Pique.
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura!
– Eu vou até o mato! – anunciou a garota saindo da casa num ímpeto.
– Por quê? – perguntou o primo pequenino. – Não tem nada lá. Aliás, tem sim, um monstro! E ele vai pegar você, se for até lá. Ele pega as crianças e elas nunca mais voltam pra casa.
– Bobagem! Eu vou sim, e se você está com medo, eu vou so-zi-nha!
E saiu de pressa antes que o primo tentasse impedi-la. Mas ele não iria. Não era bobo. Não iria até o mato pra se encontrar com o monstro que transformava as criancinhas.
A garota andou um pouco e atravessou a sebe que separava a casa da tia do mato fechado. Arranhou o braço num espinho, mas não se importou. O corte sangrava. Ganhou o matagal e lentamente caminhou entre as árvores e os ramos, quando, de repente, do nada, surgiu um brilho intenso e crianças pequenas começaram a brincar, rodando em ciranda ao redor da garota. Ela riu deliciada. Aquele primo bobo! Era isso que chamava de monstros? Criancinhas?
– De onde vocês vieram? – perguntou seguindo as crianças matagal a dentro.
Elas não responderam.
– Quem são vocês?
– Onde estão seus pais? Estão perdidos?
Eles não respondiam. Riam, cantavam e dançavam ao redor da menina, até que ela desistiu e entrou na roda, dançando cantando e seguindo-as. Tudo eram luz e cor, dança e risos. As crianças, cujos rostos não podiam se ver por conta que nunca paravam por tempo bastante para serem observadas, seguravam as mãos uma das outras e levavam consigo uma menina risonha e satisfeita.
“Ele vai se arrepender de não ter vindo”, disse a si mesma lembrando de repente do primo medroso.
As brincadeiras, os risos e sorrisos eram tão contagiantes que a menina não se deu conta de quando entrou a fundo no mato. Estava vivenciando um momento mágico, não largaria a mão daquelas crianças alegres e brincalhonas por nada no mundo. E, tinha certeza, elas também nunca a largariam.
Então, de repente, a luz se apagou e a mágica cessou. Tudo era negro e sinistro. O silencio era excruciante.
– Amigos? – chamou desorientada. Aonde teriam ido? – Onde estão? Não se escondam!
– Vamos brincar de pega-pega – sugeriu tentando chamar a atenção deles, onde quer que estejam. Será que voltavam aos seus pais? – Vamos lá, vocês já estão escondidos, então eu procuro, está bem?
Ninguém respondeu. Talvez não quisessem mostrar suas localizações, pensou procurando crianças risonhas nos arbustos e atrás das pedras. Mas não achou ninguém e pôs a culpa na escuridão. Parou no meio do mato, olhando em volta... De qualquer forma, como voltaria para casa? Não se lembrava do caminho de volta. Tentou engolir a pontada de medo que sentiu.
– Amigos – chamou de novo. – Onde estão? Apareçam.
Entre o mato, logo à frente, havia uma pontinho de luz, e risinhos abafados. Sorriu. “Ah, estão ai, não é?”. Caminhou, pé–ante-pé, para não chamar a atenção deles, e entrou de supetão no lugar, gritando:
– Achei vocês!
Mas sua voz morreu. No chão, caídos de bruços, estavam as crianças com quem brincara, todas, todas elas...
– Mortas... – sussurrou a menina assustada. – Mortas...
– Pique! – gritou uma voz, no momento em que ela sentiu uma mão forte tapar-lhe a boca. Um braço muito forte agarrou a menina, e ela tentou gritar, em vão. A voz sussurrou assustadoramente em seu ouvido:
– Peguei você.
O primo entrou no mato, preocupado. “Está tão tarde... Será que o monstro pegou ela?... Não! Ele não pode! É minha prima! Minha!”, pensou atravessando a sebe, e tomando o cuidado para não se arranhar num espinho inconveniente.
Atravessou o mato escuro sem ver nem ouvir ninguém.
– Prima! – gritou com as mãos ao redor da boca. – Você está ai? Se estiver ai grite de volta!
Nada. Continuou andando, procurando por vestígios da garota, mas não encontrou nada. Pouco depois, ele entrou numa pequena clareira. Tinha um pouco de luz, mas parecia vazio. Então, ele ouviu uma voz.
– Vamos brincar de pega-pega – sugeriu uma voz escondida.
O garoto olhou em volta, mas não viu ninguém.
– Eu procuro e você se esconde, está bem?
– Q-quem está ai? – gaguejou o garoto dando um passo para trás. – E-eu não estou com medo, m-mas, seja quem for, devolva a minha prima e vá embora!
Pegou uma pedra no chão e lançou no mato. A pedra caiu entre os arbustos.
– Quem está ai?!
Ele ia virar e correr, mas uma mão agarrou sua boca.
– Mnh...
– Shhh – sussurrou uma voz em seu ouvido.
Ele conhecia aquela voz.
Por entre os arbustos surgiram crianças, mas havia algo de errado com elas. Suas roupas estavam sujas e rasgadas, seus olhos vermelhos e tinham feridas em várias partes do corpo. Uma menina tinha um filete de sangue escorrendo da cabeça, outro ainda um corte no peito. As crianças o cercaram, e aterrorizado, ele começou a chorar a se debater.
Uma das crianças tomou a frente e se aproximou. Ela tinha um corte no braço. Seu rosto tinha marcas vermelhas de dedos. O pior: ela a conhecia. Era sua prima!
– Não tente fugir – pediu a menina suavemente. – Nós só queremos brincar, e, além do mais...
Ele chorou, pedindo socorro a prima, mas a mão em sua boca sufocava seus pedidos.
– Bobinho – lamentou.
Ela sorriu largamente mostrando todos os dentes. Aproximou-se e sussurrou em seu ouvido:
– Pique. Pegamos você.
Notas finais
~Still Waiting
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