outra.

- Eu mudei, não foi? Meowth mudou. O que te faz pensar que Ash Ketchum é imune a mudanças? Até mesmo você mudou.

- Do que está...?

- Pense. Hoje, quando acorda de manhã, quando fala com alguém... principalmente, quando entra no ringue: você se sente a mesma pessoa de quando seu pai estava vivo?

Kristen ficou mudo. Sentiu algo ruim crescer dentro de seu peito; algo que ele sabia que não podia combater.

- A distorção é uma questão de ponto de vista. Você acha que a nossa visão é distorcida, nós achamos que a sua é que é. Não importa quem você é nem no que você acredita. Se você perde alguém importante de forma injusta, a sua visão de mundo pode muito bem parecer distorcida às outras pessoas que vivem sorridentes, sem mágoas do mundo.

Então Kristen compreendeu. Desconfiara de inúmeras possibilidades desde sua conversa com Meowth, mas agora tinha um palpite certeiro.

- Jessie. – disse, simplesmente – Então ela realmente...

Mais nenhuma palavra foi necessária para que James compreendesse o rumo que a conversa estava levando. Baixou os olhos para a mesa, montando no rosto uma expressão amarga de ódio desmedido.

- O que aconteceu? – perguntou Kristen, agora livre de sua irritação anterior.

- Não somos amiguinhos de escola conversando no recreio, Kristen. Não pense que vou sair te contando meus segredinhos só porque fez uma boa suposição.

- Você não entende, James.

- Você é que não entende, moleque. Pode sentar aí e ficar tentando me convencer com joguinhos psicológicos o quanto quiser, mas eu não vou dizer mais nenhuma palavra. Não vou lhe dar nenhuma informação que possa ajudar a polícia. Se vou ser executado, minhas informações vão comigo pro túmulo e tenho certeza de que Meowth pensa como eu.

Kristen ponderou por um instante. James agora se recusava a encará-lo, voltando seu rosto para o tampo da mesa em definitivo. Durante quase cinco minutos inteiros, Kristen esperou, mas ele não disse nenhuma palavra nem fez nenhuma menção de querer mudar de posição.

- Sabe... – começou Kristen, dando sua última cartada – Meu pai, já bem antes de ficar doente, costumava dizer que as pessoas não morrem no seu funeral. Todo ano visitávamos o túmulo da minha mãe com ele e minha irmã se queixava. Ele então dizia que as pessoas morrem quando ninguém mais fala sobre elas.

Atingido como se Kristen tivesse lhe socado o estômago, James arregalou os olhos. Torcia as mãos no colo dolorosamente, segurando as lágrimas. Não podia deixar sua fraqueza transparecer. Não podia deixar seus motivos expostos, pois a FLAK também estaria exposta. Aquilo era crucial.

- Você e Meowth têm evitado falar sobre isso e as coisas saíram de controle. Eu não vim aqui pra julgá-los, apenas pra ouvir as suas histórias. Você será executado e nem eu nem ninguém podemos fazer nada para impedir isso. Meowth também não tem muito tempo. Documentos, colunas de jornal e até livros serão escritos sobre os desastres que vocês causaram; vocês continuarão vivos ainda por muito tempo, na memória de muita gente. Mas e Jessie? – uma breve pausa para observar a tristeza cada vez mais pesada no semblante de James – A história dela morrerá com vocês. Ela morrerá com vocês. Não tenho o direito de lhes pedir para trair sua organização, por mais que eu queira desmascará-la. Tudo que eu quero saber é o que houve com Jessie. Alguém precisa portar a história dela para mantê-la viva e, aparentemente, eu sou o único que se interessa.

Decidindo-se por dar um basta em toda aquela vulnerabilidade, James tornou a encarar Kristen, sem disfarçar o ódio repugnante em seu rosto. Não queria admitir nem para si mesmo, mas, no fundo, tomara aquela decisão também por concordar com os argumentos de Kristen.

- Muito bem. Afinal a história de Jessie nada tem a ver com a FLAK. Vou lhe contar o que houve, mas se carrega qualquer esperança de que isso te ajude a derrubar a FLAK, você está muito enganado...

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Muitas horas depois, um Kristen absolutamente transtornado cruzou as portas do Centro Pokémon. Mesmo com o saguão lotado, poucas pessoas lhe prestaram atenção, ocupadas que estavam com a televisão muda ou com os próprios Pokémon. Ele avançava quase às cegas até as portas laterais que levavam aos quartos de recuperação, completamente desnorteado, agindo como se tivesse sido nocauteado pela primeira vez em sua vida.

Antes que dobrasse qualquer corredor, percebeu alguém que vinha em sua direção. Forçando-se a se concentrar, notou que era Ryla; apenas viu de relance, como numa foto borrada em preto e branco, quando o rosto esperançoso dela se aproximou. O sorriso dela imediatamente acalmou-o. Ele relaxou os músculos e retribuiu o abraço, sentindo a cabeça dela descansar sobre seu peito.

- Ele está bem. Kris, ele está bem! — ela separou-se dele, enxugando as lágrimas com o dorso da manga roxa – Joy-sama disse que ele vai ficar ótimo!

Kristen não processava direito ainda as informações. Olhou abobado para ela por uns trinta segundos antes de conceber o que significavam suas palavras. Quando finalmente entendeu, esboçou um sorriso que, evidentemente, não era o bastante para ocultar sua melancolia.

- Aconteceu algo, Kris? – perguntou Ryla, imediatamente estranhando a reação desproporcional.

- Nada... – desconversou Kristen de forma pouco convincente – Me conte sobre os Pokémon agora.

- Ah... estão ótimos. – respondeu Ryla, novamente sorridente – Todos respondendo maravilhosamente bem ao tratamento. Eu nem tinha idéia de que Kin fosse veterinária, muito menos que fosse tão competente assim! E a melhor notícia: parece que deu tempo de salvar cem por cento da visão do Tyrogue!

Pela primeira vez desde o início da breve conversa, Kristen pareceu interessado no que Ryla tinha a dizer. Encarou-a nos olhos, subitamente concentrado na conversa.

- Me mostre o caminho do quarto dele.

Ryla tomou Kristen pelo braço, ganhando os corredores à frente dele, ainda tentando entender sua atitude estranha e distante.

- Também preciso falar com Kaya. Onde ela está?

- Hã... ela e Kin saíram assim que os Pokémon todos dormiram. Kaya reclamou das instalações do Centro Pokémon e foram procurar um hotel ou algo assim.

- Pff... e você caiu nisso?

- Como assim? – perguntou Ryla, franzindo as sobrancelhas e olhando-o por cima do ombro.

- Elas duas passam dois terços do ano acampadas no mato, dormindo em barracas e tomando banho em riachos. Acha realmente que tem algo de errado com o quarto? Nah, essa foi uma péssima desculpa, até mesmo pra Kaya.

- Mas elas realmente foram prum hotel! – protestou Ryla – Kin até deixou o número do quarto comigo, caso eu precisasse de algo.

- Eu nunca disse que elas não iriam para um hotel... só disse que o quarto do Centro Pokémon não tem nada a ver com isso.

- Então por que diabos elas foram pra lá!? – perguntou Ryla, parando de andar.

- Delegado Baromy comentou comigo que deu férias pra Lucy-chan. – comentou Kristen num tom enigmático, fazendo sinal para que continuassem a andar enquanto conversavam – Quinze dias em casa ou coisa assim. Pra que ela se recuperasse do trauma...

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Completamente perdida, Lucy sentia seu corpo imerso num profundo dilema: por um lado, achava que não agüentaria mais um segundo daquela intensidade insana e, por outro, sentia-se simplesmente incapaz de parar.

Fazia um calor anormal em Cherrygrove, de modo que haviam dispensado sem cerimônias as roupas de cama, atirando lençóis, cobertas e até mesmo travesseiros ao chão, ao lado da gigantesca cama, que poderia abrigar, com folga, mais duas ou três pessoas além delas. As três toalhas encharcadas estavam amontoadas ao pé da banheira-piscina sob a janela, denunciando que haviam sido arrancadas às pressas e atiradas ali de qualquer jeito.

Um observador externo teria imensas dificuldades em distinguir quem era a dona de quais pernas e braços.

- Continue, Kin! Não pare! – gemia Kaya, com a voz extasiada e os cabelos grudados nas costas.

Em resposta, Kin encaixou mais fundo a cabeça entre as pernas escancaradas de Lucy e acelerou os movimentos que fazia com a língua. Segurava firme suas coxas e apertou-as com mais força do que antes.

Lucy gemeu de forma exagerada, mas sua voz foi abafada pela pélvis de Kaya, que movia o quadril compulsivamente, sentada sobre o rosto dela enquanto apertava e alisava seus seios com as duas mãos.

As três já estavam naquela posição havia vários minutos e não demorou para que Lucy não pudesse controlar mais o clímax. Notando os tremores característicos, Kaya saiu de cima dela, deitando-se ao seu lado e mergulhando de boca aberta sobre um dos seus seios. Gostava de ouvir os gemidos.

Não demorou mais do que uns segundos para que ela atingisse mais um orgasmo – o terceiro da noite. Provavelmente também o mais intenso, já que nem Kin nem Kaya abandonaram seus postos após os primeiros gemidos, fazendo-a sentir-se inundada por ondas múltiplas e consecutivas de prazer.

Quando finalmente a deixaram em paz, Lucy mal conseguia controlar a respiração. Sua garganta ardia e seu coração batia tão forte que ela sentia que ele ia grudar nas costelas, mas ela achava que provavelmente nunca se sentira tão relaxada em toda sua vida.

Olhou de relance quando Kin pulou selvagemmente sobre Kaya, deitando-se em cima dela de forma invertida. A cabeça de Kin estava colada ao quadril de Kaya, ambos bem próximos dos joelhos dobrados de Lucy. O contrário acontecia a centímetros da cabeça da policial, mas ela mal registrou; ainda tentava reorganizar os pensamentos.

Lucy nunca sentira a menor atração por mulheres. Sequer considerara beijar alguma de suas amigas quando isso era moda na escola, dirá estar na cama com uma – ou duas – garotas depois de ser uma adulta com a personalidade supostamente formada. Kin e Kaya eram absolutamente estranhas para ela e Lucy não tinha estado nem mesmo com um homem desde que perdera Dan. Não havia nenhum motivo lógico para ter aceitado aquele convite; a única certeza de Lucy era que havia feito muito bem em seguir seus instintos dessa vez.

Com as energias um pouco recuperadas, ela se virou de lado, introduzindo sem aviso dois dedos na vagina mais próxima, dividindo espaço com a língua de Kaya. Kin ofegou por um segundo, mas logo entendeu o que acontecia e controlou seu espanto, tornando a se concentrar no que fazia.

Quinze minutos depois as três estavam largadas na espaçosa cama, respirando fundo na tentativa de fazer os sinais vitais voltarem ao normal. Kin se ajeitou, alinhando-se em relação às outras duas. Deitou-se sobre Lucy, beijando-a sem aviso e procurando seus seios com uma das mãos, enquanto se apoiava no outro braço. Kaya mordiscou o pescoço da irmã e sussurrou:

- Divirtam-se. Eu vou tomar banho primeiro.

Sem se dar ao trabalho de se vestir, Kaya caminhou até o aparelho de ar condicionado na parede mais próxima. Pressionou o botão para ligar e girou o regulador até a temperatura de vinte e um graus Celsius. Quando ela entrou no banheiro, Kin já estava novamente em cima de Lucy e as duas gemiam compulsivamente.

Kaya fechou a porta para abafar os ruídos provenientes da cama e ligou as duas torneiras centrais da banheira individual, ignorando as outras oito. Em seguida, encarou a própria imagem desgrenhada e nua no espelho que ia do teto ao chão ao lado da porta, produzindo um efeito assustadoramente cômico. Permitiu-se um sorriso de satisfação ao notar que estava em perfeita forma, como sempre.

Puxou uma das inúmeras toalhas penduradas na barra acima da pia e enxugou o suor do rosto enquanto colocava a ponta de um dos pés dentro da água para experimentar sua temperatura. Descansou a toalha e reduziu o fluxo da torneira da esquerda, mas não esperou a água esfriar; entrou e se recostou confortavelmente sobre o plástico trabalhado.

Duas banheiras – uma delas coletiva –, vinte e quatro toalhas, cama gigante com colchão de mola, frigobar recheado de vinhos e uísques, decoração digital e paredes com isolamento acústico para manter a privacidade. Até que a suíte máster era satisfatória naquele fim de mundo.

Embora possuíssem habilidades marciais invejáveis e treinassem desde pequenas como Kristen, as irmãs não haviam construído carreiras bilionárias em torno da indústria da luta. Apesar disso, dois terços da herança de um homem que passara boa parte da vida como membro da Elite Four e administrador da mais importante academia de artes marciais humana e Pokémon do mundo era uma quantia que as deixava despreocupadas.

Assim como Kristen, as duas irmãs possuíam gastos controlados e bastante esporádicos, considerando-se que eram jovens que dispunham de fortunas livres de burocracias: gastos comuns com alimentação e saúde dos Pokémon e delas próprias, além de pequenas bobagens que compravam por onde passavam. Ficavam acampadas a maior parte do tempo, embora se permitissem exceções como aquele hotel quando estavam acompanhadas – o que era razoavelmente freqüente.

A única extravagância fixa de Kaya era a pequena empresa sem fins lucrativos fundada em nome dela e de Kin, chamada K&K. Kaya era leitora compulsiva e devorava romances e livros de história em velocidade espantosa. Evidentemente não podia carregá-los consigo e a única função da empresa era correr até as gêmeas quando Kaya fazia uma ligação, recolhendo seus livros e levando-os até sua enorme biblioteca pessoal, ao norte de Mahogany Town. Entre diversos veículos (carros, motos e uma caminhonete) e mais de quarenta funcionários, a empresa possuía filiais em todas as grandes cidades de Johto e estava se expandindo para Kanto.

Ambas eram pesquisadoras bastante conhecidas em suas áreas – Kaya era considerada uma das melhores historiadoras da Antiga Humanidade época – e suas publicações saíam com intervalos de semanas ou meses, mas geravam renda suficiente para cobrir seus gastos, mantendo suas economias milionárias mais ou menos estáveis.

Debaixo da água morna, Kaya começava a fantasiar a possibilidade de voltar e se juntar às demais na cama, mas sabia que Kin gostaria de um tempo a sós com ela; era sempre assim.

Diferente de Kin, a própria Kaya nunca havia transado com um homem e não sentia a menor vontade de experimentar. Sabia que era apaixonada pela irmã desde criança e ainda se lembrava, como se fosse um sonho bom, do dia em que Kin tomara a iniciativa para aquele relacionamento, na adolescência de ambas. Depois de mais de dez anos daquele amor nada ortodoxo, ambas continuavam tão unidas quanto era possível, juntando, sempre que possível, uma terceira mulher à cama delas.

Após vários minutos de profundas reminiscências, Kaya deixou a banheira, apanhando outra toalha virgem e passando a se secar com bastante cuidado. Enrolou o cabelo na mesma toalha e saiu do banheiro, recebendo com prazer o baque do ambiente refrigerado.

Ainda completamente nua, caminhou até o outro lado da cama, driblando a mesa redonda de jantar e a roupa de cama caída. Lucy estava jogada sobre a cama com as pernas e os braços abertos e Kin lha abraçava pelo peito. Ambas estavam descobertas e profundamente adormecidas. Kaya se abaixou e abriu o zíper da própria mochila de viagem, devagar para não acordá-las. Revirou roupas, plástico de barraca e dois livros até encontrar o que procurava: um pequeno saco plástico preto e lacrado.

Ela apagou as luzes do quarto e se sentou sobre a mesa, de costas para a cama, e depositou o saco ao lado de um dos pratos. Puxou a corda do castiçal, acendendo pequenas lâmpadas que davam a impressão bem realista de velas acesas. Ela desfez o nó de marinheiro habilmente, virando seu conteúdo sobre a mesa: uma pequena caixa redonda decorada com pinturas artísticas de vários Pokémon de planta, um pequeno saco plástico transparente que continha várias folhas de uma planta minúscula, um isqueiro, um rolo de papel bem fino e um pequeno palito de madeira.

Ela abriu a caixa em duas metades, revelando que ambas eram internamente revestidas por algo que lembrava pequenos dentes. Rompendo o plástico da planta com os dentes, ela despejou três folhinhas numa das metades e tornou a fechar a caixinha. Fez um novo nó no plástico e rodou as metades da caixinha em sentidos opostos durante vários segundos, produzindo um zumbido baixo que lembrava uma serra de madeira de pequeno porte. Deixou a caixa sobre a mesa e destacou um pedaço de papel do rolo, colocando-o aberto sobre um dos pratos. Abriu a caixa e despejou a planta triturada sobre o vinco da seda, passando os dedos pelos “dentes” pacientemente, desgrudando até os menores pedaços. Segurou cada extremidade da seda com uma mão, rodando o papel até quase fazer desaparecer seu vinco. Deixando um dos lados mais proeminente, passou a língua nele pelo lado de dentro, grudando-o ao resto da seda e enrolando-a sobre si mesma bem devagar até formar um autêntico cigarro. Encaixou o palito num dos lados para regular a quantidade da planta e torceu o excesso de seda do outro, arrancando com o dente a ponta que se formou.

Kaya descansou o baseado e o isqueiro sobre o prato e guardou o restante dentro do saco preto. Tirou a toalha do cabelo, pendurando-a sobre a cadeira, apagou as velas artificiais, e andou até a janela próxima à banheira, recostando-se sobre o parapeito e encarando os contornos de Lucy e da irmã, ainda apagadas sobre a cama. Abriu uma fresta mínima na janela e levou o cigarro manufaturado à boca. Acendeu o isqueiro na outra ponta e inspirou com força para acendê-lo. Apagou o isqueiro e tragou mais duas vezes antes de descansar o braço do lado de fora da janela.

Sentia as coisas entrarem e saírem de foco e os músculos relaxarem enquanto refletia a grande ironia da situação. Desde antes da Antiga Humanidade, os homens ateavam fogo às plantas e aspiravam essa fumaça. A princípio, o faziam com motivações religiosas e, logo depois, passaram a notar que as prazerosas mudanças eram meramente fisiológicas. As sociedades conservadoras proibiam e coibiam o uso de várias drogas de toda forma que podiam, gerando todo tipo de preconceito e a proliferação de todo tipo de atividade criminosa. Era um dos vários aspectos sociais que Kaya lamentava que não tivesse mudado nada. Agora era realmente engraçado ela estar fumando plantas ilícitas no mesmo quarto que uma policial.

Kaya permaneceu vários minutos imersa em seu ritual pessoal de êxtase. Mantinha intervalos grandes entre uma tragada e outra, aproveitando-se da baixa volatilidade da droga. Fantasiava inúmeras perversões do mais alto nível e tinha certeza de que ia acordar Lucy e Kin assim que terminasse aquele cigarro para aproveitar suas energias renovadas. Foi desagradavelmente interrompida pelo compulsivo brilho arroxeado na lateral da mochila.

“Só pode ser brincadeira... bem no meio do meu baseado.” Pensou Kaya, apagando o cigarro pela metade na parede do lado de fora.

Prendendo o cigarro apagado entre os lábios e deixando o isqueiro no chão, Kaya se ajoelhou ao lado da mochila e sacou o moderno celular, colando-o à orelha enquanto segurava o cigarro com a outra mão.

- Kaya.

- Nossa, que irritada. – respondeu uma voz sedutora e divertida – Estou interrompendo alguma coisa?

- Um baseado recém-colhido e possivelmente a melhor foda do ano. Espero que valha a pena.

- Desse jeito vou ficar com ciúmes. – provocou a voz, ainda mais sedutora.

- Não fique chateada, sabe que Kin tem um fraco por virgens. E que eu tenho um fraco pelos fracos da Kin.

- Ora essa, sangue novo. Talvez possa convencê-la a vir com você.

- É, talvez. Falando nisso, espero que valha a pena. Onde você está e o que encontrou?

- Dessa vez, algo que interessa a você e à sua irmã numa tacada só. Algo bem grande. Ainda lembra de cabeça da tabela?

- De todas elas. – respondeu Kaya de forma arrogante – Mas de qual estamos falando?

- A dos tipos. O melhor geneticista que achei por aqui confirmou um fantasma/psíquico e eu datei algo entre três e nove milhões de anos, mas você é melhor nisso que eu. Cientistas ganham bem mal por aqui. Ele concordou em ficar de bico fechado por uma gratificação diária de trinta mil e o nome dele na metodologia em qualquer publicação relativa à descoberta, mesmo que seja como último autor. Espero que não fique chateada por eu ter fechado o negócio antes de falar com você...

Todo e qualquer resquício de mau humor evaporou em Kaya.

- Onde você está?

- Nesse exato momento? Na minha cama só de camisola, pensando em vocês duas...

- É sério, Tonya. – ralhou Kaya, embora sorrisse – Preciso saber em quanto tempo chego aí.

- Muito bem... Te espero no porto de Sinnoh que dia e a que horas? E o que eu devo vestir por baixo?

- Nada de portos. Vou voando, esse é o tipo de coisa que não pode esperar. Amanhã mesmo nos veremos.

- Aero-kun cobre essa distância toda em menos de um dia?

- Ele quebrou a asa. Vou ter que dar outro jeito.

- Ele foi derrotado? Como isso é possível?

- Longa história. Talvez tenhamos tempo de conversar amanhã.

- Espero que não. – provocou Tonya.

- Eu também. Te vejo mais tarde. Vá descansar.

Kaya encerrou a ligação e começava a discar outro número, quando notou movimentos na cama. Viu que Lucy se esgueirava por baixo de Kin para ficar livre sem acordá-la e não se surpreendeu ao vê-la fungar profundamente várias vezes.

- Que cheiro é esse?

- Folha madura de Exeggutor. Você quer? – perguntou Kaya, fazendo menção de estender o cigarro apagado para Lucy.

- Folha madura de Exeggutor? Mas isso é...

- É ilegal, eu sei. Talvez você precise de um trago antes de ouvir minha proposta pras suas férias.

- Mas eu não...

- Alô. – cortou Kaya, virando a boca para o telefone – Aqui é Kaya Jounochi, registro S-0638. Lamento por estar ligando a essa hora, mas é uma emergência profissional. Preciso do jato mais rápido que você tiver pra fazer o percurso Johto-Sinnoh. Eu estou em Cherrygrove nesse exato momento. Pra quando? Bom...

Kaya olhou demoradamente para Lucy e deixou transparecer um sorriso travesso diante da expressão confusa dela.

- Pode ser pra daqui a umas três horas. Não antes disso. Acomodações de primeira classe pra três pessoas, por favor. Sim, obrigado.

Kaya desligou o telefone e atirou-o sobre a mochila, apanhando o isqueiro antes de rastejar sensualmente pela cama. Lucy olhava para ela com expressão de quem nada estava entendendo. Kin começava a se mexer bem aos poucos.

- O que foi isso? – perguntou Lucy.

- Podemos falar das suas férias depois. – disse Kaya entre dentes, enquanto acendia o cigarro novamente – Eu e Kin detestamos aviões. Agora é sua função nos deixar cansadas o bastante pra pegar no sono assim que entrarmos naquela porcaria.