Please, Diana
1 Capítulo 1 - And I Need You Now, Somehow...
Notas iniciais
Era agosto de 1999. As ruas de Londres eram escuras e uma sombra a perseguia. Aquela era sua própria sombra; o reflexo distorcido como uma mancha negra e vil pelo chão. Ela tentou se esconder dentro de sua própria camiseta velha de flanela, confortando-se com o fato de que aquilo a ajudaria a combater os 10°C que vinham como um sopro de vento, cortando seu rosto pálido e enfermo; sua respiração, ofegante, falhava e retornava com dificuldade. Tentou acelerar os passos em vão, o medo de pender sobre o chão no momento em que perdesse suas forças alertou-lhe para continuar calma… Iria dar tempo.
Diana chorava ao caminhar, por breves momentos olhava para trás com a idéia de poder acabar encontrando alguém chamando por seu suposto nome, com passos ligeiros perseguindo os seus. A voz ecoou em uma parte de seu cérebro, desconhecida por ela: “Ana, Ana! Volte aqui!”. Ana. Diana — seu nome dado por sua mãe com o intuito de homenagear a Princesa de Gales — havia morrido para as pessoas ao seu redor, o que restara foi sua metade mais perigosa, complexa, insalubre e, infelizmente, nada efémera.
As ruas começaram a tomar movimentos, as luzes ofuscavam a vista em diferentes cores. Seu olhar passou a brilhar instantaneamente ao avistar o enorme letreiro “Silverchair esta noite! 02 de Agosto de 1999.”
Ana sentiu suas pernas tremerem, um arrepio caminhou vagarosamente por sua espinha até chegar queimando em sua nuca. Se aquela banda de certo modo havia salvo sua vida e lhe dado razões para continuar, não se importou em arriscar sua própria vida apenas para vê-los. Ela precisava, por alguma razão, agradecê-los.
Deparou-se com um motim de adolescentes pseudo-grunges na entrada. Os tickets de entrada para o show eram vendidos aos montes por cambistas que também distribuíam sorrisos insolentes para as garotas mais novas. Ana aproximou-se de um homem magro e alto, a barba ruiva era comprida e na ponta havia uma pequena trança que chamava sua atenção, os olhos eram escondidos por um par de óculos escuros. “O que queres, menina?” Perguntou ele, um sotaque escocês exalando-se por seu timbre foi perceptível. Ela pediu por um ingresso, enquanto do bolso de trás de seu jeans tirava um maço de notas amassadas, recentemente roubadas de uma das enfermeiras da Clínica de Tratamentos para Transtornos Alimentares. “São 27 libras, sem mais, nem menos, menina.” Ana revirou seus olhos e entregou-lhe todo o maço, cogitando um novo método de voltar para “casa” sem o dinheiro para algum transporte. Poucos segundos depois, sua duvida desapareceu. Pegou seu ingresso e infiltrou-se da forma mais invisível em uma fila; Ana se contorcia dentro de sua camiseta, parecia abraçar-se, como se esta fosse sua única amiga, ou algo do tipo. Alguns olhares singulares direcionavam-se à ela, que ao percebê-los, curvava seu pescoço para deixar mais mechas de seu cabelo castanho-claro cobrir grande parte de seu semblante.
Por fora reprimia-se, trazendo todas as suas emoções para seu interior, que vibrava com tamanho contentamento. Ana impôs em sua mente a meta de conhecer Daniel Johns. Ela precisava disso… Ela poderia se sustentar disso pelo resto de sua vida, até seu último suspiro. Uma mísera conversa, uma única pergunta, um único olhar entre ambos já encheria seu peito de satisfação, talvez assim, até mesmo limpando o rancor, os medos e crônico pesar que vêm a assolando e a quebrando a cada dia que passava.
Um rosto jovem aproximou-se por entre a multidão. Ana não a conhecia, mas não podia ignorar seu olhar especulativo a perseguindo; a garota de cabelos tingidos de um vermelho vinho encostou-se na parede e passou a afrontá-la. Ana pigarreou e desviou seu olhar, até a garota de cabelos vermelhos se manifestar:
– É cocaína, não é? – Indagou, e depois colocou um cigarro entre os lábios manchados de vermelho sangue. Ana hesitou alguns segundos até tomar voz e respondê-la, mas ligeriamente fora interrompida. — Essa sua magreza… Só pode ser cocaína. – Continuou ela, murmurando, dessa vez, afirmava para si mesma, como se tentasse de certa maneira, se conformar. A diferença é que Diana era a “Ana” e não “Paint Pastel Princess” como pensou a garota.
– Eu não sei do que você está falando. – Respondeu ela, dissimulando um desentendimento.
– Não é cocaína – Continuou. – você é ingênua demais. – Conclui, seriamente. Ela deu de ombros e acendeu o cigarro entre seus lábios em silêncio antes de voltar para seu devido lugar. Ana pensou em desaparecer naquele momento. Mais uma vez estava sendo pouco analisada e firmemente rotulada; as pessoas tinham essa péssima mania de reagir de tal forma ao conhecerem-na.
Uma leve tontura estremeceu sua visão. Apoiou-se na parede ao seu lado, os olhos fechados ajudaram-na a não trazer as terríveis náuseas novamente. Seu estômago doía, lembrando-a que por trás daquelas aparentes costelas, haviam necessidades… Necessidades que Ana forçava-se a ignorar. Talvez seus desejos não fizessem coerência com o que ela sabia precisar.
Tirando-a de seu transe, a fila passou a se mover, passos acelerados adentravam no maior pub de Londres. Um calor enfadonho tomou conta de seu peito, corava suas bochechas e amortecia a ponta de seus dedos dos pés. Ana sacudiu seus braços cautelosamente e puxou a manga de sua camiseta para a palma de suas mãos frias.
Alojou-se por entre o público, e em estado de inércia permaneceu ali, parada, até especular luzes piscando no pequeno palco poucos metros à sua frente. As pessoas ao redor não existiam mais. O tempo parecia passar três vezes mais rápido, e o mesmo arrepio passava como ondas por seu corpo iam e voltavam, e seus olhos verdes transformaram-se em lagos cheios d’água. Até as luzes tomarem uma coloração branca e pararem de piscar; paralisaram conforme um solo de guitarra acompanhado de um baixo soava pelas enormes caixas de som. Daniel, deduziu Ana. As luzes apagaram. Ana não enxergava um palmo à sua frente, podia apenas inalar o odor da mistura de fumaças de diferentes cigarros ao seu redor. Um grito esganiçado saiu em correntes da caixa de som, prendendo a atenção de qualquer um que estivesse no local. O grito estridente, angustiado e incrédulo. As luzes se acenderam e bruxuleavam; ali estava Daniel Johns. Logo atrás dele, encontrava-se Ben, e ao seu lado, surgia Chris. Ana sentiu suas pernas tremerem, prestes a ceder e deixarem-na cair. Manteve-se forte. Essa era sua única razão para continuar ali… Ela amava aquilo mais do que poderia amar qualquer um.
O garoto problemático de cabelos desgrenhados colorados por um louro dourado que chegavam a seu maxilar possuía um olhar sério e um sorriso no rosto. De seu nariz para cima Ana poderia vê-lo chorando, e a partir de sua boca para seu queixo poderia se enganar acreditando que Johnson estava feliz por estar ali.
Uma camiseta justa destacava sua magreza excessiva, o jeans largo e rasgado arrastava em seus pés com a barra sendo pisada por um Converse All Star.
Começou apresentando um trecho de “London’s Burning”, um cover do The Clash, para abrir o Show.
Uma espécie de roda punk se formava ao lado do palco, as pessoas se debatiam e parecia não avistar a presença de Ana, que podia sentir suas costelas sendo perfuradas pelo cotovelo de um garoto alto ao seu lado. Tentava não se importar, apenas acompanhava a música balançando levemente sua cabeça. Todos pareciam agitados com a abertura do show; Daniel segurava o microfone como quem estivesse prestes a cair, apoiando neste como quem não tivesse forças para permanecer de pé. Ao fim da música, todos se acalmaram conforme os acordes da guitarra tornavam-se mais leves. O som estridente de unhas pontiagudas arranhando um vidro foi perfurado pela melodia “Ana’s Song”. Ana sorriu ao reconhecer os acordes. Aquela era a sua música… Em todos os sentidos possíveis. Se fosse possível, atravessaria as pessoas até conseguir ter uma visão melhor e mais próxima dos músicos. Mas tudo o que houve foram empurrões que arrastaram-na até a frente do palco, e palavrões de insultos cuspidos em suas costas. Todos aquelas sensações, sentimentais ou físicas, começaram a se coagular em uma enorme bolha de confusão. “Please, die, Ana. For as long as you’re here, we’re not” lembrava-se dos dias em que lutava contra quem mais parecia ajudá-la. Todo o ódio, o medo, a angústia de estar presa à uma idéia maluca. “And I need you know, somehow” E logo se lembrava da importância que sua metade como Ana lhe faria o que desejava ser… Um tremor passou por suas pernas novamente. Uma faca parecia perfurar a boca de seu estômago com a dor que lhe chicoteou abruptamente. Era como se estivesse sendo atacada em sua própria mente.
“In my head the flesh seems thicker”, o espelho lhe dizia: É isso que queres ser? Você pode ser melhor, Diana, não desisti de você, eu sou sua amiga… Ana.” Sua vista tornou-se turva mais uma vez. A tontura lhe cumprimentava com um tapa no rosto de relance. Através daquilo, Ana pode perceber o olhar de Daniel encontrando o seu. Seus olhos azuis esverdeados eram tristes, agonizantes. Assim como os dela. Ele a fitou por alguns segundos, uma certa corrente empática os conectando.
E logo, tudo se tornara preto. Como se um manto negro houvesse caído sobre seus olhos. Seu corpo não pendeu sobre o chão, pois as pessoas ao seu redor pareciam carregá-la de tão próximos. Diana ouvia a melodia, mesmo assim. “And you’re my obsession, I love you to the bones”. A revolta ainda proliferava em seu peito, ardia seus olhos com lágrimas que nem ela mesma sabia se eram reais. Daniel parara de cantar, como se sua voz fosse sido cessada. Pulara do palco para puxá-la. Ele, infelizmente, não tinha forças o suficiente para segurá-la, apesar de sua extrema leveza. Alguns seguranças puxaram seu corpo para fora da multidão. Diana permanecia desacordada, mas um sorriso era estampado em seu rosto delicado. Daniel voltou ao palco e passou a dedicar a música à garota que havia desmaiado.
A caminho da ambulância ouvia seu nome sendo gritado por seu músico favorito. Seus olhos adoecidos se abriram com alívio, uma lágrima quente escorreu pelo canto destes, e depois, penetrou seu olhar em nada em específico. Uma luz parecia surgir do céu escuro, e um brilho incessante cegava seus olhos. Ana tentou fechar suas pálpebras, mas não conseguiu. Levantou-se e olhou para trás. Seu corpo frágil continuava fixo sobre a maca. Uma garota de cabelos claros que pareciam feitos de algodão de mechas longas que caíam até sua cintura cruzava aquela claridade que rasgava o negrume da noite. Seus pulsos eram finos como alfinetes, seus olhos eram grandes e azuis. Em seu sorriso, carregava uma expressão sádica e doce ao mesmo tempo. Esta estendeu sua mão dirigindo-se à Diana. Aquela era sua melhor amiga. Ana viera para lhe buscar. Pôs sua mão sobre a da loura que se assemelhava à um anjo e deixou-a ser puxada para direcionarem-se, juntas, ao clarão. E depois, atravessaram. Sem dor, sem sofrimento… Apenas o som de uma música para duas garotas que viviam dentro de uma só… Diana.
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