Notas iniciais
será que algum dia eu vou para de pedir desculpa por não atualizar essa fanfic com frequência? espero que sim. de qualquer forma, me desculpem. espero que vocês gostem desse capítulo ♥

31 de Outubro, 1910

Cecília, Mariana e Jane comemoraram em segredo quando Elisabeta anunciou que estava, oficialmente, namorando Darcy Williamson. Ela não podia acreditar nas suas palavras quando as ouviu saindo de sua boca. Nunca, nem nos sonhos mais loucos, ela imaginou que estaria namorando em um futuro próximo, muito menos com um lorde inglês que, vale lembrar, a conheceu de uma maneira não muito convencional. A história parecia fruto da imaginação. Mas era real. No presente, como ele tinha escrito quando fez o pedido. E Elisabeta não conseguia pensar em algum momento que ela esteve mais feliz.

Seus pais não estavam sendo tão amistosos, no entanto. Dona Ofélia até tentava amenizar a pena, mas Felisberto ainda estava sendo bem rígido com os horários que a primogênita podia ver Darcy e não era de nenhuma ajuda que agora que as coisas estavam oficialmente oficiais Elisabeta quisesse ficar junto do namorado o tempo todo. Toda a situação estava sendo uma tortura.

Mas de alguma forma ela e as irmãs acabaram encontrando uma brecha na fachada rigorosa do pai. Na semana seguinte, quando ela já estava melhor e não havia nenhum traço de doença no seu corpo, Felisberto permitiu que Elisa saísse com o namorado quando quisesse apenas se uma das irmãs os acompanhassem sempre. No início Elisabeta protestou, mas isso acabou proporcionando o encontro duplo que Cecília tanto ansiava e foi uma experiência interessante. Darcy, Rômulo, Elisabeta e Cecília estavam sentados no topo do morro que contornava a futura ferrovia, observando o sol se pôr em um piquenique improvisado, quando o assunto surgiu.

“Darcy, o que você mais sente falta da Europa?” Rômulo perguntou.

Ele sorriu para Elisabeta e respondeu. “Por favor, não fique brava. Mas sinto falta da praticidade dos automóveis. Andar o tempo todo a cavalo me irrita.”

“Mas você tem seu automóvel. Não anda nele porque não quer.” Elisa retrucou.

“As estradas aqui são ruins.”

“O seu problema, senhor Darcy Williamson,” Elisabeta começou, pegando um morango e jogando na direção dele. Ele pegou a fruta com facilidade e comeu, com o sorriso irritante de volta no rosto, “é que o senhor é muito metido. E presunçoso. Todo cheio de si”, ela continuou, numerando os defeitos com os dedos. “Além de ter um ridículo complexo de superioridade.”

“Eu sou tudo isso?” ele perguntou com uma falsa surpresa.

Ela concordou com um sorriso.

“Mas a senhorita tem de concordar que andar de automóvel é bem melhor.”

“Eu não tenho que fazer nada” ela respondeu, cruzando os braços.

“Eles são sempre assim?” ela escutou Rômulo cochichar para a irmã que sorriu e concordou. Cecília observava toda a interação com um sorriso aberto, como se não houvesse nada mais engraçado do que ver a irmã mais velha nessa situação.

“Elisa, você não me contou que havia andado de automóvel” Cecília disse.

“Não só andou!” Darcy afirmou com orgulho. “Ela dirigiu também.”

“Mesmo?” Cecília perguntou e Darcy confirmou com um aceno. “Acho que nunca conheci uma mulher que tenha dirigido um automóvel. Me diga, minha irmã! Como é?”

Elisa bufou e mentiu. “Péssimo.”

Todos riram da mentira escancarada de Elisabeta e ela acabou rindo também. Darcy se aproximou e beijou sua bochecha, um gesto casual, mas que fez ela sentir a pequena bolha que aparecia sempre que eles estavam perto de outras pessoas. Não era como nos romances literários em que a mocinha sentia como se eles fossem as únicas pessoas do mundo, mas como se, mesmo com todas as pessoas ali, observando, eles ainda fossem perfeitos.

Rômulo acabou interrompendo o momento.

“Eu tenho que concordar com Darcy. Sinto falta dos carros. Mas sabe do que eu mais sinto falta?” ele fez uma pausa dramática. “Dos feriados. E agora que Outubro chega ao fim eu sinto falta do Halloween.”

Darcy riu, concordando, e as meninas Benedito se entreolharam sem saber do que eles estavam falando.

“O que seria isso, meu amor?” Cecília indagou.

“É uma tradição celta que acabou ficando muito famosa na Irlanda e no Reino Unido.” Rômulo começou enquanto Darcy balançava a cabeça afirmativamente. “É uma tradição bastante controversa também e acabou levando muitas pessoas para as fogueiras na Idade das Trevas.”

Darcy continuou. “Os celtas celebravam por três dias e, além de comemorar o fim do verão e as boas colheitas, eles comemoravam a passagem de ano no calendário deles no dia primeiro de Novembro.”

“E pessoas foram para a fogueira por isso?” Elisa perguntou com a sobrancelha arqueada ceticamente.

Darcy sorriu maliciosamente e por um segundo ele pareceu um adolescente que estava aprontando algo. “Não. Eles foram para a fogueira porque acreditavam que no dia 31 de Outubro os mortos se levantavam e andavam tranquilamente ao redor dos humanos. Isso, é claro, não era bem visto aos olhos da Igreja.”

“Credo!” Cecília exclamou parecendo aterrorizada. “Por que você sente falta disso, Rômulo? Que horror.”

“Eu juro que é divertido” ele argumentou com as mãos erguidas defensivamente. “As pessoas se fantasiam e vão para as ruas. Além de umas superstições bem engraçadas que todos acabam fazendo.”

“Bom, por que não fazemos um Halloween então?” Elisa questionou e logo foi advertida pela a irmã. “Cecília, pode ser divertido! É como se fosse um Carnaval.”

“As fantasias são um pouco mais... horrendas, Elisa.” Darcy explicou. “E eu nem sei se estaríamos indo contra a lei por fazer algo assim em um país tão católico como o Brasil.”

“Podemos fazer só entre nós. Não precisamos dar um baile como Ema.” Elisa argumentou. “E você pode se fantasiar de algum personagem literário, Cecília. Você vive lendo esses livros de mistérios... acho que esse pode ser seu momento de brilhar!”

Ela viu o rosto da irmã amolecer e depois de um pouco mais de argumentação, Cecília acabou cedendo. Darcy e Rômulo ficaram responsáveis de organizar tudo– afinal eles eram quem conheciam melhor a tradição. Decidiram fazer o evento na Mansão do Parque, que já tinha toda uma aura assombrada envolvendo o lugar, e as meninas foram intimadas a chamar as outras irmãs. Lídia, felizmente, decidiu que seria melhor ficar em casa pois ela “não queria ficar junto das irmãs e seus namorados quando ela não tinha ninguém.” Quando a caçula sugeriu chamar Uirapuru para fazer companhia, Elisa rapidamente insistiu que ela ficasse mesmo em casa e dissuadiu a ideia. Jane acabou decidindo por ficar em casa também, com a desculpa de vigiar Lídia para que ela não aparecesse na Mansão de surpresa, mas no fundo as irmãs sabiam que ela estava evitando ver Camilo.

Mariana amou a ideia de imediato, como esperado, e avisou que elas poderiam se trocar na oficina de Luccino para que seus pais não suspeitassem de nada. E foi isso que fizeram. Saíram todas com bolsas escondendo suas fantasias e com a desculpa que Rômulo havia organizado um jantar para aproximar as irmãs Benedito e seus cunhados na Mansão. Felisberto não agradou muito da ideia, mas Ofélia acabou convencendo o marido a deixar as meninas pegarem a carroça da família.

Mariana decidiu se vestir do monstro de Frankenstein. Usou um vestido preto simples e colocou alguns pregos que estavam na oficina no seu coque. Cecília optou por se fantasiar de Sherlock Holmes e, apesar de não ser tão horrenda graças ao vestido lindo que ela estava usando, fazia todo o sentido pois a menina tinha uma mania de detetive, além de viver lendo Conan Doyle. Elisabeta não trocou de roupa na oficina com a desculpa de que ela já estava usando a fantasia por baixo da capa que cobria seu corpo.

Quando chegaram na Mansão do Parque, Darcy, Rômulo e Brandão já as esperavam. Darcy a cumprimentou com um beijo e uma testa franzida, deixando evidente que ele não havia entendido a fantasia. Ela apenas sorriu e entrou na sala, tirando da bolsa um chapéu que parecia ter saído do século passado.

“Acho que devemos falar o que cada um está vestido.” Darcy sugeriu.

“Você é o Drácula” Elisa afirmou rapidamente. “Tão clichê.”

“Peço perdão se não sou tão criativo quanto a senhorita que está fantasiada de...”

Elisa deu um sorriso travesso, colocou o chapéu na cabeça e tirou a capa, deixando ela cair no chão. Darcy riu alto quando viu o que ela estava vestindo.

“Elisabeta! O que é isso?” Cecília perguntou, os olhos arregalados em choque.

Elisa explicou como se fosse óbvio. “Um terno!”

“Minha irmã, você não cansa de me surpreender.” Mariana riu enquanto Rômulo e Brandão desviavam o olhar.

“Darcy disse que as fantasias deveriam ser horrendas. E tem algo mais horrendo do que um mulher vestindo calças?” Ela indagou retoricamente. “Pois bem. Conheçam a versão feminina de Mr. Hyde.” ela terminou fazendo um aceno exagerada.

“Será que devo ficar preocupado que a senhorita resolveu escolher Hyde e não o Doutor Jekyll?” Darcy questionou sorrindo. Ele parecia achar toda a situação bastante divertida.

“Com certeza.” Elisa afirmou maliciosamente antes de puxá-lo para um beijo.

Mais tarde, quando todos já haviam tomado uma taça de vinho e se acostumado com o figurino de Elisabeta, eles foram para o jardim na parte de trás da Mansão. Brandão estava vestindo uma armadura prata que parecia ter saído direto da parte histórica do Batalhão do Vale. Era uma versão amadora do famoso Cavaleiro sem Cabeça de Washington Irving. Mariana sorriu e disse que ele estava perfeito. Rômulo anunciou que estava vestido de Poirot e isso desencadeou uma discussão intensa entre ele e Cecília sobre quem seria o melhor detetive. Mariana e Elisa observaram o debate com sorrisos no rosto porque estava óbvio o tanto que o médico era apaixonado pela a irmã quando ele simplesmente desistiu de discutir e concordou que Sherlock era bem melhor.

Do lado de fora da Mansão estava um grande barril cheio de água e maçãs boiando com nomes encravados nas cascas. Rômulo parecia uma criança no Natal de tão empolgado quando começou a explicar.

“Existe uma lenda que diz que se você conseguir pegar com a boca a maçã que tem o nome do seu amado vocês ficarão juntos para todo o sempre.”

Elisabeta riu e Darcy cutucou ela para que ela fizesse silêncio. Aparentemente, ele levava tudo isso muito a sério. Ah, os ingleses...

“Acho que devo deixar claro que tudo que acontecer aqui, morre aqui. Nós não queremos incomodar os mortos.”

“Eu acho que erramos em chamar um Coronel para o evento.” Darcy cochichou para Elisa.

Mariana escutou e riu. “Não se preocupe. Coronel Brandão também é cheio de segredos”, ela confirmou o que parecia ser uma piada interna entre os dois.

Mariana se ofereceu para ir primeiro e depois de duas tentativas conseguiu pegar a maçã com o nome de Brandão. Elisa observou as irmãs rindo e agradeceu silenciosamente aos céus por esse momento. Até mesmo a sua própria risada parecia nova para seus ouvidos e ela ficou impressionada com o tanto que as coisas poderiam mudar em um mês.

Quando chegou a vez de Darcy, ele sorriu e piscou para ela com um olhar confiante. Elisabeta jamais iria admitir isso, mas ele estava lindo de Drácula. Ele estava novamente de terno preto mas dessa vez usava um paletó que quase batia no joelho e parecia ter saído do século passado. Estava usando também uma capa vermelha por cima do terno que provavelmente havia sido trazida de São Paulo porque ela nunca tinha visto algo assim o Vale. O cabelo negro não estava penteado para trás como de costume e fazia sombra no rosto. Ele parecia mais misterioso e jovial que o normal.

“Elisabeta Benedito, o que eu ganho se conseguir pegar a maçã em uma tentativa?”

Ela fingiu pensar por um tempo até responder: “Uma maçã!”

Aquele sorriso lindo que parecia aparecer sempre que ela o desafiava surgiu no seu rosto enquanto ele se abaixou e, sem tentar mais que uma vez, abocanhou a maçã que tinha o nome dela. Ele tirou a maçã da boca, conferiu o nome e fez uma reverência para os aplausos puxados por Mariana enquanto Elisa revirava os olhos.

“Você estava muito confiante de que conseguiria pegar na primeira tentativa.” Elisa disse quando ele voltou para seu lado. Cecília foi a próxima a tentar e as irmãs riram de como Rômulo estava gritando instruções para que ela pegasse a maçã certa já que a menina estava sem óculos e não enxergava muito bem tudo que estivesse muito perto. Darcy sorria abertamente e Elisabeta se sentiu a melhor namorada do mundo. “Devo me preocupar que o senhor já tentou tantas vezes que se tornou um profissional nessa brincadeira das maçãs?”

Ele riu e a puxou para perto pela cintura. “Não acho que esse deve ser o foco da sua pergunta. Acho que a senhorita deve focar no fato que eu nunca consegui pegar nenhuma maçã em todas as vezes que eu tentei.”

“Em todas as vezes?”, ela disse com uma falsa surpresa. “Meu Deus, mas eu estou namorando quem? Zeus? Dom Pedro I? Não sabia que meu namorado tinha tantas pretendentes na Europa.”

“Ah, Elisabeta... eu jamais vou entender a maneira que sua mente funciona”, ele respondeu com um sorriso.

“Eu discordo”, ela comentou enquanto passava os braços ao redor do pescoço dele, trazendo-o para perto. “Acho que de todos que me conhecem, você talvez seja a pessoa que mais me entende.”

Quando a noite caiu, os homens resolveram acender uma fogueira que já estava preparada no lado de fora da casa. Elisa estava deitada nos braços de Darcy tentando fortemente manter os olhos abertos. Rômulo havia oferecido uma taça de vinho que acabou se tornando quatro taças quando Brandão afirmou que iria fazer vista grossa para a situação. Talvez ela tenha se excedido um pouco. Ela queria culpar sua sonolência nas mãos delicadas de Darcy fazendo carinho no seu cabelo ou na forma como ele havia embrulhado a capa que fazia parte da sua fantasia ao redor dela para mantê-la aquecida ou no som rítmico do seu coração que ela podia escutar claramente enquanto estava deitada em seu peito. Mas ela estava em outro plano.

Diferente da irmã que parecia estar num surto de adrenalina graças ao álcool.

“Já sei!” Mariana gritou levantando subitamente. “Vamos brincar de esconde-esconde.”

“Mariana, nós não temos mais cinco anos.” Elisa retrucou.

“Eu não importo. Já fizemos as tradições inglesas e eu digo que agora é hora de uma tradição brasileira.”

Darcy riu. “Eu não acho que esconde-esconde é uma tradição brasileira...”

“Agora não é hora para seus conhecimentos, senhor Darcy Williamson”, Mariana respondeu sacudindo as mãos como se dispensando o comentário. Darcy riu e ergueu as mãos em derrota. “Vamos levantem!”

Cecília se levantou rapidamente, concordando com a irmã. Claro! Ela não tinha bebido nem mesmo uma gota de vinho.

Elisa levantou e tentou não fazer uma careta quando sua cabeça girou, mas Darcy observava seu rosto com atenção, nada passando batido por seu olhar meticuloso. “Nós não precisamos brincar se você não quiser”, ele disse.

“Acredite em mim, você não pode falar ‘não’ para Mariana. Nem se você quisesse”, ela respondeu e ele riu.

Mariana ditou as ordens e Cecília sugeriu que eles jogassem em grupo primeiro e se separassem em meninas e meninos, já que Rômulo, obviamente, conhecia a casa muito bem e ela também. Elisa ergueu a sobrancelha involuntariamente ao escutar essa informação e a irmã corou ao perceber que tinha deixado escapulir que ela havia visitado a Mansão do Parque mais vezes do que as irmãs sabiam.

Depois de tirarem na moeda, ficou decidido que os meninos começariam. Eles se posicionaram na frente da fogueira e começaram a contar até cem enquanto as irmãs Benedito corriam na direção da Mansão.

Cecília deu algumas instruções básicas para as irmãs antes de pular os degraus da escada rapidamente. Mariana ficaria no sótão, Cecília no banheiro e Elisabeta no quarto de visitas. Elisa tentava fortemente andar em linha reta para a direção que a irmã havia apontado, mas ela se viu balançando involuntariamente, tentando manter o equilíbrio nos pés. Eu prometo nunca mais beber. Nem em ocasiões especiais, ela pensou.

Assim que entrou dentro da sala, ela percebeu que estava no lugar errado. Estava em uma sala grande que tinha instrumentos e estantes de livros em todas as paredes. Definitivamente não era o quarto que Cecília tinha informado, mas ela sentou no chão de mármore, atrás do grande piano de cauda e esperou mesmo assim. Ela escutou os pés apressados das irmãs no corredor até que tudo ficou em silêncio fazendo seus nervos ficarem à flor da pele, cada pequeno barulho uma linha direta para seu coração bater mais forte.

Não demorou muito para a porta abrir. Ela observou silenciosamente Darcy procurar no quarto por alguém e desistir segundos depois. Ele estava prestes a fechar a porta quando um soluço escapuliu pelos lábios de Elisabeta. Maldito vinho.

Seus olhos se encontraram e o sorriso lindo que fazia o coração da menina arder apareceu. Darcy entrou na sala e trancou a porta logo em seguida.

“Você não deveria correr de volta para a fogueira e gritar meu nome? Ou o senhor não conhece as regras do jogo?” Elisabeta perguntou enquanto se levantava.

“Conheço muito bem. Mas acho que prefiro ficar aqui. Com você.”

“Boa escolha.”

“Je sais”, ele afirmou enquanto se aproximava. Suas mãos fizeram o caminho até a cintura dela e a boca tocou seu pescoço. Elisa sentiu sua mente se transformar num turbilhão e dessa vez não era graças ao álcool.

“Eu não sei se estou bem o suficiente para falar francês”, ela comentou. Seus olhos fecharam involuntariamente e tudo que ela sentia era a doce pressão dos lábios de Darcy traçando um trajeto tortuoso até seus lábios. Ele beijou seu queixo, seus olhos, sua bochecha e quando ela sentiu que iria explodir a qualquer momento seus lábios se encontraram.

Foi um beijo delicado, como sempre. Mas Elisa se sentia corajosa graças à bebida e nenhum dos dois esperava que ela fosse reagir assim. Que ela fosse atacar Darcy tão veementemente.

Ela empurrou ele até o banco ao lado do piano e rapidamente subiu no seu colo, suas pernas ao redor da cintura dele. Talvez ela fosse arrepender disso na manhã seguinte. Mas não agora. Ela o beijou com fervor, sentindo todo seu corpo em baixo dela graças à fina barreira da calça. Talvez eu nunca mais use vestidos, ela pensou.

Darcy parecia atordoado, mas retribuiu seus beijos com a mesma intensidade. Ele segurou seu rosto com ferocidade e ela sentiu seu coque se desfazer e as mechas de cabelo caírem em volta deles. Apenas quando Elisa tentou tirar a capa da fantasia e seu paletó que ele segurou seus pulsos rapidamente.

“Elisabeta...”, ele disse e seu tom era censurador.

Ela tentou regular sua respiração, sua testa colada na dele, uma pequena camada de suor brilhando na pele dos dois. “Você não quer?” perguntou, as palavras soando mais corajosas e casuais agora do que se ela tivesse as pronunciado enquanto sóbria.

Darcy bufou sarcasticamente. “Acredite em mim, eu quero. Mas não agora.”

“É por que não estamos casados?” Bom, talvez seu filtro tivesse ido embora, mas pelo menos ela teve a decência de ficar ruborizada agora.

“Também”, ele afirmou. “Mas principalmente por que você bebeu mais que o normal”, ele continuou. Suas mãos seguraram seu rosto, os dedos mantendo o cabelo que caia em cascata pelos ombros para trás da orelha. “E eu quero que você lembre de tudo.”

Ela suspirou e escondeu o rosto na curva do pescoço dele, a vergonha finalmente chegando até seus sentidos. Eles ficaram em silêncio por um tempo até que as suas respirações acalmaram e sincronizaram.

“Se eu usar essa fantasia de Drácula mais vezes isso significa que as chances da senhorita me atacar aumentam?

Elisabeta o encarou, o escárnio evidente nos olhos. “O senhor é a pessoa mais irritante que eu conheço. Às vezes eu tenho vontade de te estrangular”, ela admitiu.

“Impossível. Você não conseguiria alcançar meu pescoço”, ele zombou.

Ela empurrou seu peito e ele riu baixinho, tentando manter silêncio já que em algum lugar da casa o jogo continuava sem eles. Elisabeta subiu as mãos até que seus pequenos dedos seguraram seu pescoço e apertaram suavemente. Darcy apenas balançou a cabeça.

“Você não teria coragem de fazer isso. Você me ama.”

Elisa sentiu sua respiração engatar na garganta e ela sentiu como se tivesse se afogando.

“Eu nunca disse isso.”

Darcy franziu o cenho, um fantasma de sorriso ameaçando aparecer nos seus lábios. “Você ama?”

“Não sei”, ela respondeu desconfiada. “Você ama?”

“Tu sais que je t’aime.” Você sabe que eu te amo.

“Tu n’as jamais dit.” Você nunca disse.

“Se eu disser, você diz também?” ele perguntou com dificuldade em manter o rosto sério.

“Eu não vou proclamar meu amor em uma troca!” ela protestou.

Agora ele sorria abertamente. “Ah, então você realmente me ama.”

Elisa empurrou ele novamente, dessa vez com mais força. Ele acabou desequilibrando, seus cotovelos pousando diretamente nas teclas do piano. Darcy arregalou os olhos com o barulho que entoou na casa silenciosa e falou palavras em inglês que pareciam profanas.

“Me ensina a xingar em inglês?” Elisa pediu enquanto ele a tirava do seu colo e firmava seus pés no chão. Darcy a encarou como se ela fosse completamente maluca, mas ela percebeu que ele tentava esconder o quanto sua pergunta havia lhe divertido.

Eles se aproximaram da porta e escutaram enquanto passos se aproximavam. Darcy destrancou a porta e bem ali estavam Rômulo, Cecília, Mariana e Brandão, todos eles os encarando acusadoramente.

“Darcy, você está jogando para o time errado”, Brandão reclamou.

Ele apenas deu de ombros, claramente sem se incomodar.

“O jogo já acabou?” Elisa perguntou, confusa.

Mariana balançou a cabeça como se fosse óbvio. “Há muito tempo. Nós estamos procurando vocês dois faz séculos!”

“Não é pra tanto”, Cecília repreendeu a irmã. Mas logo em seguida um sorriso malicioso apareceu no seu rosto. “Elisa, eu me lembro de você com um coque.”

“Caiu”, ela respondeu, nem mesmo tentando elaborar uma mentira mais crível.

As irmãs sorriram e reviraram os olhos antes de descerem a escada lado-a-lado. Cecília anunciou que já estava tarde demais e que elas deveriam seguir caminho. Elisa estava se acomodando na carroça quando Darcy parou ao seu lado, com um sorriso no rosto.

“Elisabeta Benedito, obrigada pela noite incrível como sempre.”

“Darcy Williamson, eu amei esta noite. Obrigada por sua companhia.”

“Espero que haja outras coisas sobre essa noite que você ame também”

Ela se virou para as irmãs e elas estavam ocupadas conversando com seus respectivos namorados, muito absortas para perceberem sobre o que os dois estavam falando.

“Eu te amo”, ela disse baixinho. “E eu sei que você sabe.”

Darcy abriu a boca para responder, mas Cecília interrompeu.

“Vamos, Elisa?”

Ela apenas sacudiu a cabeça, concordando, sem virar o rosto. Seus olhos permaneceram grudados nos dele por segundos que se estenderam e pareciam uma eternidade. Antes que a irmã pudesse soltar as rédeas, Darcy pegou a sua mão na dele e a beijou muito delicadamente. A carroça começou a se movimentar e logo a distância entre eles foi aumentando, mas os dois continuaram se olhando até que Cecília fez uma curva e ela não pode vê-lo mais.

Talvez ela estivesse em desvantagem. Talvez agora ele carregasse seu coração na manga. Talvez ele tivesse um poder sobre ela que ela não necessariamente compreendia. Mas ao ver que a mão dele tremia e seus dedos flexionavam involuntariamente assim que ele soltou da mão dela, ela soube. Ele não sentia menos que ela. Estavam no mesmo patamar.

Notas finais
Licença poética pela data dos livros da Agatha Christie não baterem com o ano da fic (obrigada as meninas lindas do clube das darlisinhas pela ajuda com os personagens no halloween ♥). Referência a cena icônica do hand flex no clássico Pride & Prejudice (2005)? Temos! Espero que vocês tenham gostado, de verdade. (e perdão pela demora de novo) (ah, e agora temos datas em todos os capítulos)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.