Notas iniciais
Essa ideia surgiu de madrugada enquanto eu pensava na falta que essa novelinha tá fazendo e então, numa coragem súbita, resolvi postar. Espero que gostem!

23 de Setembro, 1910

O anúncio de dona Ofélia veio num ultimato na manhã daquele dia: Elisabeta Benedito deveria estar casada até o final do ano que chegaria em três meses. Isso não deixava muito tempo para ser seletiva. Elisa protestou enquanto sentia as lágrimas queimarem no fundo dos olhos e ela se esforçava para mantê-las ali. Se recusava chorar na frente dos pais porque no fundo sabia que a mãe estava certa. Não era a primeira vez que Ofélia citava os problemas financeiros da família e mesmo que o pai, Felisberto, a repreendesse toda vez que o assunto surgia, Elisa tinha consciência que era verdade. Ter cinco filhas talvez fosse a maior felicidade dos pais mas ao mesmo tempo era sua própria condenação. Havia um tempo limite que as filhas poderiam ficar em casa e Elisabeta sabia que estava estendendo sua estadia. Mas mesmo assim se sentia frustrada por estar sendo usada como uma peça de um jogo, uma troca pela liberdade financeira dos pais que haviam bancado suas necessidades até os 25 anos de idade. Agora seria a vez de seu marido fazer esse papel e ela tinha apenas três meses para encontrá-lo.

“Mamãe, a senhora sabe que eu não tenho pretensão de me casar tão cedo! Há tanto que eu quero fazer antes”, Elisa argumentou mesmo sabendo que seria em vão.

“Elisabeta, esses seus anseios”, Ofélia começou gesticulando exageradamente com as mãos, “talvez sejam apropriados para as moças da Europa. Mas não pra uma moça do campo! Você acha que seu pai vai encher seu bucho até quando?”

“Ofélia!” Felisberto protestou enquanto coçava a cabeça em frustração.

“Mas é verdade ué! Você estragou essa menina e agora tem que lidar com essa revolta toda. Fica retorcendo meus nervos por não querer seguir a ordem natural das coisas!”

Elisabeta levantou subitamente e anunciou que iria passear pelo Vale com Tornado. Quando a mãe disse que a conversa ainda não havia terminado Elisa rebateu que não iria encontrar nenhum pretendente se ficasse presa dentro de casa e isso fez com que a matriarca batesse palma e a colocasse porta a fora.

Eventualmente ela se acalmou mas de certa forma se sentiu apenas mais angustiada. O vento forte que batia no seu rosto enquanto cavalgava só fez lembrar que a liberdade que ela tanto ansiava estava cada vez mais longe do seu alcance. Elisabeta não achava que seus anseios modernos, como a mãe os apelidou, fossem tão modernos assim. Queria apenas sair do Vale, conhecer coisas novas e ser independente. Entendia que isso era polêmico para a mãe que estava tão acostumada com o mundinho pacato do Vale mas isso não era o bastante pra ela. Talvez Felisberto tivesse realmente a estragado quando decidiu apresentá-la aos livros e jornais de São Paulo e consequentemente a um mundo diferente do seu.

Elisa cavalgou até chegar nos limites do Vale do Café e se surpreendeu com o que encontrou. Aquela área geralmente era a mais vazia de todo o vale exatamente por estar no extremo que ligava o Vale e a estrada para São Paulo. Os únicos que frequentavam o local com frequência eram as irmãs e seus vizinhos, Fani, Luccino e Ernesto, que estiveram do lado das Benedito desde sempre. Lembrou dos dias de verão que passavam nadando na cachoeira que ficava escondida dentro de uma mina escura que agora estava cheia de homens trabalhando.

A moça desceu do cavalo e amarrou Tornado na única árvore disponível por perto. Era certo que fazia meses que a menina não visitava aquele lugar mas não era tempo suficiente para que houvesse tamanha mudança. Havia pouquíssimas árvores e as que sobrevieram estavam podadas e já não faziam mais a sombra que ela tanto amava. A parte aberta que era cheia de flores agora era ocupada por uma espécie de escritório improvisado e homens enchiam a mina com um tipo de explosivo que ela não reconhecia.

“Está perdida?” Um homem perguntou tirando-a do seu estupor.

“Sim... quer dizer, não! Eu conheço esse lugar, só...” Elisa sacudiu a cabeça quase como se quisesse organizar seus pensamentos. “O que está acontecendo aqui?”

“Estamos construindo a ferrovia, senhorita”

“Ferrovia?”

“Sim. A senhorita não sabia? Só se fala disso no Vale!”

“Sabia sim, mas os rumores diziam que a construção começaria apenas em dezembro.”

“Ah,” o homem respondeu e sorriu, finalmente compreendendo sua confusão. “É verdade. Mas o senhor Williamson achou prudente começar agora que o verão não está em pico.”

Ela concordou com a cabeça e o homem se afastou indo para a direção do escritório. Enquanto observava a movimentação, Elisabeta percebeu que aos poucos os olhares se voltavam para ela e percebeu que era a única mulher no local e os homens estavam trabalhando. Impróprio. Contendo uma careta, ela começou a soltar Tornado da árvore e estava pronta pra montá-lo quando um homem alto se aproximou dela.

“Posso ajudar?”

Ela negou com a cabeça. “Já estou partindo. Peço perdão pelo incomodo.”

“Não há necessidade de pedir desculpas. Me disseram que havia uma senhorita perdida. Vim ajudar.”

Elisabeta levantou o rosto e teve que cobrir os olhos com a mão para conseguir enxergá-lo. O sol batia em suas costas e fazia sombra em sua face fazendo parecer que o homem era mais velho do que realmente era. Tinha os cabelos negros penteados milimetricamente para trás e os olhos verdes profundos. Suas roupas eram trajes formais que diferenciavam ele dos homens que estavam trabalhando na construção. Era o chefe, com certeza.

“Muita presunção do senhor de achar que estou perdida apenas porque fiquei um pouco confusa anteriormente,” ela respondeu sentindo o mau humor da manhã voltando. “Sei muito bem onde estou. Melhor ainda, sei como voltar. Passar bem!”

Ela começou a puxar Tornado para longe da construção mas o homem a seguiu e parecia transtornado.

“Não foi isso que eu disse! Não estou pressupondo nada. Me disseram que a senhorita estava perdida.”

“Pois avise seu informante que ele estava equivocado.”

“Posso ao menos saber seu nome?”

“Não”, Elisabeta respondeu de imediato e logo se sentiu constrangida por tamanha rudeza. No entanto o homem apenas riu se divertindo com a situação.

“E me apresentar? A senhorita me daria a honra?”, o sarcasmo não passou despercebido por Elisa e ela fez um esforço para lembrar que não havia motivos para se sentir ofendida quando ela estava sendo tão, se não mais, rude do que ele.

Elisa parou abruptamente e sorriu de volta. “Bom, o senhor claramente quer se apresentar e não há motivo no mundo que te impeça.”

Ele pareceu intrigado com a sua resposta tão desleixada mas mesmo assim ofereceu sua mão.

“Darcy Williamson”

Elisa franziu o cenho. Não podia ser quem ela estava pensando.

“Darcy?”

Ele concordou com a cabeça um pouco constrangido que sua mão estava parada esperando a resposta dela.

“Darcy Williamson? Melhor amigo de Camilo Bittencourt?”

Foi a vez de Darcy ficar confuso. Sua presença já era tão notável no Vale que apenas a menção do seu nome era o suficiente para que as pessoas o reconhecessem? Ele assentiu e enfiou a mão no bolso se sentido acuado pela moça.

“O próprio. Estudamos na mesma faculdade em Paris.”

“Sim, eu sei.”

“Sabe?”

Ela prendeu novamente o cavalo na árvore com a esperança de que uma conversa mais amigável fosse acalmar seus ânimos e melhorar a primeira impressão que ele pudesse ter dela.

“Minha irmã e Camilo são namorados”, ela explicou com um sorriso. A última coisa que queria para irmã era que ela fosse a causa de um constrangimento nos próximos encontros que os dois fossem ter. Tudo indicava que Camilo e Jane iriam oficializar o noivado em breve. Sua mãe estava em êxtase e era tudo que se falava em casa — além, é claro, do fracasso que Elisa era no departamento do matrimônio. E agora que pensava no assunto se sentiu idiota por não ter associado o sobrenome dele antes. Camilo já havia comentado que o amigo estava chegando no Brasil para a construção da ferrovia mas não havia dito sobre ter sido adiantado e, como sempre se referia ao amigo pelo primeiro nome, Elisa já tinha se esquecido do sobrenome Williamson.

“Jane?” Ele sorriu e Elisa concordou. “Então isso faz da senhorita uma das famosas Benedito”

“Bom, eu não sei sobre ser famosa mas carrego o nome dos Benedito comigo sim.”

Ele se aproximou entrando embaixo das folhas da árvore que faziam quase nenhuma sombra e ela pode ver melhor seu rosto. Apesar de estar perfeitamente alinhado ele parecia cansado como se não tivesse dormido bem havia dias. Ela se compadeceu com a situação do homem porque sabia que sua aparência também não deveria estar tão animadora depois do último surto de dona Ofélia.

“Camilo sempre falou muito bem de vocês nas cartas que enviava para Londres. Se não for muita audácia, ouso em dizer que você é a mais velha.”

“Porque está tão obvio na minha face?”, retrucou, sentindo sua sobrancelha levantar involuntariamente. Darcy parecia extremamente desconfortável e se não fosse por isso Elisa teria rido do quanto seu rosto ficou vermelho. Parecia que ele teria algum problema cardíaco a qualquer momento.

“Não! Não, não”, ele sacudiu a cabeça desesperado e ela mordeu a língua para não fazer troça. “Seu rosto é tão impecável quanto qualquer mulher mais nova. Não que você seja velha também! Não é isso que estou dizendo”, ele continuou gaguejando até que respirou fundo e continuou. “É que Camilo já havia dito que a mais velha das Benedito era a mais... questionadora, se assim posso dizer.”

Ela pensou em mentir e brincar com o temperamento dele ao dizer que era na verdade a mais nova das Benedito, mas se lembrou do que Camilo já havia dito sobre o amigo. Uma pessoa de coração bom mas com extrema dificuldade de se relacionar com pessoas novas e se sentir confortável em ambientes sociais. Por isso, resolveu ser cordial e estender a mão para ele.

“Elisabeta Benedito, a mais velha e questionadora das Benedito.”

Darcy suspirou aliviado e tomou a mão da moça na sua.

“Prazer te conhecer, senhorita Benedito.”

“Eu acho que se o senhor vai destruir meu segundo lugar preferido do Vale isso te dá o direito de me chamar pelo primeiro nome.”

“Por favor, me chame de Darcy. E devo assumir que o fato da senhorita ter sido ranzinza mais cedo é graças a construção da ferrovia?”

“Ranzinza?”, ela exclamou. “Meu Deus. Bom, se o senhor vai ser rude comigo não há motivo para que eu me sinta inibida em te dizer a verdade. Sim, esse lugar tem bastante valor sentimental para mim.”

“Talvez uma tour pela propriedade te faça mudar de ideia.”

“Uma o que?”

“Um passeio.”

Elisabeta franziu o cenho. Não tinha o menor interesse em voltar para casa depois da discussão que ocorrera especialmente porque todas suas irmãs estavam fazendo compras com Ema e não haveria alguém para fazer companhia. E ela realmente estava curiosa para saber como funcionaria a estação ferroviária. Fez carinho em Tornado e seguiu caminhando ao lado de Darcy.

“Você sabe que está no Brasil, certo? Não há necessidade de falar línguas estrangeiras”, ela comentou, enquanto chutava as pedrinhas em seu caminho. No fundo estava aborrecida que não havia reconhecido a palavra mesmo sendo uma estudante ávida de outras línguas. Gostaria de aprender o máximo que lhe era permitido – e as vezes até um pouco mais.

“Força do hábito. Me lembrarei disso nas próximas vezes.”

Darcy seguiu caminho pela construção explicando todos os planos que tinha para a região. A intenção de ligar a capital com o Vale do Café era inovadora em todos os sentidos: traria mais empregos para região, facilitaria o transporte do café além de facilitar o translado de pessoas até São Paulo. Elisa comentou que tudo seria ótimo se ele não tivesse escolhido um lugar tão bonito para trazer toda sua modernidade. Darcy apenas riu e lembrou que aquele era apenas seu segundo lugar favorito e questionou qual seria o primeiro. Ela apenas apontou para o morro que podia facilmente ser visto da parte mais baixa da construção e ele prometeu que jamais faria a ferrovia passar por ali. Elisa não discutiu que a promessa não estava sendo feita para agradá-la e sim porque não havia motivo lógico para fazer um trem subir um morro que ficava do lado oposto de São Paulo.

“E então chegamos na mina”, ele disse parando em frente a caverna de pedras. “Vamos bombardear para abrir espaço para a estação de chegada.”

“Bombardear? Você tem certeza?”

Darcy pareceu ofendido que ela estava questionando a eficiência do seu projeto e ela se prontificou para explicar. “Dentro dessa mina tem uma cachoeira escondida. Na verdade são várias cachoeiras interligadas que acabam em uma só. Poucas pessoas sabem mas como o senhor fala como o Senhor da Razão, muito me surpreende a sua necessidade de bombardear um local que na verdade é um lago”, ela explicou dando de ombros.

Elisa viu por sua reação que ele não sabia e teve que conter um sorriso. Era extremamente prazeroso ver o estrangeiro agir como se soubesse mais sobre o Vale do que ela.

“Talvez, se não for muito incômodo, é claro, a senhorita poderia me mostrar onde ficam as entradas para as cachoeiras.”

“É claro. Será um prazer”, ela respondeu sarcasticamente.

E realmente mostrou. Ela anotou todas as entradas no mapa que estava no escritório e foi até travessa em aumentar uma ou duas cachoeiras que não existiam apenas para dissuadi-lo da ideia de acabar com a mina. E funcionou. No final das anotações Darcy concluiu que seria realmente perda de tempo explodir aquele local mas que iria verificar a veracidade das suas informações de qualquer forma. Elisabeta sorriu vitoriosa e ignorou a pontinha de raiva constatada pelo fato que apenas sua palavra não era suficiente para ele.

Ela estava sentada em uma das cadeiras do escritório, que era bastante organizado considerando as condições que fora montado, observando Darcy servir dois copos de água para eles. O plano não surgiu em sua mente até que ele colocou o copo na sua frente e perguntou como ele poderia retribuir a ajuda que ela havia oferecido.

“Darcy Williamson, o senhor cavalga?”

“Sim”, ele respondeu confuso.

“Por favor, pegue seu cavalo. Já sei como você pode me ajudar”, ela disse enquanto levantava e já saia às pressas do escritório. Não demorou muito para que ele estivesse logo atrás dela com o paletó na mão e uma expressão desesperada.

“Eu disse que sei cavalgar, não que tenho um cavalo aqui comigo.”

“Bom, então o senhor terá de ir comigo”, ela constatou enquanto soltava Tornado e subia nele num pulo.

“Eu posso ir de automóvel”, ele sugeriu. Foi só então que Elisa percebeu o quanto o homem na sua frente era alto. Mesmo em cima do cavalo ele conseguia olhá-la nos olhos sem muita dificuldade.

“Infelizmente eu não confio muito nesse tipo de modernidade. Além disso, Tornado é um cavalo extremamente ágil. Não tem tempo para andar devagar”, ela respondeu e em seguida tombou a cabeça com um sorriso torto. “A não ser que o senhor tenha medo de ser guiado por uma mulher.”

Com o desafio imposto, Darcy subiu em Tornado sem esforço. Não passou despercebido por Elisabeta o quanto ele fora gracioso para subir mesmo com tamanha altura. Lembrava vagamente das palavras de Camilo que ele tinha alguma relação com a nobreza inglesa. Fazia sentido que ele fosse tão contido e formal o tempo todo.

Os dois cavalgaram juntos em silêncio mas a expectativa era tangível. Ele por não saber para onde estava indo e o que iria fazer, e ela por saber exatamente para onde estava indo e a loucura que iria cometer. Ao chegarem na entrada da sua casa, Darcy pulou no chão e ergueu ela facilmente para que ela descesse.

“Onde estamos?”, ele perguntou enquanto ela prendia Tornado e colocava um pouco de água e ração para o animal.

“Você já vai saber.”

Os dois entraram juntos pela porta da frente e foram recebidos com seis pares de olhos curiosos.

“Papai, mamãe... minhas irmãs. Tem alguém que eu gostaria que vocês conhecessem.”

Todos da família trocaram um olhar confuso mas nenhum era mais perturbado do que o de Darcy. Ele franziu o cenho e Elisa apenas sacudiu a cabeça. Respirou fundo, sorriu e enlaçou sua mão na dele.

“Este é Darcy Williamson. Meu namorado.”

Notas finais
E aí? O que acharam? (tô morrendo de curiosidade, não me julguem)