Pokémon - Reconquest

3 Capítulo 2: Trajetória


Notas iniciais
Sou paranóico com revisões e correções, mas se algum erro tiver escapado às minhas releituras compulsivas, peço que me alertem via comentário ou como acharem melhor. Aceito sugestões, elogios e, principalmente, críticas. Divirtam-se.

A chuva abandonou a região sul de Johto, deixando para trás a grama molhada e um ar de melancolia fomentado pelas ruas praticamente vazias, graças aos três dias de luto oficial em todo o eixo Kanto-Johto pela morte do Professor Oak.

Num pequeno bar aquecido, dois casais amigos se reuniam numa mesa, atentos ao sensacionalismo explorado pelos repórteres em torno de Ash Ketchum, que não poupavam sequer o falecido cientista.

O repórter de olhos arregalados e sotaque do oeste sentava-se confortavelmente a uma mesa lisa encimada por um computador portátil e uma pequena pilha de papéis. Ele falava incansavelmente, fazendo um retrospecto detalhado e maçante da vida pregressa de Oak, enfatizando os anos de amizade com Ash. Ele parecia concluir a notícia de forma comum, quando um tom teatral de reviravolta encorpou sua voz e uma filmagem surgiu, com um grande foco de incêndio num prédio em meio a vários outros. Por sua vez, homens empunhando a mangueira de um enorme carro de bombeiros e uma infinidade de Pokémon aquáticos cobertos com mantas vermelhas despejavam água sobre o foco, buscando suprimir as chamas rapidamente.

A reportagem prosseguia, com uma ou outra entrevista com testemunhas, vítimas e bombeiros. Para finalizar, um repórter de aparência jovem e afobada terminava a notícia com um pronunciamento no local do ocorrido, falando com o auxílio visual da desgraça como pano de fundo. Apesar das chamas quase controladas atrás do homem, ele usava luvas, gorro e um grosso casaco com o logo da emissora.

- O Corpo de Bombeiros de Violet City confirmou quatro feridos com queimaduras leves, além de três pessoas gravemente intoxicadas pela fumaça e um cientista preso em seu laboratório, que era justamente o foco do incêndio. Existe uma grande possibilidade de que a pessoa recolhida há pouco em estado preocupante seja o Dr. Silas Guren, o próprio líder do Instituto em pessoa! Seu corpo estava avariado demais para que fosse feita uma identificação visual imediata, mas tratava-se do laboratório que arquivava a principal linha de pesquisa do Dr. Guren e até agora ninguém conseguiu contatá-lo.

Para quebrar o fluxo de informações e evitar o tédio do espectador, a tela mostrava uma sucessão de imagens concomitantes ao discurso: Dr. Guren numa palestra, depois vestido com seu jaleco branco mexendo em equipamento do laboratório numa cerimônia repleta de políticos e até uma foto do interior do laboratório, na qual ele sorria e apertava a mão do Ministro das Ciências de Kanto.

- Dr. Guren é conhecido principalmente por ter criado e comercializado um método científico que permite aos treinadores escolher previamente os DVs, isto é, os genes de batalha de seus Pokémon. Tornou-se uma prática muito comum entre os treinadores mais endinheirados, como filhos de celebridades e de grandes empresários, encomendar no laboratório do Dr. Guren um Pokémon à sua escolha com os DVs avançados ao máximo para iniciar sua jornada de maneira mais fácil. O incêndio destruiu todo o equipamento e material biológico arquivado para ser usado em futuras encomendas. Apesar disso, a metodologia está publicada e, portanto, não existe perda científica, como deixou bem claro o Instituto Oak em nota divulgada logo após o controle do fogo; eles poderão simplesmente retomar os serviços de forma absolutamente normal assim que reconstruírem o laboratório, mas afirmam que, no momento, a grande preocupação deles é com o homem em sério risco de vida retirado dos escombros do local.

Passando a fala de volta ao estúdio, o repórter se despediu empolgado de sua primeira aparição ao vivo na televisão, mas os quatro adolescentes já não prestavam atenção à tela. Concentrados em suas próprias xícaras de café fumegante, eles sussurravam teorias e piadas sobre o ocorrido. Também não desviaram sua atenção quando a campainha da entrada soou e um jovem alto e magro entrou no local e fechou à porta às suas costas.

Um imenso caranguejo vermelho passeava entre as mesas de madeira simples polida carregando uma bandeja com quatro pratos diferentes contendo macarrão e frutos do mar mergulhados em água fervida. Mostrando uma habilidade manual incrível, ele deslizou a bandeja numa simetria delicada por sobre a mesa dos jovens, que soltaram vivas e resmungaram breves protestos ao atraso.

O Kingler ainda retornava para os biombos que escondiam a cozinha quando um singelo Pokémon de estrutura humanóide marrom e amarelo saiu, vestindo um avental e com os bigodes amarelados habilidosamente amarrados atrás da cabeça. Carregava uma colher de prata em cada mão, ambas brilhantes de tão limpas.

Ele alcançou a mesa de Kristen no instante em que o rapaz se sentava, atirando a mochila na cadeira ao lado. Kristen sorriu ao notar o Alakazam, Pokémon que havia visto apenas por fotos ou na televisão. Apesar disso, não compreendeu sua presença ali até ele apontar um pequeno livreto preto com o logo do bar em letras metálicas sobre a mesa.

Kristen apanhou o cardápio e folheou-o, lendo os ingredientes e preços entre cafés, chás e diversos pratos quentes com frutos do mar, compreendendo por que aquele era o único estabelecimento aberto nas redondezas num feriado frio como aquele.

- Eu queria... ah... um número 13 desse com um...

Mas Kristen não conseguiu mais falar. Todas as suas palavras se perderam quando uma folha de papel e uma caneta pularam do bolso frontal do avental do Alakazam, com o mesmo brilho azulado que havia em seus olhos e em uma de suas colheres. A caneta pôs-se a escrever sozinha no ar e Kristen precisou de um olhar indagador de Alakazam para retomar o fio de seu pensamento.

- Ah, desculpe. Me traga junto um chá de Sunflora, por favor.

Com uma discreta reverência, Alakazam fez as anotações e a caneta flutuarem de volta ao bolso novamente e se afastou em direção à cozinha sob um olhar fascinado do jovem lutador.

Kristen escolhera propositalmente o lugar mais afastado dos barulhentos adolescentes, mas isso infelizmente o obrigara a se sentar exatamente embaixo do monitor da televisão, onde uma moça simpática dava detalhes sobre a frente fria que assolava a região de Johto.

Estalando as juntas dos dedos, ele entreabriu a enorme mochila de acampamento, verificando o ovo que mantinha aquecido entre duas mantas grossas de lã de Mareep. Em seguida, se debruçou sobre a mesa, sentindo a consciência retornar algumas horas no passado.

Acordara na manhã seguinte à discussão com o Dr. Guren ainda com o sol nascendo, como era de seu hábito desde bem novo. Kristen ainda estava profundamente abalado pela visão realista que o tinha feito se chocar com as pesquisas Pokémon e também com o fato de ter perdido completamente as estribeiras, mas procurava não pensar nisso enquanto fazia seus exercícios matinais.

Após mais de noventa minutos de exercícios de fortalecimento muscular e um intenso alongamento, ele retornou ao interior da barraca que armara entre duas árvores de folhas grossas e pegou a toalha ao lado da cama, secando o suor do rosto e das mãos.

Remexeu na mochila e retirou o ovo, lembrando-se do compromisso pessoal que fizera consigo mesmo de poli-lo diariamente e mantê-lo aquecido, tentando cumprir o mínimo que conhecia sobre chocar ovos.

Quando retirou o ovo de dentro da manta que trouxera do laboratório, Kristen olhou-o por todos os ângulos e notou, pela primeira vez, a etiqueta branca colada à casca. Aproximou os olhos das inscrições feitas à mão de forma quase ilegível.

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Ele apenas olhou o papel impassivelmente por um momento, mas quando finalmente compreendeu o que era, raspou-o com as unhas, enojado, e não hesitou em amassá-lo e atirá-lo sem cerimônias dentro do saco onde carregava o lixo, já com pacotes de cereais e latas de bebidas da noite anterior.

Kristen molhou a toalha branca na bacia com água ao lado da cama e, com ela, retirou os vestígios de cola da casca, passando-a, em seguida, por toda a superfície do ovo. Contemplou o trabalho, satisfeito com o brilho que o ovo agora emitia.

O rapaz pegou uma outra toalha de rosto na mochila e embalou o ovo nela, colocando a manta furtada por cima e concluindo que precisaria comprar mais algumas toalhas assim que pudesse fazer uma parada. Acomodou o ovo na mochila e apanhou no chão a única Pokébola ocupada do seu cinto.

Quando ele pressionou o botão na interface de cores da esfera, um brilho vermelho surgiu e começou a tomar a forma de um Pokémon humanóide. A cor cinzenta de seu corpo só era quebrada por um bloco marrom que cobria todo o quadril e por uma casca de mesma cor em cada pé. Trazia uma seqüência de três chifres na parte superior da cabeça e suas mãos carregavam cada uma três dedos bem afastados um do outro. Trazia também ataduras nos pulsos e na cintura, além de um olhar castanho bastante decidido.

Parecendo feliz de ter sido chamado ao lado de fora da Pokébola, ele exclamou o próprio nome com alegria e enrolou os dedos de uma mão, formando uma esfera que era uma boa imitação de um punho cerrado. Mesmo com Kristen sentado de pernas cruzadas, o pequeno espécime de Tyrogue precisava ficar ereto para encará-lo nos olhos.

Kristen deu-lhe um sorriso melancólico e uma palmada calorosa no dorso, ao que ele respondeu com outro urro de forma decidida.

- Pois é, rapaz. Eu prometi que íamos começar hoje, não? Então vamos comer e dar uma volta.

O ruído próximo da quitina roçando no azulejo despertou Kristen de seus devaneios. Ele olhou, mais uma vez feliz ao ver um belo Kingler colocar habilmente uma bandeja sobre a mesa dele com um prato repleto de folhas em diversos tons de verde, salpicados por um outro vegetal roxo de aparência frutosa e pedaços de carne de lula mergulhados sobre o caldo fervente.

Kristen murmurou um agradecimento, mas Kingler já fazia o inverso de seu trajeto. O jovem lutador destacou os hashis¹ dentro dos guardanapos e começou a pescar a salada e a lula. Mastigou algumas vezes, então bebericou o chão e tornou a revirar a mochila, retirando dela o exemplar que acabara de comprar de Desde nascido: guia prático para cuidar de seu Pokémon desde a fase do ovo.

Folheou as primeiras páginas superficialmente, constatando, satisfeito, que o livro continha informações individuais sobre a maioria das espécies de Pokémon conhecidas – exceto as muito raras e pouco estudadas, como as lendárias e extintas -, além de três longos capítulos dedicados a todo tipo de informação sobre ovos.

O primeiro capítulo discorria sobre a reprodução dos Pokémon, trazendo listas de quais eram geneticamente compatíveis entre si e atestando que as informações individuais sobre as reproduções, formato dos ovos e tempo do embrião no ovo estavam nas sessões de cada um.

Kristen tornou a fechar o livro e seu olhar se distraiu na direção da televisão, para seu desagrado. Desde criança envolvido em viagens e torneios internacionais, Kristen estava habituado a ver sua imagem esporadicamente na imprensa, mas definitivamente não gostava de aparecer, apesar de ser obrigado a reconhecer que essa publicidade trazia uma imagem positiva para sua academia.

Uma filmagem dele na final do último Torneio Marcial Mundial passava na tela enquanto o repórter narrava um breve histórico de sua carreira:

- Filho do ex-membro da Elite Four, Bruno Jounochi, falecido ano passado por causa de uma doença rara, o jovem Kristen coleciona numerosas honrarias nas artes marciais com apenas 17 anos. O pai, pioneiro nos treinamentos de artes marciais entre humanos e Pokémon, iniciou os treinamentos do filho antes mesmo de ele completar três anos. O que começou como brincadeira tornou-se, muito cedo, profissão para o pequeno Kristen.

Kristen não pôde evitar um desgostoso estalo de língua ao som da palavra “profissão”, mas sentiu o peito inchar de orgulho quando apareceu uma foto do pai e dele, ainda com cinco ou seis anos. Uma filmagem amadora se seguiu: Kristen, trajando seu dobok² amarrado com uma faixa azul-escura cujas pontas passavam dos joelhos, dava chutes e socos empolgados numa manopla de espuma que o pai segurava junto da perna, todo sorridente.

Os hashis escorregaram de seus dedos direto para o prato, mas ele não deu importância. Sua garganta secou de imediato e duas lágrimas brigaram contra o canto de seus olhos: ele não se lembrava de um dia ter visto aquele vídeo. Sua casa estava abarrotada de vídeos de todos os seus campeonatos e alguns esporádicos dos últimos anos de treino, mas não tinha nenhum arquivo de seus treinamentos enquanto criança.

Reparou como era preciso e coordenado demais para um menino de apenas seis anos, mas isso era o que menos importava. Era seu pai, sorridente e orgulhoso, simplesmente por tê-lo como filho.

- Ainda muito criança, Kristen destacou-se em campeonatos infantis por todo o país, despertando muita admiração e muitos comentários maldosos a respeito do fato de ele ser filho de Bruno. Com 12 anos, Kristen disputou seu primeiro campeonato mundial, sendo campeão na categoria juvenil e surpreendendo a todos, principalmente por estar na faixa mais nova de idade da categoria, derrotando adversários até cinco anos mais velhos. Calou os críticos repetindo o feito nos dois anos seguintes e, aos quinze anos, recebeu uma inédita concessão do Comitê Internacional de Artes Marciais para disputar campeonatos na categoria adulta, que recebia os lutadores mais experientes e preparados de todo o mundo e onde só se pode lutar a partir dos 17. Novamente os críticos se exaltaram, mas inacreditavelmente ele se sagrou campeão, embora não sem dificuldade, o que firmou-o como a mais jovem lenda do mundo das artes marciais e afastou todos os comentários maldosos sobre um possível nepotismo.

Kristen engoliu em seco. Sabia o que viria a seguir e preferia não ver isso da forma fria com que a imprensa tratava os fatos daquele tipo. Já tivera o suficiente na época e evitaria reviver tudo se pudesse.

- No campeonato do ano seguinte, a doença de seu pai estava bastante agravada e, pela primeira vez, Kristen disputou um mundial sem que ele fosse o técnico, visto que ele não recebeu autorização médica para viajar. Com uma séria lesão no ombro adquirida nas quartas-de-final, Kristen insistiu em lutar até o fim mesmo assim, conquistando o título com imenso sacrifício, feito pelo qual recebeu elogios dos mais diversos mestres de artes marciais ao redor de todo o mundo. Ao sair da final, comemorava emocionado, quando recebeu a notícia de que seu pai falecera minutos antes do combate começar.

Kristen baixou os olhos para o próprio prato. Nunca ia se esquecer do desespero. Seu estilo de luta era sempre marcado por muita técnica e paciência, mas naquele dia ele lutava contra a dor e o tempo. Avançava de maneira feroz e praticamente não se preocupava com a defesa, o que quase lhe custou a luta. Para piorar, o ombro latejava insuportavelmente ao menor movimento do braço esquerdo.

Ele sabia que a situação de seu pai era crítica e queria lhe levar um último abraço e um último troféu, mas um repórter estourou todo seu ideal de felicidade quando ele saiu do ringue, dando-lhe a notícia em atropelo, ansioso por ser o primeiro a gravar suas palavras de luto, de modo que Kristen simplesmente não foi capaz de comemorar mais nada e deixou o local sem dizer nenhuma palavra, deixando o mesmo repórter insensível com o microfone suspenso no ar.

- Ainda com 16 anos, o jovem Kristen já possuía 1,94 m de altura e seu estilo era marcado por muita frieza e paciência, além da velocidade absurda. O promissor Joseph Grinph, derrotado por ele num dos torneios preliminares ao mundial deste ano, afirmou em entrevista que a habilidade mais impressionante dele era a de desferir golpes que pareciam aleatórios, mas que faziam um sentido tremendo quando se avaliava a luta com calma depois de terminada. Ainda muito jovem, então, Kristen herdou a Academia Marcial Pokémon de seu pai, passando a ser o mais jovem mestre de artes marciais entre Pokémon e humanos da história. Treinou intensamente durante todo o ano, afirmando que queria o troféu em homenagem a seu pai. Não foi surpresa para ninguém quando Kristen derrotou mês passado todos os seus adversários sem sofrer lesões e sem passar por muitas dificuldades, sagrando-se campeão e declarando, para enorme espanto de toda a comunidade mundial, que faria um intervalo em sua carreira, passando a liderança da academia para o segundo em comando e partindo numa jornada Pokémon, a exemplo de suas irmãs, para delírio de uns e decepção de outros.

Já no final da narrativa, alternavam-se vídeos como treinamentos de Kristen e breves aparições na imprensa, além de algumas lutas memoráveis. Ele finalizou a fala no exato instante em que Kristen encaixava um chute certeiro na lateral do rosto de Armando Coriola, conquistando dessa forma o mais recente dos seis títulos mundiais que possuía. As arquibancadas recheadas gritavam e aplaudiam de pé, mas Kristen preferia encarar o próprio prato.

Kristen brincava com os hashis, pensando em como faria para não desperdiçar a comida; não sentia mais a menor fome, mas seu pai jamais admitiria que se jogasse fora um único grão de arroz.

- Evidentemente, o Centro da Liga Johto em Violet, onde Kristen se licenciou, não foi autorizado a divulgar o Pokémon com que ele iniciou sua jornada oficialmente anteontem, mas fontes seguras afirmam que ele trouxe seu próprio Pokémon ao invés de usar um dos iniciais disponíveis nos centros de criação oficial da liga, o que nos leva a deduzir que provavelmente trata-se de um Pokémon lutador. Ontem o site de apostas pokehuman.com recebeu mais de 200 mil acessos em menos de quatro horas ao colocar no ar uma enquete apostando numa série de Pokémon lutadores, dentre os quais o internauta deveria tentar adivinhar qual o Pokémon usado por Kristen. A aposta se encerrará...

Já era demais. Kristen se levantou bruscamente e mal o fizera quando o Alakazam surgiu novamente deslizando pelo caminho entre as mesas – agora outras duas estavam ocupadas por homens solitários. Chegando perto da mesa dele, o Alakazam fez levitar um caderno preto até a mesa. Kristen retirou a carteira da mochila, arrancou umas notas e colocou-as dentro do caderno, retirando dele a folha de papel.

Assinou a conta de forma apropriada e ignorou a sessão de perguntas – exceto pela parte de críticas, onde rabiscou que deviam reduzir o volume da televisão. Sem que ele ordenasse, o conteúdo quase intocado de seu prato foi despejado telecineticamente dentro de uma caixa com o logo do bar, deixando no prato apenas o caldo, agora já frio.

Kristen devolveu a folha à mesa e guardou a comida com uma reverência. O Alakazam retribuiu-a e sumiu dentro da cozinha, o livro preto flutuando atrás de si. Com uma última espiada na televisão, onde os jornalistas já se despediam, anunciando o programa seguinte, Kristen enfiou a mochila às costas e abriu a porta para o fim de tarde gelado.

Mal dera três passos em direção à mata da Rota 31 quando ouviu passos discretos atrás de si. Naturalmente desconfiado, ele se virou bruscamente de punhos cerrados, assustando o grupo de quatro pessoas que vinha logo atrás. O rapaz que parecia o mais velho, quase uma cabeça mais baixo que Kristen, tomou a dianteira.

- Kristen Jounochi, não? – perguntou, em tom desafiador.

- Sim. – respondeu Kristen receosamente, lamentando ser reconhecido apesar do gorro.

- Meu nome é Raish. Não se preocupe. Sabemos que deve ser um saco todo mundo ficar atrás de você e tudo mais, não viemos te pedir autógrafo nem nada. O que queremos é bem simples.

- Hum.

Kristen relaxou, avaliando as duas meninas quase idênticas e o adolescente magricela que o acompanhava, todos bastante agasalhados. Suspendendo de leve a blusa, Raish deixou entrever um cinto de Pokébolas como o de Kristen.

- Aonde quiser. Aceita o desafio?

Finalmente Kristen sorriu. Inúmeras vezes, sentara-se na cadeira de técnico para guiar os Pokémon lutadores de sua academia rumo a títulos nos torneios de arte marcial Pokémon. Agora experimentaria, pela primeira vez, como seria guiar um Pokémon numa batalha além da marcial, considerando outras variáveis; era sua primeira batalha Pokémon de fato.

- Vamos até a grama. Não podemos causar tumulto na frente do bar nem no meio da estrada.

Atravessando a parte asfaltada da Rota 31, eles embrenharam-se uns poucos metros entre as árvores. Kristen colocou a mochila no chão cuidadosamente e sacou a Pokébola de Tyrogue do próprio cinto, apertando o botão para que ela crescesse até tomar o tamanho perfeito de sua palma. Raish sorriu de forma provocadora.

- Ora, estão todos especulando sobre que Pokémon lutador você terá trazido para a jornada. Eu poderia ganhar um bom dinheiro sendo entrevistado com meu testemunho.

- Hum... vamos brincar assim então. Se ganhar pode publicar... e ainda digo mais, seu testemunho vale muito mais do que pensa. É minha primeira batalha na jornada.

- Opa, você não é tão avesso à imprensa quanto dizem. – Raish puxou do próprio cinto uma Pokébola normal e também aumentou-a de tamanho.

- Por outro lado... se perder, nenhum de vocês pode contar à imprensa nem a ninguém que me viu. Podem apostar no Pokémon certo, eu não contarei a ninguém que sabiam, mas nada de imprensa. Combinado assim?

Raish brincou de atirar a Pokébola pro alto, zombeteiro.

- Negócio fechado. Vamos ver do que é capaz, lutador!

Ele e Kristen lançaram suas Pokébolas ao mesmo tempo. O Tyrogue surgiu, preparado em posição de luta, gritando o próprio nome a plenos pulmões. Do outro lado, um rato azul, orelhudo e redondo surgiu. Ele tinha metade do tamanho de Tyrogue e um rabo fino que culminava numa esfera quase perfeita.

- Marill? – indagou Kristen para si mesmo, percebendo que não sabia nada sobre as habilidades de luta dele.

- Meu irmão mais velho também começou a jornada dele com um desses. Hoje ele é um Azumarill forte e bem tratado... e deu filhotes.

Kristen sorriu, aliviado ao ver que o rapaz parecia ter apreço sincero pelo seu Pokémon. Estava começando a ter receio de tudo e todos no mundo Pokémon depois do dia anterior. Varreu a paranoia da cabeça quando percebeu uma mudança de postura em Raish.

- Muito bem, luta! – gritou Raish.

- Guarda de pé, Tyrogue!

Tyrogue fechou os punhos, postando os braços diante do rosto e olhando fixamente entre eles para o Marill, que abria os braços curtos e retribuía o olhar. Não parecia muito intimidador, mas Kristen nunca subestimava ninguém.

“Na experiência você deve dar liberdade ao seu adversário para estudá-lo. Mas quando vocês são novatos... comece atacando, pois a única forma de espremer informações de alguém inexperiente é pressionando-o.”

- Muito bem, Tyrogue, investidas curtas, como combinamos!

Tyrogue acenou uma concordância e aproximou-se de Marill sem correr ou desfazer a guarda. Raish achou completamente estranho. Pokémon lutavam como animais, saltando e desferindo investidas agressivas. Mas aquele Tyrogue se aproximava pacientemente pelo chão como um lutador experiente. Um lutador humano experiente.

Faltando menos espaço, Tyrogue apertou o passo ao mesmo tempo em que parecia pôr mais firmeza na posição dos dois braços. Venceu o que faltava de chão e desferiu um soco de esquerda frontal em Marill, que se abaixou sem muito esforço, dada a diferença de tamanho entre os dois; aproveitou para acertar uma cabeçada na bacia de Tyrogue. Este ergueu a perna por reflexo, mas não a tempo; foi atingido com força e se desequilibrou para trás.

- Ele é mais baixo que você, defenda o tronco e não o rosto, Tyrogue!

Mas a ordem foi dada na hora errada. Tyrogue ainda não recuperara o rumo das pernas quando abaixou a guarda, cegamente inspirado nas ordens do treinador, o que fez Raish sorrir.

- Agora, Marill, use as bolhas!

Marill inflou o peito redondo e cuspiu uma série de bolhas que atingiram Tyrogue em cheio no rosto, fazendo-o tropeçar de vez nas próprias pernas. Kristen sabia bem que a defesa mais valiosa de um lutador era a concentração e agora a de Tyrogue estava quebrada.

- Finalize com a investida, Marill!

Marill tomou impulso no pouco espaço que havia, saltando habilidosamente e batendo com a parte de cima da cabeça no queixo de Tyrogue, que despencou de vez de costas no chão. Marill aterrissou sutilmente, encarando o adversário caído.

- Eu ganhei. – comemorou Raish com a voz triunfante.

- Não comemore tão cedo.

Tyrogue levantou-se de um pulo, assustando Marill, que imediatamente recuou meio metro. Ele parecia avariado, mas mantinha-se de pé valentemente.

- Muito bem, acho que já sabemos tudo que ele é capaz de fazer. Tome cuidado com os movimentos que já viu e se aproveite do fato de que ele ainda não viu os seus. Pro próximo ataque funcionar, precisa vir com uma finta, entendeu?

Tyrogue exclamou uma concordância, mantendo o olhar rígido em Marill, enquanto Raish parecia preocupado. Não contara que tudo aquilo fizesse parte do plano de Kristen e agora ele começava realmente a parecer o excelente treinador de lutadores de que tanto se ouvia falar.

- Tsc. Use as bolhas mais uma vez!

- Evasiva pelo lado da base, Tyrogue!

Tyrogue desviou de lado magistralmente, deixando as bolhas passarem à esquerda de seu corpo – chegando a roçar no braço sem muitos danos — ao mesmo tempo em que avançava com um salto. Marill, pego de surpresa no meio de seu próprio movimento, desviou de raspão do direto de direita abaixando-se, mas isso favoreceu o segundo golpe.

Raish sequer conseguir enxergar direito o joelho esquerdo que estalou entre os olhos de Marill, atirando-o a quase dois metros de distância; seu peso mal alcançava um terço do peso de Tyrogue e ele já estava indiscutivelmente nocauteado quando caiu de costas.

Parecendo furioso consigo mesmo, Raish apertou o botão em sua Pokébola e um feixe de luz vermelha recolheu Marill aos seus aposentos para descansar. Tyrogue somente desfez a feroz posição de luta quando seu adversário desapareceu. Ele, então, deixou caírem as mãos ao lado do corpo e curvou a cabeça, cumprimentando Raish, que retribuiu sem jeito, visto que não esperava nada semelhante.

Tyrogue virou-se e repetiu o processo com Kristen, que retribuiu e fez um aceno para que se aproximasse. Kristen se pôs de cócoras e tomou o queixo de Tyrogue nas mãos, falando sem parar enquanto o examinava. Raish e seus amigos se aproximaram.

- Eu subestimei você.

Kristen pôs-se novamente de pé e estendeu a mão a Raish, que apertou-a, sem desfazer o semblante de poucos amigos.

- Não se preocupe. Você aprendeu isso por si mesmo, então a luta lhe foi útil. É a isso que chamam experiência. Meu pai costumava dizer que o combatente humilde não possui derrotas, pois converte até estas em algo vitorioso.

- Sábio seu pai. Eu não conheço muito sobre a vida dele. Depois de hoje, acho que vou pesquisar, haha.

Kristen sorriu e ambos separaram as mãos. Ele pôs a mão sobre a cabeça de seu Tyrogue, que parecia muito satisfeito consigo mesmo.

- Na verdade, foi ótimo pra nós também. Cometi pelo menos um erro no início. Graças ao treinamento de Tyrogue, ele é resistente e foi capaz de se levantar para que pudéssemos refazer da forma correta. Não estou habituado a golpes elementais, mesmo os mais fracos. Precisarei me acostumar.

- De fato. Bom, nós vamos andando, tem um Centro Pokémon a menos de uma milha para lá. – ele apontou para a estrada que levava à estação de trem de Azalea, referindo-se ao Centro anexo a ela – Não quer vir conosco? Tem lugar pra dormir.

- Ah, agradeço, o convite, mas estou indo em direção oposta. No mais, eu realmente gosto de acampar, vou guardar as hospedagens para os dias de chuva.

Já escurecera completamente quando Tyrogue segurava a lona da barraca enquanto Kristen se curvava todo para estender as últimas estacas por baixo dela. Logo ele saiu do interior dela secando a testa com o dorso da mão e encarando, satisfeito, o próprio trabalho.

Ser grande trazia suas desvantagens e Kristen lamentava que a maior barraca que podia carregar na mochila lhe deixasse tão apertado, mas realmente apreciava o contato com a natureza, principalmente porque hospedagens normalmente não lhe permitiam levantar à hora que quisesse para dar início aos treinamentos.

- Ufa. Agora podemos comer e descansar. Você foi ótimo hoje, Tyrogue, estou orgulhoso. A partir de hoje você só entra na Pokébola para dormir ou se estiver ferido. Vamos treinar mais cedo amanhã, entendido?

Tyrogue concordou com a cabeça, parecendo realmente entusiasmado. Mas quando proferiu sua exclamação, notou que Kristen não olhava para ele de forma orgulhosa, mas sim de forma bastante assustada por cima de seu ombro. Virou-se e só viu o escuro das árvores cada vez mais unidas. Kristen, entretanto, tinha certeza de que não se enganara: tinha ouvido um grito desesperado, distante mas muito urgente.

Notas finais
1 Talheres japoneses; os dois palitos de madeira usados para pescar comida ao invés dos nossos talheres tradicionais.

2 Nome romanizado do uniforme para artes marciais coreanas, muito semelhante ao kimono japonês.