Poeira ao vento
1 Poeira ao vento
Quando terminei meu namoro com G, eu tratei de seguir minha vida da mesma forma, tentando manter o equilíbrio como quando aprendi a andar de bicicleta, sem cair. Eu sabia que algumas relações deviam ter uma data de validade e, infelizmente, para mim e para G, esta data havia chegado naquele momento, mesmo que subitamente. Mas não havia razão para cerimônias de desespero e não havia razão sequer para enganar a mim mesmo dizendo que queria reatar a relação com G. pois para mim a vida era muito mais do que aqueles momentos recortados que eu tivera ao lado de G, a vida era algo extenso, um grande amontoado de escolhas e possibilidades que esmagavam minha vida de namoro como se fosse uma formiga. Era correto que eu visse a vida como ela era em sua totalidade ao invés de centrar-me naquele problema ínfimo.
Portanto, depois que terminei com G, tratei de levantar-me no mesmo horário de sempre, ir para o trabalho no mesmo ônibus de sempre. Conversar com os mesmos amigos sobre as mesmas coisas. Sim, eu fazia questão de manter a estabilidade rígida. Então, mesmo que às vezes minha mente mostrasse sinais de desgaste, brechas que me faziam lembrar de G em situações desnecessárias (como quando fui tomar café da tarde na casa da minha amiga e ela me fez uma vitamina de abacate, G. amava vitamina de abacate, ver aquilo à minha frente abriu uma rachadura em meu cérebro que me permitiu observar pela fresta os bons momentos que tive com G., lembrando-me de que talvez, talvez lá na parte de trás da minha cabeça, em algum lugar inóspito do meu cérebro, eu sentia falta dele), eu tentava sobrepor esses momentos com naturalidade. Então, eu bebi a vitamina de abacate com prazer, com gosto, bebi sem me demorar muito.
A mesma coisa me aconteceu noutro dia em que eu passei perto de uma ruazinha estreita, uma ruazinha que eu já tinha passado junto com G. várias vezes, pois era o caminho de minha casa quando eu voltava de ônibus: a pequena rua era cercada por casas térreas, cada uma de uma cor: verde, azul, bege, rosa. Ali, moravam senhoras de cabelo branco e vestido florido, alguns gatos e cães. Era um lugar bonito e calmo, um pedaço de paz e quietude que esquentava o coração. G. me dizia que aquela rua era a rua onde morava a sua avó, embora eu nunca tivesse a conhecido pessoalmente. Ela morava na casa verde, uma que não era verde apenas por causa da tinta nas paredes, mas também pela quantidade de flores, arbustos e grama que despontavam do quintal bem cuidado. Quando eu passei por essa rua colorida depois do término, senti outra brecha de meu cérebro sendo aberta e exposta: pude ver, no mesmo canto inóspito de meu cérebro, o sorriso de G. ao mencionar a avó, mas pude ver seu sorriso murchando quase que instantaneamente, por sabermos que ela não entenderia o meu relacionamento com ele, que eu não poderia conhecê-la pessoalmente, que conhecê-la só machucaria a mim e a ela. Não, deveríamos deixá-la ali onde estava. Assim, depois do término, eu passava por aquela rua e olhava as casinhas coloridas como se nada houvesse, aquela era uma situação normal e não tinha por quê enxergar de outra forma. As casinhas eram as mesmas, a casinha verde era igual, eu tinha mais é que encarar aquelas construções da mesma forma que encarava antes.
Mas logo eu fui percebendo que G. estava em todos os cantos. Outro dia, no mercado, enquanto eu fazia compras, meus olhos se detiveram em uma prateleira com a marca de sabonete que ele usava. Aquele sabonete deixava a pele macia e hidratada, como era a pele de G., que ficava cheirosa depois do banho de um jeito que atiçava meus sentimentos por ele: como era gostoso aquele aroma floral emanando da superfície macia de seu corpo. Parado em frente à prateleira de sabonetes, pensei, pensei um pouco mais, e decidi pegar um pra mim. Levei para casa, lavei meu corpo com ele, senti os mesmos cheiros como se nada houvesse. Conforme eu respirava aquele cheiro, tentava conferir neutralidade a ele. Tentava enxergá-lo como aquilo que era: um cheiro, e nada mais. G. não fazia parte daquele cheiro do sabonete, assim como não fazia parte das vitaminas de abacate e tampouco da estrutura das casinhas coloridas da rua estreita. G não estava lá, e eu precisava entender isso: ele não era parte integrante de nada no meu mundo. Eu apenas havia grudado a figura de G. àquelas experiências. G. era uma memória, era prescindível, se outrora eu grudara ele em meu mundo, agora precisava desgrudar.
E era isso que eu estava fazendo. Desgrudando G. de cada memória minha, cada lembrança. Separando o que era real do que talvez não fosse, separando cada fato ao seu devido lugar, como se estivesse dessalinizando água. Por isso, eu me forçava a reviver todas as memórias que tive com ele. Eu queria que nossas experiências se tornassem tão insignificantes em minha cabeça que ele sumisse e desaparecesse até nunca mais. Tratar nossas experiências prévias com neutralidade era uma solução eficiente. Eu dizia a meu cérebro que as frestas que se abriam de vez em quando no lugar inóspito da minha mente nada mais eram do que apenas frestas, vislumbres, e tratava de fechá-las imediatamente.
Assim, continuei meus dias em uma sequência estranhamente calma. Até o dia em que, depois de fechar todas as frestas, depois de rememorar cada lembrança, depois de inundar meu cérebro com neutralidade e desinteresse, depois de todos esses esforços, eu avistei G. na rua.
Eu estava indo até o parque para caminhar, e de repente, ele estava lá. Erguia-se como uma alucinação, uma alma penada, um recorte do passado. Pisquei algumas vezes para ver se era ele realmente, e era: meu coração apertou no peito como se recebesse um soco. Enviei vários recados ao meu cérebro de que, assim como em todas as outras situações, ele deveria enxergar tudo isso como algo desprovido de emoção. Mas todas as frestas foram abertas; já não havia o que fazer. De repente, o sorriso de G. invadiu minha mente, sua pele, seus olhos. Seus momentos ruins, suas lágrimas e tristezas, seus medos e sonhos e desejos, me inundaram como um desastre natural súbito.
Quando avistei G. na rua, não o avistei sozinho. Ele andava com outro rapaz. Nenhum dos dois me viu. Andaram para longe, e eu fiquei para trás, sentindo toda a dor que, quem sabe lá naquela parte inóspita do meu cérebro, estivesse aguardando apenas o momento certo para transparecer. E transpareceu em forma de amargura. Nos dias que se seguiram, fiquei amargo e desinteressante como café frio e sem açúcar. Pensei que de nada adiantava desgrudar G. das minhas memórias: quem sabe, ele sempre estaria ali, e eu apenas tivesse que aceitar isso. Mas eu tive dificuldade em aceitar que, assim como eu estava tentando remover G. do meu cotidiano, como um cientista que procura eliminar um vírus da corrente sanguínea, com certeza ele também estava se desvencilhando de mim. Eu me reduziria pouco a pouco em sua vida, até virar poeira, até virar uma parte tão pequena e insignificante de sua vida que seria como um nada, um não ser. Foi quando entendi que, depois de muito tempo querendo que G. saísse da minha cabeça como que por mágica, talvez a pessoa que devesse se retirar da história fosse eu. Talvez a pessoa que devesse se desgrudar das memórias não fosse G., mas fosse eu. Assim, eu fui embora. Eu me despedi de todas as memórias com G, despedi-me da casa verde de sua vó, despedi-me de seu sorriso murchando, despedi-me do sabonete floral, da vitamina. Assim, desintegrei-me e desapareci, como poeira ao vento, e fui viver minha vida em paz.
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