Bella’s POV


A longa caminhada pelo Cowen Park e pela Ravenna Ravine me deu espaço — e tempo — para pensar. E, mais do que nunca, havia muito a se pensar. O entorno de árvores, o som da natureza e as pessoas fazendo exercício físico criavam um contraste gritante com o que acontecia dentro da minha cabeça.


Coloquei os fones de ouvido e dei play no modo aleatório da última playlist ouvida. Imediatamente, meus pensamentos foram silenciados por Coming Undone, no volume máximo, e me desliguei dos arredores.


Ainda assim, a voz dele reverberava entre os versos de Korn.


“Cem mil dólares e a mansão onde o reality acontece.”


A quantia em dinheiro, sozinha, já resolveria todos os meus problemas financeiros. Mesmo assim, não deixei de me perguntar quanto valeria uma mansão daquelas. Dez? Vinte milhões? Parecia irreal demais para ser verdade.


“É óbvio que teremos que oficializar isso, mas podemos cuidar do divórcio logo depois que recebermos o prêmio.”


A ideia de casar já planejando o divórcio era tão absurda que me provocava calafrios. No entanto, conforme eu respirava o ar fresco do parque — mesmo tentando ignorar o ambiente —, meu corpo reagia de forma positiva ao estímulo.


Comecei a pensar no assunto com frieza.


“Nós vamos interpretar exatamente o papel que o público do programa deseja… dez semanas.”


As quantias envolvidas eram um bom incentivo para cogitar aceitar, mas ainda havia o freio da exposição. Ter uma vida pública nunca esteve nos meus planos. Só que evitar a todo custo ser um rosto conhecido também me afastava do sonho de publicar meu livro e, quem sabe, me tornar alguém relevante na literatura nacional.


Eu estava dividida, mas me apegava mais aos cenários em que as consequências eram desastrosas e eu destruía minha vida ao aceitar a proposta do esquisitão do 302.


Foi então que minha ficha caiu.


Não era possível destruir a minha vida quando ela já estava caindo aos pedaços. Endividada, desempregada, sem perspectivas em praticamente todas as áreas… Valia o risco de apostar tudo, mesmo que fosse pouco? Tudo aquilo de que eu teria que abrir mão realmente faria falta, ou eu estaria apenas me livrando de pesos mortos?


E a pergunta que mais me perturbava:


O quão forte eu realmente sou para sustentar um outro eu — intimamente envolvido com… ele?


Diminuí a velocidade dos passos quando percebi que havia dado uma volta inteira ao redor dos parques sem nem notar. Ao pegar a Roosevelt Way para retornar ao apartamento, meu celular vibrou. Era minha mãe.


Eu estava prestes a recusar a ligação quando um cara de moletom, em uma bicicleta verde, passou por mim e arrancou o aparelho da minha mão.


Gritei e comecei a correr, mesmo sabendo que seria inútil.


Meus gritos atraíram a atenção das pessoas na rua e também daquelas dentro dos comércios. Um homem enorme saiu de uma loja de instrumentos e começou a correr atrás do ladrão como se fosse um atleta profissional. Com uma agilidade absurda, desviou de carros e pedestres em movimentos que lembravam parkour, como se estivesse em uma cena de filme, até derrubar o cara da bicicleta.


Parei de correr, boquiaberta, admirando cada centímetro do homem que tinha acabado de salvar meu celular. Ele caminhou em minha direção, mostrando o aparelho intacto — e até sorriu. Ou talvez essa última parte eu tenha imaginado. Tudo parecia em câmera lenta.


Ele era alto. Bem alto. Um metro e noventa, no mínimo. Pele morena, levemente bronzeada, cabelos pretos bem cortados, bíceps marcados sob a camiseta de banda. Mas não qualquer banda.


Sepultura.


— Você está bem? — perguntou. — Parece um pouco pálida.


Não respondi de imediato, apenas peguei o celular que ele estendia na minha direção.


— Deve estar em choque pelo susto — continuou. — Por que não se senta um pouco lá dentro? Vou pegar um copo de água.


Assenti sem piscar, sentindo cada batida do coração descarregar um tremor pelo meu corpo.


[...]


O escritório era tão bonito quanto o restante da loja. Guitarras ocupavam boa parte das paredes, dividindo espaço com certificados emoldurados. O mais curioso era a quantidade de ícones da música que haviam passado por ali; as fotos nos porta-retratos enchiam os olhos de qualquer amante de rock’n’roll.


Dei mais um gole na água e devolvi o copo a ele.


— Não estou mais tremendo feito um pinscher — ri, um pouco sem graça, sem esperar que ele risse também. Mas ele riu. — Você nem imagina o quanto salvou a minha vida. Eu nem sei o que faria se tivesse perdido o celular. Obrigada.


— Não há de quê. Acho que até gostei da emoção da captura.


Rimos e ficamos nos encarando por alguns segundos em silêncio, o que me deixou ainda mais sem graça.


— Desculpe, nem me apresentei — disse ele. — Eu sou Jacob Black.


— Prazer, Jacob. Meu nome é Bella.


Apertamos as mãos em um cumprimento firme, e eu me levantei do sofá.


— Eu vou indo, mas adorei sua loja. E você foi incrível. Muito obrigada mesmo!


Ele abriu a boca como se fosse dizer uma última coisa, mas não disse. Jacob apenas assentiu e me acompanhou em silêncio até a porta. Acenei ao me afastar, percebendo que ele ainda me observava enquanto eu seguia pela rua — até virar o quarteirão.



Edward’s POV


Depois de voltar para o apartamento, dediquei todo o meu tempo a finalizar o trabalho para os russos. Eu estava dentro do prazo, mas não pretendia esperar até os últimos minutos para entrar em contato com Zhirkov. Até porque precisava de uma boa quantia para amaciar um pouco mais Isabella.


Ela estava com o aluguel atrasado e sem energia elétrica. Adiantar um valor para estimular seu envolvimento no meu plano me parecia o mesmo que alimentar um roedor dentro de um laboratório.


O dinheiro sempre funcionou melhor do que discursos. Ele remove resistências, simplifica dilemas morais e encurta caminhos que, de outra forma, exigiriam tempo e paciência — duas coisas que eu não estava disposto a desperdiçar.


Assim que finalizei o envio dos arquivos criptografados, o pagamento caiu na conta minutos depois. Transferências limpas, rápidas, silenciosas. Como eu gostava que fossem.


Durante o processo de criptografia, fiz uma pausa para o almoço e adiantei meu encontro com Emmett. Nos encontramos no Bulldog News, como combinado, e recebi o briefing inicial do Edward que eu seria pelos próximos meses. Havia também uma pasta reservada para minha parceria — que eu esperava, sinceramente, que fosse Bella.


— Acha que ela vai aceitar?


— Vai, mas talvez precise de um incentivo — respondi, sorrindo depois de beber o último gole do suco. — Ela precisa de dinheiro. Vai odiar se vender, mas vai acabar cedendo.


Emmett riu, balançando a cabeça.


— Ela precisa valer a pena, Eddie. Estamos ficando sem tempo — ele bateu no relógio no pulso, a impaciência evidente no olhar. — A preparação é pauleira, cara! Senão, não vamos dar conta.


Eu compreendia a pressa. Toda uma vida de casal seria forjada depois da assinatura da união civil, e a equipe de preparação não era grande.


— Relaxa. Eu sei que ela vai me procurar à noite.


— Me surpreende você ter tanta certeza.


— Eu entendo de mulheres, Emmett. Devia aprender comigo.


Ele riu, debochado.


— Ih! O jiló cozido se achando figo em calda!


Acertei uma bolinha de guardanapo no olho dele, exatamente como fazíamos quando éramos adolescentes.


[...]


Voltei para o apartamento pouco depois, e não precisei esperar muito. Às 14h17, meu sistema de monitoramento notificou a conexão do celular dela à rede móvel, seguida do notebook despertando do modo de repouso alguns minutos depois. Bella não perdeu tempo. A primeira pesquisa surgiu na tela exatamente como eu esperava: “reality show casamento prêmio mansão”.


Inclinei-me na cadeira, cruzando os braços. Era um bom sinal — curiosidade prática, não indignação. Não havia ali nenhum traço de recusa moral ou impulso emocional, apenas cálculo. Ela queria entender o terreno antes de decidir se pisaria nele.


Abriu três abas diferentes e começou a comparar formatos de programas, duração média e regras contratuais. Leu comentários de espectadores, fóruns e críticas rasas sobre “casais falsos”, além de teorias conspiratórias que sempre surgem quando dinheiro e audiência se misturam. Passou rápido pelos trechos que falavam de exposição emocional e conflitos psicológicos, detendo-se por mais tempo nos números. Sempre os números.


A busca seguinte confirmou que a ideia já começava a ganhar contornos reais: “valor mansão reality show Seattle”.


Sorri de canto enquanto ela navegava por anúncios imobiliários, matérias antigas e estimativas vagas. Casas com vista para o lago, arquitetura moderna, valores obscenos demais para serem ignorados. Quando fechou a aba com um gesto brusco, quase irritado, imaginei que não fosse o navegador que ela tentava conter, mas o peso da possibilidade que se instalava na cabeça dela.


Por alguns minutos, não houve nenhuma nova movimentação. Até que surgiu algo que eu não havia previsto: “Guitar Center Seattle família Black”.


Endireitei-me na cadeira, os olhos fixos na tela enquanto ela abria uma matéria institucional sobre a loja. Leu sobre a tradição, as três gerações da família Black no ramo musical, as fotos antigas emolduradas na história da cidade. Um rosto chamou mais atenção do que os outros — jovem demais, sorriso fácil demais, segurando uma guitarra como se aquilo fosse uma extensão do próprio corpo. Jacob Black.


Meu maxilar se contraiu. Não era uma pesquisa aleatória nem curiosidade cultural. Havia um nome ligado a um rosto, e um rosto ligado a um acontecimento fora do meu controle. Bella passou mais tempo nessa aba do que em qualquer outra, rolando devagar, lendo tudo com atenção incomum. Quando fechou o notebook, às 16h49, o silêncio que se seguiu pareceu pesado até para mim.


Só havia uma coisa da qual eu tinha certeza.


Naquela noite, eu investiria todas as minhas cartas.


Bella aceitaria a proposta antes da meia-noite.



Bella’s POV


Fechei o notebook e encostei a cabeça no encosto da cadeira, sentindo o apartamento silencioso demais. Havia contas espalhadas sobre a mesa, papéis que eu fingia não ver há dias, e um cheiro persistente de café velho que denunciava minhas tentativas frustradas de parecer funcional. Tudo ali era provisório, inclusive eu.


Cem mil dólares não era apenas um número. Eram meses de aluguel, contas pagas, comida comprada sem cálculo obsessivo. Era tempo. Tempo para respirar, para errar, para existir sem a urgência constante de falhar outra vez. Ainda assim, havia algo quase ofensivo na facilidade com que aquele dinheiro parecia surgir, condicionado a uma versão minha que não existia — ou que talvez existisse em algum lugar que eu evitava encarar.


A exposição me dava náusea. A ideia de ter minha vida editada, recortada e servida como entretenimento para estranhos me parecia violenta. Não pelo que poderiam ver, mas pelo que poderiam decidir que eu era. Sempre tive cuidado em permanecer à margem, fora de foco, como se a invisibilidade fosse uma forma de proteção. Tornar-me um rosto conhecido soava como abrir mão do último controle que eu ainda fingia ter.


Mas o desemprego também tinha sua própria crueldade. Ele não gritava, não humilhava de forma explícita. Apenas se acumulava em silêncios constrangedores, em e-mails não respondidos, em currículos enviados sem nunca obter respostas. Eu não estava parada — estava sendo ignorada. E isso, de algum modo, doía mais.


Fracasso era uma palavra que eu evitava, mas ela rondava meus pensamentos com insistência. Não como um diagnóstico, e sim como uma suspeita. O tipo de coisa que você sente, mas não ousa nomear. Eu havia seguido o roteiro correto por tanto tempo que me perder agora parecia quase um desperdício de esforço. Não era a queda que me assustava, e sim a constatação de que talvez eu nunca tivesse realmente subido.


A proposta do esquisitão do 302 não me parecia imoral — apenas desesperada. E talvez fosse isso que mais me incomodasse: reconhecer em mim a capacidade de aceitá-la.


Havia também ele — Eddie. Não o cara do discurso ensaiado, nem o homem de roupas caras e da calma excessiva. Mas o outro, o que se insinuava nas entrelinhas. O que observava mais do que falava. Eu não confiava nele, mas também não conseguia ignorar a sensação incômoda de estar sendo vista com precisão demais.


Levantei-me e fui até a janela, observando Seattle seguir seu curso indiferente. As pessoas pareciam tão certas de onde estavam indo. Eu, por outro lado, estava parada entre duas versões de mim mesma: a que resistia por orgulho e a que cedia por sobrevivência.


Talvez o mistério não estivesse na proposta, nem no dinheiro, nem no homem que a fez. Talvez estivesse em descobrir até onde eu iria para não desaparecer. E essa era uma pergunta que eu ainda não estava pronta para responder.


Ou talvez pensasse que não.



Edward’s POV


Quando a campainha tocou, era quase oito da noite.


— Um momento! — gritei do fogão, desligando a chama e pendurando o pano de prato no ombro.


Eu já sabia quem era, mas fiz questão de fingir surpresa. Abri a porta com um sorriso contido ao encontrar Isabella de braços cruzados, um leve constrangimento estampado no olhar.


— Estou atrapalhando?


— Claro que não. Entre, fique à vontade. Estou terminando o jantar.


Ela entrou com gestos comedidos e o olhar curioso, claramente atraída pelo cheiro que vinha da cozinha. Sentou-se no sofá, inclinando-se discretamente para tentar ver o que eu preparava.


— Carbonara — respondi, sem que ela perguntasse, voltando ao fogão. — Isabella é um nome italiano. Posso supor que você gosta de comida italiana?


— Você não parece o tipo que cozinha — ela conteve um sorriso; estava tentando não ser simpática demais. — Mas é difícil não gostar de massa.


Voltei a atenção para o bacon na frigideira. A massa já estava pronta, esperando apenas para ser incorporada. Enquanto a panela aquecia outra vez, servi uma taça de vinho para Bella. Ela hesitou por um segundo e só aceitou quando percebeu a minha taça já pela metade na pia.


No primeiro gole, notou a música tocando baixo na televisão.


— Você também não parece o cara que escuta Queen.


Talvez eu tenha sido precipitado ao pensar que as defesas dela estavam cedendo, mas ainda assim aproveitei.


— As pessoas costumam errar a meu respeito.


Encostado na pia, ergui a taça num brinde silencioso. Ela retribuiu.


— Under Pressure é bem… irônica. Considerando a minha situação — comentou, fitando o vinho antes de completar: — Considerando tudo.


Deixei que o silêncio absorvesse as palavras dela. Bella estava pensando na proposta — eu via isso na forma como evitava me encarar por muito tempo. Era um ponto de inflexão. A partir dali, nossas vidas poderiam mudar ou permanecer exatamente como estavam. A decisão era dela.


Finalizei a carbonara e servi em dois pratos. Levei-os até a mesa junto com o vinho e me sentei ao lado dela no sofá.


— Vamos comer. Você pode pensar em tudo depois. De barriga cheia, as coisas parecem menos dramáticas.


Ela sorriu, mas havia algo cansado no gesto.


— É muito gentil da sua parte… mas fico me perguntando: de todas as pessoas, por que me escolher para ser sua falsa esposa num reality show?


Acomodei-me melhor no sofá, como se a pergunta não tivesse peso algum.


— Você é bonita, inteligente e, apesar do azar recente, não me parece do tipo que abandona o barco. Ou que apunhala pelas costas.


Saiu mais honesto do que eu pretendia. Os olhos castanhos dela captaram a luz amarelada da sala.


— Você me parece o tipo de sobrevivente que só precisa de uma oportunidade melhor.


Ela riu, e eu a acompanhei.


— E estou disposto a adiantar dez mil dólares para que você organize sua vida, quite as dívidas mais urgentes e-


Interrompi-me quando a taça escapou dos dedos dela, derramando vinho sobre a própria camiseta.


— Desculpa! Eu sou tão desastrada!


— Está tudo bem.


Peguei papel-toalha e ajudei a conter o estrago. A camiseta branca da Joan Jett ficou manchada, revelando mais do que deveria — ela estava sem sutiã. Forcei-me a desviar o olhar e voltei para a mesa.


— Dez mil? — ela repetiu, limpando o tecido com movimentos nervosos. — Você tem isso agora?


— São minhas economias. Mas sim.


Ela pegou a taça vazia, serviu-se novamente e bebeu de uma vez.


— E eu vou ter que fazer algum… extra? — perguntou, com cuidado excessivo nas palavras. — Quer dizer, você vai querer algo em troca desses dez mil?


Levei um segundo para entender.


— Oh. — ri baixo, aproximando-me. — Não, Bella. Você não precisa fazer nada em troca.


O alívio no rosto dela me incomodou mais do que deveria.


— Se houver qualquer coisa além da atuação, será apenas para as câmeras — acrescentei, dando um passo à frente. — Fora isso… só se você implorar.


O tapa foi rápido e preciso. Fiquei três segundos imóvel, absorvendo o impacto. Não pela dor, mas pela surpresa.


Interessante. Temperamento explosivo.


Levei a mão ao maxilar e soltei uma risada baixa enquanto ela se sentava à mesa e começava a comer sozinha.


— Quero os dez mil em dinheiro.


— Sim, senhora.


— E vou usar meu sobrenome.


— Sim, senhora.


— E você vai dar um jeito nesses óculos. Eles escondem seus olhos.


Gargalhei.


— Sim, senhora.


Sentei-me de frente para ela e comecei a comer, satisfeito com o acordo que acabava de nascer.


Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.