Notas iniciais
Boa leitura

Alex deixou o quarto sem sua resposta. Sei que suas intenções são as melhores e que ele só quer o melhor para nós duas. Sei que ele mudará toda a sua vida ao assumir que é o pai da minha filha, mas eu simplesmente não consegui dizer sim tão facilmente.

Eu não gosto de mentir, então assim que me contou seu plano em enganar minha família e mentir para todo mundo, minha primeira reação é negar. Eu quero que Anastacia tenha a família que merece, um pai que a ame e cuide dela, não quero que ela cresça em uma vida baseada na mentira. Mais do que tudo, quero contar para Maxon, quero ser franca e enfim ficar com o homem que amo, mas isso já não é mais possível. O homem que eu conheci na seleção nunca faria comigo o que fez na escolha, quem pode dizer o que pode acontecer quando a verdade for revelada? Passo a noite em claro, pensando e considerando todas as possibilidades. Achei que tivesse resolvido nosso futuro várias vezes, mas sempre, depois de cinco minutos, revia as possibilidades e mudava de opinião. Eu tentava pensar nas boas partes, positivamente, mas Clarkson sempre voltava em minha mente, tudo o que ele poderia fazer comigo e todas as ameaças para minha filha me aterrorizam. Mas eu tinha a certeza de que pelo menos um cavaleiro de armadura eu teria. Se não fosse Maxon, tenho certeza de que Alex apareceria.

Alex se tornou tão importante para mim que não consigo descrever exatamente como. Nossa relação não parece familiar, mas é muito mais forte e intensa do que uma simples amizade. É o que se espera depois de tudo o que passamos juntos. As lembranças e as memórias não vão embora assim tão de repente. Ele é uma pessoa difícil de se esquecer e tenho a impressão de que faz isso de propósito. Não posso negar que a oferta de Alex torna tudo mais fácil. Anastacia teria uma figura paterna, um ótima vida pela frente e incontáveis possibilidades. Eu nunca passaria fome ou nenhum tipo de aperto, não teria que me preocupar com a verdade ser revelada. Mas desde quando eu tomo o caminho mais prático e saio sem uma luta? Com esse pensamento eu me levanto da cama. Nastia dorme tranquilamente e não vejo problema em a deixar sozinha por alguns minutinhos.

Assim que abro a porta da cabine e subo as escadas, a luz do dia invade meus olhos e me cegam temporariamente. Tinha certeza que muito tempo já havia se passado, mas não imaginava que já fosse manhã. Empregados correm de um lado para o outro no barco, levando comida, cobertores e materiais de limpeza. Sinto o ar puro invadir minhas narinas e o cheiro da maresia me entorpece. Nunca achei que fosse dizer isso, mas eu meio que sinto falta da ilha. Não sei o quanto navegamos durante a noite, mas não deixo de olhar para trás e procurar pela minha antiga casa. Não há nenhum resquício no horizonte, somente o azul interminável.

—Me desculpa incomodar, mas poderia me dizer se o homem que veio comigo está acordado?-pergunto para a primeira pessoa que passa por mim.

—O senhor Romanov ainda está em seu quarto.- a menina responde eu agradeço.- A senhorita gostaria de uma babá para o bebê?

—É possível?- pergunto animada e ela assente.- Você estaria me fazendo um grande favor.- eu digo honesta e ela parte para o quarto onde eu antes dormia.

Caminho pelo barco em busca de um rosto conhecido, mas não acho nenhum. Chega um momento em que eu simplesmente paro de tentar entender onde estou, simplesmente olho para a madeira das paredes e os peixes na água cristalina. Harry está na ponta traseira do navio. Há vários sofás e almofadas espalhadas pelo ligar, para garantir o máximo de conforto. No meio, uma mesa com o que parece ser o café da manhã. Meu primeiro instinto é sentir medo. O complexo está acima das barreiras de proteção e um passo para as laterais ou para trás, terminaria num salto gigante em direção da água. Mas ele não parece se importar, nem a mulher que está deitada em sua companhia.

—America!- ele me sauda assim que me vê- Dormiu bem? Dou passos lentos em sua direção e, hesitante eu me sento em uma das poltronas.

—Quase não consegui dormir.- ele se assusta com a minha resposta.- Estava tudo maravilhoso, não é por causa da cama nem nada, eu só tinha muita coisa na cabeça.

—Então deite e relaxe. Você tem algumas horas antes de chegarmos na Itália e vocês virem notícia.- a mulher que antes estava deitada se levanta e me lança um sorriso. _ Essa é minha mulher, Elisabeth.- Harry nos apresenta e se levanta.- Eu vou acordar o seu namorado.- ele começa e eu tento dizer que ele não é meu namorado, mas me contenho de última hora.- Estamos a duas horas da costa italiana, vocês precisam se arrumar.- ele diz e desce pela madeira para o labirinto no convés.

—Ele não é seu namorado, é?- Elisabeth me pergunta assim que ficamos sozinhas.

—O que quer dizer com isso? Claro que é!- eu tento desmentir mas ela só abre um sorriso doce. Ela me lembra de Amberly.

— Você é uma péssima mentirosa.- me deixo cair nas almofadas e bufo.

—Como descobriu isso?

—Bem, não importa. Mas porque ele disse que é o pai da criança?- sua curiosidade é evidente.

—É complicado.- eu começo a explicar. Digo sobre a seleção, o acidente e o ano em que passei na ilha. Contei sobre o que aconteceria se aparecesse em Illéa e a proposta de Alex. Quando termino de falar, ela fica quieta e me olha com uma mistura de dó e compreenção.

—Você aceitou? Vai deixar que ele seja o pai da criança? — é a única que ela me pergunta.

—Eu não quero viver uma mentira. Não quero que minha filha nasça baseada em uma mentira. Já viu como sou uma péssima mentirosa, acha que eu vou conseguir guardar esse segredo para o resto da minha vida?

—Quando se é mãe, você para de pensar em si mesma, não importa mais o que é melhor para vocês. Sua filha é seu bem mais precioso e todas as suas escolhas a partir de hoje tem que ser o que você acha melhor para ela. Se for para mante-la viva, você mentirá como se fosse naturalmente. Viver uma mentira é melhor do que morrer.- ela me diz séria e eu tento dizer alguma coisa, mas Harry aparece com Alex bem na hora. Olho para a mulher uma última vez e me lança uma piscadela. Acho que eu finalmente tomei uma decisão.

Harry e Elisabeth insistiram em nos levara para o hospital. De acordo com eles um ano preso em uma ilha causam consequências graves em uma pessoa. Alex era o único que sabia falar italiano, então assim que entramos no atendimento, ele explicou o que aconteceu e vários médicos foram mandados até nós. Ele pediu que chamassem a Princesa Nicoletta, Harry disse que nos esperaria e então fomos separados. Não consigo contar quantos exames eu tive que fazer. Os homens me colocaram em uma maca e me carregaram por todo o lugar. Tive que tirar sangue e vários tubos foram colados no meu corpo. Entrei em uma caixa de metal e eu não podia me mexer. Eu estava cansada e a única coisa que queria era me deitar em uma cama, mesmo que fosse a do hospital, e dormir.

Tento perguntar para as enfermeiras que me carregam se elas tem alguma notícia da minha filha, ou de Alex, mas nenhuma delas parece falar minha língua. Me desespero e o ar me começa a faltar. O mesmo sentimento que tive no dia em que tentei fugir para o jardim no começa da seleção. Mas agora eu não tenho lugar para ir. Demorou para que eu enfim conseguisse chegar no meu quarto. Fui depositada na cama e instruída a não levantar. Me irrito profundamente com essa atitude. Será que não percebe que estou bem? Que eu não estou doente ou debilitada? Ligo a televisão e presto atenção nas imagens que se passam. Não consigo entender o que eles falam, mas vejo quando a jornalista começa a mostrar o hospital em que estou e Nicoletta sendo escoltada para dentro. Como eles conseguem fazer isso? Estar em todos os lugares em todo o momento? A porta se abre com um rangido e viro meu pescoço imediatamente com a esperança de que seja Alex ou Nicoletta, mas era somente o médico. Reviro os olhos enquanto ele caminha até a cama.

—Como está?- ele me pergunta preocupado.

—Ótima.- digo mau humorada.

—Sei que acha que está bem e que pode ir embora, mas com os exames que pude fazer, constatamos insuficiência de diversas vitaminas e minerais que podem levar a sérias complicações. Não é nada muito serio por enquanto. Estamos injetando um soro que estabilizará tudo e amanhã já terá alta.- ele explica e não deixo de conter meu sorriso ao saber que poderei ir embora.

—Como está minha filha?

—Ela está bem, tivemos que fazer uma pequena cirurgia, mas tudo ocorreu bem.- ele me assegura.- Poderá visita-la em pouco tempo. Mas agora, existem umas senhoritas que estão muito determinadas em te ver.- ele diz com um sorriso abre a porta. Nicoletta, Noemi e Orabella caiem no chão no minuto em que a porta se abre. O médico solta uma gargalhada e eu também. Elas provavelmente tentavam abrir a porta que estava fechada por dentro. Assim que se recuperam da queda, correm até mim. _Vou deixar vocês sozinhas.- o homem se retira me deixando com três loucas.

—Meu deus America!- Nicoletta me abraça forte e grita em meu ouvido- Eu achei que estivesse morta, todas achávamos!- lágrimas não param de rolar por suas bochechas.- Senti tanta saudade.

—Também senti saudade, mas será que poderia me soltar um pouco, está me sufocando.- eu digo e ela me solta envergonhada.

—Me desculpa.- ele diz e tenta limpar seu rosto úmido.

—Onde esteve esse tempo todo?- Noemi me pergunta e as três se sentam na cama. O fato de não ter espaço não as incomoda.

—Uma ilha. O avião teve alguns problemas, mas conseguimos pousar.- eu começo a explicar, mas a porta se abre novamente.

—Eu consegui roubar ela do quarto sem que ninguém visse. Acho melhor não demorar muito, não fui muito com a cara daquele médico.- Alex diz enquanto passa pela porta, sem ainda notar que temos companhia.

—Filha!- eu grito aliviada de vê-la sã e salva. Alex olha para mim finalmente e se assusta com todo mundo ao meu redor. Ele segura Nastia, que dorme tranquilamente.

—Filha?- Nicoletta me olha sem entender nada.- Filha? Alex? O qu..- seu olhar se alterna entre mim, Alex e minha filha. Sua boca está ligeiramente aberta e o choque é perceptível. — O que é isso? — ela enfim diz.

—Um bebê. -Alex responde sarcástico e anda em minha direção.

—Eu sei que isso é um bebê.-Nicoletta responde irritada.- Mas de quem é esse bebê? Alex me entrega minha filha e se senta do meu lado.

—Minha filha. — eu respondo sem tirar os olhos de Nastia. Sorrio e olho para Alex que me observa.- Nossa filha.- completo.

Sei que ele entendeu. Sei que com essas simples palavras eu acabei de transformar toda a minha vida, assim como a dele. Mas em vez de brigar comigo ou de se assustar, ele sorri, como se soubesse que eu aceitaria desde o começo. Nicoletta não tem palavras para dizer. Sua boca se abre diversas vezes, mas nenhum som consegue sair. Sei que provavelmente me arrependerei da minha escolha, que existem tantas possibilidades para o futuro. As coisas podem dar tão certo, como muito errado. As coisas são incertas para frente, mas sei que hoje, o melhor para a minha filha é isso. Quem sabe o que será melhor para ela depois.

Notas finais
até mais