Pink Cloud
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Sempre fui um tanto quanto problemática. Rebelde, chamavam- me meus pais quando dignavam-se a comparecer às reuniões que eram convocadas para discutir sobre meu comportamento. Porém, de minhas notas, nunca puderam reclamar, me esforçava para ser boa. Mas nunca admiti certas ordens e nunca levei desaforo para casa, odiava regras, ainda odeio. Garota problema, assim costumavam me chamar.
Meus pais nunca compreenderam meu comportamento, na verdade nunca me aceitaram. Eles não gostavam da minha personalidade forte e opiniões formadas, não gostavam da minha arrogância, não gostavam do fato de eu gostar de garotas, não gostavam da minha aparência. Você tem tudo o que quer. Tem tudo para ser uma garota perfeita. Por que tem de ser assim?, questionavam.
Sorte que sempre foram distantes, nunca ligaram, e, com isso, não costumavam interferir em minha vida, acho que sabiam que este direito não pertencia a eles. Não tenho uma lembrança de nós sendo uma real família. Meus pais tinham duas empregadas e um mordomo, e, quando eu era criança, também uma babá. Eles eram minha família.
Com dezesseis anos eu já sabia cuidar de mim mesma, sozinha. Então, eu me emancipei. Deve ter sido um alívio para meus pais saber que estavam livrando-se de um fardo quando assinaram o documento. Muito reconfortante. Meses depois, a mansão da família pegou fogo. Eles faleceram no incêndio. Tenho de admitir que não fiquei nem um pouco sentida com suas mortes. Encarreguei-me do velório, mas não compareci. Os antigos empregados foram.
Como já era a responsável legal por mim, e não tinha laços familiares, fiquei com toda a herança. Comprei uma ótima casa e quis trazer minha família de criação para morar comigo, não como empregados, mas como o que eram considerados por mim. As duas mulheres ficaram muito gratas, mas não aceitaram a proposta. O homem também não pôde, mas me visitava com bastante frequência.
Com dezessete anos, suas visitas restringiam-se a apenas feriados, em sua maioria. Hoje, com dezenove, não recebo visita alguma.
Gosto de ser solitária. A verdade é que não sei ser nada mais que isso. Me acostumei a não depender de ninguém. As pessoas não conseguiam alcançar-me, despertar o melhor de mim. Também não podiam fazê-lo. Me sentia vazia por dentro, sem poder oferecer nada de bom a ninguém. Vazia e perdida. Era tão fria e dura que as pessoas não se aproximavam. Ainda sou assim, acho. Nunca consegui me ater a alguém, nem que eu quisesse, coisa que na verdade ainda dispenso.
Já havia ficado com algumas garotas, mais por diversão mesmo. Já tive algumas amizades, nada que houvesse durado muito. As pessoas não conseguem me prender. Eu me canso rápido demais delas, me canso rápido demais de situações, me canso rápido demais de sentimentos.
Na realidade, eu não consigo interagir com mais ninguém. Sons me perturbam, sussurros, sendo mais especificamente. À noite quando estou na cama, de manhã quando levanto e me direciono ao banheiro. Já não como mais. Me sinto extremamente perturbada com as vozes, elas já não cessam. Vejo coisas. Coisas que não deveriam se reais, que não deveriam existir. Parece que estas coisas estão me perseguindo. Eu estou perdendo a cabeça totalmente. Preciso achar uma forma de adormecer meus sentidos.
≪ ✷ ≫
Encontrei no álcool uma forma de me desligar das alucinações, tanto auditivas quanto visuais. Mas depois que o efeito das bebidas passa, tudo volta, com a força de um tsunami que derrama-se em cima de mim. As vozes estão ficando cada vez mais altas, e parece que há mais delas. Tudo o que vejo a minha volta é indecifrável, não compreendo mais nada.
≪ ✷ ≫
Minha cabeça dói e já não tenho mais apetite algum. Já quase não consigo fazer minha higiene básica. Perdi totalmente a noção de tempo.
≪ ✷ ≫
Me sinto instável, como se a qualquer momento algo fosse me levar daqui. Minha mente está cada vez mais frágil, como se estivesse ruindo. Não sinto vontade de continuar. Não quero continuar assim.
≪ ✷ ≫
Descobri que tudo isso pode ter um lado bom, só precisei parar de retardar meus sentidos.
Ela me disse que está tudo bem. Que queria apenas me mostrar seu mundo, sua dimensão. Eu confio nela, pois, afinal, é isso que se faz com quem você ama, confia.
Ela é uma linda fada. Sua pele branca e transparente como um fino papel, deixa totalmente a mostra suas veias azuis e escuras. Ela é incrivelmente magra, as maçãs do rosto salientes em sua delicada face. Um par de enormes olhos azuis cobalto, que variam para um tom de roxo profundo e de um rosa radiante. Seu sedoso cabelo prateado, bate na metade de suas coxas. Suas asas são a coisa mais magnifica que já vi, a única presença de cores em sua pessoa, além de seus olhos. O par de asas possui uma variação das mesmas cores dos olhos, das cores do arco-íris, além de todas as outras cores conhecidas pelo ser humano, e mais, cores que nós não seríamos capazes de nominar.
A sensação de tocar em sua pele é quase indescritível. É como tocar em uma nuvem grande e macia, é como tocar nas penas das asas de um anjo, é como tocar no aveludado pelo de unicórnio.
Agora a sensação de tocar em suas asas translúcidas é algo que não posso explicar, não há palavras para descrever tal sensação. Além de dizer que é a melhor delas.
Era a criatura mais perfeita.
E eu havia me apaixonado por ela.
≪ ✷ ≫
Ela quer me levar com ela, para que possamos seguir juntas. Para que eu possa ficar para sempre com ela.
É claro que eu aceito e deixo-a me levar.
Não percebo onde estamos indo até que chegamos em uma nuvem fofa e cor de rosa. Vejo o céu azul e o sol brilhante daqui.
Ela diz que vai me ensinar a voar e que eu não preciso me preocupar, pois aprenderei rápido.
Ela diz que a única coisa que tenho que fazer e dar um passo a frente na nuvem e dar asas a minua mente. Simples, penso.
Então, eu o faço.
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