Pokémon - Reconquest
6 Capítulo 5: Vergonha
Notas iniciais
De pé diante das portas automáticas de entrada, Kristen sentia muita dificuldade em controlar sua raiva. Seus dentes tremiam e ele sabia que não era de frio. Suas mãos fechavam-se com tanta força que ele teria furado as palmas se tivesse unhas grandes.
Perguntava-se qual era o motivo de seu pavio ter ficado repentinamente mais curto. Desde criança, sempre fora o mais tranqüilo dentre todos os colegas em seus mais diversos meios sociais.
Sendo um lutador magricela com boas notas e que gozava da simpatia dos professores, sempre fora alvo das outras crianças para suas brincadeiras maldosas, mas ele sempre dava um jeito de escapar na conversa ou com alguma imobilização que não machucasse ninguém, mas que fosse suficientemente intimidante para que o deixassem em paz por uns tempos.
Mas e agora? Ele havia atirado no chão um homem que era décadas mais velho que ele, tendo que usar todo o auto-controle que possuía para não agredi-lo mais seriamente. Atacara um moleque distraído usando de intimidação barata.
Não precisou procurar muito para achar a resposta: era aquele comportamento subversivo em relação aos Pokémon, aquele tratamento que os transformava em objetos, era isso que o tirava de seu estado normal. Odiava profundamente todos os que achavam isso natural.
Mas o que realmente o incomodava naquele momento era o gorducho.
“Ele não fez nada.” – remoía Kristen em seus pensamentos – “Aquela risada dele foi odiosa sim, mas... ele não chutou ninguém. Ele apenas riu da piada de um amigo, talvez nem concordasse com aquilo. Por que eu bati nele se ele não fez nada?”
Para um artista marcial, toda e qualquer atitude deveria ter um propósito moral, mesmo que distorcido, mas que fosse fiel ao que se propunha seguir. Mas, por mais que ele lutasse contra o próprio sentimento de culpa e raiva, não conseguia limpar a mente o suficiente para racionalizar as coisas.
O fato é que ele provavelmente deformara os dentes do tal de Karui sem que este tivesse sido diretamente agressivo com ninguém. Aquilo não fora justiça, nem auto-defesa nem nada que valesse uma boa explicação. Não fora sequer vingança. Ele apenas havia extravasado sua raiva por meio de violência e isso o incomodava quase tanto quanto a Quilava que provavelmente havia morrido na floresta.
Ao seu lado, Tyrogue girava o braço direito com o semblante concentrado, num breve e determinado aquecimento. Kristen observou que ele tinha mais dificuldades em girar o braço esquerdo, mas guardou a informação para si, pois sabia que não devia enaltecer os pontos fracos de um lutador para ele mesmo antes do combate ou ele poderia acabar lutando de forma protecionista demais, o que era sempre um convite à derrota.
As portas se separaram e Ryla correu na direção de Kristen, parecendo bastante preocupada. Ele já não via sinal dos Pokémon, deduzindo corretamente que ela os recolhera.
- Kristen! – ofegou ela quando o alcançou – Por que fez aquilo? A enfermeira está em pânico lá dentro sem saber como estancar o sangramento do moleque. O outro rapaz pegou o Totodile dele de volta, está lá tomando coragem pra vir aqui fora, o que deu em você?
Kristen encarou-a friamente, fazendo-a se encolher. No fundo ela sentia que todo o ódio concentrado naquela faísca de olhar não era para ela, mas isso não lha impedia de temer por algo ruim. Mal percebera ainda, pela falta de familiaridade com esse tipo de sentimento, mas havia, de alguma forma, se afeiçoado a Kristen, coisa que não lembrava de ter passado com mais ninguém em toda sua vida, nem com os próprios parentes.
- Ele provavelmente matou um Pokémon. Não porque estava na floresta e precisou se defender de um selvagem agressivo. Ele matou um Pokémon porque estava chateado, só porque ficou insatisfeito com o desempenho do Pokémon dele.
Sua voz era de uma frieza implacável e Ryla abaixou os olhos diante da clareza do argumento, apesar de toda a falta de controle que ele portava. A porta se abriu e a apreensão tomou conta da menina enquanto ela avaliava o grupo que saía para o ar fresco da rua.
Clarion vinha à frente, visivelmente amedrontado, mas procurando manter um nível mínimo de dignidade aparente, traída pelos dedos trêmulos que portavam uma Pokébola simples. Pouco atrás, Karui segurava um pano branco bastante manchado de vermelho sobre os lábios, seguindo as incertas instruções de Joy, que vinha por último, bastante apreensiva.
- Desgraçado... tem dois dentes a menos aqui, isso só aqui na frente.” – lamentou Karui para si mesmo enquanto passava a língua pela boca machucada.
- Eu sei quem é você! – afirmou categoricamente Clarion – Estão todos falando de você, não importa onde eu olhe.
- E que diferença faz quem eu sou? – respondeu Kristen secamente.
- Nenhuma. – sorriu Clarion, apesar de ainda parecer amedrontado – Apenas pra dizer que eu era seu fã quando você lutava. Demorei à pampa pra te reconhecer.
- Chega de conversa. Não adianta puxar o meu saco, o que você fez não tem perdão.
- Por favor, rapazes! – suplicou Alice – Não devem envolver seus Pokémon em lutas pessoais!
- Não se preocupe, Joy-san. – respondeu Kristen, notando que Clarion se encolhia sob seu olhar gelado – Fizemos nossa aposta. Se ela for cumprida eu não encostarei um dedo neles, como prometi. Quando a luta terminar, ficarei feliz em assinar qualquer reclamação ou denúncia que a senhora tenha a fazer do ocorrido lá dentro.
Alice nada respondeu, afinal a ausência dos motivos pessoais em batalhas Pokémon não era uma regra propriamente dita. Na verdade, era comum treinadores resolverem rixas com seus Pokémon guerreando. Embora as Ligas tivessem uma política de não incentivar essa prática, ela era algo impossível de controlar e uma proibição causaria uma credibilidade negativa para as instituições.
Por outro lado, uma coisa era sumariamente proibida: brigas físicas entre treinadores. Isso deixava-a numa situação delicada, moralmente muito dividida.
- Anda logo. Eu não pretendo perder mais tempo com você além do tempo da luta. – incitou Kristen.
Nenhum plano vinha à mente de Clarion. Nenhuma escapatória mirabolante. Percebendo que não podia protelar mais, ele engoliu em seco e finalmente aceitou que seria preciso jogar limpo e cumprir a aposta.
Pela enésima vez desde a última derrota, Clarion amaldiçoou-se por ter escolhido aquele maldito Totodile, mas era tudo que tinha no momento e decidiu dar-lhe uma segunda chance. Prometeu a si mesmo que se ele salvasse sua licença de treinador, reconsideraria de imediato a decisão de encostá-lo após capturar outro Pokémon.
- Tsc. Seja o que Deus quiser!
A luz vermelha da Pokébola que girava no ar travestiu-se num crocodilo azulado. Seus olhos eram muito vivos e sua dentição dava a impressão de que estava sorrindo o tempo todo. A carreira de espinhos vermelhos que seguia do dorso torácico à ponta da cauda não era muita convidativa a golpes físicos.
Kristen surpreendeu-se principalmente com o porte do Pokémon. Era o único dos iniciais tradicionais de Johto que ele nunca vira pessoalmente e ele parecia minúsculo na televisão, mas não tinha tanta diferença de altura para seu Tyrogue.
- Conto com você, Totodile! Não podemos perder de jeito nenhum!
O caricato crocodilo não escondeu a animação ao encarar o oponente. Kristen reconheceu imediatamente em seu olhar um Pokémon que sentia prazer em lutar. Mas seu Tyrogue estava determinado a não perder e esse era um trunfo maior do que qualquer treinamento.
- Fase de estudo, Tyrogue! Sinta a luta primeiro, observe mais e ataque menos.
- Esfrie os ânimos dele, Totodile!
Totodile inflou o peito e disparou entre os dentes um poderoso jato d’água. Tyrogue associou-o às bolhas do último combate contra um aquático, mas subestimou a velocidade do golpe. Seus bons reflexos garantiram que pudesse tirar o rosto da direção da técnica e apará-la com uma mão aberta. O incômodo na mão lhe informava que não era apenas água; a pressão poderia afetá-lo de fato, se atingisse um local indesejado.
Kristen também percebeu o perigo e agora sabia que observar demais apenas daria abertura ao oponente para não se aproximar, mantendo a luta numa distância segura. Definitivamente precisava traçar uma estratégia contra Pokémon elementais.
- Tsc. Esqueça, Tyrogue, avance! Cuidado com a água!
Finalmente ouvindo o que queria, Tyrogue correu com um grito de batalha na direção de Tocodile, ziguezagueando por duas vezes para evitar dois jorros de água que apenas respingaram nele. Totodile desviou, recuando, dos dois primeiros socos, mas Tyrogue atingira seu objetivo, encurtando a distância o suficiente para evitar os irritantes golpes aquáticos.
- Saia daí, Totodile!
Totodile tentava recuar a passos largos, golpeando cegamente o ar à frente com suas unhas, enquanto Tyrogue mantinha a distância, aproximando-se e desferindo socos calculados para impedir que o adversário simplesmente lhe desses as costas.
Por mero acaso, Totodile sentiu o equilíbrio se esvair quando seu pé encontrou uma deformidade na grama rala. Conseguiu evitar a queda com um enorme esforço, mas a pequena queda na produção de golpes permitiu a Tyrogue desferir um chute preciso no lado direito do rosto dele.
Totodile capotou pela grama, sentindo a face esquentar. Tyrogue não perdeu tempo e avançou com sede demais ao pote.
- Cuidado, Tyrogue!
O aviso de Kristen não fora suficiente. A cabeça de Tyrogue se virou para a direita quando o jato d’água o atingiu em cheio nos olhos.
- Aproveite a brecha! – berrou Clarion.
Totodile avançou com as garras preparadas, mas Tyrogue se recuperara mais depressa do que o treinador previra. O golpe horizontal das unhas fez contato com a carne, mas o punho de Tyrogue afundou-se quase simultaneamente na parte superior do rosto de Totodile quase ao mesmo tempo. Este cambaleou para trás e tombou de lado.
Visivelmente abalado, ele teve dificuldades para se pôr de pé, mas Tyrogue aprendera a lição e não avançaria novamente sem medir o espaço. As três marcas de unha no abdômen fizeram o sangue escorrer alguns centímetros em direção à sua cintura, mas eram superficiais demais para que ele se preocupasse.
Kristen estava satisfeito enquanto comparava o crocodilo apoiado nas quatro patas com seu próprio Pokémon, ainda atordoado pelo golpe certeiro. Tyrogue estava cansado, mas seu único ferimento exposto era superficial, enquanto conseguira encaixar dois golpes decisivos.
Se aquele ritmo prevalecesse, dificilmente o Totodile resistiria a muitos impactos seguidos daquele nível. Mas quando ele olhou para Clarion, sentiu um frio na espinha, pois ele sorria de forma triunfante demais para quem tinha acabado de ver o próprio Pokémon cair duas vezes sob golpes contundentes.
- Calma, Tyrogue! Calma! Espere pra ver o que vai acontecer.
- Acabou pra você, lutador. Eu sei como ganhar essa.
- Esse jogo psicológico barato não vai funcionar com meu Pokémon. Ele foi bem treinado demais pra cair nessas táticas sujas. Se sabe como vencer, vença, não fique tagarelando.
Kristen jamais expressaria, mas não tinha total confiança nas palavras que usava. Já vira todo tipo de blefe em lutas – entre Pokémon e humanos – e aquele sorriso não parecia ser um bom exemplo. Perguntava-se que plano teria Clarion em mente quando Totodile se pôs de pé, visivelmente decepcionado com os resultados.
- Não se preocupe, Totodile. Faça exatamente o que eu disser e nós ganharemos.
- Não caia nessa intimidação, Tyrogue! Ignore-o, continue a fazer seu jogo!
Tyrogue assentiu sem desgrudar os olhos do oponente. Ele e Totodile se encaravam de maneira perigosa: era uma questão de honra para ambos. Muitos pesquisadores discutiam profundamente sobre o alcance da compreensão dos sentimentos por parte dos Pokémon, mas a única coisa certeza naquele instante era que ambos tinham discernimento suficiente para saber que um sairia dali glorioso e o outro bastante humilhado.
- Use o jato em círculos que treinamos antes, Totodile!
Totodile cuspiu água enquanto sacudia a cabeça da esquerda para a direita e vice-versa, sistematicamente. Vendo a onda disforme em sua direção, Tyrogue saltou por cima da corda de água, mas ele mal pisara o chão e já vinha uma segunda onda na altura do tronco. Em resposta, ele se atirou de barriga no chão e se levantou num reflexo impressionante quando veio a terceiro onda direto onde estava.
Em todos os movimentos precisos de evasiva, Tyrogue arrumava uma forma de progredir, mesmo que poucos centímetros, na direção de seu alvo. Kristen sentia-se orgulhoso pela precisão, ciente de que ambos gastavam bastante energia. Porém, ele simplesmente não conseguia tirar da mente o sorriso sinistro de Clarion.
Após abaixar-se numa onda e pular sobre outra, Tyrogue estava a poucos passos de Totodile, mas Clarion ordenou:
- Linha reta!
Repentinamente, o golpe seguinte veio num jorro único na direção de seu tronco, atirando-o de costas sobre a grama.
- Agora, morda ele!
Totodile correu imprudentemente na direção de Tyrogue, que já começava a se pôr de pé, o que tranquilizava Kristen, ciente de que ele seria resistente o suficiente para suportar o golpe e responder de forma mais contundente, como da primeira vez; simplesmente era melhor em golpes físicos.
Porém, uma visão aterradora distraiu-o: entre ele e o embate dos Pokémon, uma mancha bicolor atentava contra o verde da cobertura vegetal: um calhamaço de gazes manchado de sangue seco e escuro.
Somente aí Kristen compreendeu o motivo da confiança do oponente, mas percebeu que era tarde demais quando ouviu a ordem quase comemorativa de Clarion:
- Mire no ombro!
Os gritos de dor e alerta, respectivamente, de Tyrogue e Kristen, mesclaram-se numa única agonia sonora. O punho de Tyrogue parou no meio do cruzado de direita a centímetros da face de Totodile quando os dentes do crocodilo cravaram-se entre sua clavícula e o pescoço. Sua expressão de choque dispensava quaisquer outras demonstrações de emoção.
- Puxe com força, Totodile!
Cravando os dentes com ainda mais intensidade e ignorando o gosto ruim de suor e carne curtida, Totodile puxou a cabeça violentamente para trás, trazendo um generoso naco de pele e músculos consigo.
O sangue jorrava com uma violência visual incrível e Ryla chegou a desviar os olhos para o lado. Tyrogue manteve-se parado, meio curvado sobre o lado direito do corpo, berrando de dor com o braço esquerdo dependurado, enquanto Totodile tinha o olhar vitorioso e a mandíbula empapada de sangue ao cuspir a carne de Tyrogue na grama. Seu desespero crescia ao perceber que nem sua outra mão era suficiente para vedar a erupção sanguínea.
- TYROGUE!
- Não lhe dê intervalo, Totodile! Acabe com ele!
Totodile avançou, com as garras brilhando em ambas as mãos. Tyrogue percebeu que estava em sérios apuros, pois não conseguia mexer o braço esquerdo, tinha a velocidade bastante prejudicada e sentia a vista se turvar cada vez mais.
Ele sentiu as garras rasgarem suas costelas do lado direito, revidando, sem enxergar mais nada, com um soco reto para a frente. Totodile desviou, abaixando-se, do lentíssimo golpe, aproveitando para cravar os dentes na perna direita de Tyrogue e arrancar-lhe outro pedaço e mais um grito de dor. Tyrogue cambaleou e caiu para trás.
- O que está fazendo, Kristen? Encerre essa luta agora! – berrou Ryla, entre lágrimas.
Tyrogue recusou-se a aceitar o desmaio. Já sem ver e ouvir direito, sentia ainda a dor na perna e no ombro. Ergueu-se penosamente no braço direito, mas um pequeno disparo de água atingiu-o no pulso, fazendo-o enfiar os dentes na grama ao som de uma curta risada de Clarion.
- Eu... – Kristen olhava apavorado para o desenrolar da cena. Sabia que a decisão racional e correta seria retornar seu Tyrogue naquele exato momento, pois ele criava uma perigosa poça de sangue ao seu redor. Esteve a ponto de chamá-lo de volta quando caiu de maneira humilhante, mas vê-lo lutando para se levantar fê-lo perder a coragem; podia salvar-lhe a integridade física, mas sua honra estaria destruída e Kristen sabia disso melhor do que qualquer um.
- Kristen! – continuou Ryla, chorosa – Por favor, faça isso parar!
Totodile optou por deixar Tyrogue se levantar. Bastante cambaleante, ele se pôs de pé, com a perna direita estranhamente envergada e apenas um dos braços diante do rosto, numa guarda desajeitada. Kristen torcia os punhos e rangia os dentes, tentando controlar a impaciência e o ódio.
- Ok, chega de brincar. – Clarion era todo sorrisos – Acaba com ele, Totodile!
Kristen não conseguia decidir o que era mais importante: sair honrado ou sair inteiro. Sabia que, no lugar de Tyrogue, ficaria de pé até receber o golpe derradeiro, mas era muito difícil respeitar essa escolha quando partia de seu Pokémon. Mas ele foi poupado de ter de tomar essa decisão no último instante, graças ao seu olho analítico para detalhes em momentos quentes de combate.
A camisa que Kristen tivera tanto trabalho para secar naquela manhã se encharcou, mas ele não se importou. Tinha nos braços agora seu Pokémon, que dobrara os joelhos assim que havia sido tocado, caindo para a frente com os olhos abertos, desorientados e complacentes com um discretíssimo filete de lágrima de um dos lados.
Kristen notara no último instante a irregularidade no branco nos olhos de Tyrogue. Ele se recordava de ter visto aquilo inúmeras vezes e até de ter passado por isso. A adrenalina e a absurda determinação de não se dar por vencido faziam o lutador levantar em momentos como aquele, mas o corpo impunha seus limites fisiológicos: ele já estava desmaiado quando se levantou.
Totodile olhava abobado para as costas de Kristen, como se não acreditasse que ele havia chegado a tempo de barrar o seu golpe. Clarion, por sua vez, vibrava com muita satisfação.
- Excelente! Maravilha, Totodile! Você foi incrível hoje! Venha descansar.
Ele recolheu seu contente Totodile à Pokébola enquanto Kristen erguia nos dois braços o Tyrogue desfalecido. Clarion lembrou-se com quem estava lidando e conteve as zombarias que esteve a ponto de proferir, limpando a garganta ao invés disso.
- Então... estamos quites, não é, lutador? Sem surras nem nada do tipo, não?
Kristen abaixou a cabeça, ainda de costas para ele. Usou até sua última fibra de auto-controle para manter-se em seus princípios e virou-se para encará-lo nos olhos.
- Faça o que quiser.
Dito isso, correu na direção da entrada, onde Alice acabava de sair carregando uma maca junto com uma Chansey, deixando no caminho um sinistro rastro de sangue. Depositado o Tyrogue sobre a maca, Kristen empurrou-a para dentro com tanta força que deixou Alice e Chansey para trás; ambas correram logo em seguida e as portas se fecharam quando a última passou.
Percebendo-se fora de perigo, Clarion deixou escapar um profundo grito de triunfo acompanhado por um punho cerrado erguido no ar. Karui se aproximava dele com o semblante bastante mal humorado, ainda pressionando a toalha já lavada de sangue contra a boca.
- E aí, Karui? O que achou?
- Hunf... devia te mandar a conta do dentista. – respondeu ele, retirando a toalha e deixando entrever os dois enormes buracos na gengiva superior, que ainda sangrava profusamente.
- Ora, deixe de ser reclamão, cara. Todo mundo sabe que o teu pai tem grana pra fretar uma clínica dentária inteira pra você se tratar se ele quiser. O que importa é que aquele palhaço teve o que m...
Por alguma estranha razão, Clarion ouviu antes de sentir. Um estalo seco e ele cambaleou seriamente para o lado. Pego de surpreso, quase caiu, mas apoiou-se no amigo, conseguindo se manter de pé, ainda estupefato.
A face esquerda latejava e ele não sabia dizer se o calor que sentia era proveniente do impacto ou se era da profunda vergonha que sentia. Diante dele, a mão direita de Ryla pendia suspensa no ar, enquanto a esquerda carregava uma Pokébola apertada entre os dedos. O olhar dela estava tão pavoroso quanto o de Kristen quando este o ameaçara.
- Hey... quem você pensa que é pra me bater desse jeito? Eu não posso batalhar com você, preciso recarregar meu Totodile primeiro. Quem sabe o Karui não pode te dar uma surra pra você aprender, sua vadia de m...
- Cala a boca! – cortou Ryla, completamente desvairada – Seu trapaceiro imundo! Eu devia trancar você numa sala com o Kristen e jogar a chave fora, pra você aprender!
- Ah, vai defender o namorado, é? Eu humilhei aquele amador. Quando você entrar, diga que eu mandei ele voltar aos ringues, porque de Pokémon ele não entende bosta nenhuma!
- Dobre a língua! Ele teria ganho se o Tyrogue dele não estivesse machucado. Se você não tivesse trapaceado, usado isso a seu favor daquele jeito covarde!
- A culpa não é minha se ele é incompetente, deixa o Pokémon se machucar e põe ele pra lutar antes de se recuperar!
Ryla interrompeu a resposta, sentindo que tremia de raiva dos pés à cabeça. De nada adiantava discutir com aquele imbecil. Ele ganhara. Continuaria a exibir aquele sorriso arrogante, pois, apesar de qualquer coisa que ela dissesse, ele havia saído vitorioso e nada mudaria isso. Exceto uma nova batalha.
- E então, sua piranha? – perguntou Clarion, zombeteiro, percebendo que ela recuara — O que vai ser? Vai enfrentar o Karui ou não?
Ryla respondeu mostrando-lhe a Pokébola que trazia na mão esquerda.
- Um dia... esse Cyndaquil vai crescer. Nós vamos nos cruzar de novo e eu vou garantir que esse Cyndaquil faça você se arrepender do que fez à mãe dele! Isso é uma promessa!
- Pfff... você pegou um dos filhotes daquilo? – perguntou Clarion, rindo-se – Logo se vê porque ele foi derrotado. Vocês são dois ingênuos. Esse sentimentalismo barato de vocês com fêmeas e filhotinhos vai fazer com que nunca nos encontremos de novo, porque vocês nunca vão passar do primeiro ginásio.
- Chega. – Ryla sussurrou entre dentes, abaixando-se e apanhando um pequeno pedaço de asfalto convenientemente destacado ali sobre a grama – É melhor vocês sumirem da minha frente agora mesmo!
Ryla atirou a pedra e errou por centímetros. Clarion e Karui começaram a correr na direção oposta enquanto Ryla procurava por qualquer coisa que pudesse atirar neles pelas costas. Só achou um galho partido de árvore quando eles já estavam longe demais e ele mal galgou metade do caminho. Agora ela estava parada sobre a grama manchada de sangue e com o rosto lavado de lágrimas pela segunda vez em dois dias, frequência recorde desde que era criança.
As próprias palavras a torturavam. Ele teria ganho se o Tyrogue dele não estivesse machucado. Sentiu uma imensa combustão de culpa em seu interior. Torturava-se em culpa por ter pensado em espantar o Cyndaquil como primeiro reflexo e depois por ter apanhado-o ao invés de Kristen. Sentia-se culpada porque Tyrogue arrumara aquele feio ferimento defendendo o Pokémon dela de forma absolutamente corajosa; praticamente heróica. Sentia culpa por ter gritado com Kristen no meio do combate, talvez aumentando a pressão sobre ele e atrapalhando-o numa decisão que pudesse ter custado caro a Tyrogue.
Ela caminhou na direção das portas da enfermaria, pisando firme. Lembrando-se que o gigantesco casaco que vestia era de Kristen, secou as lágrimas com a manga direita, achando que Kristen não precisaria de mais lágrimas ainda.
Quando entrou e viu Kristen sentado sozinho no chão frio, com as costas na parede e as duas mãos enterradas no cabelo, ela tinha um zilhão de frases de apoio preparadas na ponta da língua. Mas quando chegou na frente dele, tudo que conseguiu dizer foi:
- Seu idiota! Por que não parou a luta antes? Ele já não tinha a menor chance de ganhar, só podia se machucar mais! Por que não retornou ele à Pokébola?
Kristen não reagiu de forma alguma. Ela notou que ele soluçava e sua repentina raiva não se abrandou. Ela cerrou os punhos e continuou com os questionamentos.
- Por que...? Por que você não foi até lá e quebrou a cara daquele palhaço? E todo aquele papo sobre ele ter matado um Pokémon inocente sem motivo? Por que não enfiou a cara dele na grade, como ele merecia? Por que se acovardou? O que deu em você? Eu não achei que você tão fosse tão covarde, Kristen! Eu não achei...
- O QUE VOCÊ SABE SOBRE NÓS?
Kristen se levantara bruscamente e Ryla sentiu sua voz sumir na mesma hora. Ele parecia ter o dobro de seu tamanho já anormal e seu rosto estava transtornado. Sua face dava a impressão de que ele tinha chorado por horas e sua expressão estava lívida de fúria. Ele andou na direção de Ryla, que recuou até encostar na parede.
- O QUE VOCÊ SABE SOBRE HONRA? SOBRE PALAVRA? HÃ?
Ele se curvara bastante sobre ela e cuspia as palavras a cinco centímetros do rosto dela, que estava quase urinando de medo.
- Você não sabe como é... não sabe como é quando duvidam de você, quando simplesmente apontam que você não é capaz. Você começa a acreditar nisso, precisa provar pra VOCÊ MESMO todos os dias da sua vida que você é capaz! Nem toda luta é pela vitória. As lutas verdadeiras são pela honra! Tyrogue vai dormir decepcionado hoje... vai acordar triste amanhã. Mas ele vai se recuperar! Se eu o tivesse tirado, ele nunca ia se perdoar por não ter ido até o fim. EU passei a minha vida inteira lutando! Eu sei exatamente cada sentimento, cada emoção que passa pela cabeça dele de frente para um adversário! Vocês todos acham que é fácil... acham que é fácil, daquele jeito que aparece na televisão, com luzes, entrevistas e aplausos, não é? BALELA! Vocês não sabem como é... não têm idéia de como é entrar num ringue sem saber se vai sair de pé ou se vai acordar no hospital no dia seguinte! Não sabem como é sentir medo e não poder admitir isso... nem para os outros nem para si mesmo, apenas por saber que a mais rústica fraqueza pode trespassar facilmente qualquer estratégia que você tenha em mente! Não sabem que o pior adversário entre aquelas quatro linhas está do seu lado do placar e não do outro! Não sabem que precisam manter a concentração em cada segundo, pois a qualquer piscar errado de olhos você pode ser humilhado! Não sabem que lidar com fraturas e derrotas e trapaceiros não é NADA comparado à pressão! Vocês não sabem de nada! Não sabem sequer que é a mesma coisa com os Pokémon! Perder é muito mais digno do que vencer! A única indignidade é a desistência! Tyrogue procurou ficar de pé até o fim! Ele desmaiou, mas continuou tentando lutar! Eu tenho orgulho dele. E tenho certeza que ele tem orgulho de mim, por eu não ter tirado ele antes da hora! Você não sabe nada... NADA... sobre nós dois! Não sabe nada sobre o que é importante pra nós! VOCÊ NÃO TEM O DIREITO DE ME CHAMAR DE COVARDE!
Após a longa sessão de berros, Kristen continuava a encarar Ryla bem de perto, com o lábio inferior tremendo e as lágrimas escorrendo em cascata sobre o rosto. Ryla também chorava, mas não estava mais apavorada. Agora o que sentia era uma vergonha indescritível. Sentia-se de repente a pior pessoa do mundo.
Com um urro medonho, Kristen saiu da frente dela e enfiou o punho com toda força que tinha na parede. Ryla se assustou e quase caiu com o barulho. Kristen repetiu o processo uma, duas, três, quatro vezes. Logo o sangue havia manchado a parede e ele não parecia ter a menor intenção de parar.
Antes do oitavo golpe, porém, uma mão doce e gentil como a de a um anjo puxou-o pelo outro braço. Então assim era a pele dela. Kristen apenas deixou-se levar para longe da parede enquanto não sabia o que pensar. Só sabia que agora tinha certeza de que até o homem mais equilibrado do mundo precisava de afeto para curar sua raiva.
Como se tivessem combinado, ele e Ryla se entrelaçaram num profundo abraço e ela decidiu que não era a melhor hora para confessar que ele não era o único sendo consolado naquele momento.
Uma hora e meia depois, os dois estavam sentados em silêncio num sofá duplo e desconfortável, até que ele abriu os olhos. Metido entre os lençóis brancos com cheiro de lavanda, apenas viam-se os ombros – incluindo parte do curativo no esquerdo – e a cabeça de Tyrogue, que doía compulsivamente.
Rapidamente, Kristen e Ryla se puseram de pé, sorrindo.
- Que bom que voltou logo, amigão. Joy-san disse que foi um sucesso a cirurgia.
Tyrogue lutou para focalizá-los e assimilar sua situação, mas logo que se lembrou do que ocorrera, desviou o olhar de Kristen para a parede ao lado. O sorriso de Kristen imediatamente murchou.
- Hey, amigão... não fique assim.
Kristen pousou sua mão sobre o braço coberto de Tyrogue, mas ele não se virou; ao contrário, deixou cair uma sofrida lágrima de cada olho, parecendo profundamente amargurado.
- Não se lembra... do que prometemos? Que nada nos derrubaria, certo? Eu lhe disse que precisava de um companheiro que me ajudasse a lutar pelos Pokémon... não lutar para ganhar, mas pela nossa honra. Você lembra disso?
Tyrogue abaixou o olhar, com o semblante agora triste, enquanto concordava timidamente com a cabeça.
- Você se levantou voluntariamente para defender os direitos de um Pokémon, mesmo machucado. Deu seu melhor o tempo inteiro... e o principal, Tyrogue... tudo que sempre ensino a vocês: você ficou até o final, mesmo tendo certeza da derrota.
Os olhos de Tyrogue continuavam tristes e desolados; sua alma pesava uma tonelada. Kristen fez-lhe um breve cafuné na cabeça.
- Só queria que soubesse que eu teria feito o mesmo que você. E que apenas um guerreiro que é derrotado lutando de pé até o fim merece um novo desafio à altura. Quando você puder sair daqui, vamos para o primeiro ginásio!
Notas finais
Forte abraço e até semana que vem!
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