Notas iniciais
E lá vou eu fazer mais história que não tem nada a ver com o que eu tinha que fazer...

O Desafio está servindo para que eu me force a escrever, pois estou num bloqueio terrível nesses últimos meses.

Obrigada pela compreensão! ♥

Aproveitem!!! ♥

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O Tema da Semana 02 era: Promessa.

Era quinta-feira à noite na cidade de Cachoeira do Lírio-Branco. Catarina Ester e Ana Maya estavam sentadas em frente à TV enquanto comiam besteiras e colocavam um filme romântico escolhido pela loira. O filme era inspirado na história do único casal lésbico a ter uma união celebrada na Igreja Católica, por volta de 1900.

— Não sabia que você gostava de romance LGBT, Cat. — A morena disse enquanto colocava o disco no DVD.

— Eu fiquei muito curiosa com a história. — A patricinha contou. Ana Maya deu de ombros e deu play no filme.

As meninas se assustaram com a porta da sala sendo aberta àquela hora, revelando uma mulher de quase trinta anos, retirando os saltos e ligando a luz. A adulta assustou-se com a dupla, no meio do cômodo escuro.

— Catarina? Ana? O que estão fazendo acordadas a essa hora? — Questionou enquanto trancava a porta, olhando as adolescentes.

— Ei, tia Eloá. — Catarina sorriu enquanto a mais velha se aproximou. — Estamos vendo um filme.

— Não deviam estar na cama? Vocês têm aula amanhã? — A mulher perguntou enquanto passava a mão na pipoca e nos chips de presunto e queijo.

Nós-...

— Vamos faltar amanhã. — Ana Maya disse por cima de sua amiga, sorrindo.

— Seu pai sabe que você está pensando em matar aula? — Eloá tinha um braço cruzado, enquanto a mão cheia de salgadinhos ia de encontro a sua boca.

— Sabe. — Ana assentiu, enquanto a tia comia as besteiras, logo olhando a loira.

— Não tem aula amanhã, tia. É feriado facultativo. — A loira contou e Eloá sorriu.

Ah, sim. — Concordou, lembrando que o dia seguinte era comemorado o aniversário da cidade. — Bom filme, meninas. — E foi para dentro, comendo o que havia pego.

— Obrigada. — A dupla agradeceu.

— Achei que ela iria cair. — Ana comentou, sorrindo.

— Muito difícil. — Catarina se levantou e foi desligar a luz, para voltar ao seu lugar e assistir ao filme.

O romance, com muitas cenas exageradas para dar emoção a história, fez a patricinha chorar rios em lágrimas. Enquanto Ana, estava ligeiramente comovida com a história das duas mulheres. As besteiras já estavam quase no fim quando os créditos subiram em tela.

Aí! — Catarina suspirou profundamente de tanto chorar. — Que história linda!

— Sim, muito. — Ana concordou. — Achei bem forte. Elas lutaram pelo amor até o fim. — A morena levantou e ligou as luzes. — Quer ver mais alguma coisa?

— Acho que não. — A loira disse secando as lágrimas. — Vamos juntar as coisas e ir para o quarto conversar. — Ana Maya assentiu, animada.

— Vamos. — Aproximou-se. — Tenho uma fofoca quente sobre aquela menina da nossa escola, a Keithy.

— Quero saber. — Catarina acompanhou a amiga.

Juntaram toda a louça e colocaram na pia. O resto de chips guardaram em potes de vidro e tamparam bem, logo indo para o quarto. As meninas fecharam a porta e deitaram na cama.

— Conta a fofoca. — Catarina pediu, se enrolando na coberta cor-de-rosa favorita.

— É uma loucura. — Ana Maya limpou os óculos de grau e se enrolou na coberta azul.

— Nunca vi uma nerd gostando de fofocar. — Catarina provocou.

— E eu nunca vi patricinha amiga de nerd. — Devolveu e ambos caíram na gargalhada. — ‘Tá, deixa eu contar.

— Conta.

— A Keithy contou para os pais que é pansexual.

— Contou? — Catarina ficou assustada. — E aí?

Iih, amiga. — Ana Maya disse. — A mãe dela fez uma cena, parece. Disse que não ia aturar “pouca vergonha dentro de casa”. O pai não fez nada, só assistiu. Daí a avó dela entrou no meio e bateu na mãe da Keithy, que é filha dela.

— A Dona Clara? Bateu? Mas, gente — a loira estava espantada — ela é um amorzinho de senhora.

— Bateu, amiga. Bateu e falou que ninguém ia apontar o dedo pra Keithy e falar o que ela deve ou não ser. — Ana Maya contava. — Mandou a neta arrumar as malas porque ia morar com ela. O Guilherme ouviu tudo da janela, até ouviu a Dona Clara falando que “na casa dela, a Keithy ia namorar quem ela quisesse e a pessoa ia ser muito bem recebida e tratada. Que a neta ia ser amada”.

Caramba! Eu não sabia que a Dona Clara era moderninha. — A loira disse pensativa, olhando para o nada.

— Também fiquei surpresa. — Ana disse. — Quer fazer alguma coisa? — Perguntou se levantando. — A gente podia ver outro filme ou uns vídeos na internet...

Enquanto Ana Maya falava sobre coisas que poderiam fazer ou ver, Catarina estava perdida em pensamentos. A garota chamada Keithy era uma colega de escola. Nunca se falaram muito, mas saber que a garota havia sido aceita e respeitada por uma pessoa próxima lhe dava esperança. Catarina Ester se sentiu determinada...

Ana Maya... — Chamou a amiga, com sua voz suave. Mexia em seus dedos, insegura.

— Oi, Cat. — A morena olhou a loira.

Eu... — Catarina engasgou com sua própria voz. Movia a boca, mas não emanava nenhum som. — Eu posso... — A garota não conseguia falar, então olhou a melhor amiga, atordoada. Seus olhos azuis estavam cheios e isso preocupou a amiga, que se aproximou e segurou e envolveu as mãos da loira com as suas.

— O que houve, Cat? — Ana Maya não quebrou o contato visual, passando segurança a amiga.

— Posso te contar um segredo? — Perguntou timidamente, fazendo a morena estranhar.

— Pode, Cat. Você pode me contar tudo. Sabe disso. — Ana tentava encorajar a amiga. A loira inspirou profundamente, mas com muita dificuldade. Parecia sofrer.

— Promete não contar a ninguém? — Ana Maya estranhou o comportamento. Catarina nunca precisou pedir para “não contar algo a alguém”. Tudo o que dividiam com a outra era mantido em absoluto segredo, por mais bobo que fosse.

— Mas é claro, Cat. Nunca contaria a ninguém. Pode falar. — Disse apertando as mãos frias da amiga, olhando-a nos olhos.

Os olhos de cristal de Catarina estavam cheios, parecia que iriam transbordar a qualquer instante. E isso preocupava Ana Maya. A morena ficou em silêncio, mas nunca deixou de olhar a amiga ou apertar suas mãos que estavam muito geladas para alguém que estava embaixo de um cobertor muito fofo e quentinho.

E-eu... — Gaguejou, com muito medo. Respirou e olhou a amiga. — Eu acho... — Engasgou de novo. — Eu acho que gosto... — Engoliu em seco, enquanto tentava falar. Ana não disse nada, queria deixar a amiga pôr para fora sem pressão. — De garotas. — As palavras escaparam dos lábios trêmulos da menina, fazendo suas lágrimas rolarem por seu rosto.

Ana Maya viu medo em Catarina Ester...

Rapidamente, puxou a loira para um abraço forte. Tal ato fez Catarina chorar instantaneamente. Chorava feito uma criança e tinha muitas, muitas lágrimas. Parecia que havia guardado aquele segredo por anos, entalado na garganta sem poder contar para ninguém. A loira estava se livrando de um peso enorme.

‘Tá tudo bem, Cat. — Ana sussurrou. — Não tem nada de errado em gostar de garotas.

Você não me odeia? — Catarina perguntou com o rosto afundado no peito da melhor amiga.

— Claro que não, Cat. Você gostar de garotas não me faz te amar menos. Somos melhores amigas, quase irmãs. — Se separaram e sorriram. — Promessa de mindinho. — A morena ofereceu o dedo e Catarina sorriu.

— Promessa de mindinho. — Disse num sorriso, cruzando seu mindinho com o da amiga. — Obrigada, Ana. — Ambas se abraçaram mais uma vez. Catarina se sentia muito mais tranquila.

* * *

Duas semanas haviam se passado desde a festa do pijama. Ana Maya não conseguiu mais falar com a amiga dois dias após a noite de filmes, preocupando-a. Então, decidiu sair depois do almoço para ir até a casa da loira.

— Pai — chamou o homem — eu vou ir na casa da Catarina antes de ir ao cinema com o Alex.

— Claro, querida. — O homem concordou. — Leva o spray que eu comprei, para caso alguém mexa com você. Daí você corre.

— Você sabe que a Ana sabe lutar, né? — Eloá perguntou, debochando do irmão.

— Mas é melhor prevenir. — Ana riu do pai e concordou.

Depois do almoço, Ana se arrumou e seguiu em direção ao casarão da loira. Queria falar com a amiga e descobrir o porquê de não conseguir falar com ela há dias. Estaria brava ou doente?

Uma vez lá, bateu na campainha e foi atendida pela mãe de Catarina, dona Luiza, que sorriu ao vê-la. Cumprimentou a jovem garota e a chamou para entrar.

— Desculpa vir assim, tia Luiza. É que a Catarina não fala mais comigo há alguns dias. Eu fiquei preocupada. — Dizia enquanto entrava no hall da casa com a mais velha.

— Eu entendo, querida. — A mulher caminhou com ela em direção a sala de jantar.

— Quem está aí? — O pai, Isaac, de Catarina surgiu do cômodo. — Ana, minha filha, que bom ver você.

— Boa tarde, tio Isaac. Desculpa vir assim, sem avisar. — Desculpou-se mais uma vez.

— Imagina, querida. — O homem sorriu. — Já almoçou?

— Já sim. Comi em casa com meu pai. — Sorriu.

— Então vem comer a torta de morango que minha esposa fez, está maravilhosa.

— Eu aceito um pedaço. — Acompanhou os mais velhos de bom grado.

Ana Maya foi servida com um grande e gostoso pedaço da torta doce, especialidade da mãe de Catarina, dona Luiza. Os pais da loira conversavam com a menina, descontraídos. Como se não quisessem nada.

— Onde está a Catarina? — Ana perguntou, depois de uns instantes de conversa.

— Oh, meu bem — a mulher falou — a Catarina foi para um acampamento da Igreja. Não te contou?

— Não, ela não contou.

— Ela deve ter esquecido. — Issac disse e Ana estranhou. — Você está muito bonita, Ana.

— E cheirosa. — A mulher brincou. — Onde está indo? — A menina ruborizou.

— Obrigada. — Sorriu educada com os elogios. — É que eu estou tomando sorvete com um garoto há duas semanas. Eu queria contar para a Catarina que ele me chamou para o cinema, mas ela não está. — Disse tristonha.

— Seu pai sabe? — O homem perguntou, preocupado.

— Sabe sim, tio Isaac. Até me deu um spray para autodefesa. — Contou entre risos e os adultos riram. Conversaram por mais alguns instantes, até pararem em Catarina e começarem a perguntar coisas.

— A Catarina estava estranha ultimamente. — O homem falou com preocupação. — Ela te contou alguma coisa, Ana?

— Estamos preocupados. — A mãe completou. Estavam inquietos.

— Não, ela não me contou nada fora do normal. — Ana revelou. — Falou sobre o treino de ginástica que estava difícil, o celular novo que ela queria, roupas... Nada de diferente. — Revelou inocentemente, se esquecendo da revelação da homossexualidade feita pela melhor amiga.

Ana saiu de lá pouco tempo depois e, infelizmente, sem notícias de quando a melhor amiga voltaria. Isso havia desanimado a morena, que estava planejando há meses uma viagem as cachoeiras próximas a cidade com a melhor amiga. Estava com uma sensação estranha, mas ignorou, indo diretamente para seu encontro no cinema do shopping.

* * *

Três dias haviam se passado desde seu encontro no cinema. Ana Maya ainda não tinha nenhuma notícia da melhor amiga e suas férias estavam bem chatas, sobrando então, a opção de ajudar uma senhorita com sua lojinha de presentes. Era até divertido.

Era domingo de manhã e Ana Maya levantou cedo para se arrumar. Vestiu-se, tomou café, cumprimentou o pai e a tia, para logo sair de casa com sua bolsinha. Passou na floricultura e comprou um pequeno buquê de camélias brancas, seguindo para o cemitério da cidade.

Lá, após caminhar um pouco e avistar pessoas visitando túmulos dos amigos e familiares, Ana Maya finalmente chegou ao que queria. Sorriu ao ver os três túmulos alinhados lado a lado, lendo-os da esquerda para a direita: Marco, Maria e Marcela.

Marcela.

2000-2007.

Ana Maya admirou o túmulo da mais velha das crianças e seus olhos se encheram d’água. Retirou duas flores para Marco e outras duas para Maria, colocando-as no pequeno buraco em frente as lápides. O resto do buquê foi deixado para Marcela. Ana Maya sentou-se em frente a pedra, há um braço de distância e suspirou, profundamente.

— Oi, Marcela. — Ana cumprimentou enquanto encarava a lápide. — Quanto tempo, não é? — Sorriu. — Você faz muita falta. Penso em você sempre. — Mexeu nos dedos, incomodada. — A Catarina não pode vir hoje, ela... — A morena parou por um instante. — Teve que viajar. Mas, essa história está estranha, sabe? Ela nunca faz nada sem me contar. E viajar do nada assim, então.

Silêncio. Os pássaros cantaram das árvores, o sol apareceu e borboletas passaram voando.

— Trouxe camélias para você. Camélias brancas. Você sabe, eu pesquisei e descobri que um de seus significados é saudade. Achei bonito. Eu sempre confiro se está certo, para trazer flores boas para você.

Ana Maya viu crianças pequenas, ao longe, brincando de bola com os responsáveis, enquanto mães e pais visitavam túmulos de pessoas importantes. Amigos, parentes.

— Quando éramos pequenas — lembrou-se — prometi a você que sempre viria te visitar. Para sempre. — Ana olhou para a grama a qual estava sentada e respirou fundo, tentando não chorar. — É promessa de mindinho. Não pode quebrar. — Riu para segurar as lágrimas. — Eu não me lembro muito mais de você, Marcela. Só das fotos e gravações da escolinha. Mas, você foi a minha primeira melhor amiga e nós éramos muito garradas. — Uma lágrima escapou e Ana a secou. — Quando você se foi, pensei que ficaria sozinha para sempre. Todos os dias, eu pedia para uma estrelinha — que eu jurava ser você — não me deixar sozinha, porque eu sentia sua falta. E, daí, veio a Catarina. — Ana fungou e abraçou suas pernas. — Obrigada por honrar sua promessa e não me deixar sozinha, Marcela. Você é o melhor anjo que alguém poderia ter. — A jovem sorriu. — Preciso ir. — Disse triste, em meio a paz do cemitério. — Até mês que vem.

Ana Maya levantou e colocou a mão direita sob a lápide fria, como se estivesse despedindo. Nesse momento, uma borboleta azul e preta pousou na pedra e ficou. A morena sorriu, encantada. Talvez, fosse um sinal de alguém. Talvez, fosse Marcela dizendo que tudo ficaria bem.

Ana Maya sorriu, retirando a mão com cuidado e colocando ambas nos bolsos do casaco cinza e preto. A morena andou até a estradinha, quando olhou para trás e viu a borboleta, ainda no mesmo lugar. Uma leve brisa bateu e a bela criatura alçou seu gracioso voo, indo embora.

Algumas promessas, nunca são quebradas. Nem pelo tempo, nem pela morte...

— — —

Notas finais
Espero que tenham gostado da pequena história.

Beijos de luz! ♥♥♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!