Planos e Promessas
10 Felipe.

Acordei surpreso no dia seguinte.
Bianca estava ali, mas estava ali de verdade, pertinho de mim, com uma perna em cima da minha, a outra enfaixada e distante, um braço em volta do meu corpo e a cabeça apoiada no meu peito. Ela dormia tranquilamente e eu lamentei por ter acordado tão cedo.
Poderíamos ficar assim, apenas assim, por tempo indeterminado. Eu juro que não me importaria. Estava me sentindo vivo outra vez. Como se a tivesse de volta a parte do meu coração que foi quebrada. E tudo isso porque ela estava ali comigo, como nos bons e velhos tempos.
Ela era minha, totalmente minha, outra vez.
Tínhamos passado uma noite inteira coladinhos, como eu vinha desejando ultimamente. E tudo isso porque ela torceu o tornozelo na tarde de ontem e eu cuidei dela após isso, sem me desgrudar um só quer momento, cheio de preocupação. Como retribuição a tudo isso ela me beijou. Beijou-me mesmo e depois se aninhou pertinho de mim e ali dormiu.
Não era algo pelo qual eu estava esperando.
Muito pelo contrario, ultimamente isso pra mim estava bem longe de acontecer. Mas olha só pra gente agora. Tinha acontecido e eu estava tão feliz, tão satisfeito, tão completo que não poderia desejar mais nada. Nada no mundo me fazia tão bem quanto tê-la por perto dessa forma, isso já era o bastante pra mim.
Meu celular acabou tocando naquele momento. Eram nove e meia da manhã. E ele estava ali ao lado, na mesinha do abajur. Eu poderia ter deixado-o tocar a vontade, mas ele acabaria acordando a Bianca de qualquer forma. Para acabar logo com aquilo eu me estiquei, alcançando-o e fazendo com que ela acordasse de vez com os meus movimentos.
Era um numero desconhecido e estava me ligando sem parar. Pensei em ignorar. Mas depois não tive muita certeza disso, imaginando que pudesse ser algo de trabalho, um colega, não sei. Ou até mesmo um dos meus amigos querendo falar comigo algo muito urgente, o Pedro ou o Rafael.
Pra saber eu precisava atender. E foi o que fiz.
Mas não disseram nada e eu bem que insisti.
— Alô? – continuei dizendo, já me estressando com aquele silencio total do outro lado da linha. — Alô? Quem é?
Não disseram nada e eu desliguei, impaciente.
Bianca já acordada olhava pra mim, curiosa, como se perguntasse do que se tratava. Apenas dei de ombros.
— Não disseram nada. – e me levantei, indo direto para o banheiro, onde lavei meu rosto e escovei os dentes.
Voltei para a cama, onde ela ainda estava deitada, tanto pelo tornozelo fraturado, tanto pela preguiça de um domingo de manhã. Joguei-me ao seu lado, fazendo-a sorrir.
Coloquei-me por cima dela e comecei a beijar cada centímetro do seu rosto, antes de enfim parar em seus adoráveis lábios, que me provocavam com um sorriso malicioso. Voltamos a nos beijar, ela passando a mão nas minhas costas, por baixo da regata e eu saboreando seus lábios adocicados mais a fundo.
— Teve uma boa noite de sono? – perguntei, quando enfim parei para olha-la por um momento.
— Há muito tempo não dormia tão bem. – admitiu ela com um sorriso generoso, roubando-me um beijo rápido a seguir.
Tirei uma mecha do seu cabelo da frente do rosto, passando para trás da orelha com delicadeza.
Ficamos por ali por mais vinte minutinhos, trocando beijos e carinhos, até que as dez eu voltei a me levantar e a ajudei ir ao banheiro, para que ela fizesse toda sua higiene pessoal.
Mais tarde nos sentamos à mesa para o café da manhã que eu mesmo preparei: bolinhos, frutas e leite.
Tínhamos o dia só para nós dois, sem muitos planos e como estávamos melhores do que nunca, resolvemos aproveitar e passamos o resto do dia de bobeira no sofá, assistindo filmes, com ela deitada no meu colo e eu fazendo carinho em sua cabeça.
Por volta das seis e quarenta da noite decidi ligar para pedir comida japonesa para o almoço.
Enquanto esperaríamos o pedido, voltei a me sentar perto dela, puxando suas pernas para cima do meu colo e passei a mão vagarosamente por seu braço.
— Eu senti tanta a sua falta. – disse ela, olhando-me atentamente no fundo dos olhos.
— Eu também senti a sua. – digo, retribuindo seu olhar. — Você não imagina o quanto.
Enterrei meus dedos nos cabelos de sua nuca e puxei seu rosto para junto do meu, beijando-a novamente. Mas antes que as coisas ficassem mais intensas, meu celular voltou a tocar sobre a mesinha e como ela estava mais perto, ela mesma decidiu atender. Bianca nunca precisou pedir minha permissão para isso, era algo que ela costumava fazer. Mas eu sabia que não fazia por mal ou por irritação ou curiosidade.
— Alô? Quem é? – ela quis saber, mostrando-se impaciente. Talvez por terem nos atrapalhado na melhor hora. Ela detestava quando isso acontecia, ainda mais que eu.
Pausa.
— Quem está falando? – insistiu ela, ora olhando para mim, ora desviando o olhar. Aquilo me deixou curioso. — Uma amiga, é? Bom, ele não está. Quer deixar algum recado? – pausa novamente. — Não? Vai ligar mias tarde? O.K. Então, tchau.
Bianca deixou o celular onde estava antes.
— Quem era? – foi a minha vez de perguntar.
— Uma amiga. – respondeu ela, secamente.
— Que amiga? – insisti, ainda mais curioso.
Nenhuma amiga minha ficava ligando assim.
Ouvi um barulho de trovão vindo do lado de fora, entrando pela janela aberta da sala. Pelo jeito ia cair um temporal em minutos e nossa comida nem tinha chegado ainda.
— Ela não quis entrar muito em detalhes. Mas disse que era uma amiga próxima e que te ligaria mais tarde. – disse ela, sem olhar diretamente para mim. Não sei bem porque, mas ela parecia bastante irritadiça com tudo isso
Fiquei imaginando o que seria que essa tal amiga havia dito a ela.
— E porque você disse que eu não estava?
— Olha, eu não gostei nada dessa historinha. – às vezes a Bianca consegue ser muito ciumenta. — Quero saber que amiga é essa, porque não me lembro de você ter comentado que tinha uma amiga nova tão próxima assim.
Não me contive, e soltei um riso.
— Mas como é que eu vou te dizer uma coisa se eu nem sei do quem se trata? – olhei para ela, divertido. — Ela realmente não disse o nome? Eu não tenho nenhuma amiga...
— Não foi o que pareceu! – ela rebateu, me olhando com raiva. — Pelas coisas que ela disse, ela pareceu muito, muito próxima. – Bianca se remexeu, desconfortável.
— Amor, olha, eu não tenho culpa! – tudo bem que fosse até bonitinha vê-la brava por ciúmes de mim, mas ela estava passando um pouco dos limites. Não era como se eu fosse o vilão da historia. Eu nem se quer sabia quem era!
Eu bem que tentei explicar isso a ela, mas Bianca não facilitou para o meu lado. E me calou, dizendo que não queria mais falar no assunto e voltou-se para a tevê, de braços cruzados e um bico enorme na cara. O que acabou me irritando um pouco. Não queria que ela estragasse tudo entre nós por causa de uma besteirinha a toa.
O motoboy chegou em minutos com a nossa comida e comemos por ali mesmo, já que ela não podia ficar se locomovendo muito por conta da torção e comemos em silencio completo, o que foi muito ruim, já que estávamos tão bem antes daquela ligação e agora parecia que tudo tinha voltado a ser como era antes: uma droga.
— Bianca... – tentei voltar a tocar no assunto, para reverter àquela situação. Mas ela não me deu abertura e quando eu tentei abraça-la e puxa-la para mais perto, ela me rejeitou com uma careta, como se tivesse ódio de mim ou nojo.
A última coisa que eu queria agora era brigar, mas ela não estava facilitando. Levantei-me e levei as caixas vazias da nossa comida para a cozinha e joguei tudo na lata de lixo.
Quando voltei ela pediu ajuda para subir para o quarto. Ela queria dormir e não eram nem dez da noite. Eu sabia que aquilo era só porque ela não queria mais conversar comigo e muito menos estar na minha companhia. Ainda estava irritadinha por causa da ligação da tal amiga minha.
Quer dizer que ela podia sentiu ciúmes de uma desconhecida e eu não podia ficar puto da vida com ela trocando torpedos com o tal de Danilo?
Nada disso parecia muito justo.
— Ai, droga. Eu só quero dormir! Estou cansada. Será que dá pra você me ajudar?
Eu ajudei, com muita paciência, mas ajudei.
Deitei-a na cama devagar e com cuidado.
E a ajudei vestir o pijama também.
Antes que eu pudesse dar-lhe um beijo de boa noite ela se virou de costas pra mim e se cobriu com o cobertor, criando um barreira de proteção contra mim. Estava muito claro que ela estava brava comigo, aparentemente sem motivos concretos e mais uma vez nos afastando e dificultando as coisas de melhorarem.
— Então você quer brigar de novo, é isso? – berrei, após ter perdido totalmente a paciência com ela. — Eu só queria saber porque você está toda bravinha comigo? Eu não fiz nada! Tudo que eu fiz foi tentar te agradar o dia todo e tentar melhorar as coisas entre nós. Eu pensei que fosse isso que você também quisesse...
— E queria! – ela gritou de volta, voltando-se para mim com o rosto coberto de fúria. — E eu estava realmente adorando essa nossa reaproximação e me deliciando na a sua companhia, até uma vaca qualquer te ligar dizendo ser sua "amiga" e dar a impressão que fez muito bem ao meu namorado enquanto eu estive ausente em todo esse tempo em que estivemos distantes.
Então era isso. Quem quer que fosse ao telefone horas atrás havia dito coisas para a Bianca que ela não tinha gostando de escutar. E mentiras, o pior de tudo. E agora ela estava assim comigo, uma fera e pensando sabe-se lá o que ao meu respeito e dessa tal amiga enquanto estávamos “brigados” até um dia atrás.
— E o que foi que ela te disse? – eu quis saber, lógico. Porque eu ia matar essa pessoa por ter destruído tudo entre mim e a Bianca novamente, quando as coisas estavam melhorando.
— Ela disse que estava com saudade de seus momentos juntos e que estava ansiosa para te reencontrar e que não via a hora disso acontecer, porque ela queria sua companhia mais que qualquer outra coisa. Foi isso que ela disse! Está bom pra você?
— Isso é mentira! – gritei, louco de raiva. — Essa pessoa é louca. Eu não estive com ninguém assim além de você, se é isso que você está pensando. Eu nunca fui desonesto com você, apesar de tudo. E nunca menti. Sim, eu tenho colegas de trabalho. Mas isso é tudo.
Bianca me olhou de um jeito, como se não soubesse bem em que acreditar. Mas também não disse nada, apenas voltou a se deitar e virou de costas pra mim, emburrada. Dando aquela discussão por encerada sem nem ter sido resolvida.
Aquilo me deixou ainda mais nervoso, eu quis gritar com ela de novo e sair chutando as coisas pela frente, mas aí me lembrei daquele dia, no almoço com seus pais, quando eu quase a agredi por raiva e ciúmes. Então, me controlei.
Saí do quarto nervoso, bati a porta e tudo mais. Deixando-a para trás. Peguei as chaves do carro e fui em direção a garagem. Sabia que dirigir com raiva, ainda mais a noite, não era uma boa ideia. Mas eu não tinha muitas opções. Ou tinha? Eu precisava ir por aí, clarear as ideias e ficar mais calmo, longe de toda essa turbulência.
Liguei o carro e saí.
Não deu nem tempo de virar a esquina que começou a cair uma chuva muito forte.
Saí do condomínio e peguei a rua mais deserta. Quero dizer, estavam todas muito desertas. Mas eu também não tinha um caminho a seguir e nem um lugar para onde ir. Apenas dirigi por aí, com os para brisas ligado e a raiva martelando na minha cabeça.
Uma hora eu ficaria bem e só então voltaria para casa para não arrumar mais confusões. Mas por enquanto eu estava cego de raiva. A Bianca tinha que estragar tudo logo quando estávamos dando um jeito naquilo? Maldita ligação! Que veio no momento errado e atrapalhou tudo. Eu ainda descobriria quem era o culpado por tudo aquilo.
Com certeza foi engano ou alguma espécie de brincadeira de mal gosto. Porque eu de fato não menti para ela, eu não tinha amigas assim, próximas ou tão intimas. No máximo eu que tinha eram colegas de trabalho e a uma coordenadora bem parceira, que havia me afastado do trabalho por alguns dias.
Será que tinha sido alguns deles só pra sacanear comigo?
Não sei, só sei que tudo voltou a ser como antes: uma grande merda. E eu continuei dirigindo em meio a chuva, sem rumo, com os pensamentos fervendo, até que...
Até que...
Eu quase atropelei algo.
Parei o carro rapidamente e desci. Molhei-me todo, mas não importava. Eu tinha acabado de cometer um crime, pelo menos acho que sim, pelo que vi de relance. E precisava ter certeza que não tinha matado ninguém. Ferir alguém já era grave e o bastante para eu me culpar pelo resto da vida.
Mas não era uma pessoa. Era um animal. Um cachorrinho pequeno e indefeso. Que por pouco eu não matei. Nem ser quer cheguei a atropelar. Só foi um susto, que o deixou imóvel, ali, parado no meio da rua de baixo da chuva, diante do meu carro.
Era pequenino e frágil. Peguei no colo e correndo levei-o para dentro do carro, onde tirei minha camiseta e o cobri, protegendo-o. Ele olhou para mim, parecendo agradecido. E eu sorri, aliviado por nada grave ter acontecido.
Liguei o carro e voltei para casa.
Chega por hoje.
Levei o animalzinho assustado para dentro de casa. Só bastou eu entrar para a chuva aumentar ainda mais, dando trovoadas. Subi com ele no colo, mesmo todo sujo e molhado e entrei no quarto, onde surpreendente Bianca me esperava, acordada.
— Felipe, eu queria... – ela não terminou o que ia dizer, quando viu o que eu tinha nos braços. — O que é isso?
— Um cachorro. – digo, mostrando-lhe melhor ao me aproximar da cama. Mesmo que pra isso tivéssemos molhado e sujado todo o piso da casa. — Não é uma graça?
— Ele é lindo! — ela observou, sorrindo. Mas isso durou muito pouco. — Mas onde você o encontrou?
— Eu quase o matei! E achei melhor recompensa-lo pelo susto de alguma forma. Não fiz mal, não é? – ela fez que não com a cabeça muito rapidamente. — Tem algum xampu aqui em casa para cachorros?
Porque teria se nem tínhamos um?
— Não, não tem. Mas lá em baixo tem sabão de coco, que também serve. – explicou ela, como se fosse uma especialista no assunto.
Deixei o animalzinho em cima do tapete no banheiro, que ficou ali, quieto, me esperando, enquanto eu desci para buscar o sabão. Enchi a banheira com um pouco de água quente, peguei uma toalha velha e dei banho nele.
Por fim ele ficou novinho em folha. Limpinho era menor do que eu tinha imaginado. E seu pelo era marrom claro, todo embolado. E ele tem pernas curtas e orelhas pequenas. E olhos claros, meio cor de mel. Não deve ser de raça, mas quem se importa? E está magrinho, mas nada que um pouco de ração não resolva. Ah é, não temos ração também.
Será que ele gosta de sobras de comida japonesa? Se é que sobrou alguma coisa.
Voltei com ele para o quarto, enrolado em uma toalha. Era um macho, logo percebi. E filhote. Provavelmente abandonado pela crueldade humana. Bianca ajudou-me a seca-lo com um de seus secadores de cabelo, para ele não ficar com frio.
— E como vamos chama-lo? – perguntei, olhando para ele que ficava cada vez mais bonito, conforme ia secando.
— Nós vamos ficar com ele? – perguntou ela, surpresa. Ora olhando pra mim, ora olhando para o animalzinho.
— Claro! E porque não? Ele precisa de um lar. Estava sozinho, na rua, de baixo da chuva. E nós temos uma casa enorme e vazia. A não ser que você...
— Não, não. Vamos ficar com ele, sim. Ele é adorável! – ela o pegou no colo. Não sabia até então que a Bianca era tão boa com os bichinhos. — Olha só, ele não é uma gracinha?
Eu sorri, concordando com ela.
Ele era tão fofo e peludo que dava vontade de apertar e morder.
Parecia até de pelúcia.
— Vamos chamá-lo de Toddy. – concluiu ela por fim, ainda olhando para o cachorrinho com um sorriso deslumbrante.
Ela realmente parecia feliz com a presença dele.
De repente, as coisas tinham voltado a serem boas entre nós. Agora com a presença do nosso mais novo amigo, o Toddy.
— O que será que ele gosta de comer? Além de ração, claro. — perguntei. — Vou lá em baixo procurar alguma coisa para dar a ele. – passei a mão na cabeça do Toddy e beijei os lábios da Bianca muito rapidamente, pegando-a desprevenida. — Eu já volto, esperem aqui.
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