PoV 2004
1 Capítulo I
Eu sempre imaginei como seria ter a oportunidade de voltar no tempo pra poder escapar dos conflitos e da rotina cansativa desse tempo moderno em pleno ano de 2026. Tudo parece ter ficado chato e até mesmo repetitivo. Vi alguns post e comentários pela Internet que a cada ano que passa, tudo tem menos cor, tudo está menos colorido. Até os carros que antigamente tinham variações e variações de cores agora são tudo mais do mesmo: preto, branco, cinza… É tudo assim, do mesmo jeito. A alegria se foi, os traços de um mundo mais jovial não existe mais. Talvez seja porque cresci… ou talvez não. Eu só queria poder voltar no tempo e reaproveitar o que eu não aproveitei de fato quando era mais nova, adolescente e até mesmo quando eu era criança. Resolver as pendências e as mágoas que ficaram no passado, sabe? Eu só precisava de uma oportunidade.
📍 São Paulo, 2004
O nome da rua é Rua Sampa. Está noite e escuto a voz do Faustão anunciando o fim do programa e que o Fantástico já está pra começar.
A rua não está tão deserta. O céu encoberto quase se preparando para chover. Algumas crianças brincando quase no fim da rua bem na calçada de uma das casas. Brincando de pião. É o que parece. Os postes que iluminam as ruas dourados, alguns piscando querendo falhar. Nossa, há quanto tempo não vejo um desses. Os de hoje são todos pratas e iluminam bastante todo o quarteirão. Esses dourados são mais fracos e, de alguma forma, pra mim, são mais aconchegantes.
Decido andar pra conhecer o bairro, ele não me é nada estranho. Acontece que um cheiro irresistível de comida começa a me guiar. É simplesmente incrível. Um cheiro de carne frita, também um pouco de arroz. Me dá água na boca só de imaginar. Era minha comida favorita quando criança. Arroz, feijão, batata, carne, salada e purê de batata.
Então eu chego em frente à uma das casas na curiosidade pra ver se consigo enxergar alguma coisa, e, ao me aproximar, uma mulher aparece bem na porta com um pano de prato no ombro esquerdo e grita:
— BENÍCIOOO! TÁ NA HORA DE JANTAR. ENTRA PRA DENTRO!
E logo, em segundos, vem um menino, de cabelinho pretinho, todo feliz. Ele se despede dos amigos acenando com as mãos e logo obedece a moça entrando na casa. Ela me vê e me observa por alguns segundos. Dá um sorriso como se quisesse ser simpática e apenas me deseja boa noite logo entrando também.
Eu não respondo nada. Não com palavras. Apenas devolvo o sorriso singelo pra que não pareça mal educada.
De primeira eu fico sem palavras, embasbacada, com água nos olhos. Fico com vontade de reagir e dar uma abraço na moça. Mas o medo da reação dela é maior. Medo dela achar que eu sou alguma maluca ou algo do tipo. Mas sabe quando você tem aqueles picos de coragem e quer muito fazer alguma coisa? É a sensação imediata que senti quando vi a dona Simone. Esse é o nome dela. Mãe do Benício, coleguinha do meu irmão Antonio. Eu sei porque já vi fotos dele quando criança.
Depois que ela entrou e fechou portas e janelas, meu coração começa a dar um nó. É muito estranho viver e ter a sensação de você rever uma pessoa que já se foi. Mas ele ainda está tão pequenininho. Ainda tem muita coisa pela frente até o dia… do acidente.
Esse foi o dia mais estranho e difícil pro pessoal da minha família. Principalmente pro Antonio. O mundo dele parecia ter acabado. Ele ficou muito deprimido, porque achou e tinha toda certeza do mundo que o Benício morreu por causa dele, porque estava dirigindo o carro naquela noite. Foi o suficiente pro meu irmão largar tudo e mudar de cidade. Ele não tinha mais como continuar vivendo na mesma cidade com esse peso todo.
A vontade foi de correr até a dona Simone e contar tudo o que aconteceria anos mais tarde, mas o que poderia fazer? Ela ia achar que eu sou uma maluca.
Com certeza seria isso que aconteceria. Penso, em seguida, de me aproximar das crianças que estão brincando na calçada pra ver se reconheço alguma delas, porém, logo quando a coragem já estava me vindo pra me aproximar, elas correm para dentro. Do nada uma chuva começa a cair. Forte e pesada. Bem daquelas chuvas que demora horas. Eu decido me abrigar também, até que encontro uma casinha branca com uma varandinha boa. Não chego a entrar, fico bem debaixo do telhado.
A chuva grossa estalava contra as telhas de barro, criando um batuque ritmo e familiar que há anos eu não ouvia sob as estruturas frias de concreto e vidro de 2026. O ar cheirava a terra molhada — aquele ozônio puro de tempestade de verão que o asfalto moderno parecia ter esquecido como exalar.
Encostei as costas na parede da varanda, abraçando os próprios braços para me proteger do vento frio. O vapor da minha respiração era quase visível. Pela brecha da cortina da casa vizinha, uma luz amarelada vazava, e o som abafado da vinheta do Fantástico ecoava pela rua. Aquela trilha sonora, que no meu tempo de adulta só lembrava a ansiedade do fim de domingo e o peso da rotina semanal, ali soava como um abraço aconchegante. Era a confirmação de que o mundo ainda girava devagar.
Meus pensamentos voltaram para o Benício. Para a dona Simone. Para o Antonio.
Eu estava em 2004. O acidente só aconteceria em 2018, em uma curva mal iluminada na saída da rodovia. Quatorze anos. Eu tinha quatorze anos de margem para mudar o destino, para impedir que meu irmão carregasse uma culpa que o destruiu por dentro, para evitar que aquela mãe carinhosa perdesse o filho. Mas como agir sem parecer insana? Ninguém acredita em avisos sobre o futuro, muito menos vindos de uma estranha parada na chuva.
O barulho de passos no piso de taco dentro da casa branca me fez congelar. A maçaneta de metal girou com um estrondo seco.
A porta de madeira rangeu ao abrir, e uma luz calorosa cortou a penumbra da varanda. Um homem de meia-idade, vestindo uma camisa de futebol desbotada e bermuda jeans, olhou para mim surpreso, segurando uma caneca de alumínio fumegante.
— Nossa, moça! Quer entrar? Está se encharcando aí fora — disse ele, dando um passo para o lado e apontando para a sala, onde uma televisão antiga de tubo brilhava ao fundo.
Olhei para a rua escura, para as poças refletindo a iluminação dourada dos postes falhos, e depois para a porta aberta. O passado não era apenas uma memória em preto e branco; ele estava vivo, pulsante e cheio de detalhes que eu desesperadamente precisava aprender a navegar.
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