Notas iniciais
Boa leitura

Depois de dormir no metal, em um banco de avião, achei que minhas dores nas costas não pudessem piorar. Como estava enganada. Me levanto da rocha e vou em direção a pequena cascata na gruta. Jogo um pouco de água no rosto para me ajudar a acordar, mas é inútil. Volto para minha “cama” feita de folhas de árvore e uma mochila velha e permaneço em silêncio.

Alex ainda dorme, o que é bom, me dá um pouco de tempo para pensar. Eu o beijei ontem. Ou ele me beijou. Os detalhes são confusos, mas estou tão confusa quanto estava alguns dias atrás. Tenho certeza que poderia ama-lo se as circunstâncias não fossem essa. Faz menos de duas semanas que Maxon não me escolheu, e apesar de a maioria das selecionadas já estarem comprometidas a essa hora, eu preciso de mais tempo. Não se esquece um amor como esse de uma hora para outra. Quem sabe, um dia, eu possa amar novamente.

_Dorrmiu bem?- Alex me pergunta assim que se levanta. Não sei quanto tempo se passou, parece bastante, porque agora a luz do sol invade a caverna.

_Prefiro nosso avião.- digo verdadeira e ele ri.

_Eu também prefirro.- ele se levanta e arruma sua mochila. -Querr irr parra a praia agorra?

_Achei que nunca fosse perguntar isso.

Enchemos nossas garrafas com água limpa e começamos a caminhar de volta para o acampamento. A trilha foi menor ou eu realmente estou com disposição. Provavelmente demos várias voltas na hora de vir, porque a cachoeira agora parece muito perto do lugar onde caímos. Isso é ótimo, posso tomar banho sem ter que me preocupar em me afogar com a corrente.

Damos pequenas paradas no caminho para pegar frutas que encontramos, nosso café da manhã. Me desabo na areia e permaneço lá. O sol está forte, mas a areia é mais confortável e minhas costas agradecem. Alex aparece depois de um tempo e me manda sair dali.

_Você non deveria ficarr ai. Pode pegarr uma insolaçon. É perrigoso.- ele diz preocupado.

_Mas está tão bom!- eu reclamo e sinto braços fortes me suspenderem.

_Prreguiçosa. Pelo menos fique na arreia que tenha sombrra.- ele me carrega até o avião e me deita na areia ao lado. Definitivamente, muito melhor. O agradeço e fecho os olhos.

Imagino a minha família, seu desespero ao receber a notícia sobre o acidente. Nicoletta provavelmente ligará para eles. Meu deus! Eles devem estar surtando, provavelmente acham que estou morta! Me sento rapidamente e procuro por Alex, que está ao meu lado cortando uma fruta desconhecida.

_Quando acha que sairemos daqui?- eu pergunto e ele para de cortar o alimento.

_Eu non sei.- ele responde olhando diretamente para mim- mas eu te prrometo, vou te tirarr desse lugar.- ele diz convicto e por um momento relaxo, mas as inseguranças voltam. Acho que o turbilhei com tantas perguntas que ele nem se lembra mais o que deve responder. O único jeito de passar o tempo é assim, conversando. Tem tanto que eu quero saber sobre sua vida. Ele simplesmente ri da minha animação.

_Querr andarr pela prraia? Verr o que ten? Enquanto isso vou te respondo o que querr saber.- ele diz e eu concordo.

_Tem irmãos?- não sei porque essa foi a minha primeira pergunta, mas parece meio depressivo conversar sobre família em um momento desses.

_Un só. Ele é un pestinha.- diz rindo para si mesmo, como se estivesse se lembrando de uma memória engraçada.- ten 9 anos, mas já acha que é un adulto. Vive atrrapalhando.

_Tenho quatro irmãos.- ele me olha assutada e eu rio- É bastante, mas eu gosto. Kenna a mais velha, Kota, o segundo, briguei com ele antes de vir para cá e depois de mim vem May minha mini cópia e Gerrad o caçula- digo triste. Kota pode ser o mais idiota de todo, mas mesmo assim é meu irmão.

_O que ele fez?- então explico para ele a história da minha família, Kota nos deixando e suas ameaças quando meu pai morreu.

_Me desculpe, non sabia.- ele tenta se desculpar por ter perguntado, mas o interrompo.

_Não precisa se desculpar. Sinto falta dele ainda, mas ele está em um lugar melhor.

_Eles nunca nos deixam.- Alex para de andar e se vira para mim- ele semprre estarrá com você. — e aponta para o meu coração. -Basta quererr.

Ele volta a andar, mas eu permaneço parada. Olhando para Alex que se distancia e analisando suas palavras.

_Se estiver mesmo aqui, saiba que eu te amo pai. Estou com saudades.- digo baixinho e corro para alcançar o russo que parece caminhar ainda mais rápido.

_Como é crescerr forra de um palácio?- ele me pergunta assim que chego do seu lado.

_Não sei como é crescer em um palácio. Assim não dá para comparar.

_Crrescer em um palácio é a infância mais sozinha e regrrada que existir. Sem amigos parra jogar futebol, sem correr parra o cama dos seus pais quando tem um pesadelo, sem o arroma de doce pela casa toda quando sua mãe faz sobrremesa. Sem lanches da meia noite ou passar o dia na cama comendo biscoito e vendo televison. A infância em um palácio, non é uma infância.- a cada palavra que ele diz, seu ressentimento aumenta.

_Acho que você não gostou da sua infância.- ele sorri triste.

_Eu gostei da minha infância, mas quando se é uma crriança, você non entende que seus pais son reis, que eles tem outrras obrrigações e non podem brrincarr con você. Você non entende porrque non pode sairr daquele lugarr.

_Por isso você sente tanto a falta do seu irmão. Você não quer que ele tenha a mesma infância que você teve. Estou certa?- ele assente com a cabeça baixa.

_Eu perdi grande parte da minha infância. Nossa família era muito pobre, então tive que começar a trabalha cedo e cuidar dos meus irmãos menores. Mas apesar disso tudo, acho que não mudaria nada. Quero ter uma família grande assim também. Vários filhos.

Assim que termino de por as palavras para fora percebo que eu disse. Porque eu estou falando com Alex sobre construir uma família. Tento consertar o que disse, para não ficar mais estranho, mas ele não parece me ouvir. Olha para alguma coisa atrás de mim. Continuo falando até que ele me vira. Alguns metro a frente, a areia em vez de se juntar a mata, entra dentro de uma pequena caverna. A pedra é grande e não sei como, quebrou o meio, permitindo com que pessoas como nós, a usem como abrigo. Esquecendo a parte da sobrevivência, o lugar consegue ser ainda mais bonito que a cachoeira. A água, provavelmente, deve ter batido tanta nas rochas que causou isso. Árvores e plantas crescem em cima das rochas o que deixa o ar ainda mais paradisíaco. Alex olha para o lugar admirado. O cutuco e ele parece acordar de seu transe.

_Podemos virr parra cá!- ele diz animado.- Ten sombrra o tempo inteirro, você pode ficarr na arreia se quiserr. Bastante árrvores em volta para arranjar comida e a cachoeirra não fica longe. Vai serr ótimo!

Ele já parecia ter pensado em tudo, então não reclamei ou argumentei. Quando a única pessoa que pode te tirar dessa ilha diz para você fazer alguma coisa, você simplesmente faz. Não tínhamos andado muito longe dos destroços, então para voltar foi rápido. Alex saiu pegando tudo o que ia pela frente e arranjava um jeito de encaixar em seus braços para levar. Ele parecia um turista que acabou de descobrir o shopping. Rio da imagem até que ele me olha de cara feia.

_É melhor levar de pouco. Não vai conseguir chegar lá com tudo isso.-eu aconselho e ele deixa metade das coisas caírem no chão.

_Que bon. Estava doendo mesmo.

A caverna por dentro é bem parecida da outra que encontramos. Existe uma pequena mina, onde teremos água potável para beber, mas sem banho. Não consigo identificar aonde o fluxo de água dará, mas não faz muita diferença mesmo.

Demoramos um tempo para mover tudo para cá. Alex queria trazer praticamente todo o avião, mas acho que desistiu. Que bom. Sentamos nas pedras e ficamos olhando o mar batendo. Em silêncio, cada um com seu próprio pensamento.

_Me desculpe porr beijarr você onten. Eu estava forra de mim, foi só o momento. Non se prreocupe que non vai acontecerr mais.- ele assegura e eu simplesmente assinto. Era isso o que queria, não é? Queria saber o que ele pensou sobre isso, saber que não significou nada. Mas porque me sinto com um vazio no coração?

Notas finais
Até masi