Poderia?
1 Único
não mais um leve traço sobre uma virgem superfície; mínima cor escura sobre o pálido ou na manga da camisa. não mais um leve cheiro metálico e o gosto: salgado. e fina dor que encanta e já tão logo não há; deixa a tristeza, leva a cor. como um movimento inesperado, calculado com certeza: imprevisível. não mais, poderia ? um pressionar da mão contra o pano no braço. olhos revirados. corretivos e reparos. adesivos descolados. escondendo: condenado. poderia não mais somente uma, uma lasca de pele, de vida mas talvez uma despedida da casca vazia e da carne morta. poderia? visualizar, não mais fina; lâmina fria, trêmulo reflexo
e o gume, quase cego seus olhos mas as mãos ainda fortes – ah sim, ainda fortes. pálpebras já grudam pelas lagrimas secas e os músculos da face, doloridos. então, poderia como numa orquestra, um sinal de alivio com todo odor, com todo grito no agito da euforia. adrenalina. não. mais. e tudo se esvair, como um vento, como um vomito esvaziando por completo o sempre acumulado ser deixando seco e esquálido. poderia ? poderá. pintando de vinho as paredes do quarto sujando o teto, sujando retratos e jorrando em um orgasmo, olhos perfurados. e a dor. ah! a dor! tão aguda, torna-se grave paralisa a mente, forte traço. esvaziam as veias da virilha, do pescoço indo e vindo pouco a pouco, chega ao osso e nessa sinfonia, que nunca tem final o pulsar do sangue torna-se o relógio. dobram-se os joelhos, resfria-se morto. mas não ainda, em uma poça vazia, visão embaçada, uma luz erradia um sorriso escapa-lhe: enfim, vazia. tão leve, tão pura. ao menos ao tempo de pedir um último abraço.
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