Poderosas

8 Família


Notas iniciais
Aí está gente! O maior capítulo até agora! ^-^ Algo que eu quero salientar aqui... Eu disse, ao postar o ultimo capitulo, que o próximo (no caso, esse aqui) sairia em um ou dois dias... Bom, primeiro quero me justificar. Eu tinha a intenção de separar esse capítulo (e acrescentar mais coisas do próximo na segunda parte), mas acabei mudando de ideia. Acreditei ser enrolação demais... Então, a primeira noite após o reencontro das Meninas está aí, completa! Espero que vocês aprovem :3 P.S.: Desculpas especiais a Tina, ela sabe o porquê :P

E lá estava eu, a alguns metros da porta da casa que eu mais evitei em toda minha vida.

Me recordo do primeiro ano depois que fugi de Townsville, quando eu voei na direção oposta daquele lugar. Era verão, eu havia acabado de cometer o meu maior erro até então. Fui embora, pulando de cidade em cidade, sem voltar um passo se quer, com medo de ser puxada de volta. Quando cheguei a costa do oceano já era Natal, e me sentia exausta. Me vi sentada nas areias de alguma praia litorânea que até hoje não tenho a mínima ideia do nome, e comecei a imaginar o que estava acontecendo em casa naquela noite. Será que elas estariam abrindo presentes? Será que haveria uma festa? Será que estariam preocupadas comigo? Sinceramente, queria que já tivessem esquecido de mim e de toda a dor que eu causei a elas, todas as memórias de “Docinho” fossem apagadas, e minhas irmãs estariam sorrindo na mesa de jantar comendo a ceia de Natal. Mesmo sendo uma pessoa incrédula, desejei paz a elas naquela noite... Algo que provavelmente nunca chegou. Então me deitei e comecei a chorar pensando em todas as coisas que eu havia deixado para trás...

...e agora elas voltaram.

Meu estômago está dando voltas dentro do meu corpo, e eu sentia um enjoo muito forte, querendo vomitar. Mas ao mesmo tempo, minha garganta estava travada, tornando aquilo impossível de acontecer. Minhas mãos suavam e tremiam, meu cérebro queria derreter. Não percebi que estava chorando até o momento que senti algumas lagrimas tocarem o canto dos meus lábios, deixando um gosto salgado na boca, e então caindo no chão. Eu estava prestes a desabar naquele mesmo chão, junto a elas.

Estava tão perto agora... Mas eu simplesmente sentia vontade de sair voando novamente, sem olhar para trás. Independente de Bellum ou qualquer Governo Norte-Americano. Desviaria de qualquer míssil que eles atirassem em mim, e se acertassem algum, seria um favor. Acabaria com esse sofrimento.

Coloco a mão no meu bolso de trás, mas não preciso tirar a foto para saber que ela está lá. Sinto uma espécie de calor emanando pelos meus dedos, como se ainda houvesse um pedacinho de alma queimando a partir daquela fotografia velha. Uma fagulha que exalava conforto, e principalmente muita saudade. Ainda estava com medo. Ainda estava em pânico. Ainda estava com vergonha. Ainda sentia que nada de bom me esperava no outro lado daquela porta.

Mas agora eu não estava mais tremendo.

E em um súbito lapso de coragem, que durou um meio segundo de tempo, eu toco a campainha.

Posso ouvir o som da mesma atravessando a casa. Não posso ir agora. Minhas irmãs contavam comigo. Só mais alguns segundos e Lindinha abriria a porta, e nada ia me tirar dali. Só precisava resistir mais um pouco a essa dor no meu peito que fazia meu coração querer sair do meu corpo correndo para se esconder...

A porta se abre.

Duas lindas mulheres estão paradas a minha frente, uma de lindos cabelos louros e outra em um ruivo avermelhado. Minhas irmãs... Eram adultas agora. Florzinha tinha uma expressão dura ao me ver, surpresa e cautelosa. Sua reação não foi boa, parecia que estava vendo um fantasma. Já Lindinha... Ela ainda estampava os mesmos olhos chorões daquela criança que pedia para deixar a porta meio aberto a noite antes de dormir...

— Docinho! – Ela grita em meu ouvido, ao se jogar em mim de braços abertos, me envolvendo em um abraço apertado.

Meu corpo dói. Minha alma se estilhaça. Mas por um breve momento... Me permito entrar naquele abraço. Me jogo de cabeça naquele gosto reconfortante de reencontro. Aperto-a forte, em retribuição, com medo de perde-la de novo. Florzinha não reage de imediato, como se ainda não acreditasse que eu estava ali. Lindinha a agarra para dentro do abraço esmagando-a contra nossos corpos, e mesmo parecendo meio desconfortável, ainda o retribui. Eu tinha todos os motivos do mundo para ficar chateada com a reação dela, mas não consigo pensar em mais nada...

Minhas irmãzinhas.

Estou feliz. Por alguns minutos, me deixo ser feliz novamente. Eu amo elas, e ouvir o choro irritante de Lindinha no meu ouvido após todos esses anos é a coisa mais maravilhosa que eu poderia pedir para minha vida. Ela soluça no meu ombro, e demoro a perceber que nós três estamos de joelhos no chão. Florzinha, por mais incrédula que estivesse, não se segura e começa a chorar timidamente. Eu faço a mesma coisa. Meu abraço permanece firme e forte, mas sinto como se meus ossos fossem geleia. As lagrimas vão caindo pelo meu rosto, mas permaneço em silêncio, para poder escutá-las. Passo as mãos em seus cabelos. Revivo a lembrança do cheiro único de baunilha que exala de Lindinha, e o de pêssego vindo de Florzinha. Vejo lapsos de memória de todas as nossas aventuras juntas, como um filme na minha cabeça. Todas as vezes que elas salvaram minha vida, e eu salvei a delas. Nossas brincadeiras bobas no laboratório. Segredos que compartilhamos...

Se eu pudesse me acorrentar a esse momento para o resto da minha vida, eu o faria com prazer... Principalmente porque não queria experimentar tudo o que viria após isso

Eu sabia que depois que nossos braços ficassem cansados, e o soluço das vozes delas começassem a sumir, haveria coisas ruins me esperando... Perguntas, questionamentos, ressentimento, tristeza, raiva, julgamento... Coisas para que eu não estava pronta. Era de se imaginar que eu estivesse, até acreditei que de fato estava, mas era tudo ilusão. Agora eu podia ver como eu estou totalmente frágil e despreparada para estar aqui hoje, nesse momento.

E como todas as outras coisas boas na minha vida, eu consigo estragar tudo por pensar demais. E Lindinha para de espernear ao lado do meu ouvido, e tudo que eu sentia era sua forte respiração em meu ombro. Florzinha deita sua cabeça no meu peito, silenciosa. Mas seus abraços não estavam menos fortes. Provavelmente uma pessoa comum seria esmagada se estivesse no meu lugar.

Ficamos assim por uns longos minutos até eu começar a falar:

— Então... – Eu digo, recuperando o fôlego, minha voz ainda fraca e rouca. Não sei de onde tirei a força e coragem para falar algo, mas eu tomo as rédeas da situação. Porque por mais que a ideia fosse tentadora, não poderíamos passar a noite toda abraçadas de joelho na frente de casa. Ainda tinha o Professor... E era horrível pensar que eu precisava fugir desse belo momento por algo tão triste quanto ter que reencontrar meu pai que estava morrendo – Acho que está na hora de nos levantarmos...

E assim nós fizemos. Lentamente, eu, Lindinha e Florzinha levantamos, uma de frente para outra. As duas descem suas mãos pelos meus braços, e agora seguravam-nas com a ponta dos dedos, Lindinha a esquerda e Florzinha a direita. Nenhumas delas olharam nos meus olhos até ficarmos completamente em pé.

Pude vê-las direito pela primeira vez em nove anos.

Lindinha transformara sua fofura em uma beleza incomparável. Seus olhos grandes e azuis pareciam a figura dos límpidos céus por onde costumávamos voar. Seu rosto trabalhava como uma obra de arte, dos lábios rosados e delicados, que estavam cobertos por um batom vermelho forte, ao nariz arrebitado e pomposo. Seu cabelo dourado estava totalmente solto, sem necessidades daqueles pompons infantis, e pareciam brilhar feito uma estrela. Não lembrava uma guerreira, muito menos uma super-heroína, era só uma bela mulher. Ela sempre foi a mais frágil de nós, a mais bela, mais humana. E até mesmo sua maquiagem borrada não conseguia atrapalhar que ela demonstrasse essas qualidades. Ela estava vestida de forma elegante (mas não muito formal), com uma blusa azul marinho e uma saia preta. Com certeza, estava assim porque nos esperava para o jantar.

Não havia nada muito diferente no caso de Florzinha. Mas não era só beleza que marcava seu rosto, também tinha algo a mais, um tom de seriedade e respeito. Algo que a envelhecia, não de aparência mas sim de alma, como uma aura que tornava aquela garota de vinte e poucos anos em uma moça de trinta. Não é à toa que se tornara uma advogada. Seus longos cabelos vermelhos estavam presos em um rabo de cavalo, com alguns fios soltos que ela prendia atrás da orelha. Naquela forma, eles pareciam uma grande linha de fogo que descia pelas suas costas. Exibia um número grande de sardas pelo rosto, características de uma ruiva. Não usava maquiagem, mas também não era como se precisasse, já era bonita de sua própria maneira. Vestia um cardigan rosa com uma camiseta branca por dentro, e uma calça jeans simples.

Deus... Elas estavam tão... Adultas. Graciosas. Maduras. O que aconteceu? Eu fiquei tanto tempo longe? Era como se eu tivesse acordado de um coma. Não senti esses nove anos passarem.

— É... Eu... Nossa. Me desculpa, é que eu... – A voz de Lindinha tremia. Parecia que estava prestes a chorar de novo – nós estávamos com saudade... Muita saudade...

Ao dizer isso, Florzinha mordeu os lábios e começou a olhar fixamente para baixo, tentando escapar de mim. Mal sinal. Nós? Talvez não essa fosse a palavra certa. Iriamos ver isso logo, mas por enquanto eu só tentei ignorar...

— Eu também senti saudades, Lindinha. – Eu digo, passando as mãos em seus cabelos uma última vez. Me atrevo a sorrir, mesmo sabendo que é indigno de mim. Ela retribui o sorriso. Me viro para Florzinha, a espera de algum comentário. Não recebo nada – Saudades de vocês duas... Que tal entramos?

— Sim... – Lindinha responde, enquanto enxuga as lagrimas remanescentes nos olhos – Sim... Vamos entrar... Estávamos te esperando para o jantar...

...

Estranheza foi a primeira coisa que me atingiu ao entrar na casa. E quando digo isso, não estou falando no sentindo de “Meu Deus, não me sinto certa aqui” (ok, isso também), mas sim no de “essa não é minha velha casa.”

E não era mesmo.

Na verdade, eu ainda conseguia enxergar algo de familiar no formato da casa e localização da mobília, mas somente nisso. As paredes foram pintadas, os móveis foram trocados, até mesmo o cheiro ambiente era diferente. Nosso velho sofá marrom, onde costumávamos sentar para assistir TV (nas vezes que não ficávamos de cara para ela) fora trocado por um novo, ele era branco e muito belo, mas me lembrara da limusine de Bellum, o que me causou um certo desgosto. O piso fora reformado em madeira, o teto foi pintado no branco, e as paredes em uns tons claros de azul no lado, e escuros no outro. Até mesmo as escadas foram trocadas por degraus de metal presos a parede! Parecia algum modelo experimental de uma casa futurista. A arquitetura era moderna e bem bonita, mas... Isso meio que me entristece, e foi quase um choque de realidade... Elas cresceram. Essa casa não abriga mais crianças. Eu abandonei as minhas irmãs faz muito tempo.

— Wow... Esse lugar está... – Eu não queria dizer “esquisito”, mesmo sendo o que eu sentia. Olho para Florzinha, que parecia me evitar, mas mesmo assim ela compreendeu o que eu estava pensando, porque provavelmente pensara a mesma coisa quando chegou. Ela diz algo com seus lábios que eu compreendo como: “Eu sei, mas não fale nada”. Acho um bom conselho a se seguir – Lindo.

— Hã? Ah, sim. Obrigada... – Lindinha diz, soando envergonhada – Eu e... Bem, podemos dizer que todos nós estávamos meio cansados da antiga decoração após tantos anos. Redecoramos há três anos atrás...

— Nossa... Três anos? Eu não tinha ideia do que eu estava fazendo a três atrás – Comento, ainda um pouco angustiada com tudo aquilo. Mantive as mãos no bolso desde do momento que entrei.

— Hum... – Murmura Florzinha.

— Hum o quê?

— Meninas... – Lindinha diz, forçando um sorriso totalmente falso, e mudando de assunto – Vou no banheiro... Arrumar a maquiagem. Pode dar uma olhada por aí, se quiser.

Ela então vai subindo as escadas, e tudo na minha cabeça apita “COMENTÁRIO IDIOTA”. Eu sou uma estúpida. “Não tinha ideia do que eu estava fazendo a três anos atrás”. Que tipo de pessoa diz isso?

Senti minha garganta seca, precisava de um pouco de água. Tanto choro devia ter me desidratado, e havia uma dor latejante na parte de trás dos meus olhos.

— Vou na cozinha tomar uma água... – Comento timidamente com Florzinha – Você vem?

— Ok – Florzinha sai a minha frente, sem fazer nenhum tipo de contato visual.

“Ao menos a cozinha ainda permanecia igual”, era o que eu esperava poder dizer. Não pude. A pintura e a mesa também estavam diferentes, e agora a bancada estava repleta de utensílios eletrônicos de alta-tecnologia envolvendo comida. Cafeteiras modernas, batedeiras com laminas especiais, coisa que pica, coisa que assa, coisa que amassa, coisa que frita. Não tinha ideia de como funcionava nenhum daqueles aparelhos. Até mesmo o forno era daquele jeito, e seus botões não eram analógicos, o que já me fazia querer não ficar perto daquilo. E ela tinha um daqueles mini adegas de vinho, cheia com os mais variados tipos. Não era muito a minha praia, mas estava maluca para experimentar.

A geladeira, por outro lado, eu ainda sabia mexer. Mesmo não entendendo todo o “super processo de refrigeração” que ela provavelmente devia ter.

Pego um copo limpo da pia e coloco naquele vão na porta da geladeira por onde sai água, e logo me ponho a beber. Florzinha se senta na cadeira do balcão, de frente para mim.

Ficamos em um silêncio constrangedor até eu terminar meu copo com água.

E então...

Eu bebo outro copo com água.

Nenhuma de nós parecia disposta a iniciar qualquer tipo de conversação. Pra ser sincera, eu estou bem com isso. Não preciso ser nenhuma gênia para entender que Florzinha estava incomodada com minha presença. Podia ver na forma como ela agia, me evitando, batucando os dedos levemente no balcão... Tentando se distrair com algo que não seja eu. Aquilo me dói, mas tinha medo de falar algo. De verdade. Entre silêncio e eu conversando com alguém, qual dos dois se demonstrou como o modo mais propício de estragar alguma coisa na minha vida nos últimos tempos?

— Eu não esperava que você voltasse... – Comenta Florzinha.

Nossa...

Ela realmente disse isso?

Ok. Demais. Ótimo. Eu tive de ser a sensata entre nós duas (o que é raro), porque entre silêncio e ofensas, ela acha que a segunda opção era a melhor nesse momento! Eu já estou com culpa demais, realmente não precisava ouvir isso hoje.

— Hum... O que exatamente você quer dizer com isso?

— Nada... — Ela volta a batucar o balcão – Você sabe o que eu quero dizer...

— Não, francamente, eu não sei. O que você quer dizer com isso? — Eu digo. Minha voz sai um pouco mais alta do que eu queria.

— Deixa pra lá.

— Não, agora quero saber!

— Por favor, Docinho. Pare de bancar a difícil. Fazemos isso desde que nascemos, não é melhor simplesmente não discutirmos isso aqui. Esquece. Desculpe.

— Não acredito... Você está fazendo aquela sua coisa! – Eu digo, começando a me irritar.

— Que coisa? – Questiona Florzinha, fazendo cara de ofendida. Que fingida!

— Não se faça de sonsa. Sua coisa. Quando você se faz de vítima sendo que começou.

— Eu estou me fazendo de vítima? Eu comecei? Tem certeza que fui EU que comecei?

A esse ponto, Florzinha me fuzilava com o olhar, e era bem pior que as metralhadoras dos soldados de Bellum. Mas nós duas somos cabeças-duras, e eu a encaro com a mesma intensidade.

Foi ai que a ficha caiu... Deus, o que eu estava fazendo? Esse era o oposto do que eu queria! E agora fico querendo me meter em brigas pelo quê? Porque Florzinha tem razão?

— Olha... Desculpe – Eu sussurro.

— O que foi que você disse? – Ela provoca.

Ok, eu estou tentando fazer a coisa certa aqui. Ela não está ajudando! Eu rangia os dentes, irritada com a sua atitude teimosa.

— Eu disse...

Somos interrompidas quando o cachorro entra pela porta. Em reflexo, eu me assusto e solta um guincho. Florzinha nota minha reação e olha para trás, mas não parece surpresa ao ver o animal.

Agora, vocês me perguntam. Por que tomar um susto com um cão? Bem, esse não era um cão comum. Era a porra de um cachorro Frankstein com uma pitada de Robocop.

Foi de arrepiar, ele não era necessariamente “feio”, só muito esquisito. Seu pelo era branco com um ponto preto bem grande nas costas, e ele tinha uma perninha de metal que parecia uma prótese... Mas não era uma simples prótese. Ela era toda feita em aço cromado, e tinha o formato de uma perna comum de cachorro, só que prendia feito um parasita no torço do animal, e fazia uns barulhos metálicos, como se estivesse se articulando. Pode-se entender que aquilo se tratava de algo realmente funcional. Além disso, ele tinha a orelha esquerda totalmente queimada, e uma aparência velha e cansada.

E a parte mais curiosidade disso tudo era o sorriso dele. Sim, sorriso. Já era mais que obvio que não era um cachorro comum, mas aquele ali era realmente um cachorro muito especial.

— Ei, Falante... É você mesmo? – Pergunto, incrédula.

— Claro que sou eu! – Ele responde, mostrando os dentes, não em sinal de raiva, mas como se tentasse sorrir, mas havia um pequeno problema. Cães não sabem sorrir – Ou depois que você saiu por aí, conseguiu achar mais algum cachorro que fala?

— Não um tão chato quanto você – Eu digo, sorrindo.

Ele sai correndo até mim, e pula nos meus braços. Eu consigo colocar o copo no balcão a tempo de agarra-lo, e ele começa a lamber cada centímetro do meu rosto. Florzinha olha para o cachorro com um olhar de decepção, como se não aprovasse todo aquele afeto.

Vocês podem estar se perguntando de onde vinha toda essa intimidade com o cachorro falante (que nós criativamente apelidamos de “Falante”). O que aconteceu foi o seguinte: a maioria dos cidadãos de Townsville ficara cheia com a atitude de Falante, que não era tão “amigável” quanto se espera de um animal que tinha a habilidade de falar, e isso tudo se passou anos antes de eu fugir de casa. Eles queriam expulsa-lo da cidade. Talvez pelo nosso senso de justiça um pouco cego, não deixamos eles fazerem isso, e demos uma segunda chance a ele. Após muitas sessões com um psicólogo (o que não foi barato, porque ele queria cobrar como médico e veterinário), ele... “Melhorou”. Ainda permaneceu um pouco sacana, mas conseguiu se redimir como um ser canino melhor.

— Tá, tá. Tudo certo. Já pode parar! – Eu digo, afastando sua língua de mim. Agora com ele em minhas mãos, podia ver melhor o que estrago – Deus... O que aconteceu com você? Algum monstro te atacou?

Ele deixa as orelhas baixas, e solta um choro que me dói bem fundo no peito.

— Acidente de carro... – Responde Florzinha.

— Como você sabe?

— Ele me contou. Cheguei antes de você, lembra?

É mesmo, tinha esquecido esse detalhe.

— Nossa... Alguém te atropelou? – Pergunto do Falante.

— Não... Eu sempre avisei a todo mundo que eu não sabia dirigir!

Eu coloco ele de volta no chão, e ele começa a caçar o próprio rabo.

— Calma aí... Você fez isso sozinho?

— Não... – Ele responde, ainda na caça – No caso... Fui eu... E a árvore... Quase peguei dessa vez!

— Isso foi meio estúpido.

— Docinho! – Ela me repreende – Não é legal dizer esse tipo de coisa.

Deus... Não faz dez minutos que cheguei e ela já quer começar a me dizer o que não fazer.

— Muito... Estupido...! Mas o Bob... Me consertou... Com a ajuda... Do Utonium... Maldito rabo!— Em uma última tentativa inútil, Falante tenta abocanhar seu rabo, mas (obviamente) não consegue.

— Calma, vai devagar... Quem é Bob? – Me viro para Florzinha.

Sua expressão muda de descontentamento a vergonha em um segundo. Seu rosto fica tão vermelho quanto seu cabelo.

— Bem... Esse é um assunto um tanto complicado...

Nisso, uma figura masculina aparece em pé a porta da cozinha. Era um homem loiro e muito bonito. Parecia algum irmão mais novo perdido do Thor. Ele mantinha as mãos nos bolsos da calça, exibindo certa timidez.

— Olá, Docinho... – Ele diz, suavemente. Não parecia tão alegre assim em me ver, mas também não parecia ser uma infelicidade – Ouvir falar que agora você atende por Darcy, não é?

Não era possível...

— Explosão? – Questiono o homem, perplexa. Nisso, Falante sai correndo para os pés do Garoto Desordeiro.

— Nossa... Por favor, vamos cada um respeitar o próprio nome? – Ele diz, acariciando a barriga do cão. Então vem até mim, e me dá a mão – O nome agora é Robert.

Eu a aperto, mesmo achando tudo isso extremamente suspeito. Era realmente o Explosão. Podia enxergar isso através daqueles olhos joviais e azuis, iguais os da minha irmã. Mesmo assim... Ele cresceu bem. Parecia um super modelo, alto e sarado, mas não exatamente bombado. Vestia um paletó cinza, e uma camisa social por baixo. Seus belos cabelos loiros continuavam longos, só que agora bem aparados, muito diferente de quando éramos crianças, e sua barba rala muito bem feita. Tinha um sorriso encantador, meio moleque, não muito mulherengo. Seria melhor ainda se estivesse completamente feliz em me ver, mas ele me encarava igual um professor conhecendo os pais de um mau aluno pela primeira vez. Tinha uma certa solidariedade, mas expressava um tom de “não queria estar aqui agora”.

Mas ainda podia dizer, em minha singela opinião, que ele ficara muito gostoso.

Em outras circunstâncias, talvez eu poderia dar em cima dele, se não tivesse aquele pequeno detalhe... Que ele tentara matar eu e minhas irmãs diversas vezes. Agora... Por que esse cara estava aqui?

— Lindy pediu pra chama-las para a mesa. O jantar já está pronto – Ele anuncia, tentando soar animado.

— Ok, já estamos indo! – Florzinha responde no mesmo entusiasmo de falsa animação, só que mais crível.

E eu (para variar) não estava entendendo nada.

Explosão, quer dizer, Robert sai da sala, e Florzinha pega minha mão e sussurra em meu ouvido:

— A Lindinha vai te explicar tudo...

Então sai me puxando para fora da cozinha.

...

Casados.

Sim, casados.

Minha irmãzinha, Lindinha, se casou.

Provavelmente houve uma cerimônia, e fotos, e um longo vestido branco... E eu perdi tudo isso. Um dos momentos mais importantes da vida dela, e eu não estava lá para apoia-la.

Mais um detalhe importante.

Ela casou com um dos nossos velhos rivais da infância, que fazia parte de um grupo de garotos criados simplesmente para nos destruir...

Outro detalhe... Eu achei ele gostoso. Só considerar que pensei isso, após todas essas revelações, me deixou enjoada.

— A comida está boa...? – Lindinha pergunta, observando todos nós por cima da sua taça de vinho que ela segurava próxima a boca, pronta para dar um gole. Era o modo dela de tentar disfarça o quão realmente ela estava interessada por nossa opinião.

Preciso dizer, pelos menos isso foi bom durante o jantar. Eu não fazia ideia de quanto estava faminta. Podia comer um búfalo inteiro, mas pude me contentar muito bem com a comida da Lindinha, principalmente porque ela era muito saborosa, o que matava minha fome mais rapidamente. Ela fez uma grande refeição para nós, digna de uma Ação de Graças, havia macarrão com almôndegas, arroz branco (e super cremoso), lasanha bolonhesa, purê de batata e muitas outras coisas. Claro que a melhor parte era o Chester delicioso que ela preparou, temperado com uma mistura de um monte de ervas que eu nunca ouvi falar (meu conhecimento sobre “ervas” era limitado a somente uma...). Ela também fez questão de abrir um vinho incrível de sua coleção, que Explosão/Robert disse que era “muito especial”.

A parte menos divertida disso tudo? O silêncio. Dava para literalmente ouvir o som das pessoas mastigando (e não estou falando sobre minha super-audição). O máximo que chegamos a “falar” até agora era quando respondíamos as perguntas da Lindinha, que não parava de tentar iniciar uma conversação, obviamente sem sucesso.

— Sim... A comida está ótima – Eu exclamo, tentando levar o astral. Só não sabia se era o meu astral ou o deles, mas não deu certo para nenhum dos dois.

— Realmente está incrível, Lindy – Apoia Florzinha, mesmo não demonstrando tanto entusiasmo, provavelmente porque não gostava de compartilhar uma opinião similar a minha.

— Sim, amor – Diz Robert, sorrindo. Ele põe sua mão sobre a da Lindinha (que dizer, “Lindy”. Tenho que me acostumar com esses novos nomes) – Está perfeito como sempre.

É visível que, de alguma forma, Lindy conseguiu se animar com isso. Deus... Como foi que isso aconteceu? Tipo, um Menino Desordeiro? Pode soar infantil eu ter um certo preconceito, mas aquele cara tentou nos matar. Diversas vezes. Nunca os encontramos após eles deixarem a cidade anos atrás, e de repente ele estava de volta casado com minha irmã? Mas que porra? Eu tento segurar qualquer tipo de comentário maldoso, porque querendo ou não, era evidente que eles gostavam um do outro, mas eu ainda não conseguia largar completamente minha desconfiança.

O que me acalmava era que Florzinha não parecia incomodada com a presença dele. Pelo contrário, ela parecia realmente feliz por Lindy, algo que me deixou até meia culpada. Talvez eu não estivesse dando o devido credito ao casal, mas é que... Como as coisas puderam mudar tanto nesses últimos anos?

— Então, Robert... – Florzinha abre um sorriso para o casal – Como você e Lindy... Sabe? Se envolveram?

— Não precisa da formalidade, Rose... Só Bobby está ótimo. Eu digo “Robert” porque Lindy considera mais adulto...

— Rose...? – Não era minha intenção dizer isso como uma pergunta, nem soltar um risinho bobo... mas foi o que eu fiz.

— Sim, Darcy — Responde Florzi... Que dizer, Rose. Ela não se deixa expressar, mas percebo que meu comentário a irrita – Algum problema com isso?

— Não, não... – Tomo mais um gole de vinho para esconder meu sorriso, e murmuro – Mas não podia ter pego um nome menos obvio...?

— Pode repetir?

— Então! Sobre o nosso casamento... – Lindy eleva a voz, chamando a atenção de nós duas. Ela tem uma expressão de alivio no rosto ao fazer isso, porque obviamente estava tentando evitar uma briga, e funcionou.

— Ah, sim – Diz Rose, se ajeitando na cadeira, fingindo não estar mais ofendida – Como foi?

— Também estou curiosa... – Eu confesso.

— Bem... Quando a Docinho... – Minha irmã para de falar, exibindo desconforto. Algo na sua cabeça a incomodava, e eu sabia bem o que era. Imediatamente sinto uma sensação horrível na pele, como se um bando de formigas me ferrasse por dentro – Quero dizer, quando Darcy... Saiu de casa... Nós ficamos bastante devastadas.

Nesse momento, olho para Florzinha, e ela olha para mim com raiva nos olhos, não do tipo que você quer mostrar, mas do tipo que não se consegue esconder. Vejo-a murmurar algo que eu entendo como: “Entende agora?”. E sim, eu entendia completamente. Estava esperando por isso a noite toda, e meus olhos já pesavam com lagrimas... Mas não podia me deixar afetar, seria pior. Deus, eu costumava pensar nessa noite em terror, dramatizando tudo em uma forma de punição, e agora vejo que era tudo completamente diferente, mas de alguma forma, mais doloroso.

— E foi quando Rose saiu de casa também, após terminarmos o Ensino Médio – Continua Lindy. Dessa vez, sua voz não soou diferente ao dizer que “Rose saiu de casa”, como acontecera agora a alguns segundos atrás, mas olho para o lado e vejo que Florzinha estava de cabeça baixa – Eu acabei ficando sozinha, lindando com a companhia do Professor, e... Bem, acho melhor você contar essa parte, Bobby.

“Bobby”, que ainda segurava a mão de Lindy durante toda a história, a aperta suavemente – Claro, querida – Ele diz, dando um beijo na bochecha de Lindy (não sei por que isso fez minhas orelhas queimarem, e eu juro que enrubesci). Isso melhora um pouco o humor de minha irmã, mas ela não podia ver o olhar de pena que Bobby lançara a ela – Hum... Ah, sim. Eu e meus irmãos nos distanciamos de Townsville após muitos anos, como vocês já sabem. Tomamos rumos diferentes, mas continuávamos muito ligados. Nós... Fizemos besteiras por um bom tempo. Várias besteiras... Muitas besteiras mesmo...

— Você está me provocando – Lindy diz, cutucando-o, mesmo não parecendo estar incomodada de verdade.

Ele ri, e faz cocegas na parte de trás da orelha de Lindy, que se arrepia e dá um tapa na mão dele. Parecia um pouco zangada (agora de verdade), mas ver seu sorriso parece acalma-la.

Bobby se ajeita na cadeira, um pouco vermelho, e começa novamente:

— Desculpe, continuando... Para resumir, acabamos levando um pouco de realidade na cara. Entendemos que aquele sentimento de rebeldia não nos levava a nada. Acho que uma hora tivemos que crescer. Eu terminei o ensino médio, e acreditem se quiser, comecei a cursar Bioquímica no MIT...

— Wow, como você fez isso? – Questiono, abismada.

Bobby solta uma risada tímida.

— Bem, todos nós somos superinteligentes no final das contas, não é? Percebe-se nos nossos reflexos, tanto os físicos quanto o nosso raciocínio logico. Por mais burros que os Meninos parecessem ser, nós ainda éramos semelhantes a vocês. É provável que qualquer um de nós conseguiríamos entrar em qualquer universidade, para qualquer curso que quiséssemos, com um pouco de esforço...

— Realmente – Concorda “Rose”. Acho que ela disse isso devido ao seu diploma de Direito.

— E por quê Bioquímica? – Eu pergunto.

— Por quê? Bem... Acabou chamando minha atenção. Talvez porque tenhamos nascido de um experimento químico. Isso me causou um certo interesse... – Os olhos de Bobby brilhavam enquanto ele fala aquilo. Já os de Lindy o observava com deleite – Mas voltando a história, não é? Quando... – Bobby trava por um segundo –Bem... Quando descobrimos que o Macaco Louco estava morto... Decidimos voltar para casa. Ele ainda era nosso... “Pai”.

Agora foi a vez de Lindy apertar a mão do marido, e o clima da mesa pesou para todos nós.

— Foi quando descobri que Lindy estava aqui sozinha, cuidando da empresa do Professor Utonium – Ele continua – Fiquei interessado, e tentei uma chance de trabalhar lá. Nos reencontramos, uma coisa levou a outra e... Bem, francamente, tenho sido muito feliz!

Eu quase tive medo que Bellum entrasse pela porta e começasse a prender todos nós, porque com certeza Bobby estava usando seus poderes. Não havia outra explicação para a forma como ele conseguiu ignorar o peso denso de vergonha que estava pairando sobre aquela sala e abrir um sorriso enorme feito o que ele estampava em seu rosto.

Lindy parece notar isso. Mesmo parecendo incomodada com o comentário do marido, ela faz algo que eu não estava esperando... Ela o beija. É notável que o ato inesperado deixa-o um pouco desconfortável, mas ele retribui. Eu vejo-a acariciando os cabelos daquele homem como se quisesse gravar na memória a sensação de dançar com seus dedos por ali. Fico feliz por minha irmã, de verdade. Acho que ela conseguiu algo realmente bom após todos esses anos, e isso me deixa totalmente agradecida por Bobby para o resto da minha vida. Após tudo isso, percebo que foi bobagem duvidar dos dois...

Mas ao mesmo tempo, me sinto muito culpada... Eu a abandonei, e até mesmo Florzinha a abandonou. Como fomos capazes disso? Deixamos nossa irmã para trás, sem nada melhor do que um bando de responsabilidades que ela com certeza não estava preparada para lidar sozinha. Se não fosse Bobby, então como seria? Ela foi tão hospitaleira conosco mesmo após todo esse tempo, e não parecia guardar raiva, só muita saudade de nós, mas e se tivesse sido diferente? E se ele não tivesse estado aqui? Ela nos odiaria? Pensar nisso tudo me estraçalhava por dentro... E começo a perceber que nunca pensei em algo assim. Na forma como elas poderiam ter continuado sem mim. Todos esses anos eu esperei que se voltasse, seria recebida com ódio e desgraça, mas... É como se não importasse. E por que isso doía tanto...? Não poderia ficar feliz por elas...? Afinal, não era isso que eu queria...?

Eu começo a chorar, e as lagrimas caem vagarosamente pelo meu rosto. Todos notam isso, inclusive Florzinha, que parecia se esforçar a não assistir. Eu tento parar, mas é difícil.

— Tudo bem, Docinho? – Pergunta Lindy, sua voz soa meio melancólica.

Ela me chama pelo meu verdadeiro nome... Isso acaba me magoando ainda mais.

— Não, tudo bem... Eu só fiquei feliz pela história – Eu minto. Minto descaradamente, por sinal. E ainda ouso fingir um sorriso.

E Lindy acredita, e parecia ficar mais animada do que antes.

Não acredito que pude mentir novamente para ela desse jeito, mas me sinto incapaz de fazer outra coisa. Florzinha me observa com um olhar de suspeita, como se tentasse entender minhas verdadeiras intenções. É nesse momento que me sinto grata por não termos “telepatia” na lista de super-poderes.

— Ok... Eu... – Ainda não sei o que dizer, mas sinto a necessidade de sair dali – Acho que já está bom pra mim... Tem como... Hum... Me mostrar o quarto onde devo ficar?

— Mas já? Ainda não comemos a sobremesa! – Proclama Lindy, com decepção na voz, como uma criança que acabou de ser mandando para cama pela mãe.

— Desculpe, Lindy. Não aguento mais nada...

— Eu também já estou cheia – Diz Florzinha, se levantando. Seu prato ainda estava com bastante comida, e percebo que não sou a única que nota isso. Mas todos nós permanecemos quietos – Lindy, querida, não se preocupe. Bobby já me mostrou o meu quarto, e minhas roupas e pertences já estão lá, ok?

Ela se aproxima dela, e a beija na bochecha. Lindy cora, escondendo um sorriso.

— Boa noite!

Rose se encaminha a porta o mais rápido que pode, mas não antes de Lindy anunciar:

— Não esqueça que vamos ver o Professor amanhã...

Todos nós ficamos em silêncio por um segundo. Rose para na porta da cozinha, como se houvesse congelado no tempo. Não acredito que me esqueci disso... Me sinto estúpida.

— Ok... – Rose responde. Sua voz fraquejou um pouco ao dizer isso.

Eu notei que ela me ignorou. Ela quis fazer questão de deixar isso bem claro.

...

O jantar não ficou muito mais animado depois disso. Acabei ficando para a sobremesa, porque depois da cena com Rose, me senti meio obrigada a permanecer ai com Lindy. Ela não parava de me contar sobre seu casamento, mesmo tendo sido a coisa mais simples do mundo. Mike foi padrinho (o que me surpreendeu), e Robin foi a madrinha (o que me surpreendeu mais ainda, por ela não ter comentado nada sobre isso). A cerimônia foi no laboratório do Professor, com somente essas cinco pessoas presentes, não contando com o realizador da cerimônia. Mesmo assim, ela contava tudo com um entusiasmo que me deixava ao mesmo tempo feliz e mais triste. Feliz por ela, e triste por mim, que não estive presente para ver nada dessas coisas.

Depois falamos sobre o Professor.

Nenhum de nós estávamos estáticos por esse momento, mas ele inevitavelmente tinha que acontecer uma hora ou outra.

— É grave... – Lindy confessa, entre mais e mais goles de vinho. Algo que eu só havia notado naquele momento era o modo como ela havia bebido bastante – Muito grave...

— Então realmente não tem jeito? – Questiono ambos, esperando alguma probabilidade de solução, uma ideia, qualquer coisa.

— Não... – Diz Bobby, cabisbaixo – Tentamos de tudo. Até mesmo coisas que nunca foram testadas... Teorias do Professor Utonium. Nada gerou uma solução perto de viável.

— E os implantes de Falante? Conseguem fazer com um cão. Não dá para fazer com um ser humano? É uma possibilidade, ao menos? Peguem o que há de errado com ele, e troquem por algo que funcione – Eu pensava em milhares de alternativas possíveis, mas nada mais que suposições. Não possuía conhecimento aplicável efetivo em nenhuma das possíveis áreas que poderiam ser de alguma ajuda. Por que não estudei igual Bobby ou Rose?

— Não é tão simples assim, Darcy... – Responde Bobby.

— Então o que é?

— Não é só uma coisa – Diz Lindy, com os olhos meio alheios a conversa – Nem um monte de coisas. É ele todo. Tudo está comprometido...

Lindy parece estar prestes a chorar, e Bobby atravessa seu braço até o ombro dela, colocando-a próxima a seu peito. Esses dois realmente tinham uma relação de suporte.

— O problema do Professor é diferente de qualquer outra coisa já vista – Ele fala, tentando não parecer tão abalado quanto Lindy, mas eu ainda podia ver a dor em seus olhos — É uma falência geral de órgãos, ocorrendo de forma lenta e constante. Por algum motivo que também não sabemos, é indolor. Ele só vai ficando mais fraco a cada dia.

Deus...

É tão difícil ouvir isso. Arrasador.

Meu pai vai morrer.

Eu me sentia em um pesadelo maluco. Não conseguia entender. Após tantos anos sendo indestrutível, o medo da morte simplesmente... Sumiu. Longe da ação, das lutas e dos perigos, havia me esquecido o que era temer o fim. Será que era escuro? Será que era doloroso? Eu não fazia a mínima ideia. Só que agora... Eu me lembro. O que era essa sensação de imponência, e de como não importava o quão forte você era, não podia lutar contra ela.

Nem todas as pessoas na minha vida eram superpoderosas. Elas eram frágeis e mortais...

Choro. Muito. Porque machuca saber que meu pai ia morrer e não tinha nada que eu pudesse fazer contra isso.

— Então... Vocês aos menos sabem a causa? O que deixou ele assim...? – Pergunto, fungando. Não gostava de chorar, mas acho que hoje chorei tudo que não havia chorado nos últimos nove anos.

— Sim... – Lindy responde. Tentava se recuperar, mas sua voz ainda estava rouca. Não havia notado antes, mas até mesmo Bobby estava deixando cair algumas lagrimas – Foi o Elemento X...

Notas finais
E aí? Curtiu? Qualquer comentário, crítica, opinião, teoria e etc. Pode deixar aí nós comentários! Adoro ver as coisas que vocês pensam e criam sobre a história hehe :v Se gostou mesmo, pode sempre acompanhar a história para não perder os próximos capítulos, e favoritar também! Ah gente, algo que me deixou muito feliz até agora foi a minha primeira recomendação. Não tinha comentado nada ainda, mas achei um gesto muito amável que ajuda a divulgação, e principalmente, minha motivação. Fiquei emocionado de verdade :P Um abraço para Mokocchi, está pessoa maravilhosa que foi uma das primeiras a acompanhar a história! Vlw pela recomendação! Vou fazer meu melhor para não te decepcionar, e tentar te surpreender conforme a história vai indo! Vc é 10+++ ♥! P.S.: Quem mais quiser recomendar (claro, se realmente gostar do meu conteúdo), sinta-se a vontade! Fico estático pelo Feedback ;3 P.S.S.: A próxima agora não é charada, e sim uma pergunta: Quem aí ainda lembra da Gangue Gangrena? Se lembrarem, me respondam aí embaixo quem era seu preferido do grupo! Blz? Blz! ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.