When I'm 64. 
Quando eu ficar velho quero ficar assim. Se eu tiver a sorte de ficar velho, quero ficar assim. Viver a vida como se estivesse correndo guiando uma roda ao meu lado. Com o mato alto, o sol no fundo, me olhando. O corpo suando, vivo. Cabelo ao vento, sorriso estampado, canelas finas em alta velocidade. E agora de repente, tão mais que de repente, estou numa fila do banco, indo pagar uma conta que diz respeito ao meu futuro. Ao futuro não me interessa; não tomo conta deste, somente do presente. Talvez sejam as águas de março fechando o verão. É a promessa de vida no meu coração. Não posso enquadradar minha cabeça. Isso não pode acontecer. Simplesmente não pode. Entupir a agenda, fazer das responsabilidades um traço adulto que me faça crer em valores quadrados. Quero sempre amadurecer, crescer, evoluir. Tenho meu sonho bem guardado na gaveta; o da evolução. Quero arcar com responsabilidades e entrar na vida adulta, mas sem me tornar um. Minha mente, espero, continua aqui. Híbrida. O poeta está dormindo, enquanto eu cheio de obrigações escrevo em meu viver. O poeta não faz nada. Só dorme, canta, dança. Escreve poesias baratas, e fica admirando as pequenas coisas da vida. Se bem que agora, não sou mais eu pessimista. Agora sou eu neutro. Eu poeta sonha, olha para o céu e vê poemas infinitos. Eu olho para o céu e sinto sono. Poeta tem vida boa. Pode tornar qualquer dia especial, simplesmente porque ele tem vontade. Pode oferecer sorvete com o tempero que todos esquecem: a liberdade. Que graça tem escolher um sorvete pensando no quanto ele vale? Muito errado envolver sorvete com dinheiro. Eu poeta é esperto. Dá pitadas de liberdade e anarquia monetária em cima do sorvete. E envolve-o com o dia especial. Eu poeta sei que não se tornará adulto. E é isso que me reconforta. Se ele sair daqui, eu estarei vendido. Tão barato que eu nem acredito. Quero ser maduro para ser colheito. Não quero ser adulto que é fruta feia e ninguém escolhe. Quero viver a vida adulta como deve-se-à viver: de um jeito não adulto. Quero ficar velho e ter o meu violão ao meu lado sempre. Sentar na frente de casa, e gritar alguns versos que não valem uma rima miserável. Tocar violão e só. Gritar os versos e só. Gritar minhas histórias. O carinho pelas minhas histórias não poderia ser maior. Agora eu me vou. Dê boa noite ao Eu Poeta. Ele às vezes não ouve, mas não leve a mal.
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