não mais um leve traço

sobre uma virgem superfície;

mínima cor escura sobre o pálido ou na

manga da camisa.

não mais um leve cheiro metálico

e o gosto: salgado.

e fina dor que encanta e já tão logo não há;

deixa a tristeza, leva a cor.

como um movimento inesperado,

calculado com certeza: imprevisível. não mais, poderia ?

um pressionar da mão contra o pano no braço.

olhos revirados. corretivos e reparos.

adesivos descolados. escondendo: condenado.

poderia não mais

somente uma, uma lasca

de pele, de vida

mas talvez uma despedida

da casca vazia e da carne morta. poderia?

visualizar, não mais fina;

lâmina fria, trêmulo reflexo

e o gume, quase cego seus olhos

mas as mãos ainda fortes – ah sim, ainda fortes.

pálpebras já grudam pelas lagrimas secas

e os músculos da face, doloridos.

então, poderia

como numa orquestra, um sinal de alivio

com todo odor, com todo grito

no agito da euforia. adrenalina. não. mais.

e tudo se esvair, como um vento, como um vomito

esvaziando por completo o sempre acumulado ser

deixando seco e esquálido.

poderia ? poderá.

pintando de vinho

as paredes do quarto

sujando o teto, sujando retratos

e jorrando em um orgasmo, olhos perfurados.

e a dor. ah! a dor!

tão aguda, torna-se grave

paralisa a mente, forte traço.

esvaziam as veias

da virilha, do pescoço

indo e vindo

pouco a pouco, chega ao osso

e nessa sinfonia, que nunca tem final

o pulsar do sangue torna-se o relógio.

dobram-se os joelhos, resfria-se

morto. mas não ainda, em uma poça

vazia, visão embaçada, uma luz erradia

um sorriso escapa-lhe: enfim, vazia.

tão leve, tão pura. ao menos ao tempo

de pedir um último abraço.

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