Play with Fate

19 A chegada da tempestade


Logo ergui minhas mãos em sinal de rendição.

— Calma general, por que... por que você está...

— Cala a boca seu bosta! — vociferou Kurtis se aproximando de mim com a arma em punho — você e Sonya estão juntos a quanto tempo?

— Não temos nada, general — falei com voz trêmula — eu juro.

— Não tente me enganar! Acha que sou trouxa? Há dias que ando percebendo a proximidade de vocês.

— Somos amigos desde o torneio... há mais de 20 anos...

Kurtis parecia ensandecido. Eu podia ver como sua face estava vermelha de raiva e eu tinha a plena certeza que ele estava prestes a fazer uma bobagem. Ele com a voz alta continuou:

— Eu sei que você sempre foi apaixonado por ela! Acha que não sei?

Em desespero falei:

— Abaixa essa arma e vamos tentar um diálogo.

— O meu dialogo com você é com a arma. Você não vai tomar a Sonya de mim, entendeu? Não vai!

— Kurtis — disse Sonya se levantando — tente se acalmar para não fazer nada que você se arrependa depois.

— Eu nunca vou me arrepender de ter o sangue de Cage em minhas mãos.

Sem demora, Stryker destravou a arma e colocou o indicador no gatilho. De ímpeto, Sonya se atravessou na minha frente, com os olhos fitos nos meus e recebeu o tiro pelas costas, o tiro que seria certeiro em meu coração.

Abracei Sonya, que desfalecia em meus braços. Me abaixei para poder repousá-la em meus braços. Ela estava ofegante e pousava os olhos sobre mim. Olhei para Stryker e ele ainda estava com a arma na mão, mas abaixada. Sua outra mão estava na cabeça e sua feição era de puro desespero. Voltei meu olhar para Sonya que estava cada vez mais ofegante.

— Johnny, me ajude — ela dizia segurando o meu casaco com força.

— Eu vou te ajudar — minha garganta deu um tranco e uma comoção enorme tomou conta de mim. As lágrimas desceram automaticamente..

Voltei meu olhar para o general, que estava se movimentando de um lado para o outro. De repente se voltou para mim com fúria, já perturbado e disse apontando a arma para mim.

— A culpa de tudo isso é sua, Cage!

— Fui eu quem apertou o gatilho? — perguntei instintivamente — a culpa é sua por ser um péssimo marido para Sonya!

Stryker ficou atônito ao ouvir aquilo de mim. Mas eu tinha que falar isso, eu não aguentei ficar calado diante daquela acusação. Ele, então, voltou a arma para mim e vociferou:

— Você irá se arrepender por ter falado isso de mim!

Ele estava prestes a apertar o gatilho quando eu só pude ver um jato de sangue espichando do lado esquerdo de sua fronte. Em seguida ele caiu no chão, sem vida. Da mesma porta em que entrei, Jacqui e Nightwolf entraram. Jacqui olhou para o corpo do general e disse:

— Cheguei a tempo.

Nightwolf se agachou próximo da cabeça de Sonya, ficou um pouco em silêncio olhando para ela, suspirou e disse:

— Acho que ela não vai aguentar muito tempo.

Segurei-a com mais firmeza e ela não tirava os olhos de mim. Mesmo ofegante:

— Eu não quero partir sem antes dizer a você, Cage...

— Não se esforce Sonya — falei tentando me conter.

— Johnny, eu preciso dizer... que nunca deixei de te amar.

As lágrimas embaçaram a minha visão, mas logo as limpei. Coloquei a mão em seu coração e ela colocou a mão dela sobre a minha.

— Me perdoa Sonya, eu estou tão...

— O que foi feito... está feito... Mas creio que você conseguirá.

Então ela começou a tossir e cuspiu uma bola de sangue. Sim, não tinha mais nada a fazer. Sonya deu um sorriso forçado e disse:

— Espero que nos encontremos na outra linha temporal... Até breve.

Sem tirar os olhos de mim, ela expirou. Comecei a chamar pelo seu nome e entrei em pânico por não obter resposta. Abracei seu corpo e chorei copiosamente. Era uma dor sufocante, que eu pensei que não iria suportar. Eu conseguia ouvir o choro contido da Jacqui. Olhei para Nightwolf, que não tirava os olhos de Sonya e perguntei:

— O que eu faço agora? Não tenho mais nada...

Jacqui interrompeu:

— Precisamos encontrar Shang Tsung!

— E o que faremos com os corpos?

— Temos... — disse Nightwolf depois de um suspiro — temos que deixa-los aqui. Estamos sem tempo.

Me doía, do fundo da alma, mas deixei o corpo da minha amada repousando naquele chão frio daquela aeronave. Levantei-me e saímos dali. Não quis olhar para trás, para não ficar mais amargurado do que eu já estava.

Andamos por alguns escombros e encontramos os rebeldes. Estavam ávidos lutando contra algumas criaturas que pareciam ser da antiga Exoterra. Entramos no meio da batalha e conseguimos eliminar aqueles inimigos. Todos nos cumprimentaram, alguns ofegantes, outros cansados e até feridos. Fujin veio nos cumprimentar, mas percebi que seus olhos não tinham mais aquele brilho reluzente e característico, suas tatuagens nos braços não mais existiam. Vi Nightwolf perguntar sobre isso e a resposta veio:

— Raiden fez com que os deuses ancestrais tirassem minha divindade, por não querer lutar com ele nessa guerra. Agora sou um mortal, como vocês.

— Sinto muito — falei instintivamente.

— Obrigado — Fujin olhou em volta — Mas onde está Stryker e os soldados?

— Os soldados estão chegando — falou Jacqui se aproximando com certo pesar na voz — mas o general... ele sofreu um acidente de percurso e... não sobreviveu.

Fujin baixou a cabeça e murmurou algo inaldivel, provavelmente algum lamento. Eu não queria lembrar, principalmente do tiro que levou a minha amada. A verdade é que eu queria encontrar logo aquela menina.

— Precisamos nos aproximar da batalha principal — disse Kotal se achegando a nós. E apontando para os dois lutadores daquela guerra.

Olhei para onde ele apontava e de repente Raiden derrubou Sindel, fazendo um estrondo na terra.

— Vamos até lá! — disse Jacqui guiando os demais.

Fui caminhando com eles. Quando entramos debaixo de uma estrutura de um prédio mal construído. Pude ouvir como uma voz de uma criança chamando o meu nome. Comecei a olhar para os lados e como por encanto vi a menina que havia me apresentado a fenda. Ela me mostrou a língua e comecei a correr atrás dela, esquecendo os outros guerreiros. Corremos por entre os escombros, tropecei algumas vezes e topei meu dedão em algumas pedras. No último tropeção, caí com tudo no chão, mas consegui agarrar a menina pelo tornozelo. Ela instantaneamente caiu também.

— Agora te peguei, sua peste! — falei com raiva.

Soltei-a e de repente quando ela se levantou, não era mais a menina, mas o próprio Shang Tsung. Eu e ele estávamos sentados no chão um olhando para o outro.

— Finalmente nos encontramos, Cage!