08 de Outubro, 1910

Outubro chegou com a promessa do baile no ar mas a semana anterior a ele foi uma tortura para Elisabeta. Darcy realmente havia ido em sua casa para devolver Tornado naquele dia mas, se não fosse pelo aviso de seu pai, ela nem mesmo saberia que ele estivera ali. A menina levantou da cama num pulo, ávida para vê-lo, mas o pai lamentou dizer que Darcy já havia ido embora com a desculpa de que estava muito ocupado. Nos dias seguintes, ele apareceu em sua casa mas ela sabia que era apenas pelo bem das aparências. Ficava apenas algumas horas e sempre estavam na presença de outras pessoas. Elisabeta começou a se sentir frustrada e sentia seu humor piorar a cada momento que eles não passavam sozinhos. Queria questioná-lo sobre o que tinha acontecido naquele dia na Casa de Chá porém nunca encontrava o momento adequado.

Além de tudo, a mãe ficara a semana inteira falando que o baile seria a ocasião perfeita para que Camilo pedisse Jane em casamento. Estava colocando diversas expectativas na cabeça da menina, fazendo com que o nível de ansiedade de todos para a festa fosse ainda maior.

Na manhã do baile, Ema fora até na casa dos Benedito com seu vestido. Quando Darcy havia dito que ela deveria surpreendê-lo, Elisa decidiu que queria ser surpreendida também e deixou Ema encarregada da escolha do modelo. Agora que segurava a peça em suas mãos, se sentia ainda mais ansiosa e idiota por não ter escolhido ela mesma.

“Ema, eu não posso usar isso.”

“Você não gostou?”, a amiga perguntou parecendo decepcionada.

“Não! Não é isso. O vestido é lindo”, Elisa esclareceu. E não estava mentindo. O tecido vinho mesclado com azul fazia parecer que sua roupa havia saído de um dos contos de mistério que Cecília vivia lendo. Era bem mais escuro que o costumeiro tom vibrante de vermelho que ela usava e não tinha mangas. Isso fez com que ela sentisse como se essa fosse uma nova personalidade que ela poderia explorar naquela noite. Tudo estaria certo se não fosse a peça... extra. “Eu só não acho que posso entrar dentro disso aqui.”

“Ora, Elisabeta não seja boba! Os corset são bem famosos na Europa e até mesmo em São Paulo. Se todas conseguem, você também há de conseguir.”

“A questão, Ema, é que eu nunca nem vi alguém usando isso aqui no Vale”, ela retrucou tentando passar o espartilho pela cabeça. A amiga puxou a peça com força das mãos de Elisa e fez cara feia.

“Primeira coisa”, Ema começou, levantando o dedo indicador. “Não é assim que se coloca um corset. Não estrague o vestido antes mesmo de usá-lo, por favor. A senhorita vai puxar essas fitas aqui e depois vai pedir para que uma das suas irmãs apertem o máximo possível.”

“Você não vai voltar mais tarde para me ajudar a preparar?”, ela perguntou, decepcionada.

“Infelizmente não posso”, Ema respondeu sentando na cama de Elisa e puxando-a pro seu lado. “Tenho que dar os últimos retoques na decoração da Fazenda Ouro Verde. O que me leva à segunda coisa: você vai ser a pioneira do meu... digamos que experimento, aqui no Vale.”

“Experimento?”

“Sim. Quero trazer algumas inovações da moda francesa para nossa cidadezinha e não consigo imaginar alguém mais adequada para isso do que você.”

“Tudo bem, eu irei usar o corset”, Elisa cedeu, sorrindo e segurando as mãos dela.

Ema deu um gritinho e bateu palmas. “Ótimo! Mal posso ver o rosto do seu namorado quando ele te ver nesse vestido.”

Elisabeta sentiu seu sorriso murchar. Isso não passou despercebido pela a amiga que perguntou se havia acontecido alguma coisa.

“Não sei se aconteceu, Ema”, ela respondeu sinceramente. “Mas pretendo descobrir hoje.”

Quando o sol começou a se pôr, os Benedito seguiram caminho até a Fazenda Ouro Verde. As meninas estavam deslumbrantes mas Elisabeta estava especial. As irmãs haviam disputado quem iria fazer sua maquiagem e cabelo, mas no final acabaram todas ajudando um pouco. Lídia até mesmo ajudou a puxar o espartilho e quando Elisa reclamou que estava apertado demais, a caçula disse que era sua punição por não ter pedido um apetrecho desses para ela também. Mariana e Jane prenderam seus cabelos castanhos num coque baixo, deixando seu colo à mostra, e Cecilia fez com que seu rosto parecesse de uma boneca. Mas pouco importava como ela estava. A verdade era que Elisa sentia o coração batendo tão forte que se os Benedito conseguissem o milagre de ficar em silêncio por um minuto, eles escutariam as batidas também.

Foram recebidos por Ema na entrada da fazenda e tão logo que chegaram suas irmãs e seus pais se dispersaram deixando as amigas sozinhas.

“Você viu Darcy?”, Elisa perguntou, ansiosa.

Ema sacudiu a cabeça. “Ele estava com Camilo mais cedo, mas agora não o vejo. Talvez ele esteja lá fora. Ele é tão alto que se ele estivesse aqui nós já teríamos percebido.”

Elisa pediu licença com uma risada e atravessou o salão cumprimentando apenas com um aceno às pessoas que lhe chamavam. Estava sendo um pouco mal educada, mas estava desesperada para vê-lo e conversar abertamente, sem ter que podar o que falaria por estar na presença da família. Ela o encontrou no jardim, vendo o pôr-do-sol. Tinha um copo na mão e ela o observou por um tempo do topo da escada que estava antes de chamá-lo.

“Darcy!”

Ele se virou já sorrindo quando reconheceu a sua voz. Ele estava todo de preto, diferente das roupas cinzas que ela tinha visto ele usar na ferrovia. Seus olhos brilhavam mesmo de longe e o cabelo negro estava penteado para trás. Ele estava lindo, ela reconheceu e sentiu suas bochechas queimarem.

“Até que enfim a senhorita chegou”, ele disse parecendo verdadeiramente aliviado. “Já estava me sentindo aflito por não ter alguém conhecido para conversar.”

“Camilo não é uma companhia boa o suficiente?”, ela perguntou enquanto descia alguns degraus e ele se aproximava da escada. Eles pareciam dois imãs sendo atraídos um pelo outro involuntariamente.

“Camilo não consegue aguentar por muito tempo minha incapacidade de socializar”, ele deu de ombros. “Ele é muito ativo para isso.”

“Ainda bem que cheguei para te tirar da sua miséria”, ela disse com um sorriso.

“Ainda bem”, ele concordou também sorrindo.

Eles pararam de andar quando ficaram da mesma altura, dois degraus de distância um do outro. Darcy tentava fortemente olhar nos seus olhos mas ela percebeu que os dele estavam agitados, como se ele quisesse analisar todos os detalhes dela em um só segundo. Ela não o julgou porque fazia exatamente o mesmo.

“Darcy Williamson, o senhor está parecendo um lorde. Seria uma coincidência?”, ela elogiou.

“Por que?”, ele perguntou e subiu mais um degrau. “Das outras vezes que a senhorita me viu eu estava muito acabado para ser um lorde?”

“Não, não, não”, ela riu e sacudiu o indicador na frente dele. “Nada de distorcer as palavras. Esse é meu trabalho.”

“Creio que a senhorita executa seu trabalho muito bem”, ele disse com um sorriso que sumiu em alguns segundos. Elisa se sentiu desconfortável sobre o olhar intenso dele. “Devo dizer que você está parecendo um sonho hoje.”

Ela sentiu o rosto ficar vermelho e ela soube que nenhuma maquiagem no mundo esconderia isso porque ele sorriu assim que percebeu sua reação.

“Você gostou? Ema que escolheu”, ela disse tocando a saia.

“Me lembre de agradecer Ema mais tarde”, ele respondeu e ela sorriu.

O silêncio logo se instalou sobre eles. Ela estava ansiosa para questionar o que tinha acontecido na semana passada e ele sabia que ela queria respostas mas nenhum dos dois parecia querer estragar o momento. Elisa se sentiu boba por ter esperado a semana inteira para conversar com ele mas não conseguia encontrar coragem quando finalmente tinha-o sozinho.

“É sua primeira vez na fazenda Ouro Verde?”, ela perguntou apenas para quebrar o gelo, já que sabia muito bem a resposta.

“Sim. E as pessoas são bastante... receptivas, se assim posso dizer.”

“A sua sorte, senhor Darcy Williamson, é que algumas pessoas já sabem que o senhor está comprometido. Caso contrário, você teria que lidar com todas as mulheres do Vale se jogando em seus braços, tentando te conquistar.”

“Eu não acho que isso impediu algumas moças do Vale”, ele disse parecendo constrangido.

Elisa colocou a mão na testa como se fosse desmaiar de choque. “Você está querendo dizer que na minha ausência as moças estavam tentando roubar meu namorado?”

“É exatamente isso”, ele respondeu tomando um gole da sua bebida, se divertindo com sua encenação.

“Meu Deus!”, ela colocou a mão no peito e fingiu secar algumas lágrimas. “Talvez eu deva fazer minha presença ser mais notável nessa noite.”

Darcy terminou sua bebida e entregou para o garçom que subia as escadas. “A senhorita sabe que isso é culpa sua, certo? Se não fosse aquela sua regra, ninguém duvidaria que somos um casal.”

Elisa revirou os olhos e tomou coragem para questiona-lo. “Bom, já que vamos reviver assuntos que já foram dados como finalizados, talvez o senhor possa me dizer o verdadeiro motivo da sua reação quando viu Uirapuru.”

“Elisabeta...” ele começou com um sorriso triste.

“Não, me deixe falar”, ela interrompeu pegando suas mãos. “Eu estive para falar isso durante esta semana mas você parecia fugir de mim em qualquer oportunidade. A verdade é que eu não quero que você se sinta pressionado a dizer alguma coisa apenas para me fazer sentir melhor. Quero que você me conte porque quer”, ela começou e ele concordou com a cabeça. “Mas ao mesmo tempo eu quero saber mais sobre você. O pouco que eu sei são coisas que Camilo comentou e o que você já falou para minha família. Eu quero saber mais sobre quem é Darcy Williamson”, ela disse verdadeiramente.

“Não há nada no mundo que eu queira mais do que te dizer tudo sobre quem é Uirapuru. Mas esse assunto envolve a honra de outras pessoas que eu não posso expor.”

“Tudo bem”, ela concordou um pouco chateada que ele não queria se abrir com ela mas entendendo seus motivos mesmo assim. “Mas saiba que quando quiser, sou toda ouvidos.”

Darcy sorriu e entrelaçou seus dedos nos dela. “A recíproca é verdadeira. Quero saber tudo que há para conhecer sobre Elisabeta Benedito.”

Os dois ficaram em silêncio observando o sol se pôr mas dessa vez era um silêncio confortável. Elisa ainda estava curiosa e tinha certeza que eventualmente iria descobrir o que estava acontecendo, só não queria atrapalhar a noite com um assunto que claramente o incomodava.

Eles foram interrompidos alguns minutos depois por Lídia avisando que Ema estava convocando os dois para valsar. Subiram juntos de mãos dadas até o salão onde Ema já discursava.

“E é com muita honra que eu recebo o novo morador do Vale, um querido amigo e excelente trabalhador, senhor Darcy Williamson e sua namorada, também minha amiga, Elisabeta Benedito.”

Houve uma pequena salva de palmas e Elisa percebeu o constrangimento vindo de Darcy. Era surpreendente para ela como um homem tão imponente como ele poderia ser bastante tímido. Mesmo assim ele puxou ela para o centro do salão quando a música começou, segurou suas duas mãos e balançou seus braços de um lado pro outro. Pareciam duas crianças dançando e ela riu constrangida.

“O que você está fazendo? É assim que os ingleses dançam?”

“Definitivamente não”, ele respondeu rindo. “Mas as suas regras me impedem que eu dance da maneira correta.”

Elisabeta revirou os olhos e se aproximou, colocando as mãos dele na sua cintura e as dela nos seus ombros. “Não me faça passar vergonha.”

“Vergonha? Elisabeta Benedito?”, ele disse em seu ouvido. “Não sabia que era possível. Na verdade, eu achava que você era responsável por fazer os outros se sentirem intimidados e não o contrário.”

“Talvez”, ela concordou enquanto eles giravam pelo salão. “Há uma teimosia em mim que nunca me permite ser assustada pela opinião alheia. Minha coragem sempre aumenta a cada tentativa de me intimidar.”

“Eu posso perceber. Mas talvez você tenha razão. Dançar assim é bem mais adequado”, ele respondeu juntando sua testa na dela.

E ela sentiu de novo. A falta de ar, as bochechas ficando vermelhas e o calor subindo pelo corpo. Mas dessa vez ela não se afastou. Ficou com os olhos ligados nos dele enquanto eles dançavam até o final da música e quando ela finalmente terminou, ele se curvou numa cortesia e beijou sua mão por mais tempo que necessário.

“Acho que o senhor Darcy me deve uma dança”, Ema disse aparecendo de repente. Elisa pulou, assustada, como se tivesse sido pega fazendo algo extremamente proibido. Darcy a encarou, um questionamento silencioso se não tinha problema e ela sorriu se afastando.

“Claro. Fiquem a vontade. Vou dar uma volta pelo jardim.”

Ela saiu apressada do salão até a parte aberta da propriedade e sentiu que poderia finalmente respirar. Não sabia o nome do que estava sentindo e muito menos o que estava sentindo de verdade. Seus sentimentos estavam num turbilhão e ela sentia como se não pudesse formar algum pensamento coerente em sua mente. Correu até o lago que ficava afastado de todo o barulho da festa na esperança de que o silêncio e o frescor da água pudessem acalmá-la mas ainda se sentia inquieta e agitada. Se sentou num dos banquinhos que estavam espalhados pelo jardim e ficou observando as pessoas saindo do salão aos poucos e socializarem no jardim também. Mais tarde, Cecília apareceu de mãos dadas com o doutor Rômulo que beijou a bochecha dela e se despediu.

“Elisa, vim ver se está tudo bem”, ela disse enquanto se aproximava. “Você parecia perturbada.”

“Estou bem, minha irmã. E você pelo visto também, não é?”, ela comentou tentando esconder o riso. “Rômulo Tibúrcio! Cadê a minha irmã que suspeitava que ele era morador de uma casa assombrada?”

“Ah, Elisa! Eu fui tão boba com essa história da Mansão do Parque. Acho que estou me apaixonando por ele.”

“Mas já?”, Elisabeta questionou enquanto elas andavam juntas pelo gramado voltando para o salão. “Não é cedo demais? Vi vocês juntos apenas algumas vezes depois que você se livrou daquela paranoia.”

“Eu não acho que há um tempo certo para se apaixonar”, ela respondeu dando de ombros. “Quando você sabe, você sabe.”

“Mas não há dúvidas? Nem espaço para questionamentos?” ela perguntou, verdadeiramente curiosa.

Cecília franziu o cenho parecendo preocupada. “Bom, o amor é um sentimento complexo que as vezes pode nos deixar confusa... Mas por que pergunta? Está em dúvida sobre seus sentimentos por Darcy?”

“Não”, ela respondeu rapidamente. “Entretanto eu gostaria de conversar com vocês. Por favor, avise Mariana que espero todas as minhas irmãs no meu quarto quando chegarmos”, ela começou mas mudou de ideia. “Na verdade, não avise Lídia.”

“Aconteceu alguma coisa?”

“Eu te explico depois”, Elisa cochichou quando as duas passaram pelas grandes portas e entraram de volta para o frenesi da festa.

Dona Ofélia correu em direção a menina assim que ela apareceu no salão. Disse que já tinha passado da hora que Elisabeta voltasse – estava preocupada que Ema pudesse roubar seu namorado já que Darcy só havia dançado com ela desde que Elisa tinha se ausentado. Já estavam indo para a terceira dança! Elisabeta revirou os olhos, tentando ao máximo ignorar o desespero da mãe, mas sentiu seu coração murchar quando viu os dois dançando. Eles pareciam amigos de décadas e ela questionou quão íntimos eles realmente eram. Darcy estava feliz e ria abertamente de algo que a amiga disse. O homem que sempre fora descrito como um homem contido e sério parecia outro na presença de Ema e, involuntariamente, Elisa se viu se perguntando se ele ficava diferente com ela também.

Assim que a música acabou, ela correu na direção dos dois.

“Acho que devo roubar meu namorado”, ela disse, segurando a mão de Darcy.

Ema deu um sorriso cúmplice para os dois e se despediu, alegando que tinha que encontrar Jorge.

“Você quer dançar?”, ele perguntou.

“Na verdade, não. Mas mamãe queria que eu marcasse meu território perto de Ema”, ela respondeu enquanto puxava-o para um dos sofás afastados de todos convidados. “Já não basta todo estresse causado pela demora do pedido de Camilo.”

Darcy pareceu confuso ao sentar do seu lado. “Pedido?”

“Dona Ofélia está em um dos seus surtos em que ela está crente que Camilo vai pedir Jane em casamento hoje. Eu acho uma besteira.”

“Eu também”, ele concordou baixinho. Quando ela perguntou se ele sabia algo sobre isso, ele respondeu rapidamente que não e ela deixou passar porque sua mente começou a derivar novamente. Talvez ela tivesse calculado mal onde eles iriam sentar porque o sofá era tão pequeno que eles tiveram que ficar de lado para que coubessem os dois. Não bastando a proximidade extrema, ele a encarava com um sorriso como se soubesse todos os seus segredos.

“O que você está olhando?”, ela perguntou.

“Você realmente está linda hoje.”

“Está fazendo troça de mim?”

“Jamais”, ele respondeu, sorrindo abertamente e ela sorriu também.

“O senhor também não está nada mal.”

Darcy pareceu ponderar por alguns segundos até que segurou sua mão na dele. Muito deliberadamente ele virou sua palma para baixo e depositou um beijo lento nas costas da sua mão, enquanto olhava nos seus olhos procurando alguma reação.

“O que é isso?”, ela arfou.

“Um beijo”, ele respondeu como se ela tivesse algum problema em processar informações. “Estou testando uma nova teoria que criei.”

“E qual seria essa?”

“É segredo. Mas eu acho que você acabou de confirmar que estou certo.”

Elisa sentiu como se os dois estivessem envoltos numa bolha que involuntariamente os puxava para perto. Ela percebeu seu corpo aproximando do dele e não fez nada para evitar. De repente, não havia mais barulho. As conversas altas, a música e os convidados desapareceram. Só havia os dois. Só havia aquele momento. Só havia a pergunta que parecia gritar pelos olhos dos dois: será?

Mas tudo se desfez rapidamente quando Mariana apareceu correndo na frente dos dois.

“Elisabeta, temos que ir. Lídia torceu o pé.”

“O que?”, ela perguntou atordoada.

“Papai está nos chamando. Vamos.”

Ela se despediu com um sorriso confuso que Darcy respondeu com uma piscada cúmplice fazendo voltar a vontade de arrancar aquele olhar convencido à força.

Os Benedito foram para casa ao som das lamúrias da mãe que não conseguiu garantir um pedido de casamento nesse baile e ao choramingo de Lídia, que havia tropeçado em um de seus passos de dança inovadores, mas de certa forma a paz mundial foi estabelecida quando Rômulo apareceu para tratar da irmã e se apresentou como namorado de Cecília. Por um milagre, Ofélia não desmaiou mas fez questão que no dia seguinte ele aparecesse para almoçar com a família.

Depois de medicada, Lídia disse que estava sonolenta e queria dormir. As irmãs se despediram e foram todas para o quarto de Elisa e Jane.

“Pois bem”, Mariana disse. “O que você queria tanto nos contar? Estou curiosa.”

“Acho melhor vocês se sentarem”, Elisa respondeu tentando controlar a risada. As irmãs se aproximaram com os olhos curiosos e se assentaram ao lado dela. “Darcy e eu nos conhecemos há exatamente o mesmo tempo que vocês conhecem ele. Nós estamos fingindo que estamos namorando.”

Mariana gritou e foi rapidamente reprimida por Elisabeta. Cecília e Jane pareciam chocadas demais para esboçar alguma reação.

“Eu sabia, eu sabia”, Mariana entoou.

“Que sabia, Mariana! Você nem mesmo desconfiava.”

“Tá, talvez eu não soubesse exatamente o que vocês estavam fazendo. Mas toda essa história de namoro escondido nunca me desceu. Não é do seu feitio.”

“Mas Elisa,” Cecilia começou, “você nos mostrou as cartas! Suas declarações de amor!”

“São falsas”, ela explicou. “Quer dizer, nós as escrevemos mas foi depois que nos conhecemos. Tudo aquilo é inventado.”

“Elisa, isso é errado. Vocês não podem fazer coisas de namorado se não estão namorando”, Jane argumentou.

“Essa é a questão! Nós não fazemos. Temos regras bem específicas do que podemos ou não fazer.”

Mariana soltou uma risada debochada. “Ah, mas quando eu encontrei vocês dois no baile vocês estavam quase se beijando.”

Elisabeta cobriu o rosto com as mãos arrancando risadas das irmãs. “É exatamente por isso que eu queria conversar com vocês”, ela disse. “Ultimamente as regras têm ficado um pouco... confusas. Darcy me irrita ao extremo. Todo momento que eu estou com ele eu sinto como se eu tivesse no meu limite, pronta pra explodir.”

“Parece para mim que ele te diverte mais do que te irrita”, Cecília interrompeu.

“Talvez. Mas ele me incomoda também. Sempre que estou perto dele eu me sinto desconfortável, como se faltasse ar suficiente na Terra para me estabelecer”, ela explicou e as irmãs riram alto. Mariana parecia que iria desmaiar de tanto rir.

“Minha irmã, isso tem nome”, ela disse. “Se chama ca-lo-res.”

“Mariana, me respeite! Isso são coisas que namorados de verdade sentem, pessoas que estão apaixonadas”, Elisa disse e a irmã a encarou como se fosse óbvio o que estava acontecendo ali. “Eu não estou apaixonada!”

“Olha, talvez não seja amor ainda. Mas isso não impede que você sinta calores mesmo assim. É perfeitamente normal” Elisabeta olhou para as irmãs esperando algum tipo de confirmação e elas concordaram com a cabeça. “Eu e Brandão, por exemplo. Demorou para que eu me apaixonasse, mas quando eu soube que ele andava de motocicleta...” Mariana finalizou fingindo que estava desmaiando e Elisa deu um tapa no seu braço para que ela se recompusesse.

“Infelizmente vou ter que concordar”, Jane disse e logo ficou vermelha. “Eu sou mais discreta com os meus sentimentos mas não significa que eu não sinta o mesmo por Camilo.”

“Posso dizer o mesmo. Acho que parte de achar que Rômulo vivia numa mansão mal assombrada fazia tudo ficar mais... instigante.” Cecilia disse e Mariana quase caiu da cama de tanto rir, alegando que aquele era o melhor momento da vida dela.

“Só tem um problema” Elisa disse e as irmãs ficaram sérias. “Eu não conheço Darcy. Eu sei que ele é amigo de Camilo e eu jamais duvidaria da índole do seu namorado, Jane, para a escolha de um amigo. Mas não deixa de ser verdade. E recentemente, aconteceu uma questão com o Uirapuru e é por isso que eu queria que Lídia não soubesse. Não até que eu possa entender o que está acontecendo.”

Ela explicou rapidamente o que tinha acontecido na Casa de Chá naquele dia. As irmãs ouviram atentas à história e concordaram que era realmente estranho, apesar de que era senso comum que Uirapuru não era flor que se cheire.

“De qualquer forma, eu acho que você deve escutar seu coração assim como eu acho que Darcy está escutando o dele”, Jane recomendou. “Ele vai te contar tudo quando estiver pronto, eu tenho certeza.”

Elas foram interrompidas pelas batidas na porta vindas do seu pai avisando que já estava tarde e que elas deveriam ir para seus respectivos quartos. Mariana e Cecília se despediram e Jane se aprontou para dormir. Mais tarde, quando Elisa colocou a cabeça no travesseiro e sentiu seu corpo relaxar, ela procurou outra palavra que pudesse descrever o que estava sentindo por Darcy. Procurou em sua mente todos os sentimentos que conhecia. Procurou em português, procurou em francês e até se arriscou em procurar nas poucas palavras em inglês que conhecia. Mas quando ela pensou em inglês e logo sua mente materializou o rosto dele e seu coração se apertou de saudade, ela soube que estava perdida.

Notas finais
Na vida eu sou a Mariana, sempre. E a Elisa se contentou com qual palavra? Amor ou calor? Espero que tenham gostado!