Pokerface
1 Pokerface
O olhar estava sempre sobre ele, ou pelo menos era o que parecia para o ansioso vampiro. Normalmente era como um comichão repentino na nuca, fazendo os pêlos se eriçarem e um arrepio inevitável se propagar pelo seu corpo.
No entanto, se tentava encontrar os olhos dourados nos seus, era apenas para descobrir que não estavam nele. Muitas vezes, seu dono estava sequer presente. Quando por acaso estavam um ao lado do outro à mesa, tentava captar seu olhar para saber o que era, mas tudo o que recebia era uma expressão perfeitamente calma e livre de qualquer emoção humana ou sobre-humana.
Aquilo deixava Drake louco.
Ele sabia que era Setzer. Sabia. Tinha certeza que o loiro propositalmente se deixava identificar e ainda assim nunca falava sobre aquilo, nunca demonstrava saber de alguma coisa.
Mesmo assim, quando menos esperava, algumas vezes quando talvezquemsabe ansiava, voltava a perceber que estava sendo observado, sentido. E aquele olhar era como uma carícia íntima, como um toque suave sobre a superfície da sua pele rígida, reconhecendo e tornando-se dono.
Uma parte de Drake aceitava aquilo como inevitável, como se fizesse parte dos seus desejos. Outra queria bravamente resistir, que não fosse assim, que Setzer o visse quando ele estivesse olhando de volta também, e não somente a seu bel-prazer.
Esse lado dele costumava andar de mãos dadas com o orgulho e teimosia, marchando impiedosamente por cima de qualquer outra tendência que ele pudesse vir a ter. Então ele continuava dando seu máximo para fingir que nada daquilo acontecia, que não havia olhares profundos sobre ele, por vezes, fazendo-o prender a respiração sem perceber. E nunca comentava sobre o assunto.
Seu autocontrole, no entanto, era infinitamente menor que o de Setzer. Não era incomum que ele voltasse a pensar sobre aquilo e sentir uma agitação estranha, como se o fogo que normalmente controlava com tanta facilidade estivesse dançando sem limitações dentro dele.
E como toda sensação inconveniente, ela tinha de acontecer no meio de encontros importantes. Afinal, era mais fácil que a mente de Drake se distraísse e perambulasse por regiões perigosas quando estava entediada e sem prestar atenção às conversas ao seu redor. E a consciência de que Setzer provavelmente sabia de tudo o que se passava pela sua cabeça só servia para agitá-lo ainda mais.
Mas a maldita expressão de calma e suavidade continuava fixa no mesmo lugar.
Drake ouviu uma risadinha afetada que teve o poder de imediatamente injetar na sua expressão toda a irritação que ele era capaz de produzir. Desviou os olhos brilhantes de raiva para o homem de cabelos acinzentados à sua frente, que o encarou de volta com olhar e sorriso divertidos. Parecia estar contendo o riso.
Havia se esquecido que tinha outra maldita pessoa com a maldita habilidade de ler pensamentos naquele maldito castelo.
Maldição.
Ele rosnou para Jack, que apenas alargou o sorriso zombeteiro. Drake sabia que Setzer estava olhando para ele, dessa vez apenas pacientemente esperando que se acalmasse ou fizesse besteira logo de uma vez.
Não foi necessário ocorrer nem um, nem outro, já que Magnus simplesmente deu um sonoro soco na mesa, fazendo com que ambos pulassem de susto. Quem estava falando era Bárbara, que olhou de soslaio para o Mestre do castelo, depois para o amante de cabelos brancos, mas logo continuou o que dizia, como se nada tivesse acontecido. Jack voltou a ficar quieto, mas com uma expressão levemente indignada, como se tivesse sido muito afetado pela rudeza do anfitrião.
Drake bufou, recostando-se rabugento na cadeira novamente, logo policiando-se para fazer uma expressão de tédio e não oferecer a satisfação de ser visto tão atrapalhado e consternado com aquela história toda. Setzer estava brincando com ele! Ele ia, ele ia…
Ele tinha plena consciência de que não iria fazer nada.
Setzer continuava calmamente prestando atenção no que era dito na reunião. Se o seu sorriso tinha um toque a mais de divertimento ou não, ele mesmo seria sempre o único a saber.
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