Pokémon - Reconquest
17 Capítulo 15: Luto
Notas iniciais
— E então, Kris, o que o traz aqui? Sua jornada mal começou e já está com saudades do travesseiro?
Ryla estava se habituando à voz zombeteira de Kaya, pois notou que ela lançava mão desse recurso em todos os momentos, não apenas quando queria debochar.
A primeira providência da geniosa irmã de Kristen ao entrar na sala foi chutar longe os sapatos com salto e se atirar espaçosamente no sofá maior. Kin sumiu discretamente por um corredor e Kristen – já com roupas comuns — se sentou no outro sofá, em frente ao da irmã. Ryla, ainda sem graça, ficou de pé sob o umbral do corredor que Kin atravessou, com os braços cruzados, observando.
A casa estava vazia desde a partida de Kristen, mas era evidente que alguém estivera limpando com bastante freqüência. Não havia odores típicos de lugares abandonados, mofo nem poeira ou qualquer outra coisa que denunciasse uma casa desabitada. As belas cortinas importadas estavam entreabertas e o chão limpo como o de uma piscina de azulejos.
- Você sabe bem o que me traz aqui, Kaya. – respondeu Kristen com um discretíssimo tom de implicância – Afinal você decora números, cita poemas de cabeça, aprende poom-saes¹ e katas² só olhando uma vez... tenho certeza de que sabe que dia é hoje.
- Não superestime a minha memória, Kris. Hum, finalmente um cheiro agradável desde que chegamos nesse fim de mundo.
Pelas costas de Ryla, ao final do tal corredor, exalava-se um tentador cheiro de tempero culinário bastante carregado. Ryla podia ver os longos cabelos castanhos entrando e saindo de seu campo de visão, abrindo algo que parecia um grande armário branco e em seguida indo para onde ela não conseguia ver.
- Pois é, também estou com fome. – disse Kristen – Mas a real surpresa é vocês estarem aqui. Vocês nunca vêm...
- Oras, não podemos ter vontade de visitar nosso querido lar? – debochou Kaya mais uma vez.
- Deixe de bobeira, Kaya... – disse Kin com um tom cansado, subitamente pondo a cara no corredor – Viemos pra te ver, Kris. – acrescentou para ele, com um sorriso meigo – Você come peixe, Ryla-chan?
Pega de surpresa pela pergunta súbita e gentil, Ryla demorou a responder, mas logo que acenou afirmativamente com a cabeça, Kin tornou a desaparecer na direção da cozinha.
- Tsc... que estraga-prazeres. Nunca me deixa implicar com ninguém.
- Não há mal nenhum em querer ver a família, Kaya. Deixe de ser tão orgulhosa. – disse Kristen.
-Só queríamos saber se estava inteiro depois do que aconteceu em Violet.
Kristen retorceu as mãos no colo involuntariamente. Tentava não pensar nos acontecimentos daquele dia. A noite aflitiva na prisão enquanto sua Ponyta se preparava para operar, o atentado terrorista, a morte de um policial, o desagradável depoimento a Baromy, que admitiu penosamente que aquilo poderia ter sido evitado se não tivessem sensacionalizado a prisão de Kristen... tudo dera errado.
- Achei que a TV estivesse dando uma boa cobertura. – ironizou ele – Vamos lá, se estivessem realmente tão preocupadas, teriam ido ao hospital, fiquei quase uma semana lá. O que vieram de fato fazer aqui?
- Como assim “o que viemos fazer aqui?”, idiota? Eu vim dar uma espiada nesses caras da FLAK. – respondeu Kaya sem o menor traço de paciência na voz.
- Chegou um pouco tarde. Não vejo nenhum deles desde que quase derrubei aquele cara do Charizard.
- É, mas se você vai passar por Cherrygrove, é certo que eles irão atrás de você por lá, não?
Kristen novamente crispou os lábios. Não estava gostando da conversa e o indomável temperamento de Kaya nunca era um bom aditivo a assuntos de porte tão delicado.
- Francamente, Kaya... se realmente acha que sou um alvo ambulante da FLAK, deviam ficar longe de mim, não?
- O que quer dizer com isso, pirralho? – perguntou ela, agora com desprezo.
- Bom... a maioria das pessoas nem presta atenção ao fato de que tenho irmãs e talvez seja melhor assim...
Kaya se levantou, empurrando o sofá uns dois palmos para trás. Com as duas mãos na cintura, encarava Kristen, bastante enfurecida. Este, por sua vez, levantou também, mas foi incapaz de encará-la, o que deixou Ryla bastante surpresa. Então existia alguém no mundo que incutia algum tipo de submissão a Kristen.
- Nossa mãe nos disse sempre para enfrentarmos os problemas juntos. – disse Kaya friamente, como se estivesse rogando uma maldição – Não tem o direito de nos impedir de ficarmos coladas às suas costas, se acharmos que isso é necessário pra te proteger. Você nem largou a mamadeira ainda, Kris.
- Lamento que pense assim. Se é pra fazer citações, por que não lembra que papai me fez prometer – ele agora encarava-a nos olhos — que eu ia proteger vocês duas. Nesse momento a melhor proteção que posso oferecer é me manter distante de vocês.
- Francamente, Kris. Você é a criança nessa história, não nós. Pare de agir como se o seu umbigo fosse o centro do mundo. Essa mentalidade machista do papai nos fez sair de casa, não faça com que nos afaste de você também!
- Pessoas morreram, Kaya. Esses caras usam Pokémon para atacar humanos, é perigoso. Quantos morreram naquele incêndio? Vinte? Trinta?
Kaya ia retrucar, mas um par de braços envolveu-a no tronco por trás. Kin tocou os lábios na lateral do pescoço dela ternamente e a discussão cessou imediatamente. Ryla logo percebeu que ela exercia sobre ambos um poder muito maior do que golpes precisos e palavras pesadas.
- Por favor, deixem disso. Independente de como vocês dois interpretem o que a mamãe quis dizer com “união”, certamente não tinha nada a ver com essas discussões infinitas. – disse Kin bondosamente, como se estivesse explicando uma lição escolar para uma turma infantil – Vamos comer.
Ryla não sabia como poderia sentir-se mais intrometida naquele seio, agora com essas intrigas familiares delicadas. Com os quatro sentados a uma mesa redonda bonita e adornada comendo um prato fumegante de peixes com bastante caldo, ela simplesmente tinha vontade de pegar a própria comida e ir para o jardim, deixando os irmãos em paz.
- Estão gostando? – foi Kin que quebrou o gelo alegremente.
- Uma delícia como sempre, Kin-chan. – disse Kristen.
- Sim, realmente bom. – disse Ryla, feliz com a mudança de assunto.
Com a expressão amargurada, Kaya mais revirava a comida no prato do que comia, parecendo distante. Mas Kin não se importou.
- Isso não está certo, Kris. – disse Kaya, de repente, desta vez abandonando a arrogância e parecendo sinceramente preocupada.
- Como?
- Você não precisa ficar andando por aí com um prêmio pela sua cabeça.
- Ora, Kaya, não se preocupe. Não tem prêmio nenhum pela minha cabeça. Aquele cara só queria me recrutar, não tem como eu dizer “não” pra ele de forma mais clara, concorda?
Com um longo suspiro, Kaya largou os hashis de vez e levantou-se da mesa. Ryla notou o ar tristonho no olhar de Kin e novamente optou por não dizer nada.
- Vamos com você até Cherrygrove. Afinal é o mesmo caminho que vamos usar, de qualquer forma. Nos separamos lá então. De acordo? – perguntou Kaya, sem dar a menor impressão de que havia realmente a opção de não concordar.
- Por mim tudo bem. – disse Kris, terminando as últimas porções de carpa frita – Vai ser ótimo ficar junto de vocês por mais uns dias.
~~~~~~~~~~~~~
De joelhos diante do General, o Coronel da FLAK, comandante da última operação, sentia-se extremamente orgulhoso. Apesar de seu líder estar de costas para ele e completamente coberto pelas sagradas vestimentas pretas, ele podia sentir que, enfim, havia feito a coisa certa pela organização.
- Realmente bem executado. Você se redimiu completamente de seu último fracasso.
Ele não cabia em si de tanta felicidade. Arrancar um elogio direto do General era motivo para contar vantagens pelo resto da vida, mesmo que ele o fizesse enquanto avaliava um punhado de papéis e prestava atenção mínima ao próprio elogiado.
- Tudo só foi possível graças ao perfeito planejamento do senhor, General.
- Se eu pudesse executar isso sozinho nesse momento, eu teria ido. Não tente dissimular meus elogios. Eu sou rígido para manter a qualidade do trabalho de vocês, mas sei dar méritos quando a situação os exige.
- Sim, senhor, não foi isso que quis dizer. – se apressou em explicar – Estava apenas ressaltando que...
- Eu sei o que estava ressaltando. – cortou o General – Tenho muito o que fazer, então serei direto, como sempre. Apesar dos seus erros afobados, ninguém comanda as operações com tanta garra quanto você. Precisamos da sua determinação no campo mais vezes. É por isso que lhe darei outras duas missões... duas missões cruciais.
- Diga-me, senhor. – começou o Coronel, quase não cabendo em si de contentamento – Apenas diga as missões e eu partirei agora mesmo.
- Tenha calma... apenas uma delas é urgente. Não pode haver falhas nessa e você deve executá-la à paisana. Você não levará homens da tropa consigo; apenas os Pokémon habituais e um ajudante designado por mim. E ainda assim, evite usá-los, a menos que seja estritamente necessário.
- Sim, senhor... basta dizer e eu farei.
- Aquele Charmander que você resgatou...
- O que tem ele, senhor?
- Ele tem um potencial valiosíssimo para a organização, graças ao motivo que tem para lutar ao nosso lado.
- Isso é verdade... – respondeu o Coronel, após ponderar por um segundo – Mas o nosso médico disse que não há como salvá-lo, mesmo alimentando-o...
- O que significa que precisamos de um médico especialista. Um que realmente entenda dessa doença... de Charmanders... e de filhotes. Eu tenho um nome para você...
Uma folha se soltou do meio da pilha que o General avaliava e moveu-se como que levada por um pé de vento na direção do Coronel. Ele apanhou a folha e pareceu ligeiramente intrigado.
- Sua função é recrutar este homem. Mas tome cuidado, pois ele pode não querer colaborar... Diferente dos demais, nesse caso você deve trazê-lo mesmo assim. De acordo?
- Sim, senhor! – exclamou o Coronel, arrancado de sua concentração na leitura.
- Ótimo.
- E quanto à segunda missão, senhor?
- Ah sim... trata-se de corrigir um erro. Eu diria que foi, provavelmente, o único erro da operação de vocês.
- Erro? – o Coronel parecia bastante incrédulo – Que erro, senhor?
- Havia vinte e seis humanos no prédio. Vinte e cinco saíram em sacos para cadáveres.
O Coronel se levantou, com a boca aberta sob a máscara, simplesmente não acreditando no que ouvia. O suor escorria frio entre suas mechas azuis rasamente grisalhas.
- Não pode ser... conferimos todos! Todos estavam carbonizados ou tinham algum ferimento vital exposto. Não é possível que alguém tenha sobrevivido!
- Pelo visto não checaram o bastante... mas não faz mal. Esse erro, felizmente, foi contornável, pois a mulher está incapacitada demais para falar, pelo menos por algum tempo.
Uma outra folha se acresceu à que o Coronel já carregava e este teve que se segurar para não vomitar diante da imagem que parecia um punhado de carne moída queimado e moldado como um corpo humano por um artista plástico bêbado.
- Ainda assim, não subestimemos a memória nem a capacidade de recuperação de uma pessoa. Pode ser catastrófico. Então vamos limpar o crime por garantia.
~~~~~~~~~~~~~
Menos de uma hora após o fim do conturbado almoço, um clima genuinamente familiar pairava finalmente entre os presentes. Sobre lençóis e colchões dispostos no chão entre os dois sofás, Kaya estava deitada de barriga para cima, bastante pensativa. Kin se deitava ao lado dela, com a cabeça recostada sobre seus seios e a expressão ainda mais angelical que o normal.
Kaya acariciava os cabelos da irmã distraidamente enquanto olhava para o teto. Apesar dos olhos fechados de Kin, Ryla tinha quase certeza de que esta estava acordada e atenta a quaisquer alterações de humor.
Ela mesma estivera, até há pouco, deitada no colo de Kristen, este esparramado sobre o sofá, igualmente introspectivo. Mas ele se levantara e fora até um dos quartos sem dizer nada. Ryla ficou deitada no sofá por mais alguns minutos, até que sentiu que estava atrapalhando coisa e decidiu ir atrás de Kristen.
Encontrou-o alongando-se diante de um espelho teto-solo postado na parede do quarto oposta à porta. Sua mochila estava aberta sobre a cama desarrumada na qual a própria Ryla havia dormido na noite anterior e havia uma muda de roupa atirada sobre a cama, sobrepujada por um estranho embrulho marrom.
- Ryla-chan, eu já ia chamá-la. – disse Kristen altivamente enquanto puxava um dos braços pelo cotovelo.
- Bem achei que suas irmãs quisessem ficar a sós...
- Talvez, mas não era bem disso que eu estava falando. Preciso ir a um lugar importante, você me acompanha?
- Claro que sim, que pergunta. Onde vamos?
~~~~~~~~~~~~
Ela havia entrado pela casa deixando as portas abertas e sem se dar ao trabalho de acender as luzes pelo caminho. Com os braços apoiados sobre a pia, a única fonte de luz que lhe permitia ver o próprio reflexo era o filete de claridade que vinha das treliças foscas da janela imunda.
Reparou em si mesma pela primeira vez em semanas. Marcas profundas sob os olhos, os cabelos ressequidos e sem vida, o sorriso desaparecido... Tudo que ele mais amava nela completamente destruído, para combinar com o coração.
Sabia que devia seguir em frente, em respeito à memória dele. Sabia que ele, onde quer que estivesse, ia gostar de vê-la sorrindo e não atirada à depressão, solitária no banheiro imundo de um canto esquecido. Mas simplesmente não conseguia. Não tinha vontade de se cuidar. Às vezes apenas tinha vontade de não comer e deixar a fome ceifar a tortura crescente que ela sentia só por estar viva.
Deixando novamente os pensamentos ruins subirem à mente transtornada, Lucy apertou as laterais de porcelana da pia até fazer os dedos doerem. As lágrimas escorriam e pingavam por todo lado, mas ela se controlava para não emitir nenhum som.
Num impulso, ela arrancou as duas blusas que usava com força, ficando apenas de sutiã diante do espelho. Revirando o pote de itens de higiene no armário da pia, ela derrubou escovas de dente e pacotes de fio dental até encontrar o que queria: a lâmina de barbear que outrora usava para se depilar.
Olhando o objeto com desprezo, como se ele fosse o culpado de seus problemas, Lucy aproximou-o do pulso esquerdo, onde havia dezenas de cortes alinhados na parte interna do antebraço, alguns ainda nem cicatrizados.
Ela vacilou por um instante, observando a mão trêmula sacudindo-se ao lado do braço maltratado. Sentiu-se vazia, suja, desleal.
Lucy encarava o Comandante Baromy sem saber como dissimular a humilhação que sentia. Ele havia se levantado de sua cadeira e tomara o braço esquerdo dela nas mãos. Olhava consternado para os ferimentos que ele já sabia que existiam e descobriu, talvez pela milésima vez, como a ciência da existência de algo ruim não tira o caráter chocante da coisa.
- Lucy, eu...
Baromy sabia desde o início. Com uma invejável carreira investigativa havia quase trinta anos, ninguém negava que ele possuía um dom de percepção inigualável. Ele sempre soube o que encontraria sob as mangas de Lucy, mas desejou, de todo coração, estar enganado.
- A que horas devo estar pronta para a transferência, Comandante? – perguntou Lucy, com voz de quem seria mandada para a forca.
Com a ausência de resposta, ela desvencilhou-se da mão dele devagar e vestiu a blusa, começando a abotoá-la novamente. Baromy apanhou a ficha de requerimento psiquiátrico sobre a mesa e segurou-a suspensa no ar, olhando para o chão. Estava desolado. Lucy era como uma filha para ele.
- Preciso assinar alguma coisa? – indagou Lucy, tentando segurar as lágrimas.
Para a surpresa da menina, Baromy rasgou a folha ao meio, em seguida em quartos e oitavos. Atirou o papel picado à lixeira e encarou-a de maneira firme, num esforço indizível. Ela simplesmente não acreditava.
- Por que fez isso, Comandante?
- Você não vai a clínica nenhuma, Lucy.
- Como não? O senhor viu, eu sou um perigo para mim mesma! Talvez seja mesmo melhor eu...
- Preste atenção! – Baromy segurou-a pelos ombros e sacudiu-a – Você precisa dar a volta por cima, entendeu? Não pode se entregar! Eu sei do que havia entre você e Dan... mas o que ele diria se estivesse aqui? Certamente ele iria querer que você seguisse sem ele, com a mesma força de sempre!
Lucy desviou o olhar, mas não teve coragem de se soltar. Ela sabia que estava sendo egoísta, mas simplesmente não conseguia agir de outra forma.
- Você entrou aqui decidida a esconder isso de mim. Disse que conseguiria fazer seu trabalho apesar disso. Pois então eu confio em você, Lucy. Eu vou lhe deixar com a coisa que melhor distrai sua cabeça no momento, que é o seu trabalho. Em troca, você vai me prometer que vai se controlar! Precisa me prometer que vai dar a volta por cima!
- Comandante, eu...
Lucy abriu a boca três vezes, mas não conseguiu dizer mais nada. Baromy soltou-a e se afastou dois passos.
- Não vou ficar lhe vigiando, Lucy. Confiarei em você. O que é um comandante sem subordinados de confiança? Apenas um velho cheio de títulos. Eu preciso de você, Agente Lucy.
Profundamente grata pelo sentimento de necessidade de cumprimento do dever que sentia crescer novamente dentro de si, Lucy respirou fundo e encarou Baromy, decidida.
- Tem a minha palavra, Comandante.
Lucy abaixou os braços. A depressão vinha ainda mais forte, tão forte que nem vontade de se machucar ela tinha mais. Aos poucos, foi substituída por um sentimento forte de traição, que se transformou num ódio intenso de si mesma.
Ela deixou cair a lâmina sobre os papéis na lixeira lotada e agarrou o pote de origem, atirando-o com raiva na direção do boxe. O plástico se quebrou e espalharam-se sabonetes artesanais, escovas de cabelo, pastas de dente e tudo mais pelo chão do banheiro.
Saiu pisando firme do banheiro, agora convencida de que Baromy tinha razão: para as pessoas verdadeiramente honradas, as palavras e os laços de confiança não podiam ser monitorados por assinaturas em papel algum no mundo.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Ryla começava a sentir uma dor nos lados do corpo ao respirar. A subida parecia nunca terminar. Kristen retardava seus passos o máximo que conseguia, para não deixá-la para trás.
A íngreme ladeira que os afastava ainda mais de New Bark estava tomada por uma grama alta que Ryla imaginou estar recheada de Pokémon, exceto na estreita trilha desmatada pela qual eles seguiam. Era possível ouvir, muito suavemente, o ruído do mar castigando as rochas ao fundo.
- Falta muito ainda, Kris? – perguntou ela, relutando um pouco em reclamar da caminhada.
- Não se preocupe, apenas mais uns minutos.
- Afinal, se você disse que era importante para a família, por que Kaya e Kin não quiseram vir?
Ela teve dificuldades em decifrar a expressão assumida por Kristen ao ouvir a pergunta, arrependendo-se imediatamente de tê-la feito. Mas não havia como voltar atrás com as palavras.
- Kaya diz que é besteira.
Cerca de dez minutos depois ambos avistaram dois portões de ferro escancarados e tomados por todo tipo de erva daninha. Os altos muros de concreto balançavam perigosamente com o vento e Ryla sentiu um arrepio na espinha ao verificar no relógio que a tarde já estava terminando.
Kristen cruzou a entrada com um sorriso melancólico no rosto. Para Ryla, que vinha logo atrás, tudo por ali era novidade. Nunca havia estado pessoalmente num cemitério antes e todos os que vira por fotos ou pela televisão eram imensos e cheios de lápides imponentes, mausoléus familiares e sempre uma área abandonada com cruzes de madeira, dedicada aos mais pobres.
Naquele em que se encontravam, havia apenas túmulos brancos iguais enfileirados e cobertos de limo. Nos mais antigos, nem sequer se podia ler a simples inscrição com nomes e datas.
Ela teve a súbita sensação de que preferiria ser enterrada num daqueles quando morresse e logo se censurou pelo pensamento mórbido. Notou que estava se distanciando de Kristen, pois este andava depressa sem reparar muito nos arredores, enquanto ela lia as inscrições ainda acessíveis, cheia de curiosidade.
Quando finalmente alcançou-o, ele estava de pé entre dois túmulos na penúltima fileira. Ryla viu que ele sorria para um deles, apesar da distante melancolia. Do embrulho nas mãos, ele retirou uma longa rosa branca e atirou-a sobre o musgo que recobria o túmulo.
Ryla pôde ler:
SARA JOUNOCHI 11.12.789 ~ 19.08.820 (4.6 EP)
“Como ela morreu jovem.” – pensou Ryla – “E já faz tanto tempo... Kristen era ainda criança.”
Sem dizer palavra, Kristen sentou-se no chão com as pernas cruzadas, recostando-se no outro túmulo. Ryla sentou-se ao lado dele em silêncio. Ele olhava para o túmulo da mãe como se pudesse conversar com ela. Sorria tristemente para alguma lembrança que Ryla não podia alcançar.
- A Liga – quebrou o gelo Kristen, distraindo Ryla de suas reflexões – possui um memorial próprio. Ironicamente, apesar de todos os seus serviços prestados à entidade, meu pai nunca quis ser mandado pra lá. Ele queria ser enterrado aqui, junto da mamãe. Mas não teve jeito, estava no contrato e ele teve de ir...
Ryla não tinha idéia do que dizer. Procurou a mão de Kristen com a sua própria e enlaçaram-se os dedos com naturalidade.
- Desde que ela se foi, todos os anos papai nos trazia aqui e colocava uma flor branca no túmulo dela. Dizia que eles haviam prometido nunca se esquecer um do outro e que, pelo menos uma vez por ano, ele vinha mostrar a ela que nunca se esqueceria.
Ela pensava na própria relação com os pais. Não sabia onde a própria mãe estava enterrada, mas esperava sinceramente que o pai e os irmãos estivessem no mesmo buraco imundo. Sentiu-se repentina e irremediavelmente vazia.
- Kaya detestava isso. – continuou Kristen com uma risada frouxa – Ela sempre disse que era besteira. Sabíamos que era só o jeito dela de lidar com tudo isso. No fundo, era ela quem mais sentia falta... ela não aceitava de jeito nenhum, por isso queria se distanciar. Então Kin começou a ficar com ela em casa sempre que vínhamos... Apesar do jeito frio dela e de Kin nunca dizer nada quando voltávamos, sabíamos que ela tinha chorado até secar.
Ryla refletia sobre como era se sentir tão destruída, gozar de uma tristeza tão profunda, que precisava recorrer ao orgulho para não asfixiar o coração. Era um sentimento que ela conhecia muito bem. Sentiu uma estranha afeição por Kaya.
- Quando papai estava doente... ele me fez prometer que viria aqui todos os anos dizer à mamãe que ele não havia esquecido dela em momento algum, até o final dos seus dias. Eu não acredito realmente que ela esteja nos ouvindo, mas... Hoje é o único dia do ano em que eu não posso estar longe de casa, Ryla-chan. Obrigado por vir comigo.
Kristen se curvou e beijou a testa de Ryla longamente. Esta segurava-se para não libertar as lágrimas. Abraçou Kristen, sentindo um enorme e repentino carinho pelo seu anjo da guarda.
- Vamos voltar, Ryla-chan. – disse Kristen, reparando no sol que terminava de se pôr no horizonte – Amanhã vamos seguir viagem cedo e eu prometi que ia treinar com Tyrogue ainda hoje.
~~~~~~~~~~~
O ruído da própria mastigação dos salgadinhos era a única coisa que rompia o ar monótono do ambiente. Colin passou a mão cheia de farelos sobre o queixo, sentindo a barba malfeita enquanto bocejava profundamente. Adorava o serviço de vigilante, mas detestava quando a escala lhe colocava na vigilância eletrônica, principalmente no turno da noite.
Por causa dos anos naquela carreira, estava habituado à total ausência de rotina sonífera das escalas descontínuas, mas ficar de olho nas câmeras o deixava sonolento mesmo assim.
Diante dele havia dois grandes monitores, divididos em doze quadrados iguais cada um, onde câmeras posicionadas em lugares diferentes projetavam imagens em preto e branco: corredores, interior de galpões e muros que obviamente estavam do lado de fora do prédio. Foi uma dessas câmeras externas que ficou temporariamente cega quando um vulto passou diante dela.
Colin imediatamente se levantou e pegou o rádio na cintura, enquanto a outra mão se posicionava instintivamente sobre a arma de choque no coldre. Aquela era uma das câmeras camufladas entre as plantas, perspicazmente posicionadas nos pontos cegos das demais. A maioria das câmeras era bastante visível propositalmente, de modo que os invasores evitavam-nas sem dificuldades e acabavam por cair nas camufladas.
- Observador para base. Movimentação estranha inespecífica na área da câmera 18. Vou checar imediatamente. Câmbio.
Entreabrindo a porta do prédio devagar, Colin apontou a pistola para o vão, segurando-a com as duas mãos. Escancarou a porta, tentando ser sutil. Soltou mentalmente um palavrão por causa do rangido do qual ele já reclamara formalmente uma infinidade de vezes.
Passou pelo portal, apontando a arma para todos os lados, mas sem encontrar a fonte do problema. Não podia negar que estava satisfeito por poder esticar as pernas e sentir cheiro de algo que não fosse café e salgadinho industrial, mas ainda assim estava receoso.
Seu coração quase parou quando ouviu um ruído próximo aos entulhos jogados à esquerda. Automaticamente virou a arma para lá, mas logo respirou aliviado quando viu que era apenas um gato muito idoso. O ruído nada mais era que um miado. A criatura branca retesou-se com a ameaça da arma e miou uma segunda vez, preparando as garras.
Colin sorriu para o gato e guardou a arma no coldre, apanhando o rádio. Notou os bigodes oleosos, a pele do rosto enrugada e as marcas na testa ao redor do artefato dourado.
- Aqui é o observador para base. Checagem terminada, era apenas um Meowth. Estou voltando para o posto, Câmbio.
Colin ainda apalpava os bolsos em busca de algum salgadinho perdido com que pudesse agradar o pobre Meowth quando sentiu os olhos serem friamente vazados. Caiu no chão sem enxergar nada e sentindo o sangue se esvair de suas órbitas como duas torneiras abertas.
Seu grito de dor não durou mais do que dois segundos, pois sua traquéia foi habilmente rasgada pelo Meowth. Sem saber que ferimento agarrar, Colin não teve nenhum pensamento especial antes de morrer. Não se lembrou da esposa nem dos dois filhos: tudo era dor.
Arrastando-o pela perna com bastante dificuldade, Meowth colocou-o sobre as plantas. Ajeitou alguns arbustos do jardim para que ficasse mais escondido e espalhou mais alguns sobre o rastro de sangue deixado no cimento. Não estava perfeito, mas para a precária iluminação da noite, estava de bom tamanho. Quando o sol nascesse, o serviço estaria terminado e eles longe dali.
“Diabos... demorei demais, ainda dei tempo dele gritar. Acho que estou mesmo ficando velho. Espero que ninguém tenha ouvido, miau.”
Revirou o cadáver até encontrar o que queria: o cartão azul com os dados de Colin. A chave eletrônica que lhe permitia acessar qualquer parte do prédio: privilégio garantido apenas à chefia e à equipe de segurança.
Meowth olhou para cima e amaldiçoou suas juntas envelhecidas. Com o cartão preso aos dentes, ele saltou para a parte de cima da porta e dela para o muro. Apesar dos movimentos silenciosos, a dor nas articulações traseiras era realmente irritante.
Ele displicentemente deixou cair o cartão do lado de fora do muro, pulando novamente para o chão do lado de dentro antes que pudesse ser notado por alguém. Deitou-se com naturalidade sobre as plantas ao lado do cadáver; sua parte estava concluída.
Do outro lado da rua, um mendigo jazia atirado sobre um velho banco de cimento. Estava completamente encoberto por um edredom velho e pesado que deixava entrever apenas o par de olhos atento ao objeto que despencava sobre a calçada oposta.
Notas finais
2 Exatamente igual ao explicado no 1, só que é uma prática do Karate. Exemplo mais legal do mundo: http://www.youtube.com/watch?v=ys2NeiBlk8k
Um breve recado em off: quebrei dois dedos da mão ontem e já foi uma tortura revisar esse capítulo hoje. Não posso prometer que vai haver capítulo semana que vem... pra ser honesto é bastante improvável. Forte abraço.
Fale com o autor