Tinha acabado de sair do quarto de Emma, a levei para lá empurrando uma cadeira de rodas, ela me convidou durante o caminho para ir a sua exposição, fiquei feliz e grata com aquele singelo convite. Depois me contou o motivo de ter passado mal quando aquele rapaz chegara a seu quarto.

—Obrigada por se livrar do Killian para mim._ as portas se abriram e eu empurrei a cadeira.

—Estava fazendo o meu trabalho, percebi que você tinha se alterado apenas quando ele chegou... _passávamos por um corredor cheio de médicos e enfermeiros que corriam ou por quartos onde pessoas choravam. Eu queria saber o que realmente tinha acontecido entre os dois para ela ter tido aquela reação.

—Aquele idiota me traiu._ ela disse rapidamente e eu continuei com meu andando ritmado.

—Então ele é um idiota mesmo. Trocar uma moça linda como você por qualquer uma..._ em meu cérebro um alerta vermelho apitou. Eu havia falado “linda”? Regina Mills, o que você está fazendo? Apenas elogiando uma paciente que quase morreu.

—Pois é... _ ela disse melancólica.

—Chegamos!_ avisei.

—Até quando vou ter que ficar aqui?

—Bem, mais dois dias é muito? Prometo não ser grudenta._ prometi sorrindo.

—Que isso... E quando vou poder voltar a dar aulas? _ questionou-me ansiosa.

—Vamos tirar os pontos primeiro, fazer mais alguns exames e depois veremos quando volta para a escola._ travei as rodas da cadeira e fui para a sua frente._ Ajuda?_ estendi a mão e que foi segurada pela outra para ter mais firmeza.

—Acho que não são todos os médicos que dão essa atenção aos pacientes. Isso é tratamento especial, doutora? Só porque te dei um baita susto?_ ao levantar-se da cadeira ela sentiu algo e deixou escapar um grunhido de dor.

—Digamos que você foi sorteada para ganhar minha atenção de médica. _ passei o braço pela sua cintura quando bambeou por causa da dor. _ essas pontadas e repuxões são normais._ disse quase num sussurro enquanto a ajudava a sentar. Peguei suas pernas e as levantei depois as coloquei gentilmente na cama. _ Vou pedir alguns exames viu? Vai fazê-los amanhã._ segurei em sua canela e sorri, eu não podia deixar de sorri todas as vezes que olhava para Emma.

Ela estava com os cabelos ainda úmidos do banho e cheirosos, a cor dela já estava ficando normal e mais viva juntamente com o brilho em seus olhos verdes.

—Cheguei._ Mary anunciou quando entrou no quarto com as bolsas nas mãos.

—Só mais dois dias._ Emma disse para a amiga_ e estou livre._ olhou para mim e eu ainda devia estar com aquele sorriso idiota no rosto._ Não livre de você é claro._ ela olhou para mim e suas bochechas começaram a ficar vermelhas_ Você é uma ótima companhia, mas o hospital...

—Eu sei... É um lugar carregado._ balancei a cabeça, estava tentando tirar aquele sorriso idiota da cara _Bem, estou indo, meu turno já acabou tem..._olhei no relógio e me espantei quando percebi como o tempo tinha voado._ meia hora e não quero ser chamada para outra emergência hoje. Até amanhã Emma_ olhei para Emma, tinha algo nela que me puxava feito um imã, então me lembrei de que sua amiga estava ali e, principalmente, que eu tinha que ir._ E Mary.

Sai daquela sala balançando ainda mais a cabeça. Será que... Não. Apertei o dedo no botão do elevador e não demorou muito as portas se abriram. Cheguei ao meu consultório, Anastasia ainda estava lá, a cumprimentei e os dois homens que estavam sentados esperando uma consulta com Gold. Entrei em meu pequeno banheiro e troquei de roupa, dobrei o meu jaleco e o pendurei atrás da porta, guardei todas as minhas bugigangas na primeira gaveta, catei minha bolsa e sai.

A temperatura já tinha caído um pouco novamente, me abracei e apressei o passo para esquentar o meu corpo. Carros passavam, pessoas corriam ao lado de amigos ou companheiros, duas mulheres conversavam sentadas em um banco. Eu descobri que precisava de férias. Tinha quanto tempo que eu não corria assim pela cidade? Ou me sentava para bater um papo com alguém em um banco de praça? Ou simplesmente saia um pouco de carro apenas para passear? Tinha meses que não saia nem com a Tinker! Era sempre do meu apartamento para o hospital e do hospital para casa.

Imersa em meus pensamentos nem percebi quando cheguei ao meu prédio.

—Boa noite senhorita Mills_ me cumprimentou o porteiro_ Chegou um pacote para a senhora mais cedo._ ele tirou um pacote de tamanho médio de detrás do balcão._ É só assinar aqui._ peguei a prancheta._ Mais livros?_ perguntou-me como sempre enquanto assinava.

—Sim._ sorri para ele e peguei a caixa._ Boa noite.

Respirei fundo quando cheguei ao meu refúgio, meu cofre. Abri aporta e senti o ar frio de dentro do apartamento me abraçar. Larguei minhas chaves na mesinha que ficava ao lado da porta. Andei até o meu sofá e joguei meu corpo. As almofadas e estofado receberam o impacto de modo confortável, não como o sofá de meu consultório com aquela madeira incômoda. Fechei meus olhos e o sorriso de Emma veio em minha cabeça. Um sorriso doce e agradável e lindo de se ver. Seus olhos também sorriam, brilhavam todas as vezes que seus lábios se abriam em um sorriso. Abri meus olhos assustada depois os esfreguei. Aquilo era apenas cansaço e estresse do trabalho. Levantei-me e me direcionei ao banheiro. Comecei a encher a banheira e coloquei os meus sais de banho. Fui até a cozinha e peguei um vinho e servi uma taça. Voltei para o banheiro e me despi.

A água estava quente. Afundei-me na banheira fechando os olhos e relaxando. Dei um gole no vinho. Um presente. Uma dádiva dos deuses.

Fiquei ali degustando o meu vinho e relaxando até a água esfriar. Minha cabeça estava leve por ter tomado vinho de estômago vazio. Levantei-me e me sequei com um roupão. Fui até a geladeira para ver o que tinha ali.

—Merda!_ exclamei quando não vi nada na geladeira. Tinha que fazer compras, iria amanha. Pedi outra pizza. Engraçado isso já que eu vivia de cobrar os meus pacientes hábitos alimentares saudáveis e eu já vinha comendo pizza há uma semana. Vesti um pijama confortável e encarei minha estante com mais de duzentos livros que vinha acumulando.

Acumulando quando falo é acumulando mesmo, sem muito tempo livre para ler acabo comprando vários livros em promoções e clássicos que sempre tive vontade de ler e nunca leio na mesma velocidade com que loto a minha estante, fora os que eu já havia doado.

Peguei um da rainha do crime, Agatha Christie, A Mansão Hollow, tinha comprado há muito tempo em uma das minhas compras compulsivas de livros e roupas na internet enquanto estava num plantão não muito movimentado.

Arrastei-me até o sofá com uma mantinha quente e meu livro. Deixei a taça de vinho na mesinha de centro e me ajeitei para me inserir em outro universo.

Quando a pizza chegou, a parte do assassinato nem havia aparecido na estória.

—Já está virando uma cliente regular, dona Regina!_ o entregador disse quando abria porta.

—Já pedi para não me chamar de dona, Juarez._ recebi a pizza e o paguei._ Pode ficar com o troco._ o rapaz que não devia ter nem vinte anos sorriu e deu a volta.

—Agora só sou eu e você, pizza. _ empurrei a manta para o lado e liguei a televisão.

Acordei com os raios de sol entrando na janela da minha sala. Eu tinha desmaiado no sofá depois de cinco taças de vinho. O livro estava aberto no meu peito e a manta que me cobria estava metade no chão. Olhei no relógio do celular, tinha acordado uma hora mais cedo que o de costume. Eu tinha duas opções: voltar a dormir, em minha cama agora, ou fazer uma corrida ao ar livre de verdade, ver pessoas e fazer parte da sociedade.

Levei tudo para a cozinha, hoje seria dia da faxineira, levei a manta para o quarto e a dobrei. Coloquei minhas roupas de corrida, prendi meus cabelos, coloquei meu fone e sai.

O dia estava fresco e outras pessoas também estavam correndo. Decidi ir para um parque ali perto.

Passava por pessoas sorridentes, outras mais apressadas já para começar um novo dia em uma rotina cansativa, um homem passou por mim correndo para conseguir pegar o ônibus, um casal caminhava de mãos dadas e o homem segurava a guia de um labrador, uma menina estava em um banco tomando um café e foi surpreendida por uma amiga. Uma senhora andava segurando o braço de uma mulher mais nova com roupas de enfermeira, adolescentes andava com mochilas a passos largos e rápidos. Tudo seguia o seu fluxo normal, a sociedade continuava a funcionar com as suas engrenagens no lugar.

Eu mantinha o meu ritmo normal, amava sentir aquele vento fresco bater em meu rosto, naquele momento não me sentia uma mulher presa a uma rotina e que vivia para o trabalho, me sentia livre, viva. Deveria sair mais vezes, acordar mais cedo para curtir mais a vida. O sol batia em minha pele, esquentando-a, me trazendo uma sensação agradável como a de um abraço carinhoso e aconchegante até ser atingida por outra pessoa, que me tirou da bolha de perfeição que criava em minha mente.

Por pouco não cai, mas acabei torcendo o tornozelo. Olhei para o homem que tinha esbarrado comigo.

—Desculpe, eu não te vi...

—É bem notório! Não olha por onde anda?_ disparei, meu tornozelo começou a doer, então percebi que estava quase gritando com um estranho._ Desculpe minha grosseria é que meu tornozelo..._ fiz uma careta de dor.

—Me desculpe... Daniel Colter_ estendeu a mão para mim_ e você?

—Regina Mills. _ apertei sua mão.

—Você quer ajuda para voltar para casa?_ ele me perguntou preocupado. Daniel, um homem alto de cabelos castanhos, olhos azuis, extremamente charmoso com sua barba por fazer, vestia uma camisa azul que estava grudada em seu corpo devido o suor que denunciava o seu corpo malhado, estava com shorts e tênis de corrida.

—Não, tudo bem, eu moro há uns vinte minutos daqui._ tentei dar um passo e manquei. Amaldiçoei o meu tornozelo na hora. Abaixei minha cabeça fechando a cara virei um pouco o meu rosto._ acho que vou aceitar a ajuda.

—Ótimo, o meu carro está logo ali, já estava voltando. _ ele passou uma mão pela minha cintura do lado direito e eu passei o braço por seus ombros._ Prefere que eu a leve para casa ou para um hospital?_ me perguntou quando entramos no carro.

—Casa. _afirmei com firmeza. _ Depois peço meu colega para dar uma olhada, mas acho que só machuquei mesmo, nada grave.

—Ótimo, doutora. Endereço?_ sorriu para mim e percebi que tinha um sorriso muito bonito.

Passei o endereço e em dez minutos estava na frente de meu prédio. Daniel trabalha treinando cavalos em um campo de equitação. Trinta e oito anos e solteiro, o tipo de cara que a Tinker me empurraria para cima na hora em que tinha conhecido.

—Então, doutora Mills. _ disse quando parou o carro._ Desculpe-me novamente, mas saiba que não me arrependi._ Ah, não acredito que ele viria com aquele papo de não ter arrependido_ Gostaria de sair um dia contigo._ sorriu, um típico sorriso que deveria usar com muitas outras garotas em bares para ter mais uma noite fácil e produtiva.

—Se eu resolvesse te dar uma chance de se desculpar novamente, para onde me levaria?_ levantei uma sobrancelha o desfiando.

—Você tem cara de quem gosta de comida francesa, então te levaria em um bom restaurante francês.

—Ótimo_ sorri e ele também_ Vamos fazer o seguinte_ vi um bloco de anotações e uma caneta no console central perto da marcha._ Esse é o meu telefone e você me liga quando o meu tornozelo estiver melhor._ anotei o número e o entreguei._ Obrigada pela carona._ sorri novamente e sai do carro mancando um pouco.

Tomei um banho e me vesti, preparei um café preto e torradas, coloquei algo mais confortável e tênis, deixei meus cabelos molhados, peguei minhas coisas e sai rumo a garagem do prédio. Eu tinha que fazer minhas compras, não podia passar mais um dia comendo pizza. A minha relação com a falta de comida em minha geladeira me daria alguns quilos a mais para me preocupar.

Por um milagre de Deus eu tinha conseguido uma vaga no estacionamento do hospital. Entrei mancando, Tinker veio em minha direção olhando para o meu modo de andar.

—O Leroy já chegou?_ a perguntei antes mesmo de um bom dia. Tecnicamente o meu não estava sendo um bom.

—Sim. _ pegou em meu braço para servir de apoio._ O que aconteceu com seu pé?

—Um cara trombou comigo no parque e torci o tornozelo, nem eu entendi direito então nem pergunte._ ela percebeu o meu humor um pouco alterado e apenas levantou as sobrancelhas.

—Posso saber como era o cara?_ parei de andar e virei-me para minha amiga.

—Sério isso?_ tentei minha melhor cara emburrada e ela apenas devolveu o olhar. Respirei fundo e deixei para lá._ Sim ele é bonito._ ela abriu a boca, porém foi interrompida por mim._ Ele ficou de me ligar, satisfeita? _ Ela abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Ai, tô tão orgulhosa de meu bebê!_ apertou minhas bochechas.

—Leroy!_ ainda bem que ele apareceu. O médico carrancudo com a barba cheia veio andando lentamente em minha direção._ Bom dia!_ recebi uma resposta seca.

—Nossa, Leroy, vamos começar o dia mais alegre!_ Tinker disse e ele forçou um sorriso para ela depois voltou com sua carranca usual. _ Nossa...

—Diga, querida Regina.

—Eu levei um esbarrão e machuquei o meu tornozelo, tem como dar uma olhadinha?_ sorri._ Eu ainda tenho que olhar meus pacientes e digamos que não isto não está me ajudando e minha muleta aqui só fala.

Fomos até um leito, levantei minha calça depois de tirar o tênis. Ele examinou o meu pé atentamente. Só estava um pouco inchado.

—Só foi mesmo uma torção de leve. É só tomar um anti-inflamatório e ter cuidado, tá bom?_ eu sorri para ele.

—Obrigada, Leroy!_ mandei um beijo para ele antes de sair e o homem apenas balançou a cabeça.

Fui até o meu consultório, tinha algumas consultas na parte da manhã e uma cirurgia simples marcada no final da tarde. Troquei de roupa e visitei os meus pacientes.

—Bom dia!_ entrei mais lentamente no quarto do que de costume, Emma estava sentada com um caderno em seu colo enquanto desenhava, o seu cabelo estava preso em um coque frouxo que deixava algumas madeixas caídas. Quando me viu esboçou um sorriso e fechou o caderno com o carvão marcando a folha._ Como passou a noite, senhorita Swan?_ a questionei enquanto entrava no quarto mancando._ Se não se importa, vou me sentar um pouco.

—Bom dia, doutora. Passei bem, descobri que a comida não é tão ruim como parece. E você? Torceu o pé?

—Sim._ suspirei._ Logo hoje que resolvi sair um pouco para caminhar levei uma trombada e torci o tornozelo._ me levantei e cheguei mais perto de sua cama._ Com licença. _ levantei um pouco a sua blusa para olhar os pontos. _ Tudo certinho._ ouvi seu coração, verifiquei a pressão e a respiração._ Tudo normal.

—Forte como um touro, doutora._ disse se ajeitando novamente na cama.

—Seus exames...

—Vou faze-los na parte da tarde.

—Bem, tenho que voltar para a rotina. Até mais Senhorita Swan._ peguei em sua perna antes de sair do quarto como um gesto de até logo.

Encaminhei-me até o elevador. Peguei o meu celular e já tinha uma mensagem.

Como está o seu tornozelo, Doutora Mills? Espero que já tenha melhorado.- D. Colter.

Mas já? Não pensei que ele levaria aquilo a sério. Se bem que eu havia deixado o meu número.

Está melhorando aos poucos. Obrigada por se preocupar.— Respondi sorrindo e a porta do elevador se abriu. Esperei as pessoas saírem para entrar e apertar o botão do meu andar.

—Bom dia a todos_ desejei quando entrei no consultório e já haviam dois pacientes me esperando.

Entrei na minha sala e liguei o computador, logo depois Anastasia entrou.

—Doutora, as fichas dos pacientes de hoje já estão na sua mesa. Devo chamar a Senhora Grey?

—Sim, claro._ Sentei em minha cadeira confortável e estiquei os braços, alongando-os. Peguei a primeira ficha que estava na ordem de pacientes. Então duas batidas na porta e a Senhora Grey entrou acompanhada de sua nora.

Após a seção de atendimentos interruptos já não tinha mais pacientes para atender. Empurrei minha cadeira aumentando o espaço entre mim e a mesa. Fechei os olhos e respirei fundo.

Comecei a pensar no que Tinker me falara, sobre Mal se aposentar e eu ser uma das possíveis substituta para ela. Eu gostaria de apenas atender na emergência? Eu não sentiria falta daquele ritmo, da rotina, de atender no consultório? Eu amo as duas áreas. Respirei fundo e me levantei.

—Ana, o Gold...

—Ele está na sua sala, Doutora. Pode entrar.

Encaminhei até a porta do consultório do meu colega. Bati duas vezes e esperei a permissão para entrar.

—A que devo a honra, Regina?_ me recebeu fechando o seu notebook antes de juntar as mãos em cima da mesa.

— Gostaria de bater um papo com um amigo._ o médico indicou a poltrona logo em frente à sua mesa. _ Ouvi boatos a respeito do pronto socorro.

— Boatos de que magnitude?

—De que a Mal está aposentando e que o meu nome é um dos cotados para substituí-la. Gostaria de saber se isso é verdade.

—Você ficaria contente se fosse verdade?_ eu simplesmente detestava quando ele agia assim. O encarei por alguns milésimos de segundo antes de desviar meu olhar para uma pequena estatueta de um cérebro de vidro. Respirei fundo antes de respondê-lo.

—Amo as duas partes do meu trabalho, Gold.

—Então você se sentiria incompleta se não atendesse nesse consultório?

—Não é isso, eu amo o PS._ ele me encarou sabendo que existia algo a mais._ Mas eu gosto da calmaria desse lugar.

—Entretanto aprecia a adrenalina do Pronto Socorro._ o desgraçado não podia estar mais certo._ Faça o seguinte minha cara._ ele afastou da mesa e se recostou na sua imponente cadeira de couro. _ Tire um tempo para passar no PS, você vai saber que aquele é o seu lugar.

—Mas e a Lily? Ela trabalha mais lá do que eu.

—Isso até pode ser verdade, mas ela não tem o mesmo dom que você. Eu faço parte do conselho do hospital e posso te afirmar que você tem mais chances que ela.

—Até quando posso decidir?

—Creio que semana que vem já teremos uma decisão da Mal.

— Obrigada, Gold. Pelo voto de confiança. _ sorri para o meu colega e recebi um sorriso sincero de volta. Levantei e me retirei de sua sala.

—Ana, tem mais algum paciente para hoje?

—Não, doutora.

Entrei na minha sala já tirando o jaleco e o pendurando atrás da porta. Peguei uma das revistas de leituras atrasadas e me sentei no sofá gasto. Estava na metade de minha leitura quando minha paciente apareceu entre meus inúmeros pensamentos.

Será que Emma Swan já teria feito os seus exames?

—Ana, tem algum exame de paciente para dar uma olhada? _ perguntei para a secretária apenas colocando a minha cabeça para fora da sala.

—Não doutora._ respondi um tudo bem e tentei voltar para a minha leitura e minhas anotações. Sem êxito.

Olhei em meu relógio e já era hora do almoço. Peguei o meu jaleco e o celular e desci para a praça de alimentação sempre cheia, no caminho liguei para a minha amiga.

—Tinker, almoço?

Já estou na praça de alimentação e estou vendo a senhorita._ Procurei minha amiga a vi acenando para mim antes de desligar o telefone. Fui para a fila que não demorou muito e me sentei com a minha amiga.

—Como está sendo o seu dia?_ ela me perguntou depois de dar um gole em seu suco.

—O que você acha de eu trabalhando no Pronto socorro?_ disparei a pergunta.

—Eu adoraria._ ela deu uma pausa tentando arrumar as peças do quebra-cabeça._ O que? Você está cogitando em ficar mesmo no lugar da Mal? Isso seria ótimo, amiga.

—Shiu, fale mais baixo, não é nada certo. Eu estava conversando com o Gold e...

—Você conversou com o Gold e ele disse o que?

—Se você parasse de me interromper eu poderia te falar._ rebati já ficando impaciente.

—Calma. _ disse levantando as mãos.

—Ele disse que eu tenho grandes chances de ficar no lugar dela.

—E você quer isso?_ ela me questionou com cautela.

—Acho que sim...

—Acho que sim não é resposta para algo tão importante como isso!

—Eu gosto de atender na cardiologia, mas eu amo o pronto socorro.

—Então fique com o pronto socorro, oras!

— Se eu for escolhida eu fico sim._ minha amiga abriu um sorriso enorme quando escutou a minha decisão.

—Hoje você não atende no PS, não é?_ apenas balancei a cabeça na negativa enquanto mastigava o meu sanduiche natural. _ Uma pena. Amiga eu tenho que ir, meu horário já acabou. _ ela levantou e plantou um beijo na minha cabeça.

Quando virei o meu rosto para olhar minha amiga saindo avistei Mary Margaret que veio andando em minha direção com um café em mãos.

—Olá, Doutora._ me cumprimentou sorridente como sempre.

—Olá, senhorita. Sente-se.

—Sem querer intrometer, sei que esta em seu horário de almoço, mas eu gostaria de saber se a Emma vai ter alta logo...

—Bem, dependendo de seus exames posso dar alta amanhã. Aconteceu alguma coisa?

—Não, não, é que... A Emma não aguenta mais ficar deitada naquela cama._ eu sabia que tinha algo mais que a mulher não queria me contar, eu estava treinada para ficar atenta a qualquer mudança e era o que eu estava percebendo ali, só não sabia dizer que tipo de mudança. Problemas com o seguro e o plano de saúde talvez, ou não estava mais gostando do ambiente triste do hospital, não poderia culpa-la, mas acredito que se Emma tivesse se sentindo incomodada com o tempo passado na cama ela teria me dito algo quando fui vê-la pela manhã.

—Sim, assim que seus exames saírem eu vou checa-la.

—Obrigada Doutora, a senhora está sendo tão atenciosa com a minha amiga que nem sei como agradecer._ ela disse com sinceridade.

—Sinto-me tão velha quando me chamam de senhora._ brinquei com a mulher.

­_Senhorita Mills, então. Tenho que ir, vou visitar a Emma, trouxe mais materiais para suas artes.

—Percebi que ela estava desenhando quando fui vê-la logo cedo.

—Sim, ela não consegue ficar muito tempo sem fazer alguns rabiscos, mas também não os mostra a ninguém antes de estarem perfeitos._ a mulher colocou sua bolsa no ombro._ Até mais doutora.

Terminei o meu almoço e voltei para meu consultório, hoje o dia estava mais que chato, não tinha uma cirurgia marcada, nem mais nenhuma consulta. Ao sentar no sofá e praguejar mais uma vez ao bater minha omoplata na madeira desprotegida de espuma, o meu celular apitou. Malévola precisa de uma consulta urgente no Pronto Socorro.

Catei o meu estetoscópio e o meu jaleco e corri feito uma louca para o Pronto Socorro. Agora o meu dia estava melhorando. Peguei o elevador logo quando ele estava chegando ao meu andar.

— Leito sete, Mills._ Tinker disse ao me ver chegando feito um furacão.

—Só porque ficou com saudades, Tinker.

—Vai se achando, Mills.

—Até que fim você chegou._ Malévola disparou. _ Homem, trinta e quatro anos, múltiplas facadas no peito, briga de bar._ Ela informava-me enquanto eu olhava os ferimentos._ Precisa de cirurgia. Seu pericárdio foi atingido e seu coração não consegue bombear o sangue.

Começamos a empurrar a maca enquanto tentávamos mantê-lo estável.

Fizemos a nossa esterilização o mais rápido possível.

— Você gostaria de trabalhar no Pronto Socorro em tempo integral, não tendo que dividir o seu tempo entre o consultório?_ Malévola me questionou enquanto eu tentava reparar os estrados feitos no peito daquele homem.

—Desculpa?

—Os boatos já correm por aí Mills e com certeza já deve ter chegado aos seus ouvidos que eu estou indo me aposentar. Não quero mais essa correria na minha vida e quero descansar. Amo o meu trabalho, mas amo a minha saúde.

—Não posso negar que ouvi certos boatos._ virei para a enfermeira._ Mais sucção, por favor.

—O que vou lhe falar agora não é um boato, Mills. E escolhi você para ficar no meu lugar.

Eu não podia ficar simplesmente sem ação, entretanto o meu cérebro dava ordens ás minhas mãos como se o que eu estivesse fazendo fosse, por , passar manteiga em um pão, uma atividade que não necessita de nenhuma atenção.

Fiquei sem ração nenhuma apenas observando as minhas mãos moverem dentro do corpo daquele homem enquanto costurava o seu pericárdio.

—Fico lisonjeada, Mal. Mas não posso negar que achava que Lily seria escolhida.

—Minha filha é uma excelente médica de pronto socorro, mas não tem a sua astúcia de resolver alguns casos. Você tem pulso firme e mantem a calma nas piores situações. Só resta saber se vai aceitar o cargo.

—Claro que aceito. _ela não poderia ver o sorriso enorme que se formava em meu rosto por causa da máscara entretanto ela poderia senti-lo.

—Vou confiar o meu filho a você Regina Mills, não faça uma bagunça com ele._ ela apenas informou do seu modo frio e voltou sua atenção para o peito do homem.