Pode uma aranha soluçar?
1 Capítulo 1
— Qual é a punição por negar ao chamado da seleção? — é a primeira coisa que escuto quando sou acordado bruscamente com falta de ar. O que aconteceu?
— Morte por decapitação, geralmente pelas mãos de recém selecionados para que possam subir de nível. — Um senhor pigarreou ao meu lado. — Permita-me lembrar a Vossa Magnânima Alteza que sentenças de morte sempre podem ser comutadas por sentenças de escravidão.
Aos poucos minha visão clareia e consigo distinguir duas pessoas postadas em uma mesa curvada, as paredes brilham com diversos cristais. Fui jogado num chão de pedra escura e muito gelado.
— O que está acontecendo? — Eu tento me erguer, com dores nos joelhos, mas a mão no meu ombro me empurra para o chão.
— Silêncio, aranha nojenta! — o homem que pigarreou diz atrás de mim.
— Bem... Nós operamos minas de Pedras Negras em nas terras mortas de Cubatão — acrescentou a mulher com um véu sobre o rosto que está sentada ao meio. Eu não a conheço. — As condições lá são tão terríveis que não conseguimos contratar mineiros profissionais. A força braçal é composta unicamente por detentos dos piores tipos e escravos.
— As ações dele dão um exemplo negativo. A Seleção é um privilégio que não pode ser recusado e é um dever sagrado perante a Soberania! — respondeu o senhor alto e corpulento sentado ao canto da mesa. — Portanto, se me permitem a sinceridade, ele tem sorte de continuar com a cabeça sobre os ombros. Viver nas minas é uma punição extremamente generosa.
— Pois está decidido — disse a mulher com o veu, elevando a voz. — A a morte é uma misericórdia que lhe negarei. Você está condenado a trabalhos forçados nas minas de Pedras Negras, como escravo, até que restitua em setenta e sete vezes o valor do apoio que negou à Soberania ao negar o chamado à Seleção. Que sirva de exemplo ao restante da sua espécie.
Setenta e sete vezes? Tento engolir, mas minha garganta está crua, entupida de sangue e poeira.
A Seleção... Agora me lembro. Não são raras as vezes que selecionam alguns de nós para realizarem estudos. Era assim que chamavam. Seleção. Como se tivéssemos sido escolhidos para alguma coisa. É o que diziam quando arrastavam crianças vendadas para grandes transportes, para nunca mais serem vistas.
Eu fui chamado, mas fugi. Ou ao menos tentei. Não sucedi.
— Misericórdia — murmuro, cuspindo um fio de sangue na pedra negra. O homem atrás de mim — aquele que me chamou de aranha — enterra o joelho em minha coluna. — Aranha nojenta — ele sibila novamente.
— Setenta e sete vezes — sussurro, com a voz baixa e rastejante. — E se eu morrer antes de pagar a dívida?
A mulher com o véu se inclina para a frente, os cristais na parede pulsando com uma luz fria e azul.
— Então sua alma será confiscada pelos coletores de dívidas da Soberania. Eles o encontrarão até no vazio, pequena aranha. Agora, guardas. Levem essa imundície para as covas de detenção. O transporte para as Minas de Pedra Negra parte ao amanhecer.
A pressão sobre meus ombros cede, substituída por algemas de ferro que estalam ao redor de meus pulsos. Eles me arrastam para ficar de pé. Minhas pernas são borracha, dormentes. Enquanto me puxam em direção à pesada porta de obsidiana, vislumbro meu reflexo em um dos cristais polidos na parede. Um rosto seco, machucado, meus olhos estão injetados de vermelho e os cabelos escuros embaraçados com sujeira.
Minha garganta se contrai novamente. Estou com um medo que nunca tive antes.
Pode uma aranha ter voz?
Pode uma aranha ser alguém um dia?
Pode um dia ter forças para fazer mais?
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