Bella’s POV


Meu rádio despertador não tocou, é claro. Eu estava sem luz.


Ainda assim, três batidas na porta me arrancaram do pesadelo em que eu estava presa e, com um suspiro de alívio, coloquei-me de pé, em alerta, com a testa e a nuca suadas como quem acaba de lutar pela própria vida.


Levei alguns segundos para me dar conta de que não estava fugindo da polícia de verdade. Era só um sonho.


— É só um sonho, Bella — repeti como um mantra enquanto vestia meu robe surrado por cima da camisola. — É só a porra de um sonho!


Ao abrir a porta, não havia ninguém. No chão, porém, meu notebook e meu celular estavam cuidadosamente empilhados, com os carregadores enrolados do mesmo jeito que vieram da loja. Havia também um bilhete escrito à mão:


“Prontos para uso. Eddie.”


Senti-me estúpida. Eu havia deixado meus pertences de maior valor na casa do esquisitão do 302. Pensar nele trouxe de volta as memórias da conversa da noite anterior — e do convite para um café às nove.


O visor do meu celular, agora com cem por cento de bateria, mostrava o horário: 8h12. Ainda havia tempo para um banho.



Edward’s POV


Eu não tinha certeza de que ela apareceria, mas esperei perto da escada a partir das 8h55. De braços cruzados, ponderava se era prudente continuar com a ideia do reality show. Afinal, haveria exposição pública, e isso certamente tiraria alguns dos meus inimigos da toca.


Em contrapartida, o prêmio milionário era o tempero irresistível que um canalha como eu não consegue recusar.


Não apenas para alimentar meu ego e conquistar a fama que sempre quis, mas por uma questão de sobrevivência.


O único problema era ter certeza de que a mulher que embarcasse no esquema comigo seria, de fato, uma parceria frutífera. As chances de tudo dar errado por falta de profissionalismo da outra parte eram o que mais me preocupava. E foi justamente esse medo — essa necessidade de estar no controle da situação, eu sei — que me levou a invadir o notebook e o celular da Srta. Swan.


Isabella Marie Swan. Nascida em 13 de setembro de 1995, em Forks, Washington. Vinte e quatro anos. Recém-formada em Inglês e Escrita Criativa pela Universidade de Chicago. Aspirante a escritora. Endividada em vinte e cinco mil dólares. Sem contato com os pais divorciados nos últimos dois anos.


Alguém que parecia estar tentando recomeçar, mas não conseguia.


Já morou em Portland, Phoenix, Chicago, Nova York e, finalmente, parou em Seattle.


Não consegui descobrir por que Isabella decidiu ficar em Seattle, tampouco encontrei um padrão. Ela não possuía redes sociais. Encontrei apenas um perfil no Twitter, no qual não usava nome nem fotos reais. A conta era antiga, mas não havia publicações desde a criação.


Intrigante.


O fato de não ter descoberto tudo sobre ela me excitava. Havia um vidro fosco ocultando seus segredos, e tudo o que eu queria era enxergar através dele. Eu precisava ter certeza de que ela não trairia o acordo, caso ele fosse feito. Por isso, instalei um espião — tanto no notebook quanto no celular.


Ela dificilmente notaria algo. A não ser que fosse uma especialista em tecnologia como eu.


Contei com a sorte e com a ignorância alheia, pois sabia que poderia ser preso por isso.


Meus pensamentos se dissiparam quando a porta do 304 se abriu e Swan saiu mais arrumada do que eu esperava. Usava um jeans claro que valorizava seu corpo; a baby look do Metallica aparecia sob o zíper aberto do moletom preto. Nos pés, um par tradicional de Chuck Taylor.


As roupas não pareciam caras, mas eram estilosas e traziam sua personalidade à tona. O cabelo estava solto e o rosto carregava pouca maquiagem — apenas o suficiente para ressaltar a boca bem desenhada e os olhos cor de chocolate. Não tinha certeza se o corado nas bochechas era natural ou blush, mas estava bonita.


Bem bonita.


Era até uma surpresa para mim achá-la tão atraente. Gosto de loiras peitudas, não vou negar, mas Isabella tinha aquele vidro fosco ao redor — algo que me puxava para mais perto.


Bella’s POV


Respirei fundo e segurei a maçaneta da porta, repassando mentalmente todas as frases de incentivo que criei durante o banho.


“É só um cara bonito te chamando para sair.”


“Mas isso não quer dizer que seja um encontro. Não precisa ser.”


“Ele pode querer te indicar para algum trabalho.”


“Sexo casual não seria tão ruim assim… seria?”


Balancei a cabeça quando o último pensamento intrusivo atravessou meus mantras sagrados como uma lâmina.


Tomei coragem e abri a porta às nove em ponto, sentindo um frio no estômago que logo se transformou em calor, espalhando-se por todo o corpo.


— Bom dia, Srta. Swan! Legal, você curte Metallica. Eu também!


Dei um meio sorriso enquanto trancava a porta atrás de mim.


— É Isabella. Mas pode me chamar de Bella.


Aproximei-me devagar da escada, girando a chave entre os dedos antes de guardá-la no bolso do moletom.


Eddie estava exatamente como eu previa: um misto de esporte fino com casual. Camisa social e colete combinados com calça jeans e um tênis de marca.


“Você realmente deve ter dinheiro sobrando”, pensei, acenando com a cabeça quando ele perguntou se eu havia dormido bem.


Os óculos de grau tiravam um pouco da imponência do rosto dele. A barba baixa estava bem feita, cobrindo traços do maxilar que eu talvez quisesse ver sem o pelo castanho-dourado. O cabelo, cuidadosamente penteado com gel, fazia dele um nerd com dinheiro.


Fofo.


“Seu pau deve ser grande.”


Sorri de canto, mas me arrependi imediatamente.


— Hã… eu sinto muito. Pela morte da sua avó. Eu não estava sorrindo por isso — apressei-me em dizer. — É que eu… sorrio quando fico nervosa. E falar da morte de entes queridos me deixa nervosa…


O silêncio que se seguiu deixou claro: tinha sido um momento extremamente constrangedor.


Finalmente chegamos ao térreo. Eddie abriu a porta para mim educadamente, e bastou atravessarmos a rua para estarmos em um café bem aconchegante. Ele escolheu uma mesa perto da janela, chamou a garçonete e pediu panquecas com calda e um café preto. Eu pedi waffles e um suco de laranja.


— Gostaria de começar me desculpando pela indelicadeza de ontem — disse, olhando-me nos olhos. — Fui um babaca.


— Foi mesmo.


Não tentei esconder minha raiva. Eu estava com fome.


— Eu não sabia como começar a conversa sobre ter uma proposta para ganharmos dinheiro juntos.


Vinquei as sobrancelhas e me ajeitei no assento estofado.


— Hm. Continue.


Ele me analisou com um olhar frio por demorados segundos, então rompeu o silêncio dizendo:


— Vou ser direto — disse, largando o tom cordial de vez. — Essa proposta envolve dinheiro. Muito dinheiro.


Cruzei os braços.


— Sempre que alguém começa assim, dá errado.


— Nem sempre. Mas quase sempre é arriscado — admitiu, sem piscar. — E eu preciso de alguém disposta a correr esse risco comigo.


Meu estômago se contraiu.


— Risco de quê?


— De exposição — respondeu. — De mentir em público. De sustentar uma versão da própria vida por tempo indeterminado.


Engoli em seco.


— Isso não soa como algo que eu faria.


— Soa exatamente como algo que você faria — rebateu. — Você não tem vínculos, não tem presença online, e está claramente precisando de dinheiro.


Meu sangue ferveu.


— O quê? — Ri com ironia. — Você não me conhece.


— Conheço o suficiente — disse com calma perturbadora. — E sei que você é boa em contar histórias.


A garçonete apareceu com os pratos, quebrando a tensão por um segundo. Quando ela se afastou, Eddie continuou:


— Um reality show sobre casamento. — Fixou os olhos nos meus. — Um casamento que não é real.


Meu garfo congelou no ar.


— Você está brincando.


— Não — respondeu. — Estou oferecendo uma parceria.


[...]


Suspirei e larguei o corpo no banco do Green Lake Park. Eddie sentou-se ao meu lado.


— Eu não sei nada sobre você.


— Eu sei.


— Eu tenho só vinte e quatro anos. Se eu me casar, vão achar que estou grávida.


— Eu sei.


— E eu gosto de manter a minha vida discreta. Me expor em um reality show vai acabar com isso.


— Eu sei.


Olhei para ele, agora abertamente irritada.


— Quanto é mesmo essa porra de prêmio?


— Cem mil dólares e a mansão onde o reality acontece.


A paciência dele comigo era quase irritante. Admirável, mas irritante.


— E vamos ter que nos casar no cartório de verdade?


— Não. Os documentos serão falsificados.


— O quê?!


— É óbvio que teremos que oficializar isso, Bella — respondeu com calma. — Mas podemos cuidar do divórcio logo depois que recebermos o prêmio.


— Que merda! Eu vou me casar já esperando o divórcio!


Eddie balançou a cabeça e esfregou os olhos por baixo dos óculos, como se já previsse aquela reação.


— E como você sabe que vamos ganhar o prêmio?


— Eu tenho alguns contatos…


Encarei-o, incrédula.


— Vamos trapacear?


— Não. Eles vão nos assessorar. — Cruzou as mãos. — E nós vamos interpretar exatamente o papel que o público do programa deseja. Afinal, é o público quem decide.


Inclinei a cabeça, assimilando aquilo.


— Vai ser como interpretar o casal perfeito do cinema — minha voz soou surpreendentemente tranquila. O nervosismo deu lugar a uma frieza calculista. — O casal que todo mundo gostaria de acompanhar por…


— Dez semanas — completou.


Esfreguei o rosto, imaginando o quão exaustivo seria sustentar um personagem por quase três meses seguidos.


— Eu preciso pensar.


Levantei-me do banco e comecei a andar, sentindo o ar frio bater no rosto.


— Falo com você mais tarde.


Edward’s POV


Observei Bella se afastar pelo caminho de pedrinhas do Green Lake Park sem chamá-la de volta. Os passos eram rápidos, decididos demais para alguém que ainda não tinha dito “sim”, mas lentos o suficiente para denunciar a dúvida.


Ela precisava daquele tempo. E eu sabia disso.


Inclinei o corpo para trás no banco e encarei o lago, fingindo interesse no reflexo da luz na água enquanto, na verdade, organizava mentalmente as variáveis que aquela conversa tinha aberto.


Bella Swan não tinha recusado.


Isso era o mais importante.


Ela também não tinha aceitado.


E isso era… inconveniente.


Mulheres desesperadas dizem sim rápido demais. As inteligentes pedem tempo. As perigosas vão embora sem olhar para trás. Bella caminhou para longe, mas deixou a porta entreaberta — e isso dizia muito sobre ela.


Passei a língua pelos dentes, pensativo.


Ela tinha feito exatamente as perguntas certas. Idade, exposição, casamento, divórcio. Nenhuma menção à moralidade. Nenhum discurso sobre princípios. Apenas consequências práticas. Sobrevivência.


Eu respeitava isso.


O que me incomodava era outra coisa.


Ela tinha mudado.


No começo, estava nervosa, defensiva, quase reativa. Mas quando entendeu a proposta como uma narrativa — como um papel — algo nela se alinhou. A escritora apareceu. Os olhos ficaram frios. Avaliadores.


Ali, naquele instante, eu soube que tinha escolhido a pessoa certa.


E isso deveria ter sido o suficiente.


Mas não foi.


A forma como ela se levantou, como decidiu ir embora sem pedir permissão, sem tentar me agradar ou negociar… Aquilo mexeu comigo mais do que eu gostaria de admitir.


Controle não se impõe em pessoas como Bella Swan. Controle se conquista.


Ajustei os óculos e puxei o celular do bolso, abrindo o aplicativo de monitoramento. Tudo normal. Nenhuma ligação. Nenhuma mensagem. Nenhuma pesquisa suspeita.


Ainda.


Ela iria pensar. Revirar aquela ideia até o osso. Listar prós e contras. Talvez me xingar mentalmente. Talvez se odiar por considerar a proposta.


E, no fim, voltaria.


Porque cem mil dólares resolvem muitos problemas. Uma mansão resolve outros tantos. E dez semanas de mentira são um preço baixo quando a verdade já não está funcionando.


Levantei-me do banco e segui pelo caminho oposto ao dela.


Eu não precisava persegui-la.


Bella Swan voltaria até mim.


Era só uma questão de tempo.