Pistache
1 Capítulo único: sorvete de pistache.
Notas iniciais
Olá, leitores! Eu e a Dê voltamos juntas com uma fic bem amorzinho ?” algo que nos realmente nunca fazemos. Como não é nossa área, me preocupo se cumprimos de fato a proposta, mas espero sinceramente que todos fiquem de coração quentinho depois de ler, porque nós gostamos muito de escrever! ♥
?” Denise diz:
Lembrando que essa história foi feita para o ZoSan Day, como um desafio para nós duas de fazer uma história inteira (enredo, capa, correção, etc) em apenas um dia, então, se qualquer coisa passou do meu radar, por favor, nos avise! ;)
Espero que gostem e boa leitura!
Depois de se formar na escola, Sanji Vinsmoke não teve escolha senão iniciar sua vida profissional com o máximo de urgência possível: sendo filho de uma mãe viúva e com vários irmãos, trazer sustento para casa era mais do que sua obrigação. Já fazia pequenos trabalhos durante o colégio, mas nunca pôde se focar em procurar um bom salário — sua mãe jamais o perdoaria se perdesse o foco nas aulas e abandonasse a chance de ter um diploma —, contudo, agora não havia nada que o pudesse impedir (muito pelo contrário, trabalhar era um gigantesca necessidade) e aquele vaga para atendente lhe surgiu no melhor momento.
Fora o primeiro a se candidatar e, com muita sorte, o chamaram para comparecer no dia seguinte. Seu uniforme era feio (o chapéu de marinheiro que o obrigavam a utilizar escondia seu cabelo, deixando as sobrancelhas, tão estranhas, a mostra) e a clientela, crianças desesperadas por doces e seus pais mal humorados por gastar quantidades altas de dinheiro com bobagens, era bastante cansativa, mas o que ele não faria pelo dinheiro? Era melhor ter uma vida medíocre com uma profissão exaustiva do que mais um na estatística de desempregados, ainda mais depois de uma crise tão severa no país, a qual sua mãe nem tivera chance de se recuperar — perdera o marido por causa da pressão do desemprego e, após isso, jamais conseguiu uma renda completa na casa, sobrando para as crianças uma vida modesta e cheia de bicos.
E, de qualquer forma, não era um trabalho de todo ruim. Tirando os pais que tentavam pechinchar centavos do pobre funcionário, e as crianças que não conseguiam comer sem se lambuzar das cabeças aos pés, ainda havia uma boa quantidade de colegiais e moças da área rica da cidade para dar mole; vez ou outra oferecendo um sorvete de graça em troca de seus sorrisinhos bobos e, quem sabe, um dia desses conseguisse levá-las para o carro (o delas, claro; ele só pedalava uma bicicleta velha). Atendia à todos com um sorriso no rosto, montava as casquinhas, copinhos e sundaes com gosto e logo em seguida corria para os fundos, afinal era de sua responsabilidade ligar as máquinas e fazer o sorvete. Era tudo caseiro e, ainda que fosse o mais cansativo, fazer os doces era de longe a melhor parte de todas. Sanji tinha certeza que jamais poderia bancar os cursos de culinária que desejava, era pobre e mesmo que tivesse dinheiro, não teria tempo para uma regalia dessas, entretanto, estar perto da cozinha ao menos lhe garantia realizar um pouco de seus sonhos e, por fim, contentava-se com o que a sorte tinha lançado para si: era pouco, mas era o bastante.
Naquela tarde nada de especial havia acontecido, a brisa gelada do final da primavera havia espantado qualquer cliente, então aproveitou para preparar as massas que seriam servidas no dia seguinte. Sabores clássicos como chocolate, morango e creme nunca poderiam faltar, porém aproveitou para deixar sua criatividade ir além e preparou a novidade da manhã seguinte: sorvete de pistache com gotas de chocolate e raspas de limão. Estava completamente orgulhoso, sentado sobre o balcão e aguardando ansiosamente que o dia de trabalho terminasse, uma vez que não teria mais ninguém para experimentar suas criações; o chapéu estava jogado de lado e a revista sobre bandas a sua frente parecia consideravelmente mais atraente que limpar o as geladeiras pela vigésima vez. Entretanto, quando pensou que teria seu momento de paz, alguns minutos antes do relógio da cidade badalar o final de seu expediente, ouviu da porta o sininho tilintar: alguém estava entrando na loja.
— Tsc... Eu não disse para você ir embora antes de eu chegar? — uma voz forte bradou da porta, e Sanji imediatamente percebeu de quem se tratava: era o faxineiro da sorveteria, Zoro Roronoa, um sujeito de traçado asiático e cabelos verdes que tinha o costume de o provocar desde o ensino médio. Trabalhar com ele não passava de uma infeliz coincidência.
— O expediente ainda não acabou, vossa majestade. — respondeu sarcástico para o outro empregado, mantendo os olhos pregados na revista. — Mas pode começar a limpar, ninguém mais vai aparecer.
— As máquinas estão ligadas lá atrás — ele disse, jogando a mochila sobre uma das mesas próximas da porta; Sanji supôs se tratar de uma muda suada e uma toalha úmida, já que Zoro vinha direto da academia para o trabalho (e seu cabelo parecia molhado; se Deus quiser, por causa de uma ducha, e não por suor).
— Estou terminando algumas massas, devem ficar prontas em alguns minutos. — disse, dando de ombros. Em meio ao tédio havia limpado as vasilhas e uma boa parte do chão, então o outro não poderia reclamar.
O garoto de cabelos verdes apenas levantou as sobrancelhas e andou em direção ao almoxarifado, indo pegar o necessário para a higienização do local, enquanto o sorveteiro foi em direção a cozinha: estava na hora de desligar as máquinas e colocar os sorvetes em suas devidas formas. Era um tanto desconfortável estarem juntos no mesmo ambiente, uma vez que evitam com frequência a presença um do outro: não eram amigos, muito menos inimigos, todavia também não poderiam se considerar estranhos. E era bem essa indefinição que tornava tudo tão desagradável.
Enquanto Sanji estava perto da cozinha, ainda podia ouvir seu colega de trabalho resmungando baixo, perto da jukebox, sacudindo os bolsos da calça para tirar uma moeda:
— Trabalho de merda! — ralhou Zoro ao notar que não havia uma moeda sequer. — Do que adianta trabalhar feito um cavalo se continuo quebrado no fim do mês? — perguntou alto, talvez para o loiro, talvez apenas para si mesmo.
Por sua vez, o sorveteiro não sabia se deveria responder e, mesmo se soubesse que a pergunta fora direcionada a si, não teria palavras a sua disposição. Por que trabalhavam? Porque precisava, é evidente. Tinha certeza de que jamais seriam ricos e o pouco que o trabalho fornecia mal dava conta de segurar o mês.
— ACHEI! — um grito animado irrompeu as paredes da cozinha e em poucos segundos uma canção animada preencheu o ambiente. — Um fedelho esqueceu uma moeda nos assentos. Dia de sorte, loiro de merda!
A pergunta era para mim, pensou o loiro, e sentiu um mal estar por ter ignorado o companheiro de trabalho, mas não se deixou levar por algo que já estava no passado. Pensou por alguns segundos e sorriu consigo mesmo, não era o melhor dos homens, mas sabia que pequenas boas ações poderiam lhe garantir alguns pontos no céu.
— Venha cá, majestade! — berrou para o faxineiro e não pôde se sentir mais surpreso ao vê-lo aparecer poucos segundos depois, imitando uma guitarra em suas mãos, como se fosse o próprio Elvis Presley (definitivamente não era). — Para você. — entregou-lhe, em meio a risadas, uma casquinha recheada com sua obra prima, o dito sorvete de pistache que tanto lhe orgulhava, mas que de nada importaria aos clientes. Esta era a vida, nada iria mudá-la, mas poderiam tirar a satisfação ao estar junto aos seus.
— Boa! Foda-se a academia e fodam-se os chefes. — o faxineiro sorriu, pegando a casquinha e levando a boca no mesmo instante. Entretanto, antes de provar, hesitou, olhando-o sério: — Você não zoou essa merda, hein? Eu vou te bater.
— Óbvio que não, imbecil. Acha que eu iria brincar com comida? Esta é minha obra prima! — sentiu a veia de sua testa pulsar em irritação. Danem-se os céus.
— Hum… sei. — deu de ombros, dando uma mordida no sorvete, sem dar a mínima para a forma certa de se tomar uma casquinha. — Está realmente bom, eu gostei. — elogiou, sem se importar com a vermelhidão na face do outro homem. — O outro sorveteiro era um merda.
Zoro era sem sombra de dúvidas um neandertal, pensava Sanji perante a clara incapacidade do outro em elogiar algo. Mas não podia dizer que não estava lisonjeado. Afinal, não era sempre que alguém falava algo legal para si — mesmo que para isso precisasse xingar outra pessoa.
— Imbecil. — murmurou, servindo um pouco de sorvete a si mesmo. Ainda posso melhorar, pensou, e num ímpeto que não conseguiria compreender, deixou escapar:— Não quero ficar em um lugar como esse para sempre.
O garoto de cabelos verdes assentiu.
— Cozinheiro. — Sanji disse, sem reais pretensões. Mas, ao notar a cara de confusão de Zoro, concluiu o raciocínio: — É o que eu quero ser, cozinheiro. E você, vai fazer o quê? — insistiu, talvez fosse a última oportunidade de ter uma conversa civilizada com aquele cara.
— Halterofilista, eu acho. — respondeu, porém pareceu pensar por alguns segundos. — Ou professor de educação física. Músico, sei lá. Na realidade, eu ainda não decidi. Quero ser qualquer coisa, desde que possa acordar em um dia e gritar que sou o melhor no que faço. Você pode acordar amanhã e, bum!, eu sou o prefeito dessa merda de cidade.
O loiro riu alto, fazia muito tempo que não se permitia sonhar com algo. — Me dê um emprego se um dia conseguir entrar para o congresso, que tal? — pediu, brincando.
— Emprego? Se você quiser, você pode ser a porra da minha Primeira Dama.
Sanji sentiu seu rosto enrubescer, porém não pode conter o pequeno sorriso que cresceu em seus lábios. Sonhos magníficos.
— Pegue aqui, Elvis. — ofereceu uma moeda ao colega. — Coloque uma música para a gente.
— Qual? — Zoro perguntou, indo em direção à Jukebox e virando os discos.
— Mr. Sandman, que tal? — piscou, imediatamente soltando uma risada ao ver o rosto do futuro prefeito murchar em um bico descontente, talvez arrependido de ter lhe dado o direito da escolha.
Entretanto, mesmo que soubesse que Sanji estava debochando de si, chamando-o de idealista, o outro homem entrou na brincadeira, se afastando e, em alguns minutos, o agradável coral feminino preencheu a sorveteria, pedindo para que lhes trouxesse um sonho. Naquele momento, não estavam sendo abonados, precisariam retornar ao mesmo lugar no dia seguinte, abrindo mão de suas ambições e mudando suas prioridades, porém, enquanto tivessem uma jukebox e alguns sorvetes roubados, sabiam que poderiam seguir em frente, pois tinham um ao outro para se apoiar.
Notas finais
(2. N/As:) Sandman é uma criatura da mitologia europeia que, com sua areia mágica, zela as noites de sono pelo mundo, trazendo bons sonhos.
Restou algum leitor?
Caso a resposta seja positiva, peço um comentário de incentivo (ou xingamentos, vale tudo!), motiva muito os autores a seguirem em frente.
Agradeço a todos pelo tempo e até a próxima!
Beijinhos, Gigi e Dê ♥
Fale com o autor