Pirateship
5 Cap 4 - All that is gold does not glitter
Notas iniciais
A primeira coisa que senti naquela manhã foi um jato frio na minha cabeça, que rapidamente desceu pelas costas enquanto causava calafrios, o que me acordou prontamente. Levantei o rosto pronta para ofender os antepassados e amaldiçoar as gerações futuras de quem quer que tivesse sido o pestilento que me jogara água fria, mas dei de cara com os olhos castanhos interrogativos de Kaine.
– Mas... O que foi isso?
Perguntei, coçando a cabeça com raiva.
– Bem, eu finalmente te achei! Procurei você até no navio do Alma, que por sinal já vai partir, debaixo de caixotes e perguntei para o dono de uma estalagem, ninguém tinha te visto. Daí eu te acho aqui, jogada na mesa de um bar! Quantas canecas você bebeu?
– Eu não... Espera, o navio do Alma vai zarpar?
– É o que parece, ele disse algo sobre ter..
Levantei-me em um pulo, com o diário do capitão apertado contra o peito corri pelo bar até alcançar a porta e tomar um rumo — à minha frente, uma fileira de navios se estendia. Pude ouvir Kaine abrindo a porta atrás de mim.
– Annabele! — Não obteve resposta — Ah, cara... de novo não!
Quando Kaine me alcançou, dei a ele o livro e gritei o mais alto que pude “Alma” antes de me jogar na água ao lado do navio. Quando finalmente emergi, subi pela escada na proa do navio, e ele me estendeu a mão. Kaine subia por uma das últimas cordas amarradas, com o livro na boca, e assim que pôs os pés no navio Alma pareceu desaparecer do meu lado.
– Olha só as coisas que você me faz fazer...
Ele disse, enquanto me entregava o diário. Só fui capaz de sorrir — finalmente estava à bordo do Espirito Vingativo, e talvez, só talvez, dessa vez desse certo e a tripulação não me odiasse.
Algum tempo depois, no final da tarde, eu parei para observar o pôr-do-sol. Encostada na amurada do navio, podia ver a costa da Ilha de Hispaníola no horizonte, pronta para desaparecer a qualquer momento, enquanto com a visão periférica notei Alma acomodando-se ao meu lado.
– E então, já está com saudades?
– De jeito nenhum!
Ele riu debochadamente, enquanto mexia no cabelo. Gradualmente um silêncio desconfortável se instalou entre nós, e eu optei por quebrá-lo.
– E você, sente falta da sua casa?
– O que há para sentir saudades daquele lugar? Às vezes tenho tenho pesar do meu pai, mas é só lembrar que aconteceu com o velho e vai embora.
– Engraçado como você sabe da minha história, mas eu não sei quase nada da sua. — Eu disse, com a curiosidade atiçada enquanto trocava de posição para ficar cara a cara com ele. Alma se inclinou para frente e apoiou-se em uma corda e na amurada, me encurralando por alguns instantes.
– Ficaremos bastante tempo nesse navio, Annabele. Haverá tempo, acredite em mim.
E começou a ir embora. Me senti frustrada e cheia de dúvidas, porém impotente.
– Já que não quer revelar o seu passado, poderia me ajudar com o futuro. Para onde estamos indo?
– É uma surpresa.
– E quanto tempo até chegarmos lá?
– Outra surpresa!
Antes que eu pudesse contestar, Alma já havia desaparecido rumo à cabine do capitão, e só me restou vagar pelo navio. O céu agora escurecia rápido, e eu já sabia o que iria fazer naquela noite — ler o diário de Francis e tentar aprender sobre navegação. Não me leve a mal, ainda sou nova em toda essa história de ser pirata, mas estou trabalhando nisso.
Passei por Nate, que não desgrudava os olhos do horizonte enquanto se certificava que estávamos seguindo o curso, enquanto eu procurava Kaine, esquadrinhando o navio com os olhos, bem quando tocaram um sino. Houve uma grande movimentação e a maioria dos tripulantes correu para descer do convés rumo ao interior do navio, e me juntei à multidão, e enquanto descia as escadas esbarrei em Kaine.
– Estava te procurando! — Precisei gritar, já que todos os marujos decidiram conversar ao mesmo tempo.
– Acho que estava ocupada demais andando por aí com Alma. — Nossa, pegou pesado hein.
Parei por um instante, mas, mal tive tempo de me recuperar, porquê ele continuou andando.
– O quê?
Como eu esperava, ele não tinha ouvido. Apressamo-nos entre os corredores para o mais próximo de refeitório que poderia ter em um navio — mesas gastas com alguns caixotes servindo de bancos, e reencontrei Kaine.
– O que foi aquilo?
Perguntei um tanto indignada enquanto o aroma de galinha me enchia o nariz.
– Eu sei lá, você que não fala comigo direito desde ontem.
Ponderei antes de responder, enquanto pegava uma vasilha com uma espécie de caldo de galinha e legumes — aparentemente gostoso — e um pão seco.
– Acho que estou apenas empolgada, desculpe. Você pretende ficar chateado por muito tempo? — Levantei as sobrancelhas.
– Não estou chateado, foi só uma observação.
– Certo. De qualquer maneira, o que fez hoje?
– Eu... Hã, estava trabalhando, é claro. Alma pode ter te liberado, mas duvido que seja meu fã.
Eu ri e balancei a cabeça, dispensando explicações. Ele me acompanhou na risada, e empurrou meia caneca de rum para mim depois de se levantar, enquanto eu lançava um olhar questionador em sua direção.
– Tenho que voltar ao trabalho, te vejo mais tarde, Annabele.
Quando ele se afastou o suficiente eu peguei uma pena e o livro do banco, tirando o mapa de dentro dele, pronta para absorver conhecimento. Passei por um monte de baboseiras como “Querido filho, um dia, você herdará este navio” e “Mal posso esperar o dia em que você tocar no leme e gritar sua primeira ordem” para finalmente chegar no que me interessava; “É, infelizmente, provavel que você me perca enquanto ainda jovem, e caso isso venha a ocorrer minha vontade de que herde todos os meus pertences é clara. Mas, de que serviria um navio a quem não sabe navegar? Seria como ter pernas, mas ser aleijado. Sua primeira lição começa aqui. Deverá ser capaz de se encontrar onde quer que você esteja, para isso lhe deixei o meu sextante — toquei-o por cima do bolso da calça nesse momento — e saber se guiar pelas estrelas, mantenha-se atento à Ursa Maior e ficará bem, pois ela sempre lhe servirá como bússola na falta de uma”
– O que diabos você está lendo?
A voz do capitão havia rasgado o silêncio e senti a cor se esvair do meu rosto por causa do susto, mas ele não parecia bravo. Quando viu que eu não ia responder nada, continuou.
– Esse cara não vai te ajudar em nada. Por quê não vem comigo para a cabine comigo? Posso te ensinar a navegar.
– E por quê, exatamente, você faria isso?
– Bem, você é nossa hóspede, seria cortês mostrar hospitalidade, e eu não tenho muito o que fazer mesmo. — Ele mordiscou um bolinho, e depois continuou. — Além de que meu irmão parece ter um certo apreço por você.
Apenas ergui uma sobrancelha enquanto ponderei — O que eu tinha a perder? Isso mesmo, nada. — E, com esse pensamento, o segui para a cabine dois andares acima de nós.
Sob a luz de uma lamparina à querosene, Nate espalhava mapas por toda a mesa — quando descobriu que eu não sabia ao menos ler mapas corretamente, ficou indignado, pois nunca conseguiria chegar à lugar algum. Aparentemente eu aprendia rápido, já que ele não estava frustrado enquanto me observava fazer uma rota no mapa para ir de Portugal ao porto de Valença, na Espanha. Quando acabei ele finalmente falou algo, mas não era, de maneira alguma o que eu esperava ouvir.
– Parece bom, mas você não considerou o tempo de passagem no Estreito de Gibraltar — Ele apontou para a pequena passagem entre a Espanha e o continente Africano — Nem as correntes do encontro do Atlântico com o Mediterrâneo, isso com certeza consumirá tempo, o que implica em novas fases da Lua e movimentações da maré, causando a precisão de maiores esforços, além de uma nova técnica de navegação.
Ele ergueu uma sobrancelha e apoiou as mãos na mesa, ficando inclinado — sua camisa era folgada, e como as a maioria dos piratas que já conheci boa parte do seu peito estava exposto — e me foquei no mapa enquanto ele explicava mais técnicas de navegação.
Quando finalmente acabamos por aquele dia, minha cabeça doía, então agarrei uma garrafa de rum e levantei-me com o diário do capitão em mãos — não podia arriscar que lessem, poderia ser denunciada e, quem sabe, comprometesse minha estadia aqui -, estiquei-me e agradeci pelas aulas.
– Sabe, vamos ter um dia ou dois de calmaria — Nate se inclinou para trás na cadeira e pôs as botas em cima da mesa — e eu não me incomodaria em te ensinar mais um pouco. Se um dia pretende abraçar completamente a pirataria, precisa aprender a fazer saques e montar rotas de fuga rápidas. — Ele sorriu no final da frase, e eu também.
– Mas é claro! De novo, valeu mesmo.
– Piratas não agradecem, Annabele
Ele riu dos boatos sobre ele — quero dizer, sobre nós.
Os ultimos dois dias tinham sido legais, claro, apesar de não ter visto Kaine tanto assim, e Alma menos ainda, não havia me sentido sozinha já que estava quase sempre acompanhada do capitão — agora eu sabia mais do que nunca sobre navegação, e percebi que muito do que estava escrito no diário de Francis estava equivocado — mas, agora que alguém no alvoroço havia virado minha rede enquanto o Sol ainda nascia, bem, tira qualquer um do sério. O alvoroço dos tripulantes para saírem do dormitório não poderia ser apenas para trabalhar, estavam empolgados demais.
– Annabele!
– Kaine! — Fiquei de pé, mas ainda mais baixa do que o moreno — O que está acontecendo?
– Eu não sei, parece que chegamos ao nosso destino. Foi uma noite difícil para o capitão, por causa da tempestade mal dormiu, pois assumiu o leme a madrugada inteira.
– Como você sabe?
– Não consegui dormir.
Não havia tempo para mais perguntas, o movimento da multidão era automático nos empurrando cada vez mais para o caminho deles, e eu segui o fluxo.
Lá de cima pude ver Nate, no leme, com uma posição orgulhosa, focado na ilha à sua frente — olhei também, e identifiquei apenas destroços.
– Maria, mãe de Deus...
E então sob a luz do nascer do Sol o brilho me atingiu — reluzia tanto que a qualquer momento podia cegar os olhos da tripulação sedenta por riquezas. O metal que brilhava mais do que ouro, e bem mais valioso também; dele só ouvia lendas de uma civilização antiga, uma vez rica e poderosa, pela sua ganância sem limites afogada em um curto tempo, onde nenhum homem que resolvia se aventurar havia jamais retornado. Debrucei-me sobre a amurada, e ouvi a voz do capitão atrás de mim.
– Em um único dia e noite de infortúnio...
Anunciei, involuntariamente:
– Atlântida.
Já era próximo ao pôr do sol, e enquanto a tripulação do capitão ocupava-se em pilhar a ilha — não toda, porque eles pretendiam voltar em breve, e um metal tão reluzente quanto o oricalco, além de pesado, chamaria muita atenção — eu a explorava. Essa civilização era realmente avançada, considerando-se que havia afundado há mil anos atrás. Entalhes nas pedras, utensílios, e, é claro, muitas jóias; meus olhos reluziam por elas mas não sei se eu devia pegá-las — ser pirata não é só roubar, é preciso ponderar a situação e se isso realmente será vantajoso para você; e nesse caso, se irritasse o capitão, não seria. Havia passado a tarde com Kaine e havíamos escolhido algumas conchas, assim como encontrado um macaquinho, que estava com ele agora e devia voltar ao navio conosco e, embora tivesse procurado alimentos, a vegetação era praticamente inexistente, e quanto mais a maré enchia, menor a ilha ficava. Eu me pergunto se ela desaparece em algum momento, apenas para reaparecer com suas riquezas quando a maré baixasse e nenhum navio grande ousasse se aproximar.
Ao continuar andando, bati o pé em algo de metal que rolou pela areia enquanto eu corria para pegar, curiosa.
– Pode mantê-la se gostar.
Quase soltei a pulseira ao levar um susto com a voz de Alma tão perto de mim; tenho que aprender a ser silenciosa. Virei-me para ele, esperando não sei bem o quê — estava molhado pela água do mar, provavelmente tinha ajudado a levar o oricalco ao escaler, e coloquei a pulseira. Parecia mais um bracelete porquê era grossa e dura, mas caiu como uma luva.
– Obrigada.
– Ah, vamos lá, o Sol já vai se pôr. Vamos para um lugar alto, algo me diz que a vista vai ser boa.
Com “um lugar alto” tenho certeza que ele quis dizer sobre escombros e rochas, já que não havia mais nada do tipo, então começamos a subir.
– Sabe, Annabele, alguns dias atrás você disse que não sabia nada sobre o meu passado, e, bem, curiosidade é normal. — Sentamo-nos em cima das pedras, e observei o mar quebrando na costa refletindo penúltimos raios de Sol.
– Eu sou de Portugal. Minha família nunca teve riquezas, meu pai trabalhava nas docas para nos sustentar, enquanto minha mãe dividia-se entre cuidar de mim e de Nate e peneirar a farinha para o pão de uma padaria próxima, sendo o pagamento uma porção da própria farinha suficiente para dois pães, então, imagine a reação deles quando representantes do rei de Portugal bateram à nossa porta e convidaram meu pai para uma expedição a nova colônia deles, o Brasil. Tudo o que sabíamos sobre essa terra era que havia sido descoberta há duas centenas de anos, explorada intensamente e suas riquezas nunca esgotavam-se, o que foi mais do que suficiente para que ele aceitasse sem titubear. — Ele deu uma pequena pausa, talvez para que eu assimilasse a informação. Já não conseguia olhar para o mar, o encarava, ávida para saber o desfecho da história. — Ele havia de ficar lá um ano e meio e depois voltar levar-nos com ele, e Portugal ainda pagaria as nossas despesas aqui enquanto isso. E assim foi feito, ele partiu, um mês depois, e a primeira coisa que fizemos foi arranjar um calendário, e cerca de quatro meses depois recebemos uma carta tranquilizando-nos, contava que estava prosperando e mal podia esperar para voltar para casa. — Ele deu um risinho amargo com o canto da boca. — Bem, na data prevista para a chegada dele minha mãe ficou em casa fazendo galinha pela primeira vez e eu e meu irmão fomos esperar o navio, e quando ele finalmente chegou nossa surpresa não poderia ser maior. Saíram todos de dentro e desocuparam todos os pertences e nada do nosso pai, e foi aí que corremos perguntando, mas só um deles sabia quem era o nosso pai. “Ele desistiu de vir, garoto. Encontrou uma indiazinha e trocou vocês e sua mãe por ela, pois é.” E eu simplesmente não pude acreditar; quando olhei para Nate em busca de conforto não vi nada a não ser a fúria em seus olhos e a determinação, e soube que algo ele iria fazer. Voltamos para casa mas não foi essa a história que contamos a nossa mãe, a verdade dela era que ele havia falecido de alguma doença exótica, e, de noite enquanto ela dormia vi Nate se esgueirando pela porta e o segui. Ele me disse que iria caçar aquele vagabundo safado até no inferno, se fosse preciso, e assim fizemos; escondemo-nos em um navio que zarparia para o Brasil em outra dessas expedições e passamos por situações péssimas naquele lugar, porém continuamos vivos até chegar lá. Muita coisa estava acontecendo ao mesmo tempo lá, e os nativos, por sorte, conseguiam falar, ainda que precariamente, a nossa língua, e perguntamos do nosso pai, e eles explicaram o caminho acreditando estar ajudando. Quando entramos na cabana dele e da índia, nunca havia visto meu pai tão feliz nos nove anos que eu estava vivo, mas isso não importava, meu olhar foi duro sobre o dele assim como o de Nate; não havíamos discutido o que aconteceria quando chegássemos lá mas meu irmão parecia ter um plano e o executou. Desembainhou a espada e atravessou o corpo do nosso pai, e depois arrancou seu coração com as próprias mãos. Depois disso não podíamos continuar lá, os índios nos matariam e tenho certeza que os portugueses não podiam se importar menos, então fomos embora num pequeno navio roubado rumo à qualquer lugar, e depois disso, bem, já éramos basicamente piratas. Apesar de tudo é um lugar bonito, o Brasil, eu quero dizer, acho que você gostaria de ir lá.
Era simplesmente muita informação e tentei guardá-la da melhor maneira possível, mas estava em choque. Se era mesmo verdade, a vida dele tinha sido bem difícil, e eu não acho que teria toda essa coragem se fosse comigo, mas, como dizem, a dor ensina a gemer.
– Ah, preste atenção agora!
Olhei pra frente e completamente tudo estava em tons de laranja e dourado, era lindo. Restavam poucos segundos de luz solar até que desaparecesse no horizonte quando um minúsculo ponto verde encimou o Sol, e começou a crescer enquanto meu queixo caia em surpresa e dúvida.
– Não... Não pode ser. Nate!
– O quê?
– Não dá pra explicar, temos que descer! Corra para o navio.
Ele descia habilmente e acabei sendo deixada para trás. Quando localizei o Espirito de Vingança percebi que estavam nos esperando para zarpar — ou pelo menos Alma — e corri em direção a ele, temendo ficar para trás. No escaler estava Kaine, me esperando com o macaquinho.
– Onde diabos você estava? Vamos logo!
Quando subimos ao navio, escutei gritos vindos da cabine do capitão e fiquei tentada a chegar perto para escutar, mas Kaine me repreendeu com o olhar, e decidi acatá-lo pelo menos uma vez. Tirei um tempo para analisá-lo melhor — estava com sardas, a pele bronzeada e seus olhos tinham mais vida desde que deixamos Burkesville, e eu vi um único brinco de oricalco pendurado em uma de suas orelhas, e admito que estava bem charmoso. Ele ia abrir a boca para falar algo quando uma porta bateu forte e Alma saiu como uma tempestade da cabine do capitão, e começou a gritar ordens.
– Vamos lá para baixo.
Eu chamei e ele pareceu aprovar porque me seguiu, o macaquinho agarrado em suas roupas.
– Qual vai ser o nome dele?
– Não sei. Macacos precisam de nomes?
– Acho que sim. Vincent?
– Vincent não é nome de macaco.
– Como você sabe? Acabou de dizer que não tinha de ter nome!
Eu ri e me sentei na minha rede, mas senti falta de algo. Tateei a procura do diário do capitão, e gelei quando não encontrei. Isso queria dizer que talvez Nate tivesse pego, e quem sabe Francis tivesse feito anotações sobre mim, e então ele só precisaria deduzir um pouco mais para saber o que havia acontecido, se fosse esperto — e isso ele era de sobra.
– Kaine... Eu preciso ir. Te vejo mais tarde.
– Annabele?
E parti para cima, olhando por uma das janelas da cabine do capitão vi meu livro sobre sua mesa, mas não o vi lá dentro. Estava ponderando sobre o que faria — se entrava e recuperava o livro ou se era muito arriscado — quando senti uma mão se fechar em meu braço de maneira tão apertada que tinha certeza dos futuros hematomas que apareceriam ali. O dono da mão era Nate e seus olhos estavam cheios de raiva; lembrei-me da história de Alma e estremeci, enquanto fui puxada para a cabine e jogada contra a parede como uma boneca de pano.
– Nate? O que aconteceu?
Eu tinha certeza que estava quase sem voz e meus joelhos estavam moles, e ele me segurou onde eu estava, como se pudesse sair do lugar.
– O que aconteceu é que eu não aprecio que me contem mentiras, Annabele. E você vai me contar a história e vai ser agora. — Ele rosnou em meu ouvido e me soltou, e eu escorreguei para o chão. Eu estava completamente assustada e algumas lágrimas quentes escorriam pelas minhas bochechas, e então eu contei, ignorando os gritos de “Corta esse papinho de orfã” e acusações de que estava mentindo, mas quando cheguei na parte em que eu havia matado Francis parei.
– E então, o quê? O quê você foi fazer com uma faca na cabine dele, Annabele?
– Eu matei ele, Nate! O que você queria? O que você esperava de mim? Aliás, você não pode esperar nada, não pode cobrar de mim atitudes que você não tem.
– Como assim? O que você sabe sobre isso?
– Eu sei que você é um pirata, e como tal já tirou várias vidas. Inclusive a do seu pai. — Desafiei ele, e não sabia o que esperar.
– Saia. — Ele disse baixinho. Quando não me mexi, ele decidiu gritar. — Saia daqui antes que eu te mate.
Bem, essa era a minha deixa. Assim que fechei a porta, com o diário na mão, um punhal ficou cravado nela, e eu respirei fundo antes de descer até a minha rede, e “dormi” — em parte para evitar Kaine e em parte para não fazer mais besteira -, tão atenta que até o rangido do barco me assustava.
Alguns dias depois, nos aproximávamos da terra, uma ilha perto do Brasil. Havia gasto meus dias embaixo, na minha rede, falando eventualmente com Kaine enquanto Nate, Alma e eu nos evitávamos mutuamente — aliás, até o macaquinho parecia querer me evitar — até que lancei um último olhar para o maldito diário do capitão e decidi acabar com ele. Subi e fui momentaneamente cegada pela luz do Sol; estávamos no meio da tarde, mas continuei a ir na direção da amurada e atirei aquele livro o mais longe que pude e observei ele afundar, quando vi algo no horizonte se aproximando, e meu queixo caiu quando descobri o que era.
– Alma! — Corri pelo navio, procurando-o.
– Annabele, não estou no momento para conversar, sinceram... — Segurei o seu rosto e virei-o na direção do navio holandês que aproximava-se com uma velocidade incrível.
– Ah, droga...
Ele disse e saiu correndo para avisar a Nate, provavelmente, que começara a gritar ordens.
– Dividam-se, metade de vocês peguem os remos! A outra metade fique aqui comigo, temos que ter alguma vantagem.
Eu sabia que não tínhamos chances, e Nate também, mas não podíamos fazer nada a não ser esperar pelo melhor. Corri para a minha rede e tirei meus pertences de lá — minhas moedas roubadas guardei em um saquinho, e depois nas minhas calças, assim como uma bússola e o sextante. A pulseira de oricalco talvez fosse confundida com bronze, já que holandeses não acreditavam nos mistérios do mar, e não valeria a pena eles roubarem; com tudo reunido subi pelo destino inevitável, a mente maquinando para algum plano para uma situção que eu não conhecia ainda.
–
Depois dos holandeses — um bando de gente estranha com pele clara ridiculamente queimada ao ponto de parecerem camarões gigantes — renderem a tripulação, tão facilmente quanto meia dúzia de tartrugas filhotes sendo apanhadas por gaviotas, encontravamo-nos nas celas do navio estrangeiro. Estava com aquele ruivo que havia “visto uma sereia”, um fedorento de poucas palavras e, bem, Kaine; que no momento era a pior companhia possível já que (também) estava me evitando, enquanto Alma estava na cela ao lado e seu irmão em nenhum lugar a ser encontrado.
Passamos dias á base de caldos nojentos ou pão e água — nada de rum, o que causou mais indignação por parte dos outros prisioneiros — e qualquer tentativa de comunicação que tentávamos estabelecer era ignorada, desprezada ou mesmo feita motivo de piada e eu já não aguentava mais até — não estou orgulhosa disso — soltar um tremendo escândalo com direito a arremesso de pão seco nos holandeses e interpretações exageradas de suas personas, o que rendeu um grupo de cinco de nossos captores reunidos me olhando com uma cara desagradável e outro segurando o riso, até o mais irritado do grupo gritar de volta e bater na grade para desencadear-se uma onda de caos, gritaria e xingamentos de ambas as partes em diversas línguas, enquanto eu me esgueirava para o fundo da cela após ter plantado a discórdia que eventualmente acabou com holandeses muito zangados subindo para o convés — a comida não veio nesse dia, e no final do seguinte o navio atracou.
Guiados em uma fila e sem conseguir enxergar dois palmos à frente, chegamos rapidamente ao que parecia um bar; porém no depósito, ao invés de bebidas, pessoas — cada um era completamente diferente, e pelas roupas podia destinguir a minoria de damas afortunadas à molecas e homens bêbados dos bem afortunados e dos trabalhadores. Vi irmãos cujo maior pesadelo parecia ser se separar e até um casal de namorados, enquanto era empurrada junto à Kaine diretamente para a àrea principal, e, apesar de não saber falar aquela língua, entendi que alí acontecia um leilão — e nós éramos a mercadoria.
Minha barriga roncava enquanto um baixinho idoso de aparência amigável e justa passava por nós, falando e nos cutucando. Estava em uma fila de quatorze, onde nem todos vinham do Espírito de Vingança, e não havia outras mulheres, o que me deixava em uma posição desconfortável.
– Annabele?
– Estou ouvindo, Kaine.
– Eu estive pensando, e, bem... Eu queria pedir desculpas.
Eu ia abrir a boca para perguntar o porquê, já que não via necessidade, mas fui interrompida.
– Não, me deixa falar, está bem? Olha só, naquele dia um marujo estúpido do navio do Francis te achou sim, mas, depois de te apagar ele desistiu do que quer que fosse fazer e ia te deixar lá, mas eu sabia que essa seria uma boa chance para você dar o fora de Burkesville e eu meio que te carreguei para o navio — ele fez uma pausa e meu queixo caiu. — É, peço desculpas. Não estava tão ruim antes de chegarmos aqui, por isso não falei nada, mas agora me sinto culpado, e... Não me olha com essa cara, por favor. — Meus pés formigavam e seus olhos encontravam os meus numa súplica enquanto ele enfiava um pedaço de tecido em um bolso das minhas calças. — Annabele, a gente pode nunca mais se ver então eu queria te dar isso aqui, e ainda não está pronto, mas podemos terminar juntos caso nós formos capazes de dar o fora daqui.
Eu não tinha exatamente uma reação para a bomba que ele acabara de soltar, mas minha única vontade era de me afastar, e foi isso que fiz, ignorando tudo ao meu redor. O velho baixinho de mais cedo segurou meu braço e levantou parte da minha camisa, cutucando a minha barriga — que roncava de faminta, diga-se de passagem — e expondo-a para a multidão, enquanto fazia mímicas com a outra mão. Aparentemente eu tinha acabado de me voluntariar para o leilão e a maioria dos convidados levantava placas com números grandes e esquadrinhei os quatro cantos do cômodo para procurar uma saída — já havia saído de situações o suficiente para lidar com essa.
– Quinze, eu ouvi quinze? Verkauft!
Percebi duas coisas: O velho misturava vários idiomas, e que eu havia sido vendida. Um homem alto, acompanhado de um levemente mais baixo, ambos escondidos sob sobretudos e chapéus, vieram me buscar, e por mais que eu tentasse me soltar, não fui capaz — seu aperto era forte demais. Comecei a entrar em pânico quando entendi que passava a ser propriedade de alguém no momento em que atravessamos o portão que dava, previsivelmente, para um porto.
Com o puxão no meu braço comecei a andar rápido junto dos caras até nos perdermos entre becos para que tirassem o chapéu e eu identificasse as cabeleiras negras de Alma e Nate.
– Mas o que diabos...
– Ei, esperamos algum agradecimento, arriscamos nossos pescoços por você e o resto da tripulação!
Revirei os olhos para o comentário de Alma.
– Como vocês pagaram por nós?
– Só você e mais três dos nossos foram para o leilão, os outros conseguimos dar um jeito de tirá-los de lá. Estamos zerados de dinheiro, os caras estão esperando por nosso sinal para fugirmos.
Minha mandíbula caiu novamente. Era informação demais com a qual eu não sabia lidar nestes últimos quatro dias, e eu estava precisando de um tempo.
– Onde está Kaine?
Minha pergunta parece tê-los surpreendido, e a única resposta foi um balançar de ombros. Suspirei, quando uma luz distante chamou minha atenção. Estava razoavelmente distante e parecia crescer a cada momento.
– Onde quer que ele esteja, espero que não seja alí. Está pegando fogo, Annabele.
Fiquei tonta. Minha visão escurecia, e, enquanto eu corria anormalmente rápido em direção ao incêndio que acontecia no leilão em que eu estava há poucos segundos, imagens de Kaine agonizando ao queimar antes de morrer pertubavam minha mente.
Ao chegar lá, sem pensar duas vezes me meti no estabelecimento, agora em chamas. Nem gritos agonizantes, o estalo do fogo ou saber que as chances de morrer eram altas caso não saísse dali puderam me manter consciente quando a fome, o cansaço e a fumaça vieram cobrar seu preço.
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