Piltover's Finest

22 Capítulo 20 - A Paz que precede a Tempestade


Notas iniciais
Tudo no mundo são ciclos. Ciclos que devem começar e terminar para que a vida siga seu fluxo, como deve ser. E, assim como ansiamos pela glória da Paz... É importante que saibamos ser forjados pelo fogo da Guerra.

O dia havia raiado, como afinal o Sol havia anunciado no horizonte poucas horas antes, mas desde então Vi não conseguira pregar os olhos para conseguir dormir, nem mesmo conseguia ficar quieta num lugar sem começar a tiritar os dedos sobre algumas superfície, ou andar para lá e para cá ou suspirar longamente de tédio... Estava ansiosa, puta que o pariu, morrendo de ansiedade pelo momentos em que as portas daquela maldi... bendita jaula se abririam e ela pudesse sair e traçar seu caminho de volta a Piltover... Mas o tempo, naquela deprimente manhã que falsamente prometera um dia radiante de sol, fechando-se sob nuvens cinzentas, névoa fria e uma umidade quase sufocante, não passava.

Enquanto isso, observava aquela tal curandeira, Soraka, que, em outro local da Escola, dentro de um Templo que não o seu, era capaz de passar horas a fio sentada, fazendo absolutamente nada...

...Ok, ok! "Orando".

A enforcer caminhou por todos os lados, observando aquela exímia construção que era a Escola do Transcendentalismo. De fato, havia salas que se assemelhavam à ideia de uma "escola" lá, muito embora não tivesse lousas, ou cadeiras, ou essas coisas típicas de uma sala de aula regular. Ao invés disso, havia almofadas para sentar-se sobre, havia espelhos d'água, pequenas mesas de uma madeira caprichosamente talhada, onde poderiam depositar-se livros para o estudo, escrita, desenho ou prece, e pequenos postes com uma luminária ou prato onde poderiam ser colocadas velas ou incenso... Tudo adornado de forma ao mesmo tempo rica e simples. Os inúmeros jardins que preenchiam os caminhos entre um templo e outro eram fascinantes e transbordavam uma aura de repleta harmonia e equilíbrio sereno da vida, enquanto aquele templo no qual a enforcer agora adentrava, peculiarmente grande, vazio e escuro, trazia uma sensação estranha...

Vi adentrou o enorme salão em formato de octógono. A iluminação escassa do local, somada às suas paredes escuras como breu, fazia parecer com que o Templo não tivesse barreiras; um sentimento intrigante de adentrar às trevas e perder-se no infinito, não fosse a pouca claridade observada lá fora, após a porta de entrada. Ela caminhava dentro do Vazio. O teto era segurado por enormes e imperiosas colunas do que parecia ser um mármore negro com veios prateados. Todo o salão era feito daquele escuro mármore azul-marinho quase negro, cuja cor distinguia-se apenas nos esporádicos pontos iluminados pela humilde chama de velas depositadas em pratos dourados, presos por cordões também de ouro às paredes e pilastras. Tudo distribuído tão aleatoriamente, tão diferente da simetria ou da fluidez que se via nos outros templos, tão destituído de um padrão, porém tão... igual. Não de uma maneira ruim ou monótona. Mas era engraçado haver tanta aleatoriedade e tantas diferenças dentro de um simples templo enorme, escuro, porém com alguns pontos de luz.

No centro dele, no entanto, a ruptura com aquele vazio infinito.

O ser de pele arroxeada e longos cabelos brancos sentava-se, ajoelhada, no chão, sobre uma fina e singela almofada vermelha com contornos dourados. Seu cetro repousava no chão, enquanto à sua frente estendia-se um pano alaranjado cuja textura aparentava ser o céu ao ser tocado, com uma série de pequenas peças peculiares espalhadas sobre ele e iluminadas por um pequeno castiçal de vela única. Mexendo vez ou outra com aqueles materiais e sussurrando coisas quase inaudíveis, de cabeça baixa, Soraka parecia meditar...

Observou-a, tentando entender direito o que era aquilo por alguns segundos... Mas então, novamente impacientando-se, Vi começou a caminhar também para o centro daquele local. ...chegou. Tá. Sondou um pouco o que é que a curandeira fazia, porém sem ainda conseguir entender nada. Sentou-se. Soraka não mexera nem um dedo. Decidiu que tentaria fechar os olhos e meditar também... ... ...abriu um olho e espiou se a mulher roxa tinha feito algo de diferente. ...Bah; meditação não era pra ela! Um tanto aborrecida pelo tédio, a rebelde passou a mão nua através da chama da vela. Ops! Não queimou... De novo; ops! ...repetia aquele simples gesto idiota de novo e de novo, finalmente parecendo encontrar algo minimamente interessante para se ocupar naquele meio-tempo...

A chama da vela tremulando a cada vez que a mulher passava sua mão através dela interferia na forma como sua luz recaía sobre aqueles itens queridos de Soraka, com os quais ela praticava algum tipo não de ritual, mas de costume pessoal, naquele templo. A luz serpenteava, piscava ora mais intensa, ora mais apagada, os objetos reluziam de forma diferente, e o ínfimo som do vento sendo cortado quando Vi mexia sua mão rapidamente em direção à vela finalmente começaram a cutucar como um pequeno incômodo a atenção de Soraka... Ela respirou fundo... Aquilo não cedia. Lenta e contrariadamente, abriu um pouco um olho e mirou-o na mulher de cabelo rosa, repreensivamente. Ela não vira e continuava...

– ...Você está interferindo no fluxo de energia dessa sala.

– O que? — ela realmente fora meio que pega de surpresa por aquilo; não entendera logo de cara o que a maga queria falar. Então olhou para o fogo e percebeu o que fazia. — Ah. Isso?

– Sim; a luz da vela também faz parte do ritual, você está causando uma perturbação nela, pode parar, por favor? — com apenas um olho aberto, Soraka observou Vi recolher a mão e levantar ambas abertas do lado do corpo, erguendo as sobrancelhas como se dissesse "Tá bem! Tá bem.". A mulher enfim colocou-se também ajoelhada, ao lado dela, e Soraka pôde então finalmente cerrar mais uma vez os olhos, diminuir o ritmo de sua respiração, esvaziar a mente, acalmar as batidas de seu coração...

– ...Mas, afinal, o que é isso que você está fazendo?

Soraka respirou fundo e segurou o ar por alguns segundos...

– Quer dizer... É algum tipo de ritual, não é? Por que nesse templo? O que ele é?

...mas então, soltou-o novamente, num lento e calmo suspiro. A filha das estrelas abriu os olhos, puxou o castiçal e o tecido com os utensílios, colocou-os entre ela e Vi e então, encarando aquela situação como uma oportunidade de treinar sua paciência, virou-se da posição em que estivera ajoelhada para agora estar colocada frente à piltoveriana. Suspirou.

– Está bem. Você sabe o que é isso? — ela pegou, sobre o tecido alaranjado, um pequeno objeto dourado com uma curta haste, que logo se bifurcava em duas outras paralelas, num formato de U.

– ...Ahn... Uma forquilha? Ou sei lá; de repente, se você fizer dois furos nele e prender num interruptor, dá pra usar de alavanca...

– É um diapasão.

– ...Hum. — respondeu monossilabicamente após um curto silêncio. "Tá... E daí?..."

– Você não faz ideia de pra que isso serve nem como funciona, não é?

– E isso lá tem jeito de funcionar? — Vi sentiu o olhar de Soraka cair sobre ela quase como aquela tal pedra na mina de cristais, mas suportou-o com uma firmeza e um olhar quase displicente... Porém, a curandeira mudou novamente de tom, buscando reencontrar a serenidade que era capaz de alcançar em sua solidão. "Paciência..."

– O aspecto deste templo geralmente "espanta" muitas pessoas que o veem, mas não conhecem seu significado. Ela se sentem desconfortáveis com o escuro, com este enorme espaço desocupado e até mesmo com o silêncio eterno que peculiarmente toma conta da atmosfera quando alguém se coloca no meio dessas paredes. Isso já rendeu muitos nomes populares, fictícios, para esse templo. "Templo do Vazio". "Templos do Caos". "Templo da Morte"... — uma breve pausa se fez, e Vi percebeu-se observando as paredes imperiosas à sua volta com um certo receio... Um sopro gelado peculiar percorrendo sua espinha... — Todos equivocados, na minha opinião, mas as pessoas que dão estes nomes não têm culpa de fazê-lo. Apesar do equilíbrio e harmonia que buscamos constantemente em Ionia, ainda é um sonho distante nossa busca pelo Transcendentalismo... Talvez porque nós ainda não aprendemos a lidar com nossas próprias falhas. Nosso próprio vazio interior.

– Esse lugar é realmente estranho... — a enforcer afirmou com um singelo calafrio e um olhar cauteloso ao redor das grandes muralhas de mármore. Soraka simplesmente relevou aquela afirmação da outra e prosseguiu.

– Entretanto, o verdadeiro poder deste templo não está na magnitude aparentemente assombrosa que ele possui... Mas sim em sua misteriosa simplicidade. — a mulher, num pequeno gesto com sua mão, mostrou o ambiente em volta. — Vê? São apenas paredes e velas, em arranjos diferentes. E, ainda assim, é capaz de nos deixar... maravilhados. — ela falava com um brilho reverenciado no olhar. Aquele lugar tão "não-atraente" para outros inspirava-a um sentimento de sincronia com tudo que existia verdadeiramente intenso e reconfortante... "...Quase como estar entre as estrelas...". — ...É como o universo. Tão imenso,imponente, infinito...

– E, ainda assim, composto simplesmente de diferentes arranjos das mesmas peças. Como este templo.

Soraka virou-se subitamente para a lutadora, um tanto quanto surpresa com a constatação tão rápida que a outra fizera.

– Sim. Exatamente como ele...

O ser místico observava amistosamente a outra que começava a tatear os mistérios daqueles templos de Ionia. Vi de fato não era o tipo de pessoa que refletia muito sobre as coisas em geral... Mas aquela simplicidade humilde de sua natureza permitiam-na enxergar além de ritos seculares majestosos e tradições protocoladas a serem seguidas à risca... Nada disso. Simplicidade. Parecia ser a verdadeira chave para olhar além do mundano e enxergar o que era verdadeiramente belo. Com um discreto sorriso de aprovação esboçado em seu rosto agora menos austero e mais gentil, a Filha das Estrelas não pôde deixar de imaginar a possibilidade da lutadora de Piltover decidir ficar mais tempo em Ionia, desenvolvendo suas técnicas de combate e aprendendo o caminho da iluminação dos monges... Certamente a moça tinha uma alma esfuziante, aquela essência poderosa e cheia de vontade de viver e devorar o mundo, precisava apenas ser polida e treinada para alcançar o sublime... Porém já estava decidido, muito antes dela chegar, que seu destino pertencia em Piltover. As estrelas já haviam marcado. Desfazendo-se de seu devaneio, Soraka decidiu então prosseguir apenas mais um pouco com o ensinamento, para poder então concluir sua resposta à pergunta "O que você tá fazendo?".

– Tudo o que é sensível, neste e em outros mundos; tudo o que pode ser dito, ouvido, visto, provado, cheirado ou tocado, é feito, no seu íntimo, da mesma matéria. E as transformações pelas quais estas coisas passam; uma fruta que amadurece, o envelhecer de um ser vivo, a pedra que cai do penhasco, as mudanças nas estações... Tudo isso é o fluxo constante da energia que existe permeando tudo o que vive. Ondas. Você sabe o que é água porque todos os seus sentidos vibram numa frequência única e específica, que você aprendeu a sentir e identificar como "água". O Universo também possui isso, Chæmp̒. Essa vibração. E se nós conseguirmos acalmar o fluxo da nossa energia, nos concentrar e acalmar as batidas de nosso coração; se conseguirmos escutar o som singelo e divino que o Universo produz, o som primordial, e conseguirmos sincronizar nossas vibrações com as dele... Então é como se a Matéria não existisse. E assim, nos tornamos um com o Universo.

– ...Hah. Quando você diz isso, eu imagino me derretendo e virando bolha de sabão...

– Haha, não; pelo menos não que eu já tenha visto algo assim acontecer com quem medita... — riu levemente. — Bem, piltoveriana... — ela tomou novamente nas mãos o utensílio dourado que havia mostrado à enforcer no início da conversa.

– Diapasão. — a de cabelos rosa prontamente proferiu, lembrando-se do nome daquela... coisa.

– Sim. O diapasão é capaz de produzir um som único que serve de orientação para que outros sons se sincronizem e igualem. Devo dizer que vocês, humanos, às vezes me surpreendem com sua criatividade para a criação, muito embora não cheguem, muitas vezes, a realmente explorar a utilidade do que criam... Bem, o diapasão... — Soraka fez uma pausa um tanto pensativa... — Melhor: feche os olhos. Esvazie sua mente de tudo o que puder imaginar e respire com calma...

– Olha, roxa do chifre, se você me assustar, eu te mat...

– Shhh! Não vou, acredite; agora fique quieta. — Vi fechou os olhos e tentou relaxar os músculos sempre tão tensos nos ombros... A sacerdotisa moveu cuidadosamente o diapasão. — Agora relaxe... ouça... e tente sintonizar com as batidas do seu próprio coração...

Levemente, a mulher bateu a peça no piso duro e liso de mármore negro, e então levou-a ligeiramente para próximo do ouvido da outra, para que escutasse. A rebelde de cabelos rosa ouviu de início um som agudo e monótono quase irritante, mas então o som foi afastando-se... gradualmente... enquanto Soraka afastava o diapasão... e, ao mesmo tempo, de forma quase surreal, o som que ia ficando cada vez mais grave parecia começar a se espalhar pelas paredes do templo, como se o imenso espaço vazio reverberasse também aquele mesmo tom sóbrio, austero e penetrante, com cada vez mais força, como se, de repente...

...Como se, de repente, o templo estivesse... respondendo... ao som do diapasão.

As duas mulheres, de olhos fechados no centro daquela vastidão escura e quase silenciosa, deixavam a atmosfera as envolver. O coração se acalmava... A mente, vazia, leve, flutuava como se nada sólido existisse... de dentro de si, aquele mesmo som, o som primordial, parecia vir também... como parte do seu ser. Parte de sua alma. Parte das batidas quase inaudíveis de seu coração... Reverberando na mesma frequência daquele som que elas... sentiam. E, aos poucos, tudo começava a se alinhar.

Para a perdida Filha das Estrelas, tão irreversivelmente distante de sua casa e de suas irmãs, aquele momento de meditação profunda ao qual ela se permitia era sempre de um sentimento sublime... pois poder sentir-se novamente parte do Universo... era como poder estar momentaneamente de volta à casa. Mesmo que não As ouvisse. Mesmo que não mais pudesse falar com Elas...

Vi experimentava com deleite e um ligeiro espanto maravilhado aquela mesma sensação. Não tinha noção de seu corpo. Não tinha noção do espaço ao redor... Só sentia o ritmo de sua respiração, lento e sereno, como se estivesse sincronizado com uma frequência milenar que se repetia infinitamente desde o início longínquo e incalculável de tudo... Era de fato... inexplicável. Inexplicavelmente bom. Seu corpo cedia, e ela parecia, cada vez mais, permitir-se imergir naquele estado de concentração, deixando-se levar, como se boiasse num oceano negro, e então começasse a se deixar... cair. Afundar... Espere... Não.

"Não vá, Vi!... Por favor; pelos céus..."

Ela... ela não queria mais. Não queria mais aquilo, não queria mais afundar, não queria mais...

"Não, não; por favor, não vá!!!"

Subitamente, a inércia transformou-se em desespero, num desespero angustiante, como se o oceano negro que antes a acalmava agora começasse a fazê-la agonizar com medo de não encontrar de novo a superfície...

"Eu não quero mais isso. NÃO QUERO MAIS ISSO!"

– NÃÃO!

~¨~

– AAAH!!

– O que foi isso?!

– Caitlyn acordou. — Elle respondeu a um Johan que de repente havia se assustado. A menina havia acordado com um pequeno grito, mas no estado de alerta um tanto sonolento no qual o velho se encontrava, foi o suficiente para fazer seu coração bater um tanto mais depressa.

– Obrigado, Elle. Vou vê-la. — o velho levantou-se da poltrona grande de couro do gabinete onde a equipe da polícia se reunia agora, ainda no prédio do Conselho, e foi ao cômodo ao lado, onde deixara Caitlyn dormindo no sofá na noite anterior. — Bom dia, xerife. Como se sente?

Caitlyn olhava ao redor para a sala pela qual havia passado antes de ir à varanda passar a noite velando e pensando no que acontecia em Ionia... Pelas suas contas, havia caído, derrubada pelo sono que se acumulava, na própria varanda, sem ter voltado para dentro ou sequer arrumado um sofá tão confortavelmente como se via deitada nele agora. Seu coração disparado já se acalmava, embora a respiração ainda fosse levemente ofegante e um certo brilho de suor fosse observado na raiz de seus cabelos.

– Eu... não sei, Johan. Me assustei dormindo.

– Percebi... Você acordou gritando...

– É, mas é como se... — ela não entendia o que era aquilo que sentira de repente... Muito menos fazia ideia de como explicar o que era. Ela só... estava assustada, mas, ao mesmo tempo... — Johan... Vi está... — o velho oficial ficou aflito... Céus, o que seria agora?... O que Caitlyn iria... — ...ela está viva.

O homem espantou-se. Fez-se um longo silêncio, com a xerife numa expressão estranhamente pensativa enquanto Johan a observava, inexplicavelmente pasmo e boquiaberto.

– Ela está viva, Johan, sabem-se lá os deuses como, mas eu sei, ela está!

– Ora, isso... isso então... é algo bom.

– Bom?! — a mulher tirou o cobertor que a cobria e levantou-se, de repente num ânimo que o velho mal conseguia imaginar que a veria novamente. — Johan, isso é ótimo!! É ótimo, senhor, e você não tem ideia do quanto! Haha!

Animada, ela se levantara, tomara o oficial gordinho pelos braços, obrigando-o a levantar-se da cadeira e dançar uma breve valsa sem música com ela... A música não era mesmo necessária... Apenas poder ver novamente o sorriso e a vida em sua protegida já faziam o coração o velho se animar a seguir aqueles passos joviais e lépidos, onde a xerife exibia-se, de repente, bela dançarina...

– Hahaha! Temos algo a comemorar então; algo a comemorar!

– Com certeza! Onde está Barthrax?! Preciso falar com ele... E Andrès! Ele precisa imediatamente entrar em contato com Ionia de novo e...

– Espere, espere, um pouco de calma também, xerife. A correspondente de Andrès em Ionia já disse que só conseguiremos saber o resultado quando os portões da Escola do Transcendentalismo forem abertos de novo... E isso só vai acontecer por volta de amanhã. E, enquanto isso... desculpe te lembrar destas coisas, Caitlyn... mas Piltover ainda precisa de soluções. Soluções rápidas e soluções drásticas...

A mulher parou, pensando naquilo que ele dizia. Era verdade, muito havia ainda que ser feito para garantir ao menos a segurança dos sobreviventes da cidade...

– ...Tem razão, oficial... Eu vou retomar os trabalhos quanto a isso e tentar resolver logo, da forma que pudermos, a situação da cidade... Mas deixe a equipe pronta. Pode? Eu... — ela suspirou. — ...assim que puder, eu quero voltar a Ionia. ...Eu prometi que não a deixaria mais sozinha...

– Compreendo perfeitamente, xerife. — o velho fez uma mesura respeitosa à sua chefe, batendo continência antes que ela se virasse para sair e retomar a chefia...

– Ah sim; Johan?

– Diga.

– Foi você quem me trouxe para dentro? — o velho guardião oficial da filha do xerife deu de ombros com uma expressão indiferente. "Quem sabe?..." — Hum. — "Obrigada."

~¨~

– NÃÃO!

– ACALME-SE, ACALME-SE; LUTADORA! — concentrada como estava em sua própria meditação, Soraka demorou a perceber que algo ao redor começara bem, mas acabara enviesando por algum caminho errado no meio do trajeto... e agora Vi estava começando a sair do controle, eufórica e perdida entre sua realidade desperta e a meditação. — VI ACALME-SE, ACORDE!

– AARGH! — ela abriu os olhos rapidamente, com todos seus sentidos retornando ao mesmo tempo e fazendo-a sentir-se tonta. Estava assustada. Era possível ver seu peito ofegante mover-se marcadamente conforme buscava por ar com avidez.

– Céus... mas o que aconteceu?

– Era... era... — Vi passou uma mão pelo rosto, como se limpasse-o, e falava num tom verdadeiramente assustado e com um toque trêmulo que era MUITO atípico dela... — Eu... ...era como a sensação de morrer, Soraka... Era... era exatamente...

Arregalando levemente os olhos, como se lembrasse de algo importante, Soraka compreendeu o que havia acontecido... Ela também já havia passado por isso, mas no caso, para Vi, ainda era uma experiência muito recente... enfrentar o limite entre a vida e a morte.

– Shhh, calma. Sem problemas. Eu imagino o que você tenha sentido, um certo... medo. De passar por isso de novo... e de não conseguir voltar. A Morte faz parte do grande ciclo das coisas, mas sequer pensei que lembrar-se dela poderia te afetar dessa forma... Peço perdão.

– Tudo bem... É só que... — fez uma breve pausa... e então levantou-se, determinada. — Eu ainda tenho muito a fazer. Realmente, muito com que cumprir. Com quem cumprir. E eu não posso quebrar essa promessa... — começou a caminhar para fora do templo. Já na porta deste, virou-se para a mulher que a ajudara tanto nos últimos dias. — Amanhã o templo se abre... e eu volto para Piltover, Soraka.

– Terá minha ajuda, Chæmp̒.

~¨~

– Argh, céus! Ainda bem que já estamos chegando nesta porcaria de ilha; o que aquele capitão maldito fez em vida pra cheirar TÃO mal depois de morto?!! ...Blergh!

Sarah subia dos porões de seu navio para o convés buscando tomar um pouco de ar lá fora, onde a brisa forte do mar soprava por trás de suas velas, fazendo com que o barco corresse como nenhum outro rumo ao seu destino. Estavam em alto-mar já há dias desde que a capitã capturou sua última presa numa cidade costeira de Valoran, e rumavam ainda para Ionia a fim de reclamar a recompensa pelo criminoso... mas o corpo em decomposição do cadáver parecia desta vez querer ser especialmente desagradável a seus captores... Jogado no porão do navio, distante de todos (e principalmente do suprimento de comida), dois dias após a morte começara a exalar um cheiro pútrido que incomodava os marujos que trabalhavam nos andares inferiores do navio. "Salguem o corpo para que não se deteriore!", a capitã ordenou, e assim fora feito. Entretanto, como se fizesse birra por ter sido tirado de sua vida tortuosa de crimes e prazer vulgar mais cedo que o esperado, o capitão morto não deixou de importunar os tripulantes da embarcação, espalhando morte e podridão por todo o navio...

Zonza, encostada na mureta da proa enquanto livrava-se da memória do cheiro ruim, sequer percebeu a garota que se aproximava.

– Aah... aaah... Pelos mares, Capitã; estou seriamente considerando pular para fora do navio e seguir minha jornada nadando se for preciso, mesmo que demore outro século... — a sereia falava com uma expressão peculiarmente... "marejada". Não, não, acho que "enjoada" faria mais jus. Seus olhinhos de âmbar eram semicerrados e perdidos, e ela andava um tanto torta para lá e para cá, como se cambaleasse pelo convés. — Eu apostava minhas barbatanas que pés eram a coisa mais nojenta que eu podia vir a conhecer em terra firme, mas oceanos! Vocês conseguem fazer pior!

– Ei, ei, ei! Xiu, você, lagostim. Cheiro de peixe também não é nem um pouco essas coisas e não tem ninguém reclamando.

– Bah, vocês sequer sentem cheiro de peixe morto; pescam-nos, fritam e já devoram na hora! ...horror.

– Pare de graça, Nami. Nós paramos com o consumo de peixe desde que você entrou para a tripulação... e ficou enchendo o saco com "peixe não pode", "oh não, as famílias do mar vão morrer de tristeza", "mimimi peixes"!

– Aham, pararam... E aquele baiacu que você insistiu que estava morrendo de vontade de comer com rum?!! Hã?!

– Ora... Uma mulher também tem direito às suas vontades... Huhum.

Nami revirou os olhos e meneou a cabeça negativamente, expressando sua pequena revolta com aquela ousadia da capitã em ter vontade de comer... peixe. Eca! Sarah sequer se importou; ajeitou os belos cabelos ruivos enquanto ria levemente daquilo, daquela peculiar tripulação... O vento batia e ela sentia os respingos frescos do mar tocarem seu rosto... Ah... Não conseguia imaginar outra vida melhor que aquela para desejar.

– Capitã! — Geryon chamava do timão. Sarah subiu as escadas para o segundo andar do convés, indo onde estava seu marujo. — Como vai com o presunto lá em baixo?

– Argh! Não chame aquela escória pútrida de "presunto" senão eu nunca mais como carne na vida...

– Haha! Está bem... Fazendo os preparativos para a próxima caçada já?

– Sequer pensei nisso, para falar a verdade, Geryon... E, francamente, acho que deixar de improviso adiciona uma pimentinha a mais no tempero; acho que as coisas ficam deveras mais... interessantes. — o marujo observou de esgueira o sorriso felino que se formava no rosto astuto da capitã...

– Eeeeh... Da última vez que você disse isso eu terminei vestindo um saco de estopa em volta da cintura, com um grilhão no pescoço e lutando com uma espada roubada de uma odalisca pra te salvar da guilhotina enquanto você estava com um bigode falso e vestindo as roupas de baixo da filha do governador de Demacia...

– Aaaai, que coisa! Já falei que teria dado certo se não fosse o idiota mulherengo do Twis... ...Quer saber? Foi MUITO divertido no final das contas e você não pode negar, Geryon. — ela cruzou os braços e ficou a observar o mestre do convés, esperando uma reação dele.

– ...Ok, ok, foi divertido! Heh. Mas foi uma enorme loucura. — a capitã sorriu vitoriosa. — Bem, mas não era exatamente isso que eu ia dizer a você. Estamos nos aproximando de Ionia; talvez em algumas horas já avistemos terra firme.

– Ora, ótimo, perfeito, marujo. Agora vá dar uma volta pelo navio, veja o que os outros estão fazendo... Passe o timão para cá; quero guiá-la até o nosso destino! Hah! Está um dia fantástico para navegar hoje...

~¨~

"Relatório de Reporte ao Alto Comando Militar de Noxus

Saudações, Primeiro General. Generais adjuntos.

Chego hoje ao fim de minha primeira semana de observação sobre nossa colônia recém-conquistada na costa da cidade-Estado insular Ionia. Devo dizer que esperava um território conquistado de maiores proporções, tendo em vista as aquisições anteriores de nossa gloriosa cidade-Estado, mas li os relatórios escritos pelos generais que estiveram aqui antes de mim, participando da ocupação da ilha, inclusive o trágico relato do general Darius sobre o caso da desertora, uma indesejada mancha na reputação impecável de nosso exército que, com tempo suficiente, tratarei pessoalmente de lavar... Enfim, compreendo o que tenha acontecido para que a colônia seja tão diminuta.

Entretanto... Não pude observar a tal sanguinolência do povo local tal como alguns generais a descrevem em seus relatos. Ao contrário; parecem-me mais as cidades campesinas das histórias, com meros camponeses e monges alternando seu tempo entre trabalhar até o sol se pôr e orar até o sol raiar. Sequer parecem ter qualquer coisa que lembre um exército, mesmo um pequeno exército de resistência. São tão pateticamente fracos que sequer sustentam o olhar de nossos soldados ao falarem com eles. Baixam a cabeça e falam aos sussurros, resignados em sua condição, e não respondem agressivamente nem mesmo quando os soldados são rudes e agridem um dos seus... Não entendo como pôde haver uma guerra tão notável com tal povo, muito menos como uma monja pertencente a nenhuma casa de grande mérito conseguira erguer, do nada, uma resistência "tão temível"... Mas não questiono a veracidade dos relatos de meus antecessores.

Sobre a colônia: é até muito positivo que estes conflitos tenham sido isolados. Grande parte da infraestrutura local está intacta e o povo é uma força de trabalho a se considerar, de forma que Noxus não demorou ou teve dificuldade alguma para montar seus entrepostos militares e comerciais na costa. Dois terços do entorno da ilha estão sob comando noxiano, o que representa que temos domínio sobre toda a porção marítima "utilizável". Por consequência, mesmo que pareça redundante, isolamos a ilha dentro de si mesma: tudo que entra ou sai de Ionia deve ter o conhecimento e a permissão noxiana para que aconteça. Assim, mesmo que a faixa ocupada por nossos exércitos seja vergonhosamente estreita, consegue exercer uma subjugação política considerável sobre a outra grande parte considerada "livre" da ilha. Os representantes das famílias que compunham a Cúpula responsável por administrar Ionia visivelmente não estão nada felizes com tal situação, mas preferem ocupar-se mais no cuidado de seu povo do que com novas investidas de guerra. De fato, ao encontrar-me com um deles, uma mulher chamada Irelia, percebi sua insatisfação e o fogo da vontade de lutar ardendo dentro de seus olhos, mas a matriarca apenas manteve uma conversa civilizada com uma alfinetada ou outra ao governo de Noxus. Fica claro como exercemos certa... influência sobre toda a ilha, huhum. Como costumo dizer: violência resolve tudo. E os ionianos pareceram entender bem o significado disso.

Enfim, termino meu relato desta primeira semana com saudações ao Alto Comando em nossa capital e a promessa de seguir com minha missão com mãos firmes e lâminas afiadas, mantendo a ordem na nova colônia sob meu desígnio.

Fortes fortuna adjuvat.

Mme. DuCoteau"

~¨~

"Céus... Será que a experiência de quase morte é capaz de dar esse apetite pra esse ser?!"

Soraka observava, petrificada e ligeiramente boquiaberta, com sua humilde tigela de sopa em mãos, um ser afobado, esbaforido, agarrando para si tudo o que fora servido na suntuosa mesa preparada para o jantar, segurando desastrosamente frutas, cachos de uva, pedaços enormes de pão, um garfo com uma batata gigante assada inteira, maçãs, peras, com um cordeiro assado à sua frente e uma bem servida taça de uma bebida peculiarmente deliciosa e exótica ao seu lado, enquanto devorava com voracidade a última coxa do lagarto ancião servido à mesa, especialidade regional de Ionia e preparado pela curandeira especialmente para a comemoração daquela última noite no Santuário...

"Quando eu disse que existem uma parte do Vazio também dentro de nós... A parte dela COM CERTEZA deve estar localizada no estômago. ...Pra onde vai tanta coisa?!"

– Ei! *NHAC! CHOMP! CHOMP! CHOMP!* Você! Roxa! *CHOMP! CHOMP!*

"Oh não, deuses, o que eu faço?! Ela está olhando pra mim... Não se mexa; movimentos leves... Senão é capaz dela te comer também."

– ALÔ-Ô! *CHOMP! CHOMP... GLUT! NHAC! CHOMP! CHOMP!* Soraka, acabou aquele molho de hortelã daora que tinha aqui?

– Não, ainda deve ter um pouco na minha tigela... Pode pegar... — ela estendeu o braço calmamente... oferecendo um pouco do conteúdo de sua tigela à outra que parecia sequer ouvir falar de comida há séculos. "Com cuidado e seu braço volta intacto", pensou enquanto via a jovem de cabelo rosa mergulhar a coxa de lagarto numa pocinha de molho de hortelã que ainda restara. — ...Você trabalha para a polícia de Piltover?

– *CHOMP! CHOMP!* Hum... Acho que não. *CHOMP! CHOMP!*

– Mas, se trabalhasse, ganharia vale-refeição?

– Deve ser; sei lá como é que aqueles caras se viram. *NHAC!*

– Faz sentido eles não terem te recrutado... Não tem por quê proteger os cofres da cidade; já vão ter gasto o dinheiro só no seu almoço...

– EI, EI, EI! Eu gasto energia pra cacet... MUITA energia ao longo do dia, por isso posso me alimentar bem. — virou o rosto, numa teimosia soberana e orgulhosa... e continuou comendo; céus, aquilo era muito bom! Como é que nunca tinha provado a culinária ioniana antes?!! Já um pouco desfeita da surpresa de ver a capacidade de Vi em abocanhar tudo aquilo, Soraka suspirou delicadamente.

– Está bem. Tanto faz... Mas, sobre você deixar Ionia amanhã... Ah! Quase me esqueci de lhe devolver isso!

Subitamente cortando o raciocínio que começava a construir, Soraka levantou-se de sua almofada junto à mesa baixa onde jantavam e saiu em disparada para algum lugar dentro de seu Santuário particular. Curiosa e com a boca cheia demais para perguntar o que acontecia, Vi inclinou a cabeça para trás para tentar observar o que a curandeira buscava lá dentro, mas só o que pôde perceber fora o som característico dos cascos da outra batendo freneticamente contra o chão enquanto ela caminhava rápido. "Mas o que será que..." Segundos depois, Soraka retornava arrastando dois gigantescos cestos de vime que pareciam pesar cada um uma tonelada pela forma como a mulher os arrastava com certa dificuldade pelo chão. E fora assim, aos trancos e barrancos, arrastando-os até estarem então parados do lado da mão livre de Vi.

– ...O que é isso? — a enforcer indagava, olhando desconfiadamente para aqueles cestos sem sequer imaginar o que guardavam.

– Ora, descubra por si mesma! Coloque uma mão lá dentro. Vamos, vamos! — a mulher de pele roxa parecia inesperadamente exaltada. Hum... raro e estranho, mesmo conhecendo-a há tão pouco tempo, ver Soraka agir assim... Com uma sobrancelha erguida, ainda desconfiando do que poderia acontecer, a lutadora lentamente enfiou uma mão por dentro do buraco no topo de um dos enormes cestos de vime... Mexeu um pouco... E então seus olhos, de repente, se arregalaram com um brilho surpreso e maravilhado, enquanto seu queixo caía numa expressão incrédula conforme ela mexia os dedos dentro do grande cesto... e os dedos gigantes de sua luva mexiam-se com eles!

– ...HAHA!!! FANTÁSTICO, ROXA!! Ah, cara; como é que você conseguiu isso?! — estava feliz em ter suas "amiguinhas" de volta.

– Deixaram aqui quando deixaram você. São suas, afinal... — Soraka deu tempo para que Vi "brincasse" mais um pouco com as luvas recém-recuperadas, mas então deu continuidade ao que havia começado a falar. — Vi, preste atenção agora: amanhã você pretende sair daqui e iniciar sua jornada de volta para Piltover.

– Sim... e eu já faço ideia do que você vai me dizer.

– Então você sabe... A costa de Ionia propícia à navegação está tomada por Noxus...

– ...e eles controlam a ferro e fogo tudo o que entra e tudo o que sai da ilha. Sei disso; tive que pensar nesse aspecto o suficiente pra arrumar as coisas de uma forma que eu não faça merda e seja descoberta enquanto eu fujo.

– Pois bem, então. Só queria informar que eu vou com você, acompanhando-a como havíamos combinado, apenas até uma parte mais distante do caminho à qual posso ir sem colocar Ionia em risco... — naquela fala, Vi pôde sentir o toque de receio da ioniana em repetir um quadro que marcou profundamente não apenas a ela, mas à história da ilha também. — Vou levá-la até a entrada da cidade portuária, e então você segue em frente como se fosse descarregar o conteúdo dos cestos de vime numa embarcação. Não se preocupe, eu já preparei os documentos para você passar sem muita dificuldade. E aí, quando for liberada para ir às docas descarregar a mercadoria...

– Eu pulo num navio e me escondo. — fez-se silêncio na varanda onde elas jantavam. O olhar firme e determinado de Vi encarava a expressão serena, porém decidida de Soraka. O jogo ia virar. Vi, calmamente, baixou a cabeça um pouco e depois levantou-a mais uma vez, num curto porém reverenciado cumprimento à outra. — Obrigada, Soraka. O que você fez por mim em tão pouco tempo aqui, em Ionia... Não há forma suficiente como eu possa te pagar por isso.

– Já te disse meu preço: viva com honra. É o que eu posso te recomendar, piltoveriana. — Vi assentiu com a cabeça ao ouvir aquilo e Soraka esboçou um sorriso verdadeiramente discreto. Naquele momento, entretanto, uma leve brisa soprou pela varanda, algo irrelevante para Vi, mas que fizera a Filha das Estrelas arregalar levemente os olhos, apurar os ouvidos e sentir um quase imperceptível calafrio subir-lhe a espinha... "A tempestade se aproxima, Soraka..." ...Era... como se ela pudesse ouvir algo muito distantemente lhe dizer... de alguma forma. Algo distante e invisível. Porém Soraka calou-se. Não havia por quê interferir na aura do momento experienciado por Vi. A espera. A ansiedade. A preparação. ...A esperança. — ...Voltemos a comer, então. Acho que você não vai provar de novo tão cedo a esplêndida culinária ioniana, pelo jeito... — ela disse, sorrindo, e recebeu um sorriso divertido de volta. ...mas Soraka estava alerta.

~¨~

Antes sequer de que o Sol levantasse, antes mesmo que os primeiros insetos começassem a preencher o ar com o ruído baixo de suas enérgicas asas, uma vela iluminava o cômodo dentro do Santuário onde a mulher se preparava, silenciosa e concentradamente, para o início de sua jornada. Vi vestia mais uma vez trajes ionianos, porém agora mais discretos, como as roupas dos monges camponeses. Teria que misturar-se na multidão e passar despercebida, algo que deixara de fazer já há muitos anos... A cada nova peça que vestia, mentalizava mais uma vez todo o plano que havia conversado com Soraka durante aqueles poucos dias. Era uma ansiedade... quase como a que sentiu antes de roubar os documentos de Jayce e fugir da delegacia em Piltover. Vestiu as calças largas e confortáveis, porém curtas que os camponeses que trabalhavam nas lavouras inundadas costumavam usar. Soraka proveu-lhe com peças de armadura possíveis de esconder entre as roupas, para o caso de uma eventual necessidade. Vi colocou as caneleiras e enfaixou-as na perna para escondê-las. Os protetores da cintura e do quadril simplesmente sumiam dentro das calças largas. Havia ainda uma peça de armadura para o tronco, feminina, da coleção pessoal da curandeira, que Vi vestiu sob a bata marrom-escura com simples adornos brancos que usaria para a fuga. Sendo a bata também um tanto larga, teve que segurá-la junto ao corpo com uma larga faixa amarrada à cintura, evitando que movimentos na roupa revelassem que ela vestia uma armadura. Levantaria suspeita de guardas noxianos se vissem aquilo, certamente... A bata tinha ainda a manga peculiarmente longa e larga, porém nada muito fora do comum. Mas havia uma função naquilo: impedir que reparassem nas mãos da enforcer enfiadas dentro dos grandes cestos de vime onde estavam guardadas secretamente suas luvas. A manga cobriria toda a parte superior dos cestos, parecendo então que ela os segurava por uma alça talvez. E, por fim, uma longa capa com capuz. "Proteção do frio" para aqueles que viajavam cedo na madrugada. Proteção dos olhos dos guardas para que não suspeitassem daquele rosto que não deveria estar lá.

– Está pronta? — ouviu, de repente, uma voz que vinha da porta, tirando-a de seus devaneios. Virou-se e descobriu mais uma vez Soraka transmutada em sua forma humana, vestindo trajes simples como os dela. Mesmo assim, era bonita... Vi simplesmente viu-a e então ficara parada em frente à mulher que a observava da porta, fazendo um gesto com os braços como se mostrasse seu traje e pedisse uma opinião. Soraka riu levemente da situação e adentrou o cômodo. — "Vi de Ionia". Seria um nome sonoro para uma monja guerreira, mas acho que você surtaria se tivesse que meditar todos os dias.

– Hah! É... Acho que "a encrenqueira de Piltover" faz mais meu estilo mesmo...

– De fato... — um silêncio calmo abateu-se enquanto Soraka observava os detalhes na roupa da outra para assegurar que nada escapasse sem querer. Por fim, suspirou. — Bem, acho então que é hora de ir. A magia do selo sobre os portões da Escola logo será desfeita.

Vi concordou com a cabeça e Soraka assentiu num gesto semelhante, virando-se e caminhando para a porta enquanto puxava o capuz sobre a cabeça, cobrindo-a. A lutadora respirou fundo. "Espere só mais um pouco, cupcake..." Vestiu o capuz e saiu do quarto.

Nas docas os estivadores já chegavam, começando a levantar aquelas mercadorias de peso exorbitante para preencher os navios que partiriam logo pela manhã. Por incrível que pareça, não havia marujos bêbados jogados pelas ruas do porto e adormecidos em qualquer esquina ou beco; a disciplina noxiana na colônia recém-conquistada era enérgica e os soldados mantinham uma vigilância rigorosa sobre os estabelecimentos que vendiam bebida na região costeira. Qualquer ser que fosse encontrado vagabundeando por aí, perturbando a "paz" ou mesmo dormindo como um verme desgraçado poderia encontrar seu destino no punho cerrado e raivoso de um soldado mau-humorado ou qualquer oficial que julgasse correto punir o infeliz miserável que atrapalhava o progresso de sua colônia. Dentro dos navios ancorados no porto, já se via a movimentação de pessoas içando ou baixando velas, amarrando ou desamarrando cordas, escalando o mastro, esfregando o convés, movimentando cargas... E, em meio a tudo isso, a nau de Sarah Fortune adentrava as docas quase que acompanhando o movimento do nascer do Sol. O dia começava a brilhar e os raios do astro levantando-se no horizonte banhavam esplendidamente a capitã que vinha guiando seu navio, esquentando-a após uma noite amena no meio do mar.

– Geryon? — o enorme marujo, que acordara cedo mas agora caíra num leve cochilo no convés abaixo do timão onde a capitã estava, despertava de sua soneca ao ouvir a voz da chefe chamar-lhe. — Acorde a tripulação. Chegamos em Ionia e eu vou descer do navio para coletar a recompensa. Preciso que cuidem dela enquanto eu estiver fora. E vou querer sua ajuda pra carregar aquele corpo; aquele homem parece que pesa uma tonelada! — "E fede!" ela iria comentar, mas preferiu não fazer com que Geryon lembrasse disso agora. Ele não seria insubordinado a ponto de afrontá-la e decidir não aceitar a tarefa, mas a capitã não queria ativar aquela memória no marujo naquele momento. Preferia a esperança de que o corpo tivesse deixado de cheirar mal após ter sido salgado e tudo o mais.

Na caprichosa casa que os conquistadores da colônia haviam deixado para que os oficiais do Alto Comando noxiano se instalassem quando estivessem lá, a senhorita DuCoteau terminava já de tomar seu café. No fundo, não gostava daquele "luxo" e achava desnecessária toda aquela reverência em torno dos oficiais. O que era aquilo; estavam mimando-os? Hah! Logo isso vira Demacia desse jeito! Ela era uma soldada de Noxus. Podia pertencer ao alto escalão, mas mesmo estes eram também soldados a serviço da grande Noxus. E, sendo assim, Katarina achava que todo noxiano deveria ser tratado como tal, para assim não amolecer e não ser comprado pelos períodos de paz e nem pelo conforto. Acordara cedíssimo, como sempre, e lavara o rosto, olhando no espelho, como todos os dias, a enorme cicatriz que trazia no rosto. Servia-lhe. Servia-lhe bem para lembrar quem ela era e o que deveria fazer. Cumprir seu dever com Noxus sem desviar-se de seu caminho. Ela não iria falhar.

Os empregados começavam a caminhar de cá para lá dentro da casa, limpando, arrumando... Ela, sentada na mesa da copa com seu café já no final, observava-os. Havia ionianos no meio. Sempre fracos. Sempre cabisbaixos. ...Vermes. Lhe irritava aquela fraqueza deles. Às vezes sentia a vontade besta de arremessar habilmente uma de suas facas, acertando apenas um lugar qualquer próximo à cabeça de um deles para vê-los mortos de pavor, como os animaizinhos insignificantes que eram... Mas seu bom-senso e até mesmo um pouco de seu orgulho blasé não a permitiam tal excentricidade inútil. Ela era um soldado. Que agisse então seriamente, como tal.

– Copeira! — dirigiu-se seria e rispidamente à mulher que tirava da mesa a louça e os talheres usados. Ela prontamente focou sua atenção na patroa, na representante-mor do governo noxiano na colônia. — Mande chamar meus soldados para cá. Vou sair em seis minutos para começar minha ronda pela cidade e quero-os aqui prontos, despertos e devidamente equipados. Entendeu-me? — ela viu a mulher chacoalhar a cabeça ligeiramente intimidada. — Ótimo. Dispensada. — acompanhou a mulher sumir em direção à cozinha com seu olhar frio e certeiro. ...Não queria mais terminar o café. Depositou a xícara sobre a mesa e levantou-se num passo apressado, indo ao seu quarto armar-se de suas inseparáveis lâminas para então sair no exato minuto estimado para que seus soldados chegassem. Começava mais um dia. Mais um dia para servir a Noxus.

– COMO ASSIM "no máximo 20 moedas"?!! Eu tive que seguir esse traste desde a costa demaciana, quase; aguentar as investidas porcas dele, arrumar um jeito com o qual vocês pudessem fazer a identificação mesmo depois de ter estourado a cabeça desse cão sarnento infernal, carregar o corpo inacreditavelmente fétido que, pelos deuses, tornou a vida no meu navio quase insuportável, pra chegar aqui e ouvir que "no máximo 20 moedas" só porque vocês estão com "nojinho" de pegar ele?! NO MÍNIMO 850 moedas pelo esforço!

– Nós não estamos abrindo uma negociação, "capitã". — falava com displicência o soldado noxiano atrás da mesa, anotando coisas nuns papéis quaisquer.

– Ah, não? Pois me parece uma negociação anunciar um preço e, na hora, querer pagar outro. — ela insistia, determinadamente ousada e sem medo das caras feias daquele bando de pulhas que se achavam superiores por trazerem uma espada com o símbolo de uma cidade-Estado. Hah! Eles achavam que era o bastante?! Deixa eles conhecerem as minhas armas... — 850 é a minha oferta e é irreversível. A não ser que queira me pagar o valor do seu salário, já que sou eu que faço seu trabalho de caçar os criminosos por vocês, "soldado". — Ela agora havia cutucado o vespeiro sem dó, inclusive dando uma ênfase especial na última palavra com um toque claro de desprezo. "Soldado". "Pra você saber bem que está só na base da cadeia alimentar por aqui, trouxinha". Falara inclinando-se para a frente e com um sorriso orgulhoso enviesado, pra ter certeza de que o rapaz havia ouvido-a direito. Haha! Sarah Fortune não era especialmente vaidosa, mas era uma pessoa cheia de si e que não aceitava desaforos, isso não se podia negar!

– O que você está insinuando, senhorita? — de repente, o guarda parou de escrever, largou os papéis e a caneta-tinteiro na mesa, apoiou suas mãos sobre ela e começou a levantar-se lenta e irritadamente... — Eu posso simplesmente decidir não te pagar absolutamente nada e ainda fazer você voltar para o seu barco com um corpo morto... ou mais. — Sarah percebeu, ao redor, guardas que estavam mais distantes aproximarem-se discretamente; as mãos apoiadas sobre o cabo das espadas... Olhou de esgueira em volta, discretamente para não demonstrar um pingo de preocupação. Entrara ali de cabeça erguida e era exatamente assim que iria sair. Geryon, mais atrás, com o corpo, entretanto, claramente parecia começar a ficar exaltado. O soldado olhava-a com uma fúria expressa, seu ego havia sido atingido. Parecia que todos haviam congelado em suas posições: Sarah inclinada em direção à mesa, sentindo-se vitoriosa; o soldado do outro lado, levantado e com as mãos apoiadas na mesa, raivoso; Geryon preocupado, com o cadáver apodrecido apoiado sobre um ombro; e os outros guardas em volta, rodeando-os, com suas caras de bosta e prontos para receberem um sinal... A atmosfera estava tensa e Sarah sabia bem disso... Geryon, cautelosamente, aproximou-se dela para sussurrar.

– C-capitã... Acho que a negociação não está favorável no dia de hoje... — ela ouviu-o, e de fato aquilo estava certo, até ela concordava. O problema é que havia agora uma questão de honra ali no meio e ela não queria largar mão daquilo e "perder"... Suspirou levemente e sussurrou de volta.

– É, eu sei, marujo... Porém quanto mais formos abdicando do que é nosso por direito, mais eles se sentirão livres para dominar da forma que querem!... — falava aquilo de uma forma firme, no fundo indignada. Veja como Ionia foi tomada arbitrariamente; veja o que fizeram com... ... ...Bilgewater. ...Ela suspirou discretamente e então voltou-se para o soldado furioso, retomando sua postura. — ...Está bem. Estou vendo que este não é o melhor momento para uma conversa "amigável" entre colegas, soldado... — ela falava com a mesma soberania independente de sempre, porém com o gosto amargo de uma pequena derrota na boca. — Pegue o morto, dê o dinheiro e acabamos logo com isso.

Com um olhar IRRITANTE de "viu? vencemos", o guarda puxou um saco de moedas, abriu apenas para conferi-las, e então atirou-o sobre a mesa com desdém.

– Cem. É isso que você vale para Noxus, capitã.

VERME DESGRAÇADO FILHO DE UMA PUTA. Ao ouvir aquilo, Sarah teve vontade de jogar no chão aquela porcaria daquelas moedas; que se danem os guardas! Eles iam ouvir agora as suas armas negociarem a forma como aqueles desgraçados iam chegar no inferno! ...Porém, mesmo mordida de ódio daqueles noxianos, ela pegou o saco de moedas com raiva e guardou-o consigo, observando aqueles trastes ainda de cabeça erguida.

– Deixe isso aí agora e vamos embora dessa birosca, Geryon. Tenho caçadas melhores para me preocupar mesmo... — ela virava-se e saía andando, saindo ainda de nariz empinado para tudo aquilo. Vendo um quadro daqueles onde colocavam os novos serviços a serem feitos e pessoas procuradas, aproveitou para parar e dar uma olhada novamente na ficha daquela encrenqueira de Piltover da qual Geryon havia comentado. Mas... — Ei! Não tinha uma recompensa sobre a cabeça de uma mulher procurada em Piltover? Já foi pega?! Não tem nenhum cartaz aqui. — virava-se para perguntar ao guarda, sentindo-se contrariada ao não encontrar seu alvo disponível ali.

– Ah, aquela? Ninguém faz ideia, Piltover só mandou suspender a caça de um dia para o outro. Muita gente ficou interessada com o valor do prêmio anunciado pelo policial, mas de repente... zero.

– O que?! Hah, você só pode estar brincando... — "Ótimo dia, Sarah. Ótimo dia!"– Tem pelo menos o cartaz guardado pra eu ver?

O homem apontou uma espécie de livro surrado e grosso. A senhorita Fortune foi até ele e começou a folhear; fichas de diversos criminosos procurados, muitos dos quais ela mesma capturou e ficou com a recompensa... Hum, podia fazer um livro daqueles para si, seria um memorial interessante... Até que chegou no anúncio que trazia o símbolo da Cidade do Progresso com o cabeçalho escrito em letras grandes:

"PROCURADA. VIVA OU MORTA."

Abaixo, a foto de uma mulher jovem, com cabelos rosa-choque bem curtos e desajustados, piercings na orelha e no nariz, uma marca enorme que parecia uma tatuagem, escrito "VI" em seu rosto, os olhos azuis que pareciam olhar diretamente para ela, desafiadores e penetrantes, e o rosto em sua expressão ao mesmo tempo com um toque de raiva em um toque divertido de desprezo para com o mundo...

– "Vi". — enunciou em voz alta, seguindo para ler a lista de crimes pelos quais ela era acusada e procurada. Intrigante, sim... e fascinante! ...Mas a recompensa havia sido suspensa e não se fazia ideia do que havia ocorrido para que isso acontecesse. — Hum... Que pena. Sinceramente, que pena... Estava esperando tanto por isso; um desafio maior, um pouco mais de diversão... — fechou o livro e saiu para a rua.

A charrete aproximava-se finalmente da movimentação matutina da cidade portuária. Seus ocupantes vinham calmamente, até levemente curvados, avançando num passo monótono e contínuo para dentro da cidade. "Ionianos", os guardas iriam pensar. Cabisbaixos, complacentes e tocando suas vidas com serenidade para continuar.

– Já chegamos? — um deles perguntava baixo, com sensível ansiedade.

– Falta pouco; vou te deixar mais perto da cidade.

Seguiam lentamente, já avistando a ligeira movimentação das ruas com o Sol desperto... "...Sorte; aquela preocupação de ontem fora só uma sensação tola. Graças aos céus..." ...porém um grupo de soldados se aproximou, começando a cercar aos poucos a carroça, até que o líder deles ordenou que o veículo parasse, colocando-se como barreira, com uma mão levantada, à frente deles.

– Alto! — o homem falou, fazendo com que a pessoa que dirigia puxasse as rédeas e fizesse os cavalos pararem. "Oh, não..." Os dois ocupantes da carroça continuavam parados, calmos, enquanto os soldados os cercavam e o líder descia de seu cavalo e começava a perambular em volta, observando tudo com cautela... — Ionianos?

– Sim, senhor. — a pessoa que dirigia a carroça pronunciou-se, e uma voz feminina bela fez-se ouvir.

– Hum... Do interior.

– Exato.

– Que fazem aqui? — a mulher sentia seus nervos começarem a ficar tensos, embora mantivesse a calma com maestria.

– Entrega de encomenda para o porto, de Ionia para Noxus. Demanda de cereais para abastecimento da cidade-Estado. — ela enfiou a mão no meio de um pano esticado às suas costas, estendido entre o assento e o encosto da carroça. Tateando, sentiu o frio e a rigidez de um objeto metálico escondido... porém então tateou um pouco mais e encontrou os papéis que havia trazido consigo. — Aqui. — esticou o braço para o líder, mostrando a ele os documentos da entrega. O homem pegara-os e estava lendo atentamente... torceu o nariz... "Ora, vamos lá... Vamos lá; devolva os papéis e vá embora...". Ela segurava as rédeas tranquilamente, enquanto observava o líder dos soldados e torcia mentalmente para que fossem embora logo. A outra respirava ritmicamente, porém fazia certo esforço para manter aquela respiração aparentemente calma... O homem vira os selos e carimbos no papel, e lera a quantidade que estava sendo requisitada... Olhou então para os dois enormes cestos que o outro ocupante da carroça segurava no lugar. "Ele está demorando demais!" O homem ainda olhava os cestos. — ...Senhor? — ele não respondera. — Senhor? Preciso entregar a encomenda no porto antes que o navio saia. — o homem olhou para aquele ser encapuzado com voz feminina, e então falou apenas.

– Guarda! — e um soldado, do outro lado da carroça, já sabia o que fazer. Aproximou-se do outro lado, onde a outra pessoa segurava os cestos de vime... sacou a espada e cutucou um dos cestos, primeiro levemente... — Suspeita-se de que Ionia esteja abrigando fugitivos... — o líder falou, austero, para quem dirigia, enquanto o soldado executava sua ordem. Esperavam ouvir alguma reclamação de dor ao espetar a espada no cesto, mas nada... "Está limpo. Ele vai ver que está limpo..." ...até que o soldado, então, decidiu enfiar a espada dentro do cesto sem piedade. Porém o metal, ao invés de encontrar grãos ou o corpo de alguém que gritaria de dor, bateu-se duramente contra outro objeto maciço extremamente forte, brandindo um tom metálico ao chocar-se com ele, assustando o soldado com o impacto inesperado.

– Senhor! Eles não carregam grãos consigo! — o soldado anunciou, fazendo a respiração de Vi descompassar-se numa arfada repentina que ela logo tratou de controlar, enquanto o mesmo calafrio da noite anterior percorreu a espinha de Soraka.

– Documentos falsificados?! — o líder indagava já intimidadoramente a pessoa que dirigia. Soraka não conseguiu pensar rápido o suficiente para responder. — Vejam do que se trata a carga! — os soldados fecharam o cerco, alguns sacando suas espadas e colocando-se em posição de guarda, enquanto o outro avançava para mexer nos cestos de vime de novo. Quando ele se aproximou, no entanto, num movimento reflexo, Vi puxou os cestos mais para si, para evitar que o soldado inspecionasse com a espada, mais uma vez, a carga. O guarda percebeu e, já fazendo alguma ideia do que houvesse lá dentro, girou a espada e acertou o cesto com força, mais uma vez revelando evidências de que se tratava de algo grande de metal puro.

– Contrabandistas ionianos! — o rapaz bradou

– Sem permissão para produção, transporte ou comércio de minérios, e vocês estão levando metal para o porto?! Vocês estão em maus lençóis, vermes... — o líder dava a volta na carroça para tomar alguma providência quanto à carga. Céus. Inferno. Droga. Raiva. Que porcaria! Tinham que agir rápido antes que fosse tarde demais e elas estivessem verdadeiramente FERRADAS.

– Espere o meu sinal. — Soraka sussurrou, percebendo que Vi também já se preparava para tomar uma atitude. Ela assentiu com a cabeça, observando a ioniana discretamente colocar a mão sob o pano estendido no assento atrás delas... — Três... Dois...

– Vocês serão levados conosco para o tribun...

– AGORA!

Puxando rapidamente seu cetro debaixo do pano, fragmentos caíram do céus sobre a cabeça dos soldados quando Soraka levantou-o, pegando-os de surpresa e atordoando-os levemente enquanto Vi levantou-se da carroça, deixando cair seu capuz, já avançando sobre o soldado que estava ao seu lado numa porrada assombrosa com o cesto, apagando-o na hora, caído no chão. Os outros, ao perceberem o que enfrentavam, imediatamente se recompuseram e avançaram com as espadas para cima das mulheres.

– CUIDADO!

Vi virava-se e gritava para Soraka ao ver um dos soldados aproximando-se do lado dela, mas a curandeira habilmente girou seu cetro e um crescente de luz atingiu os homens, explodindo e empurrando-os ligeiramente para trás. Um que tentara pegar Vi desprevenida neste momento brandiu sua espada contra ela, acertando-a no tronco, mas deparou-se com uma resistência metálica que revelou ser da armadura que ela vestia quando um pedaço da roupa rasgou-se e caiu.

– Atacando pelas costas, seu bosta?! — ela agarrou a espada do homem com as mãos e puxou-o para si, segurando-o pela farda, levantando-o no ar e jogando-o do outro lado, contra os outros soldados, com força, impedindo ao mesmo tempo que chegassem perto de Soraka. A curandeira observou os homens voarem, assustada, e virou-se a tempo de ver a enforcer em ação com as luvas gigantes, socando um outro soldado que se aproximava para ganhar tempo enquanto os outros se recuperavam.

– SUBA NA CARROÇA, RÁPIDO! — Soraka gritou, tomando as rédeas mais uma vez imediatamente. Vi assentiu com a cabeça, segurou um dos lados do veículo e impulsionou-se para cima, quase fazendo a carroça tombar para seu lado, porém já pulando para cima dela.

– PRONTO, VAMOS! — a ioniana bateu as rédeas com força e os cavalos começaram a correr freneticamente, afastando-se com velocidade do local da luta. O líder dos soldados, no entanto, conseguiu levantar-se e montar seu cavalo com uma destreza inimaginável, já começando a persegui-las e gritando para alertar os guardas da cidade sobre o que chegava para eles.

– ALTO! ALTO! FUGITIVOS DE IONIA! FUGITIVOS DE...!!!!!

– Cala a boca. — Soraka disse ao virar-se para trás e lançar no homem um raio que fez todo o som extinguir-se sobrenaturalmente. Vi olhou para trás, para o desespero do homem tentando gritar sem emitir nenhum som, e então olhou para sua parceira de fuga com um olhar divertido e a boca aberta num sorriso deliciado.

– Hahahaha!!! Ótima, roxinha! — ela comemorou, achando graça na atitude tão espontaneamente intransigente da mulher que costumava ser toda controlada.

A carroça, em sua fuga alucinada, pulava, tremia e por vezes ameaçou tombar para os lados conforme as duas mulheres conduziam-na à toda velocidade por uma estrada de terra extremamente precária e acidentada, mas havia muito mais do que aquilo para se preocupar. Já estavam prestes a adentrar a cidadela, onde o exército noxiano borbulhava por todos os lados como formigas num formigueiro, e definitivamente não podiam diminuir o ritmo da corrida agora, com a chance de serem pegas, senão pelos guardas da cidade, por aqueles que já as estavam perseguindo.

– E como anda o fluxo de mercadorias no porto? Se os números forem atraentes, podemos estabelecer uma rota comercial que passe por Ionia. — a oficial falava enquanto caminhava rápida e marcialmente, rodeado por alguns de seus soldados e um general de patente menor.

– Bem, não é algo que esteja sob minha jurisdição, mas acredito que se perguntarmos aos oficiais da alfândega...

– CUIDADO!!! — um soldado, poucos metros à frente deles, gritou desesperadamente e, antes mesmo que qualquer um ali entendesse o que acontecia, uma carroça surgiu explodindo de uma rua lateral e acertando uma série de pessoas e guardas que transitavam por ali ao fazer uma curva quase impossível, no limite de sua inclinação e da resistência de sua madeira pouco robusta. Katarina e seus soldados, reflexivamente, atiraram-se ao chão de qualquer jeito e conseguiram esquivar-se da pancada com a carroça. Furiosa, ela tornou a levantar-se imediatamente.

– MAS O QUE É ISSO?!! — disse enquanto colocava-se de pé e virava para o lugar de onde aquele ataque inesperado saíra, percebendo que a fonte do caos era... UMA CARROÇA MALUCA?! "Insurgentes querendo vandalizar a colônia sob MINHA supervisão? Desgraçados; escolheram um bom dia para morrer..." E sacando da cintura duas de suas adagas, com uma rapidez e agilidade felinas impecavelmente mortais, a oficial noxiana começou a perseguir o caminho que a carroça fazia.

– Oh, céus; precisamos chegar logo ao porto! WOW! — Soraka falava aos solavancos, segurando as rédeas dos cavalos e quase sendo atirada para fora da carroça ao tentar fazer uma manobra para desviar-se do aglomerado de pessoas que vinham na rua. Vi moveu-se a tempo de segurar as rédeas e segurar a roupa da mulher para que não fosse atirada para fora do veículo.

– HE-HEY! Calma aí, não vai se matar agora. — a enforcer dizia, puxando Soraka com força e praticamente batendo-a de volta em seu lugar na carroça. A curandeira soltou um leve gemido de dor pelo impacto do quadril no assento de madeira. A do cabelo rosa puxava as rédeas de qualquer jeito; "CARALHO! Como é que se dirige essa porra?!"; e os cavalos, já completamente assustados e ensandecidos com toda aquela confusão de luta, fuga, gente, gritos, avançavam desgovernados para qualquer lado, o que, ao invés de ajudar na fuga das duas mulheres, apenas tornou ainda mais perigosa aquela corrida doida de carroça. — INFERNO! Que que eu faço com essa bo... — Vi atrapalhava-se com as rédeas, enquanto Soraka segurava-se com todas as forças para não cair com as viradas bruscas da carroça; a curandeira, num esforço notável, lançou-se na direção da outra e tomou as rédeas de suas mãos enormes e desajeitadas, finalmente colocando o carro tão "de volta nos trilhos" quanto o possível naquela situação maluca, mas foi então que, neste exato momento, Vi olhou para a frente e viu um batalhão inteiro de soldados marcharem apressadamente para o meio da rua, montando uma barricada de pessoas armadas com escudos grandes de guerra e lanças apontadas na direção em que elas vinham. — ...foDEEEEEEU!!!

Soraka arregalou os olhos, assustada com o centurião que se assomava ali, à frente delas. Não; agora era demais, a carroça não ia aguentar!

– SEGURE-SE!

A mulher puxou as rédeas com toda sua força, fazendo os cavalos pararem quase que violentamente, relinchando e levantando-se em duas patas, apavorados, mas a inércia fez com que a carroça virasse de lado e continuasse deslizando descontroladamente na direção dos soldados, até que uma das rodas quebrou-se e o veículo tombou bruscamente, estragando-se e fazendo lascas de madeira voarem para todos os lados, até que a carroça atingisse o centurião, derrubando dezenas dos soldados ali parados. Metros atrás, as duas fugitivas rolavam no chão dolorosamente após terem sido jogadas para fora da carroça pela energia potencial acumulada quando os cavalos estacaram violentamente em frente aos soldados. Vi esforçou-se para rolar o mais próximo possível da curandeira, terminando por parar com uma luva posta sobre a cabeça dela, protegendo-a, e a outra posta sobre sua própria cabeça, protegendo-se. Ao ouvir o choque entre a carroça e o centurião, tirou a mão que cobria sua cabeça e levantou-a para ver o que acontecia. Isso! Ganhariam alguns segundos a mais com a carroça e os soldados caídos obstruindo a passagem do resto dos oficiais. Rapidamente, elas se levantavam, com Vi amparando Soraka enquanto a curandeira se punha de pé com um pouco mais de lentidão, massageando a cabeça com um olhar de quem tomou uma pancada e está meio zonza... Percebeu que seu cetro havia caído pouco à frente, e então deu alguns passos e abaixou-se para pegá-lo, e exatamente neste momento a mestra das lâminas viu a oportunidade perfeita para subir rapidamente sobre o balcão de uma barraca de frutas e saltar fatalmente sobre aquela ioniana maldita.

– SORAKA, NÃO!

Porém Vi havia visto aquela movimentação ao redor delas e correu em direção a Soraka, colocando-se às costas dela, com as luvas gigantes cruzadas sobre seu rosto, no exato instante em que Katarina pulara pronta para estraçalhar o pescoço daquela ioniana. A lâmina bateu com força contra o metal das luvas, que Vi empurrara para frente com força, fazendo sua atacante voar alguns metros de distância para o lado, e Katarina teria atingido fortemente o chão, não fosse sua destreza em virar-se como um gato e apoiar os pés e as mãos, absorvendo parte do impacto enquanto ainda era arrastada para longe. Imediatamente, a mulher se levantou e voou mais uma vez na direção da enforcer, pronta para atacá-la.

– Quem. Vocês. Pensam. Que são?! — a noxiana falava pausada e enfaticamente conforme dava cada golpe em direção àquela mulher estranha de cabelos rosa e luvas gigantes. Vi aparava-os alternando as mãos em sua frente, e a cada golpe incrivelmente rápido que a outra mulher dava, o choque entre os metais fazia um som estridente terrível. A lutadora esforçava-se para defender-se com rapidez, mas o peso das luvas a fazia naturalmente mais lenta que a mulher das lâminas, e ela via que a situação estava ficando apertada... Vendo aquilo, Katarina decidiu aumentar a velocidade de seus ataques para acabar com as chances daquela rebelde infernal sair viva dali, e ao invés de continuar atacando alternadamente com suas adagas, a mulher simplesmente começou a girar como uma dançarina, porém avançando em direção a Vi como um maldito furacão de lâminas girando ávido para destroçá-la completamente. A lutadora não teve tempo para recompor-se e remontar sua guarda; as lâminas iam fazer picadinho dela!! VUUSH! Um raio vindo de suas costas atingiu certeiro a dançarina das lâminas, causando uma pequena explosão azul e arroxeada e fazendo a mulher para de rodar imediatamente com o impacto; observando o momento certo de atacar, Vi deu uma investida para frente com toda força possível e socou o estômago da mulher em cheio, fazendo seu corpo voar através da barraca de frutas e bater fortemente contra o casco de um navio parado logo ali, deformando-o enquanto a mulher caía na água. Vi olhou para trás e viu Soraka com o cetro apontado na direção para onde o raio fora lançado.

Não quer ver anúncios?

Com uma contribuição de R$29,90 você deixa de ver anúncios no +Fiction durante 1 ano, além de outros benefícios.

Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!

– YES! — Levantou a enorme mão e a curandeira retribuiu levantando a sua também e batendo uma na outra. Por um breve instante, conseguiram rir daquilo tudo, mas então os guardas finalmente haviam removido a carroça do caminho e acercaram-se delas... Elas se recolheram e olharam ao redor... Guardas , guardas, guardas, armados e equipados, prontos para atacá-las...

– ...Eu seguro eles aqui e você foge. — Soraka disse após aquele silêncio no qual só se ouvia a respiração alta e entrecortada delas.

– O que?! Olha quantos deles tem; isso é loucura!

– O objetivo é você fugir! Se pelo menos conseguirmos isso, já ganhamos deles! Agora, se te pegarem... aí sim, vai ter sido tudo em vão. — Vi virou-se para a curandeira que a ajudava, e a mulher logo deixava sua ilusória aparência humana para voltar ao normal, poupando energia para a luta que já sabia que viria...

Um soldado atacou, e então vários deles logo a seguir vieram para cima também, numa visão preocupante onde as duas mulheres eram engolidas por uma profusão de espadas e pessoas que gritavam com raiva... Mas então uma explosão atirou vários deles para longe no ar quando Vi, soltando um grunhido quase bestial, ergueu-se com toda sua força acumulada em suas luvas. Elas lutavam, bravamente, persistentemente, porém a cada segundo, mais guardas se assomavam à confusão, sobrepujando aos poucos a capacidade delas em resistir ao ataque... Fragmentos caíam do céu a todo momento, nocauteando guardas; os punhos da enforcer trabalhavam como um batalhão de demolição incansável; espadas começavam a atingi-las e faziam ferimentos no início irrelevantes, mas que agora se aprofundavam e sangravam consideravelmente, mas a ioniana, para surpresa e admiração de Vi, conjurava com toda sua energia magias que iam fechando e curando gradativamente os ferimentos. De repente, a rebelde de Piltover observou o esforço infinitamente determinado da mulher que lutava com ela, mesmo sendo ferida, mesmo começando a ficar exausta pelo uso intenso da magia, e lembrou-se da triste história que ela contara sobre o homem de Noxus que ela igualmente defendera com a própria vida uma vez... "Soraka... Não..."

Resmungando ainda indignada com o tratamento daqueles malditos soldados que se achavam os reis do pedaço, Sarah caminhava raivosa e apressadamente com Geryon em direção ao centro da cidade, onde comprariam mantimentos antes de retornar ao navio e seguir viagem. Mas eis que, atravessando aos xingos todo aquele congestionamento de pessoas incomum atravancando o fluxo pelas ruas, Sarah observou que uma enorme confusão se dava mais à frente...

– Licença! Licença! Com licença... Sai! — ela ia passando por entre as pessoas, se acotovelando com elas para abrir caminho e chegar mais perto, para ver o que acontecia... — ...Pelas barbas que eu não tenho! — exclamou, boquiaberta, ao ver nada menos que... a fugitiva! A criminosa de Piltover, ali, em Ionia, descendo a porrada naquela montanha de soldados! Haha!!! Ficou observando por alguns segundos, até que Geryon conseguisse chegar perto dela. — Geryon! Olhe! É ela, a criminosa que procurávamos!

– Opa, opa, espera: não procurávamos ninguém, que eu saiba, Sarah... Olha só isso! Ela é encrenca. Não tem recompensa. Não é problema nosso. — sentiu o olhar torto da capitã recair sobre ele.

– Olha com quantos guardas ela está lutando ao mesmo tempo; seria um cãozinho de estimação inestimável para a minha tripulação se conseguíssemos domá-la e...

– Capitã, acho que isso é extremamente perig...

– ...e, Geryon, ela poderia ser a força que precisávamos para começar uma rebelião em Bilgewater!... — Sarah Fortune dizia aquilo com o fulgor de uma conquistadora, porém seus olhos traziam uma profunda esperança idealista quando citava o local onde nascera... Geryon também desejava ver sua ilha livre da tirania de piratas e criminosos mais uma vez... E aquele ímpeto jovial de Sarah... O marujo mexeu em sua longa barba ruiva desgrenhada, puxou mais para cima o cinto da calça que não conseguia segurar direito a protuberante barriga enorme que tinha, e respirou fundo... A capitã sabia o que aquilo significava e então sorriu, já sacando prontamente suas duas inseparáveis garruchas. — Haha! Fique mais lá pra trás, próximo ao navio, preparando nossa rota de fuga! Apareço lá em cinco minutos!

Ligeiramente contrariado, imaginando a bagunça que aquilo ia ser no final das contas, o mestre dos marujos voltou pelo caminho que vieram, ficando à espreita nos becos para preparar as armadilhas que facilitariam a fuga de Miss Fortune assim que ela terminasse de "reclamar seu prêmio".

A luta persistia determinada no foco do caos, mas a sorte não mais parecia estar do lado delas... Soraka silenciara uma leva de guardas, os quais Vi socara brutalmente para longe, mas pelos flancos dela, outros surgiam, um deles girando a espada à sua frente e acertando de lado Vi, que começara a sangrar em profusão. Soraka concentrou-se em curar aquele ferimento mais profundo, porém um grupo de guardas conseguiu emboscá-la pelas costas e levou-a ao chão, impedindo que se movesse direito mesmo que lutasse com toda a garra de seu ser. O ferimento de Vi estava curado e ela conseguia continuar livrando-se dos guardas que apareciam à sua frente, que agora eram em menor quantidade visto que estavam preocupados com outra coisa... Haviam pego Soraka!

– AAAARGH, NÃO! — ela se precipitara para cima deles, irada; estavam prendendo violentamente Soraka contra o chão como fizeram com ela aquela vez na delegacia! Ela puxava os soldados para longe, socava-os com raiva inigualável, tudo para tirá-los de cima de sua parceira que, céus, já estava completamente ferida e exausta... E UM FILHO DA PUTA AINDA CHUTOU SEU ESTÔMAGO E DERA UM SOCO NO ROSTO PARA QUE ELA PARASSE DE SE DEBATER?!!!! — AAAAAAAAAAAAAARGH! — ela voou com a força de um trator-turbo em chamas para cima deles; ia ACABAR com aquele bando de CANALHAS DESGRAÇADOS! Mas... — AAARH! ME SOLTAAA! ME SOLTA, VERME IMUNDO DO CACE... UGH! — conforme ela focava sua atenção em livrar Soraka deles, não percebeu o grupo de soldados que se juntara às suas costas, atacando-a aos montes para fazer aquela bola de demolição ambulante parar. Conforme pularam em cima dela, Vi ainda chacoalhou-se para tirá-los de si, mas a cada segundo mais soldados precipitavam-se sobre ela, fazendo-a ir ao chão com os golpes que davam atrás de seus joelhos, em seu estômago, no tendão de seu calcanhar, na sua cara, tudo para fazê-la cair desacordada ou desistir de lutar...

BANG!

Um peso a menos sobre suas costas.

BANG! BANG! BANG!

Os soldados começavam a cair ao seu lado e a carga sobre si começava a se aliviar, permitindo com que Vi se movesse e continuasse lutando.

BANG!

– Hahahaha!!

Um riso de mulher era ouvido às suas costas, e a enforcer lutava contra os guardas, curiosa com o que estava acontecendo para aquela virada repentina dar-se ali, porém mais ocupada apagando os soldados com a cabeça enterrada no chão enquanto conseguia finalmente se por de pé mais uma vez para lutar. Quando virou-se de costas para segurar a cabeça e socar o estômago daquele filho da puta que vinha atacá-la, ouviu um estrondo que a assustou e então o homem caiu desfalecido em sua frente antes mesmo que ela conseguisse segurá-lo... e, ao cair o soldado, a visão do espaço se abriu e ela pôde ver a fumaça que saía do cano da arma da mulher ruiva que atirava nos soldados, atrás de si. Bela, estranha, certeira e com um grande chapéu de pirata, foi só o que conseguira concluir, pouco se importando com quem era ou o que queria; voltava-se para o outro grupo de guardas, socando-os e erguendo Soraka do chão, que já movimentava-se com dificuldade.

– Vamos lá, vamos lá, roxa... Força! — amparava-a com cuidado; parecia que uma das patas dela estava... talvez quebrada, trincada, ferida de alguma forma que dificultava a tarefa de andar. Havia grandes hematomas e os ferimentos por todo o corpo sangravam, Soraka estava extremamente suja de lama e outras porcarias que acumulavam-se no chão daquelas ruas movimentadas onde os guardas a jogaram... — Qual é; você é a toda-poderosa dos monges estranhos desse lugar, segura firme... — Vi estava preocupada com o estado sofrível da outra... Caramba, noxianos filhos de uma puta, ela não merecia isso! Vendo que amparar Soraka não seria o suficiente, Vi levantou-a no colo e começou a correr na direção da mulher ruiva que atirava. "O inimigo do meu inimigo é meu aliado... É bom que isso seja verdade". Porém, logo atrás, mais soldados surgiam.

– Vamos logo! O que vocês estão esperando?! — Sarah se impacientava, inferno, os guardas estavam cada vez mais perto! Tinham que ser mais rápidas!

– ...Vi... — Soraka falava, escondendo com tudo o que podia aquela certa fraqueza que a tomava. — ...mande meus cumprimentos à moça de Piltover. — a enforcer não entendeu por que Soraka dizia aquilo, mas então a mulher repentinamente pulou de seus braços para o chão, batendo os joelhos na queda; reuniu todas as forças que ainda podia e voltou numa corrida torta, dolorosa, mancando, para trás, para onde os guardas vinham.

– NÃO, ROXA!

– VI! NÃO DÁ TEMPO; VAMOS! — Sarah exclamava, vendo a lutadora parar no meio do caminho e tencionar voltar para resgatar a curandeira.

A atmosfera ao redor de Soraka começava a adquirir um peculiar brilho dourado, que logo se materializou em pequenas esferas de luz espalhadas por todo o ar. Uma aura rosada emanava do corpo da mulher, sugando toda a força que ela ainda tinha e era capaz de reunir. À frente, um batalhão de soldados se aproximava dela; uma onda furiosa de gente.

– VÁ, PILTOVERIANA! — ela exclamou. Virou-se para trás. Sabia que Vi precisaria daquele olhar de confiança para seguir em frente. Sua expressão era de uma força serena, tal qual a vira no Templo. A Filha das Estrelas sorriu. — Nós vencemos.

De repente, dela, a aura rósea fundiu-se às esferas de luz dourada, formando um anel ao seu redor que explodiu com uma força incomparável, atingindo os soldados e emanando uma luz clara fortíssima, ofuscando todos os inimigos ao redor. Sarah virou o rosto e cobriu os olhos, sabia como agia a luz das explosões, mas Vi ficou a olhar o que acontecia. A luz piscou de forma que os guardas foram obliterados por ela, ficando completamente fora de visão. Pôde ver a silhueta de Soraka, com seus cabelos esvoaçando, tomados por aquela força, seu braço com o cetro estendido para cima... e então a silhueta tombou de joelhos no chão. Uma mão, de repente, tomou o braço de Vi e puxou-a. Olhou: era a mulher ruiva estranha puxando-a numa direção desconhecida.

– Continue a andar! — a mulher exclamou, e Vi seguiu-a, por algum motivo, mesmo sem fazer a mínima ideia de quem era aquela idiota que se intrometera do nada na briga. Quando a enforcer olhou de novo para trás, um grupo de guardas acercava-se de Soraka. Levantaram-na pelos braços, sem força alguma, e arrastavam-na para outra direção, e a mulher sumiu em meio ao mar de gente. O resto dos soldados continuava a persegui-las.

– Pra onde a gente tá indo?

– Embora; agora só corre!

– PRA ONDE A GENTE TÁ INDO?! — Vi parou bruscamente, segurando com a grande luva o mesmo braço da mulher que a segurava e falando num tom iracundo que amedrontaria qualquer outra pessoa. Ao sentir-se ser puxada com aquela violência, Sarah aproximou-se do rosto dela, olhando-a nos olhos e falando como a capitã dessa porcaria toda.

– Olha aqui, estressadinha: eu tô salvando a sua bunda desse lugar, então é bom me ouvir E NÃO PARAR DE CORRER. Eu sei muito bem o que eu estou fazendo...

Sem tempo a perder, com o som dos guardas se aproximando, elas se viraram e voltaram a correr na direção que Sarah indicava. De longe, a capitã avistara Geryon saindo de dentro de um beco, dando um sinal de "positivo" para ela enquanto corriam desesperadamente. Ao passar pelo local onde ela o vira, Sarah Fortune gritou.

– AGORA!

Do beco, o homem gigantesco levantou a traseira de uma carroça carregada de barris, que rolaram para a rua pegando os primeiros soldados de surpresa e derrubando-os no chão, enquanto bloqueava a passagem para os outros que vinham correndo atrás. Geryon seguiu-as.

– CONTINUEM PARA O NAVIO! — a capitã exclamou com força, ordenando que seu marujo de confiança guiasse a rebelde de cabelo rosa para o navio ancorado. Ela então parou no meio do caminho e virou-se, apontando as duas armas à sua frente e começando a atirar em profusão, sem nenhuma dó... na verdade, rindo bastante por estar dando o troco, quase sozinha, naquele bando de inúteis metidos à besta. — HAHAHAHAHA! Ela ria enquanto atirava e explodia os barris de pólvora que, em chamas, por sua vez, tratavam sozinhos de explodir os outros barris próximos, numa festa de fogo e luz que bloqueou agora completamente qualquer chance dos indesejados guardas noxianos alcançarem-nos em sua fuga.

Geryon entrou afobado no navio, gritando imediatamente ordens por todo o convés.

– RECOLHAM A ÂNCORA! BAIXEM AS VELAS! PREPARAR PARA ZARPAR; RÁPIDO! RÁPIDO!

A tripulação, ironicamente, já estava até acostumada com aquele tipo de situação em que tinham que preparar-se para sumir rápido de uma cidade. Digamos que o trabalho no navio da senhorita Fortune não era nem um pouco... "parado". Segundos depois, a capitã surgiu correndo no deque, enquanto o navio já se afastava de seu cais no porto, porém ainda com a prancha de embarque abaixada. Sarah apertou o passo, correndo com tudo o que podia, rápida como era. Guardou as armas na cintura e pulou em direção à rampa de embarque no último segundo possível em que conseguiria alcançá-la, segurando com força nas protuberâncias que haviam na madeira e então escalando para cima, tendo então ajuda, no final da escalada, de um marujo de sua tripulação, dando a mão para que ela se apoiasse e pudesse subir a bordo...

Notas finais
Meus queridos, desculpe a demora!! Várias coisas a se fazer, várias coisas a se pensar, mas isso porque tudo vai ótimamente bem, ainda bem! XD Passando aqui no modo "ULTRA RÁPIDO E FURIOSO" pra deixar esse capítulo e um abraço pra vocês, e já tô voltando pros meus trabalhos aqui! Rs Boa leitura, espero que eu não tenha enferrujado nesse meio-tempo! XD P.S.: Espero que todos tenham um bom tempo lendo de manhã, acompanhado com uma boa xícara de café e torradas com presunto e "queiço". Rsrsrs. (Pequena brincadeira com uma boa leitora/colega de coisas de League of Legends)