Poderosas
7 Amigos
Notas iniciais
As Damas-Poderosas...
Criatividade zero, se me perguntassem.
— Então... vocês estavam a caminho de alguma convenção de cosplay e se perderam, foi isso? – Eu digo, em tom de deboche.
— Olha, gente! Ela tem uma língua afiada! Pena que não serve para dizer “obrigado”, não é? – Reclama a garota de azul, Lindinha – Alguém me responde por quê ajudamos ela? — Sussurra para as outras duas, olhando para mim como se tivesse a intenção de me deixar ouvir aquilo.
Olha, isso era ridículo. Não vou ficar chamando três meninas desconhecidas brincando de heróis pelo nome das minhas irmãs. A partir de agora, elas eram Red, Green e Blue para mim. Assim fica fácil de identificar qual é qual.
— Não fazemos pela glória, Lindinha. – Diz Green – Ainda mais porque se fizéssemos, então poderíamos dizer que somos as piores nisso, já que ninguém gosta da gente.
— Não precisa dizer isso duas vezes... – Red responde, em um suspiro – De qualquer forma... nosso trabalho aqui está feito. Vamos embora!
Nisso, um flash se espalha pelo beco, que antes estava enegrecido pelo nascer da noite. Ele cobre o corpo de todas nós quatro, e estampa uma expressão de surpresa e susto nas meninas. Eu só estava mais confusa ainda, mas pelo visto isso não era mais novidade desde que cheguei aqui.
— CONSEGUI! – Exclama uma voz feminina desconhecida vinda da única entrada do beco.
Red me dá uma piscada do tipo “de nada”, e puxa as outras “damas”, convidando-as a correr. As três vão até o fim do beco, e por um minuto eu penso que elas iriam tomar voo. Claro que era uma ideia ridícula, invés disso elas começaram a subir pelas paredes.
Escalavam usando a escada de incêndio, uma ajudando a outra, em uma velocidade incrível. Pareciam experts nisso, como se fosse algo rotineiro de se fazer. Em segundos, elas já estavam no telhado do prédio, sumindo da minha vista.
MAS. QUE. PORRA!
Ok, eu desisto. Um dia! Um único dia! Eu finalmente tomo a coragem de voltar para Townsville e tudo que eu preciso para querer sair é UM DIA. Já não aguentava mais. Meu corpo podia até ser indestrutível, mas minha mente esgotará a última gota de energia que eu possuía em meu ser.
— Você está bem? – Eu ouço alguém acima de mim perguntar – Está machucada?
A figura feminina toma uma forma completa. Era a mulher do parque. Por que não estou surpresa?
— Claro... – eu digo, tentando soar de alguma forma afetada pelo que aconteceu – Só um pouco de dor de cabeça...
— O que aconteceu aqui? – a mulher pergunta, olhando em volta. Ela avista o ladrão espancado no chão, e leva a mão a boca, em choque. Solta um som agudo, e depois fica em silêncio.
Eu entendo muito bem sua reação. Não era bonito, não era “heroico”, era só violência desenfreada. Um ser humano, mesmo que ruim, ainda é um ser humano. E quando outra pessoa presencia algo como aquilo, se ela tiver um pingo de humanidade, ela vai sentir desgosto... Eu sabia bem como era a sensação. Depois de anos combatendo o crime, você vê coisas terríveis. Coisas inumanas. Coisas violentas. Coisas totalmente inapropriadas para mentes jovens como a minha naquela época. Esse com certeza não foi o pior caso, mas minha mente não é seletiva o bastante para me fazer sentir confortável com aquela situação só por ter visto coisas piores...
— Elas me salvaram dele... – Eu digo para a moça, com minha mão em seu ombro. Ela a segura, sem virar suas costas, ainda pasma com o homem – Ele atacou umas das três... Elas só revidaram...
Não sei por que estava defendendo aquelas meninas. Era realmente... Fodido. Essa é palavra que descreve. Era muito fodido o modo como uma garotinha de seus 14 anos pode acabar com um cara dessa forma. Mas... Talvez fosse a intenção boa, ou até mesmo as fantasias, que me faziam querer acreditar que aquilo foi só um trabalho acidental de três projetos de heroínas-mirins, e não um ataque intencional de três mini-psicopatas.
O cara começa a respirar ofegante no chão, o que assusta nós duas.
— Temos que chamar uma ambulância para ele... – Ela diz, se recompondo – Elas... você... cadê minha bolsa?! Ai, Deus... elas te deram minha bolsa de volta? Eu preciso respirar um pouco...
Eu já tinha esquecido que segurava a bolsa da moça. Ela se sustenta com a mão na parede, se segurando bem ao lado onde o ladrão bateu a cabeça, e fecha os olhos, respirando fundo em grandes intervalos.
— Aqui está sua bolsa. – Eu digo, segurando-a perto do rosto da moça.
— Sim, obrigado... – Ela diz, agarrando-a, e revirando os seus pertencentes, a procura de algo. – Droga! Cadê a merda do meu celular? Aqui, achei! – Ela proclama, vitoriosa. Então começa a digitar “911”, e coloca o celular no ouvido, à espera de um sinal.
Eu a observo de verdade pela primeira vez. Seus cabelos castanhos lisos, bem penteados e escovados, tinham um brilho de bronze devido à junção da luz do poste do outro lado da rua e a lua cheia, que trabalhavam juntos para pintar o belo quadro do seu ser. Seus olhos eram azuis bem claros, mas oscilavam entre um tom verde por causa da fraca iluminação. Seu rosto era esbelto e um pouco juvenil, com um nariz afilado e lábios rosados e pequenos. Não era velha, mas também não era tão nova assim, apesar da aparência enganadora. Diria que tinha mais ou menos a minha idade. Vestia um sobretudo bege e uma calça jeans, totalmente despojada, como se não ligasse para o fato de ser bonita.
Tinha algo naquela menina que me era muito familiar...
— Droga! Atende. Atende. Atende... – Ela repete para o celular, em um mantra de ajuda... E pensar que ela estava xingando aquele cara minutos atrás...
Ela me vê encarando-a, e eu desvio meu olhar.
— Não, olhe para mim, por favor. Não quero ter que olhar para ele... Qual seu nome?
— Meu nome? – Questiono, feito uma idiota. Claro que é meu nome, de quem mais séria? Eu podia dizer meu nome para ela? Acho que não faria mal. Não é aquele nome mesmo... – Meu nome é Dar...
— Eles atenderam! – Ela exclama em exaltação, pedindo silêncio com o dedo para mim. Eu a deixo falar com a atendente, mesmo achando uma atitude rude (mas que sou eu para julgá-la, não é?). Ela repete coisas como “venham rápido” e “quase morrendo”.
Já eu achava que era hora de me mandar. Não tinha mais assuntos ali. Se a polícia viesse e me visse aqui, eu estaria em SÉRIOS problemas. Com a Bellum, com a Lindinha e até com Mike...
Mike. O que será que aconteceu com ele?
Que besteira! Não posso pensar nisso agora!
A moça desliga o celular, solta um suspiro de alivio e o coloca de volta na bolsa, que agora estava pendurada pelo seu braço novamente.
— Ufa... Eles disseram que iriam chegar em 10 minutos ou menos... Ele... – ela engole em seco – Ele ainda está bem, não é? Digo, ainda está vivo?
Eu afirmo que sim com a cabeça, mas não tinha certeza. Antes a garota de verde disse que ele estava vivo, e o vimos respirando ainda a pouco, mas mesmo assim... Sempre que ele ficava muito quieto, era de se esperar o pior. Eu me concentro para ouvir seu coração, e ainda consigo escutar uma baixa e lenta batida...
Tun, tun... Tun, tun...
Sim, ele ainda estava vivo. Talvez aquelas meninas não fossem tão ruins afinal de contas. Mas então seria uma pena pensar que daqui a 10 minutos, essa moça e muitos outros iriam julga-las muita mal. Pode até ser que elas mereçam, mas de novo, quem sou eu para falar alguma coisa? Ganhava a vida batendo em bandidos quando jovem também. E por mais que eu compreenda muito bem esse ódio que Townsville deve ter por “figuras heroicas”, elas só eram três garotinhas tentando fazer algo bom... Seria hipocrisia condena-las por isso.
— Ok... – Diz a mulher. Ela encosta suas costas na parede igual eu havia feito minutos atrás, e fica em silencio por um tempo, olhando para baixo. Ela realmente não queria olhar para aquele cara.
Algo que não estava fazendo sentindo... Que só me caiu a ficha agora, era: o que foi aquele flash?
— Ok. – A moça proclama, se limpando. Dos seus olhos, escorriam algumas lagrimas. Ela tenta se recompor do melhor jeito que pode – Eu... Eu preciso ir. Você pode tomar conta dele?
Oi?
— Hum... Como é? Você quer ir embora?
— Desculpe... Sério, eu queria muito ficar aqui e ter certeza que ele vai ficar bem... Mas eu não posso deixar a polícia me pegar de novo!
Oi?
Deus, será que não tem uma pessoa normal nessa cidade?!
— Que merda você está dizendo? Como assim a polícia não pode te pegar? Você é uma fugitiva por acaso? – Eu me aproximo do rosto dela, e ela tem uma expressão de alerta em seu rosto. Sua mão aperta a bolsa. Será que ela tinha alguma arma? Spray de pimenta? Não importava. Eu não podia ficar, se ela fosse ou não, isso dependia dela – Olha moça, eu não vou perguntar quem você é. Não me importo nem um pouco. Mas preciso ir embora também... Acredite ou não, a polícia também não pode me pegar... Então, se vai ou fica, isso é sua decisão. Adeus.
Eu me afasto, e ela parece atordoada com as minhas palavras. Eu a deixo ali, seu rosto expressando uma tristeza profunda enquanto ela continua evitando o contato visual com aquele homem. Ia ficar culpada por ter feito isso com os dois? Com certeza. Mas não havia nada que eu podia fazer. Me encaminho a saída do beco, e já estou fora daquele mundinho formado por aquele momento esquisito que acabei de vivenciar. Não se passou tanto tempo quanto parecia, mas para mim foi como se houvesse passado horas de cansaço e confusão. Já estou descendo a rua, quase no final da calçada, voltando para a direção de onde vim...
Nessa loucura, percebo que deixei minha bolsa no parque... Estou oficialmente sem nada.
De repente, sinto uma mão em meu ombro. Era aquela mulher novamente.
— Espere... – Ela diz, apertando meu ombro e me virando para ela. As luzes fracas dos postes de luz não deixam seu rosto tão claro, mas era possivelmente notar um nariz avermelhado e seus olhos lacrimejando – Eu realmente não posso ficar... Se quiser uma carona.
— Uma carona? Não, obrigado. Estou bem – Menti. Era para o bem dela e o meu, não queria mais me sentir metida nessa confusão.
— Por favor, aceite. Meu carro está bem ali no final da rua... E eu deixei sua bolsa lá. Eu a peguei quando vi você correndo. Não quer ir buscar?
Droga... Eu não imaginava isso. É um alivio saber que minha bolsa está a salvo (não como se ela fosse tão importante assim), mas eu ainda não estava certa sobre as intenções daquela moça. Algo nela me cheirava estranho. A curiosidade estava batendo, mas não sei se o bastante para querer entrar em mais uma possível encrenca.
Por outro lado, uma carona viria MUITO a calhar agora...
— Ok... – Eu falo, me rendendo a seu pedido – Seu carro está perto?
— Logo ali – Ela diz, quase abrindo um sorriso. Acho que isso foi o ponto alto do dia dela.
...
Entrei no carro daquela moça estranha com um pouco de timidez e desconfiança. As luzes do carro se ligam ao abrir a porta. Nós duas nos sentamos nos bancos da frente, ela no volante, claro. Eu sinto um cheiro de morango e de roupas limpas, e vejo um aromatizante pendurado no retrovisor, e roupas penduradas por um cabide no banco de trás. Era um carro extremamente limpo e arrumado, parecia novinho, ela era realmente organizada.
Enquanto ela procura as chaves em sua bolsa, percebo que suas mãos ainda estavam um pouco tremulas... Imagino que ela nunca viu algo feito aquela cena de alguns minutos atrás. Aquele tipo de coisa prende na cabeça de qualquer um.
Finalmente ela pega as chaves e liga o carro, e saímos rua afora, em silêncio. Não soltamos um pio até a hora que vemos uma ambulância com as sirenes ligadas passar correndo por nós. Eu, tentando quebrar o gelo (o que não faz muito o meu estilo), disse:
— Olha. Acho que ele vai viver, afinal de contas.
A moça observa a ambulância sumir na noite pelo retrovisor, franzindo o rosto. Meu comentário a deixa incomodada. “Eu sou uma idiota”, pensei. É por isso que eu não sou a pessoa que quebra o gelo.
Já quando estávamos de volta a entrada do parque, e eu consigo ver aquele mesmo banco onde toda essa história começou, e tentamos conversar novamente.
— É... – A moça começa a falar, mas parece que se perde no meio de um pensamento. Seu rosto fica um pouco vermelho, e ela fala para mim – Eu preciso dizer... Desculpe, eu esqueci seu nome.
— Oi? Ah, não. Tudo bem. Eu não disse meu nome. No meio de toda a confusão... Você acabou me cortando. – Eu estendo minha mão, e ela a aperta – Meu nome é Darcy.
— Oh, ok... Darcy – Ela diz, soltando minha mão – Você não me é estranha, Darcy... Já nos conhecemos?
Merda... Eu já esperava que isso fosse acontecer... Afinal, eu era uma Menina Super-Poderosa.
— Não. Eu tenho um rosto muito comum.
— Oh, ok... Bem, desculpe pelo jeito que eu reagi lá atrás.
— Não, tudo bem... – Eu tento pensar em coisas legais para dizer para ela – Foi uma reação bem aceitável para uma cena feito aquela, para falar a verdade...
— Talvez...
Ela continua dirigindo. Não sei se devo conforta-la ou deixa-la quieta. Tento pensar em todas as possibilidades de conversa que poderíamos ter para esquecer isso, mas nenhuma delas é boa. Eu sou péssima com coisas assim. E, assim como ela, a imagem daquele cara e das meninas não saiam da minha cabeça...
Mas ai eu penso nas “verdadeiras” meninas.
São tantas emoções para sentir ao mesmo tempo... Eu fico até com dor de cabeça. Depois de tudo isso, ameaças e descobertas, nada supera essa ansiedade mortal de encontrar minhas irmãs. Eu não sabia o que pensar, mas me preparava pelo pior, e tentava encontrar alguma forma de esperar pelo melhor... Só que não conseguia. Todas as situações que eu bolava na minha mente eram extremamente tristes e dolorosas...
— Droga – A moça comenta consigo mesma. Ainda bem, porque eu estava me perdendo em pensamentos não muito simpáticos – Eu esqueci de perguntar... Para onde você vai?
Droga, eu também não parei para pensar nisso. Eu não podia pedir para ela me levar para a casa do Professor, ela tinha idade o bastante para saber quem eram As Meninas Super-Poderosas. Se eu pedisse isso, talvez ela ligasse os pontos.
— É... Você pode me deixar bem aqui, eu ando o resto do caminho.
— Oh... – Ela tem um olhar meio decepcionado no rosto – Você mora aqui perto então?
— Sim.
— Então eu te levo em casa.
— Nesse caso, não.
Ela me encara. Por favor, não me reconheça.
— Desculpe... Você também não queria ficar por perto da polícia. Entendo que não queria que eu saiba onde é sua casa. Tudo bem.
Ela começa a desacelerar o carro, indo em direção a calçada. Eu me sinto aliviada, talvez realmente conseguisse sair dessa situação ilesa.
— Obrigado pela carona – Eu digo, já abrindo a porta para sair do carro, pronta para dar um fora dali.
— Espera! – A moça diz, enquanto eu já tinha quase todo meu corpo para fora do carro – Pode... Olha, eu sei que é pedir demais, mas eu não quero ficar sozinha agora. Eu sei que você é uma estranha, mas pode ficar mais um pouco? Eu te deixo mais ali na frente...
Mas ela estava errada. Nós não éramos estranhas. Agora seu rosto triste estava completamente iluminado pela luz do carro, e eu consigo me lembrar de onde nos conhecemos. Eu entro no carro de novo.
— Obrigada... É muita gentileza sua – Ela comenta.
— Robin? Robin Snyder?
A moça me olha com um olhar de surpresa, e depois de desconfiança.
— Eu sabia que você era familiar! – Ela diz — Nós nos conhecemos?
Bem, agora isso ia ser uma história longa e complicada...
— É... Bem... Isso é difícil de explicar – Eu digo, fechando a porta novamente – Pode continuar dirigindo... Você ainda mora no mesmo lugar? – Ela sai com o carro rua afora enquanto continuamos conversando.
— Depende de quando nos conhecemos. Eu realmente não consigo lembrar de nenhuma Darcy... Faz uns dois anos que eu moro no Centro... – Ela diz, ainda me olhando (enquanto deveria estar olhando para a rua, devo acrescentar) como se estivesse fazendo esforço para puxar do fundo da memória algo sobre mim – Você é alguma fã do meu trabalho?
— O quê? Não, não sou fã. Espera, qual o seu trabalho? Quer saber, esquece... – Eu me ponho embaixo da luz do carro, e arrumo meu cabelo para mostrar melhor meu rosto – Sou eu, Robin. É a... – Eu engulo as palavras. Não acredito que vou ter que usar aquele nome de novo... – É a Docinho...
Robin arregala os olhos. Tudo acontece muito rápido. Ela para bruscamente o carro, o que era muito perigoso (sorte a nossa não ter nenhum carro passando atrás de nós). Sua cabeça vai ao volante, mas não chega a bater no mesmo, porque ela estava de cinto. Já eu, que estava sem cinto de segurança, vou com meu corpo inteiro para o painel do carro.
— Muito bem, Robin – Eu digo, sarcasticamente, voltando ao meu lugar, toda destrambelhada, e colocando o cinto— Você é uma às no volante.
— Não, calma. Espera. Você tá brincando. Isso é sacanagem, né? Você, a Docinho? Aquela Docinho? A Super-Poderosa, Docinho?
— Sim... E você é Robin Snyder, minha vizinha de infância e uma das minhas melhores amigas enquanto crescia, que por algum motivo não me reconheceu!
— Ei! Isso não é justo! Você também não me reconheceu!
— Foi a luz! – Eu digo, apontando para a calçada – Se você quer ficar parada, pelo menos não faça isso no meio da rua.
Robin, mesmo surpresa, se recupera o bastante para estacionar o carro na esquina novamente.
— Docinho... O quê... Como... Por quê...?
— Olha – Eu digo, apontando meu dedo para a cara dela – Primeiro, vamos esclarecer uma coisa... Meu nome agora é Darcy, sacou? Chega com esse negócio de “Docinho”.
Robin me observa com uma cara tipo: “que merda é essa?”
— É... Ok, Darcy. Tira esse dedo da minha cara – Ela diz, dando um tapa na minha mão – Agora, que merda que aconteceu? Por que você voltou?
Ela me olha fundo nos olhos, e eu consigo ver o tornado de confusão que estava se passando na cabeça dela. Olha só, parece que os papéis se inverteram... Eu não era a pessoa mais confusa em Townsville naquele momento.
— Essa é uma longa história... Eu te conto no caminho, mas ligue o carro antes. Você vai me deixar em casa — Eu me forço a dizer, rangendo os dentes.
...
— Nossa... – Diz Robin, observando a estrada, refletindo sobre tudo que eu contei a ela.
As ruas de Townsville eram iluminadas pelos postes de luz, sacadas de lojas e faróis de carros. Era tudo tão claro, mas ao mesmo tempo, eu sentia como se uma escuridão fluísse da cidade, e tentasse penetrar dentro do carro. A única coisa que a impedia eram as luzes fracas emanando do painel, que puxavam a realidade de volta a minha mente. Estava calor, mas eu não queria abaixar o vidro, com medo de todas as coisas do lado de fora. Tantas ameaças, tanto ódio, tanto julgamento... Para mim, qualquer outro lugar era melhor que aquele lugar. Mas talvez, esse momento agora do lado de uma amiga, seja o melhor momento que iria ter em toda essa viagem...
— Eu sabia que Bellum podia ser forte quando quer. E ser uma babaca também. Mas eu realmente não esperava que fosse tanto assim. – Pergunta Robin, enquanto virava a esquerda para dentro de uma avenida – E o Professor... Deus... Como você está se sentindo?
— Como você espera que eu me sinta? – Questiono-a, fechando o punho em raiva. Eu não poupei detalhes. Contei tudo, de Las Vegas até Bellum. Contei do Professor e das meninas. Contei sobre o Mike. Só não falamos sobre aquele dia, em que fugi de casa. Robin ainda devia estar bem confusa sobre aquilo, poucas pessoas realmente sabem o que aconteceu naquele dia. Mas, se existe algum Deus lá em cima, ele esteve no meu lado nessa única vez. Ela não perguntou nada sobre esse assunto em particular... – É... Doloroso. Mas esse não é nem o começo para descrever realmente o que eu sinto. Sério, tudo isso é muito fodido. É coisa demais para minha cabeça...
— Imagino que seja. Sério, de verdade... Eu não tenho ideia da dor que você deve estar sentindo agora – Ela dá uma pausa, como se pensasse no que falar. No que devia falar – O Professor Utonium é um grande homem. É muito gentil da sua parte realizar esse último desejo dele...
— Sim... Talvez.
— Mas é – Ela diz, enquanto reduzia em um sinal vermelho. Ela se vira para mim e pega na minha mão, seus olhos se encontram com os meus. Eles emitiam um sentimento de sinceridade e conforto que... Eu realmente estava precisando naquele momento – Independente de todos os problemas que vocês tenham passado, ele não pediria isso se não quisesse você lá de verdade. E é gentileza sua fazer isso. O Professor é esperto, ele sabe o quão difícil isso é para você...
Isso é... Porra. Eu não consigo aguentar. Acabo chorando na frente da Robin. Odeio chorar na frente das pessoas. Mas era de se esperar algo assim dela, afinal, ela sempre foi nossa única amiga normal enquanto crescíamos. Ela era o D'Artagnan dos nossos mosqueteiros. Para os leigos, sempre em segundo plano, mas nós sabíamos como ela era importante, sempre puxando nós três das nuvens de volta à terra com o seu bom humor.
— Você não mudou nada, não é mesmo? – Eu digo, enxugando as lagrimas – Obrigado por isso.
— Não tem de quê – Ela diz, abrindo um sorriso – Eu sempre fui boa em colocar um pouco de senso na cabeça de vocês, meninas.
— É... Mas quem começou a colocar senso na cabeça da outra fomos nós, quando éramos crianças e você roubou doce daquela loja – Eu comento, para tirar uma graça.
— Argh! Será que vocês nunca vão me deixar esquecer isso? – Ela diz, rindo — Você quer falar de maus exemplos? Lhe trago a 11 anos atrás. Nós tínhamos quatorze na época. Era verão, e você queria frio...
— ...então eu fiz um pouco de neve no nosso quintal! nada demais!
— ... Mas você foi pegar a neve do Himalaia! E trouxe tudo dentro do carro do Professor!
— Eu tinha que colocar em algum lugar! Não podia trazer tudo só com minhas mãos.
— E nem vamos começar a falar da parte que você sequestrou os pinguins do zoológico nessa brincadeira...
— Eles queriam se divertir um pouco! Só isso!
Nós duas soltamos as primeiras risadas desde daquela cena no beco. Eu realmente não esperava rir em momento nenhum nessa viagem.
Ela continua dirigindo, e algo nas ruas começam a me soar familiar. Acho que já estávamos perto.
— Então... Quer dizer que você viu o Mike? – Ela pergunta, com um sorrisinho malicioso no rosto.
— Quê? Ah, sim. Por quê? Vocês são próximos ou algo assim? – Eu questiono, meio interessada no assunto.
— “Próximos” não é bem a palavra certa... Trabalhamos em ramos que faz com que nos encontremos frequentemente. Não nas melhores condições...
— O que você faz mesmo?
— Eu sou jornalista! – Diz Robin, orgulhosa.
— Que legal. Investigativa?
Robin nesse momento ficou vermelha e fechou a cara. Acho que toquei na ferida.
— Bem... Não. Eu trabalho nos esportes – Ela solta, junto com um suspiro de decepção – Mas estou no caminho! Subindo os degraus, fazendo o meu nome, sabe como é. Foi assim que reencontrei o Mike, volta e meia eu me meto em algo envolvendo a polícia, e volta e meia eles me levam para delegacia onde ele me dá uma bronca e me libera. Ele é um homem de bom coração, entendo por que ele fez aquele favor para a Lindy.
— Você tem mantido contato com a Lindinha?
Robin pega a direita e finalmente sai daquela avenida.
— Sim, nós nos falamos de vez em quando pelo celular. Mas faz tempo que eu não a visito. Ando muito ocupada com o trabalho... – Robin comenta, em um tom melancólico na voz.
— Alguma grande história?
— Bem... – Decepção preenche seu rosto ao tocar esse assunto. Seus olhos estavam meio alheios a tudo, e irradiavam um tom triste. Sua voz ficou mais aguda ao falar – Eu estava trabalhando em uma reportagem... Sobre essas tais Damas Poderosas. Na verdade... Tudo aquilo foi uma grande encenação.
— Como assim? – Eu pergunto, confusa.
— É que... Eu coletei muitas informações. Nada muito concreto, mas coisas que gritavam “vigilantes heroínas”. Galpões de drogas apreendidas pela polícia, assaltos a lojas de conveniência impedidos por pessoas que se assemelhavam a “três garotinhas vestidas de azul, verde e vermelho”, inúmeros estupradores presos... O negócio é que a polícia abafou os casos. Bellum obviamente não quer nem pensar em histórias se espalhando de vigilantes juvenis andando por ai com o nome das Super-Poderosas. Mas... Eu ouvi de um passarinho que ouviu de outro passarinho que elas eram reais. E aqueles arredores eram seu principal ponto de ação. Então, eu fui tentar a sorte. Uma entrevista, ou pelo uma foto... No caso, a foto eu consegui — Ela diz, tirando uma pequena câmera digital do bolso. Então foi dai que veio o flash.
— Você plantou aquele cara do parque?
— O quê? Não! Claro que não! Eu precisei? Qual é, Doci... Darcy, foi mal. Realmente é preciso mais do que ficar parada por muito tempo em um só lugar para ser assaltada em Townsville?
Era um bom ponto.
— Então... – Continuou Robin – Foi quando ele veio, e depois você veio. E eu segui vocês até aquele beco e elas vieram. Só que...
Robin não parece muito bem ao contar a história. Eu entendia o trauma, mas agora eu entendia que aquela era a Robin, não só uma mulher qualquer que foi assaltada por aí. Tinha mais naquilo do que só desgosto por um cara espancado.
Eu pego a câmera da sua mão e a ligo, para ver o conteúdo.
— É... Robin...
— Que foi? — Ela questiona, confusa — Alguma coisa errada?
— Bem... Tudo. A foto está completamente borrada.
— O quê?! — Ela grita, puxando a câmera de minhas mãos para ver por si mesma. Três borrões vermelho, azul e verde. Foi o que ela conseguiu — Ah, cara... Que merda...
Ela parecia decepcionada. Mas não tinha certeza se era pela foto. Ela imediatamente larga a câmera e continuando dirigindo, com um olhar pensativo apontando para o nada.
— Robin... – Eu disse, baixinho – Está tudo bem?
— O quê? – Ela pergunta, saindo de um transe – Hã? Não, sim. Está tudo bem... Só... Me perdi nos meus pensamentos aqui.
— Quer me falar alguma coisa?
Nessa hora, eu começo a perceber que estávamos realmente perto de casa. Robin parecia mais triste que eu, acredite se quiser. E eu acho que estava começando a entender o porquê...
— Não é nada... É só que... – Ela engole em seco, olhando para o retrovisor e para o painel. Para a rua e então para mim, tentando evitar a conclusão daquela conversa – É que eu estava esperando algo mais heroico... Pode soar idiota, mas eu esperava algo mais parecido com as Meninas Super-Poderosas. Não aquilo. Deus... O que foi aquilo...?
— Ei, elas foram heroicas do jeito delas. Elas me salvaram e salvaram elas mesmas, não foi?
— Eu sei... – Ela diz, parando em um sinal – Mas Townsville não é a mesma sem vocês, entende? É como se existisse um vácuo, que vai sugar a cidade se não for preenchido de novo. Eu achei que essas meninas poderiam ser algo bom... Mas agora... Acho que estava errada.
Robin parecia triste de verdade. Decepcionada. Como uma criança descobrindo que Papai Noel não é real.
Talvez ela estivesse certa... A verdade era que eu entendia bem do que Robin estava falando, mas era bem mais doloroso ouvir isso vindo de outra pessoa. O mesmo pensamento, que foi pensado de uma forma completamente independente por outro alguém, só me fez perceber que isso é realmente verdade. Não eram só pensamentos melancólicos de uma mulher triste e cheia de problemas como eu. Eram coisas reais, que qualquer um com olhos podia enxergar. Isso martelou minha cabeça até chegarmos à frente da minha casa.
— Chegamos... – Robin anuncia, com um tom mais alegre de volta a sua voz – A quanto tempo não venho aqui. Tenho que ligar para Lindy para marcar um encontro.
— Obrigado pela carona, Robin – Eu digo, antes dela parar completamente na calçada em frente à casa – Você tem horas?
— Sim, são... Quase 20:00 horas – Ela diz, olhando no painel do carro – Foi um prazer, Darcy. Pena que não tivemos mais tempo para conversar. Me deixa seu número, eu posso te levar no aeroporto quando você for embora.
— Obrigado, Robin. Foi um prazer te ver de novo. Tem uma caneta ai? – Eu peço.
— Sempre! – Ela diz, abrindo o porta-luvas e tirando uma caneta e um bloco de notas – Jornalista, lembra?
Ela me entrega a caneta e o bloco, e eu escrevo meu número nele e depois devolvo para ela – Pode me ligar depois.
— Eu vou ligar – Ela devolve, junto com uma piscada e um sorriso – Tchau! Até outra hora!
E assim, meu melhor momento desde que cheguei aqui foi embora, dirigindo pela noite.
E agora, era hora do pior momento.
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