Poisoned

2 Enigmáticos Olhos Verdes


Notas iniciais
Oi gente! Obrigada pelos acompanhamentos. Por favor comentem, quero muito saber o que vocês estão achando da história. Boa leitura!

Não era para eu ter tido nenhum pingo de esperança, quanto ao aluno novo. Eu me pergunto porque eu tinha ficado feliz, mas acho que uma simples novidade para mim poderia ser uma fuga dessa monotonia que era minha vida. Poderia usar todos os adjetivos ruins para descrever meu novo aluno, mas a quantidade deles era realmente exagerados para uma só pessoa. Quando a superintendente veio a minha sala entregar-me o relatório do garoto, eu simplesmente quis jogar aquela pasta pela janela. A maré de notas vermelhas dele estavam por todas as matérias, até simples aulas de artes. Cabulou aula por uma semana inteira no internato onde estava, e fugia das aulas de educação física e economia. Foi pego fumando atrás do ginásio, e recebeu uma suspensão de 30 dias por ter levantado a saia de uma professora na cara dura. O final não podia ser mais surpreendente, acabou sendo expulso. Penso que aqui não seria diferente.

Eu prestei bastante atenção nele enquanto dava o restante de minha aula. Ele me olhava com os olhos frios e assustadores, parecia xingar-me apenas com o olhar. Tinha uma posição desleixada e desinteressada na carteira, olhava para os lados e dava em cima das garotas a seu redor. Alguns garotos foram falar com ele, todos da mesma índole, presumi. O que não pude deixar de notar era que ele tinha feições realmente maduras. O maxilar era tão delineado e as costas da mãos fortes fixadas na carteira, as veias pulsantes nos braços másculos. Eu nunca daria 17 anos para aquele garoto, se o visse em outro lugar. Quanto o sinal tocou, agradeci mentalmente. Dei um suspiro breve, enquanto os alunos saíam da sala. Menos ele.

— Está tudo bem... — Ele se levantou da carteira, indo até a mim. Observou a plaquinha por sobre minha mesa — ... Senhorita Watson?

Cerrei o maxilar. Aqueles olhos verdes penetrantes sobre mim eram certamente ameaçadores e envolventes.

— Sim, eu estou bem. Pode ir para sua próxima aula Sr. Smith.

Ele mordeu o lábio inferior, dando uma olhada minuciosa para minhas pernas. Se virou, pegou sua mochila e piscou o olho para mim enquanto saiu da sala. Desabei na cadeira em minha mesa, friccionando os dedos sobre minha testa. Uma dor de cabeça latejante agora me assolava depois desse momento estranho com o novato. Estava me sentindo totalmente assustada e intimidada por um mero garoto de 17 anos. Fechei os olhos, negando com a cabeça. Peguei novamente o relatório do garoto e observei sua ficha familiar. Órfão de mãe, pai desaparecido. Reside com uma tia por parte materna. Senti um espasmo em minhas mãos e larguei a pasta, analisando sozinha. Eu queria ser parte de uma mudança na minha própria vida, e na vida daquele garoto. Eu estava determinada a botá-lo no caminho certo. Sorri, e cumprimentei meus outros alunos que chegavam.

Quando tocou para o almoço na escola, fui para a sala dos professores e aproveitei um lanche saboroso feito pelo substituto de matemática. Se eu estivesse inteiramente fixada na comida, teria perdido a conversa paralela sobre o garoto novo. Margareth havia comentado algo sobre ele, dizendo que ele já possuía ficha criminal e fora preso umas 3 vezes. Eu estava bastante perplexa, mas não totalmente chocada. Eu esperava umas histórias bem mais sombrias sobre ele. O professor de trigonometria avisou-nos sobre nunca o chamar pelo seu nome completo, Alexander. Ele contou algo sobre uma briga violenta que o garoto teve com o diretor do internato onde estudava por causa disso. Senti-me amedrontada, e fiz questão de escrever sobre isso em minhas anotações para não esquecer. Também não fiz questão de perguntar o porquê.

Quando dei o restante das minhas aulas e já me preparava para voltar para casa, recebi uma mensagem de Elizabeth dizendo para eu ir imediatamente para o bar onde ela havia combinado. Eram mais ou menos umas 17h da tarde e eu mandei uma de volta perguntando o porquê. Ela disse que a tal pessoa já havia chegado, e que o bar já estava cheio. Revirei os olhos, estava cansada demais para ir nesse encontro às escuras, mas decidir ir para não decepcioná-la. Parei primeiro no banheiro da escola, retocando minha maquiagem e passando um batom mais escuro. Baguncei meus cabelos para dar mais volume e deixei uma mecha solta a frente de meu rosto. Saí do banheiro, me sobressaltando com uma figura a observar-me.

— Vai a algum lugar professora?

Alex estava encostado em seu armário no corredor, os braços cruzados e um cigarro atrás da orelha. A escola estava completamente vazia tirando os faxineiros, perguntei mentalmente o que ele ainda fazia aqui. Engoli em seco, apertando a bolsa ao corpo.

— Desculpe Alex, Não devo dar satisfações a meus alunos. — Ele deu um sorriso largo, quando pronunciei seu nome.

— Entendo. Espero que se divirta saindo por aí, e tenha cuidado com essas pernas de fora e...

Estreitei minhas sobrancelhas, senti-me completamente invadida.

— Eu irei encontrar com uma amiga senhor Smith. — O cortei, ríspida —Mantenha suas fantasias impróprias para você mesmo.

Ele deu um sorriso malicioso, assentindo com a cabeça. Me virei e me apressei pelo corredor, sentindo o coração pulsar rápido. Eu nunca havia lidado com alunos delinquentes, e eu estava bastante assustada, mas determinada em o manter na escola e nos estudos. Corri para pegar o ônibus e agradeci mentalmente por pegá-lo vazio. Apesar de ter pego um transito relativamente chato, consegui chegar a tempo no encontro e desci para a avenida onde era o barzinho. Vários carros e várias pessoas saíam e entravam, e eu tirei o blazer para dar um ar de informalidade. Entrei no estabelecimento e uma música descontraída tocava, conversas altas e aleatórias entre as mesas e no bar onde as pessoas se serviam de drinks. Vi uma mão acenar para mim, e observei Elizabeth em uma mesa perto do bar, um homem de costas à sua frente. Me aproximei e dei dois beijos em Elizabeth, e me virei para cumprimentar o homem. Era do estilo 35 anos, um corte de cabelo ordinário em fios castanhos com alguns fios brancos, uma barba rala e feições masculinas avantajadas.

— Olá, prazer em conhecê-lo.

Ele sorriu e se levantou, me dando um abraço desengonçado.

— Prazer em conhecê-la Kristel. — Ele puxou uma cadeira para mim ao lado de Elizabeth e eu me sentei — A Eliza aqui tinha razão, você é mesmo muito bonita. Tem 25 anos mesmo?

Dei um sorriso amarelo. Eu nunca recebia mais que 20 anos, apesar de as vezes me vestir como uma velha, para evitar comentários do tipo.

— Muito engraçado John. — Elizabeth deu um gole em sua cerveja, ela sabia que esses comentários me deixavam desconfortável — Mas e aí, como foi sua aula? Kristel é professora, John. Ensina na Foxes High School.

Ele levantou uma sobrancelha grossa impressionado, tomando um gole do que presumir ser conhaque.

— Sério? Que interessante. Professora de que Kristel?

— Literatura. — Respondi, pondo minhas coisas sobre a mesa — Recebi um aluno novato hoje, parece que esse vai ser difícil.

John riu, e não foi exatamente uma piada. Elizabeth chamou o garçom e eu pedi um martini de morango. A pasta sobre a mesa havia revelado parte da foto de Alex, e Elizabeth se esgueirou até meu lado, pegando a pasta, curiosa. Abriu os documentos, pegando na foto do garoto e analisou.

— Uau Kristel. Cuidado para não se apaixonar. Veja John, não parece um modelo underground? Veja todas essas tatuagens e esses olhos verdes penetrantes.

John pegou a foto, analisando meio carrancudo. Mas não era pra menos, Elizabeth havia feito esse encontro para eu conhecer o cara, falar de outro homem na mesa não era exatamente adequado.

— Tudo bem, chega. — Peguei a pasta das mãos de John, e ele me olhou — Que chato falar sobre meus alunos. Viemos aqui para nos conhecer não é? Fale mais sobre você John. No que trabalha? Quais são seus objetivos na vida?

John estufou o peito, sentindo-se agora a atração. Começou a falar sobre sua vida, e eu não podia negar minha face de desinteresse, era uma vida corriqueira de um homem adulto. Tomei alguns goles de meu martini, tentando manter-me desperta numa conversa que parecia me dar sono. Dei uma olhadela para a pasta, aqueles olhos verdes enigmáticos numa mera foto me fazia perder o fôlego. Botei meu blazer por cima da pasta. Não tinha porque eu estar pensando num aluno num encontro.

Notas finais
Comentem e até o próximo :)