Piltover's Finest
2 Capítulo 2 - Sob os olhos da lei
Notas iniciais
– J.R -16, o alvo está indo em sua direção, entrou no beco da Avenida Sunset. Prepare a viatura.
– Entendido.
As sirenes soavam a todo vapor pelas ruas de Piltover, perseguindo o bandido que fugia após ter quase atirado em um policial num assalto mal-sucedido. Era um iniciante de meia-tigela, fácil para a experiente patrulha cuidar do caso. Mas ele tinha uma arma, demandando um cuidado ligeiramente maior com a operação.
Pena que, para qualquer um desses trombadinhas ousados, havia a mira mais espetacular de Valoran apontando diretamente para eles, pronta para puxar o gatilho e fazer valer a lei. Bagunça, em Piltover, não.
A luz refletida atravessava a lente e passava pelos espelhos da mira telescópica do rifle, projetando a imagem do fugitivo como se estivesse a passos dele. O comunicado da viatura principal para a J.R.-16 foi transmitido a todos os rádios. Ainda com o assaltante na mira, ela respondeu.
– Jayce?
– Na escuta, xerife.
– Deixa ele comigo...
O dedo pressionou o gatilho, projetando o dardo com velocidade e precisão incríveis, fazendo com que fosse diretamente de encontro ao pescoço do homem como se tivessem sido feitos um para o outro. Poucos passos depois, o fugitivo tombou, adormecido.
Do alto do prédio, a atiradora tirou o olho da mira e sorriu satisfeita. Levantou-se para ir ao encontro do ladrão e das viaturas.
~¨~
– A gente tinha ele no papo, Caitlyn. — resmungou Jayce, virando-se para a xerife enquanto ela se aproximava.
– As sirenes fazem estardalhaço demais. Se ele percebesse outra viatura aproximando-se para encurralá-lo, poderia começar a atirar. E, particularmente: para um idiota que não sabe sequer empunhar uma arma corretamente como ele, o resultado não seria nada bom.
Caitlyn abaixou-se próxima do fugitivo no chão e algemou-o. Teve a ajuda de Jayce para levantá-lo.
– Dardos tranquilizadores... — reparou o oficial no pescoço do ladrão.
– Para levarmos ele à delegacia sem mais problemas. Agora vamos, rápido!
Jayce meneou a cabeça e colocou o homem desacordado no banco traseiro da viatura.
Era mais um dia normal na cidade de Piltover, uma das melhores para se viver em toda Valoran devido ao baixo índice de criminalidade, e isso graças aos esforços da determinada xerife da cidade. Caitlyn tinha uma vontade de aço e mira infalível. Quem acreditava que o rostinho bonito, o corpo voluptuoso e modo de se vestir instigante significavam uma jovem frágil e supérflua acabava por descobrir-se redondamente enganado — e muitas vezes com uma bala enterrada no corpo. Para querer ser bandido em Piltover era necessário ser muito bom mesmo, ou então completamente insano.
Ainda assim, um ou outro grupo mais ousado tentava a sorte, como parecia a ocasião...
Ao chegarem à delegacia no fim da tarde, Caitlyn deparou-se com uma agitação pela qual não esperava. Dirigiu-se para um oficial de plantão que parecia desesperado.
– O que houve aqui? Até eu sair, parecia tudo bem...
– Uma confusão pros lados da mina de cristal, senhorita. — dizia o rapaz, trêmulo, com os olhos arregalados, tentando pôr em ordem a situação. Pela reação dele, devia ser um dos novatos.
– Reporte-se.
– O grupo de Dohran atacou a mina a oeste da cidade. Aparentemente era para ser um assalto, mas algo deu errado e... Está um caos lá! E-estamos mobilizando viaturas e ambulâncias para cobrir o perímetro.
– ...ok... Você fez bem, rapaz. — disse, com um encorajador porém desatento tapinha nas costas dele. Varria a delegacia com o olhar à procura de Jayce. Avistou-o indo em direção à sala de interrogatório com o ladrão recém-capturado, e rapidamente foi até ele.
– Deixe-o para outro cuidar; precisamos ir para a região das minas, Jayce.
– O que aconteceu? — prontamente pensou em Viktor e uma possível confusão com a cidade de Zaun.
– Não sei ao certo, mas descobriremos chegando lá.
~¨~
O cenário era, de fato, caótico; quase um filme pós-apocalíptico. De longe via-se, contra o princípio de escuridão do crepúsculo, as luzes de ambulâncias e viaturas que cuidavam da confusão. Descendo do carro, já na clareira frente à entrada da mina, era notável a dimensão do estrago: homens antes inconscientes na clareira começavam, aos poucos, a levantar-se, apalpando confusos enormes hematomas no corpo. Outros em choque, completamente sujos de poeira e alguns com sangue coagulado, tentavam contar aos policiais o que acontecera, mas só faziam gaguejar e balbuciar frases disconexas.
Caitlyn e Jayce iam aproximando-se da entrada da mina cada vez mais perplexos com o que viam. Como haviam deixado um crime desse nível acontecer tão próximo à cidade? Passaram por eles paramédicos afobados, levando consigo macas e macas de vítimas feridas mais gravemente por pedradas. Receberam a notícia de que houveram mortes.
– Deuses... — a xerife murmurou, levando uma mão ao rosto e esfregando os olhos com pesar.
A poeira da mina ainda estava suspensa no ar quando chegaram próximos à entrada. Caitlyn acendeu uma lanterna e aproximou-se mais, logo percebendo o caminho obstruído e o cheiro de pólvora queimada.
– Foi bem feio o que aconteceu aí hoje...
Ela desviou rapidamente o olhar para onde julgava estar a origem do som. Voltou a luz da lanterna naquela direção e descobriu um homem velho, porém robusto e, aparentemente, completamente saudável. Estava bem, apesar de um ou outro arranhão; apenas coberto de poeira e envolto numa manta providenciada pela polícia.
– ...mas poderia ter sido bem pior.
– O senhor presenciou tudo? Está em condições de dar um depoimento?
– Sim, senhorita. — o homem assentiu com a voz calma, embora grave como um trovão.
– Siga-me.
Foram até uma das viaturas estacionadas.
– Bernard? Posso usar seu gravador?
– Aqui está.
Ela ajeitou o aparelho e puxou um caixote para sentar-se de frente com o homem com quem iria conversar.
– Ok, então. Aqui é a xerife Caitlyn de Piltover recolhendo o depoimento de...
– Barthrax.
Ela parou por um segundo.
– Barthrax?... Você não é daqui, é?
– Não. E é um nome "peculiar", realmente.
– Ah... Bem... — tentou desviar-se daquela situação — Estou recolhendo o depoimento do senhor "Barthrax" sobre o ocorrido na mina de cristal a oeste de Piltover. São 18 horas e 47 minutos. Senhor Barthrax, pode começar me contando exatamente o que aconteceu aqui? Desde o começo, por favor.
– Eu coordeno um dos grupos de mineiros que trabalham por aqui e, na verdade, estava no interior da mina quando percebi que havia algo de errado acontecendo lá fora. Disse aos homens que continuassem trabalhando, enquanto fui ver do que se tratava. Mal tive tempo de avistar a luz da saída da mina, um vulto esguio passou muito rápido por mim. Quando fui tentar virar para procurá-lo, ele me atingiu, sorrateiramente. Era muito rápido e foi o primeiro a chegar aos cristais maiores no fundo da mina, onde meu grupo estava. Logo atrás dele veio um outro, bem mais lento e robusto, porém violento e visivelmente mais forte. Descobri depois que era um tal valente, "Dohran". Ele passou direto por mim e foi para o fundo também. Segui-o e, chegando onde me grupo estava, percebi que haviam sido rendidos e os dois ladrões começavam a pilhar e levar para fora os cristais. Pensei em pedir ajuda aos outros lá fora, se é que ainda existiam os outros, mas então surgiram mais três dos bandidos, impedindo que qualquer um saísse da mina. Tinha essa menina de cabelo rosa-choque, um cara e um outro cara mais perto de mim, notavelmente amedrontado. A do cabelo ficou impaciente e saiu correndo para o fundo da mina, ajudar os outros dois. Foi quando o medroso ficou desatento por um instante e eu vi a oportunidade de agir. Ia atingí-lo com uma picareta, quando aquela menina percebeu e alertou-o...
Na cabeça do homem, um fugaz flashback se passou.
"WALLY, CUIDADO!"
– Algum deles estava armado?
– Os dois rapazes.
– O senhor não teve receio do que poderia acontecer caso reagisse?! — a xerife tinha no rosto um misto de preocupação e represália.
– Meus homens, dezenas de homens, estavam rendidos por cinco vagabundos dos quais só dois estavam armados, sendo um deles bem ao alcance da minha picareta... Mesmo com as armas, estávamos em maioria. Alguém tinha que fazer algo, algo para tentar impedí-los, então eu fiz.
– E o que aconteceu a seguir?
– ...no fim, apesar da intenção positiva, foi uma péssima decisão. A menina alertou o rapaz, que se assustou e começou a atirar pra todo lado. Foi quando a confusão começou, com todos correndo desnorteados, procurando um jeito de dar o fora da mina ou esconder-se dos tiros... Até que o idiota atingiu um dos barris de pólvora, causando uma explosão... — o homem repentinamente fez uma breve interrupção e massageou as têmporas — Depois disso, foi o inferno. Essa mina já não é o melhor lugar para se trabalhar, e ainda ocorre uma explosão daquele tamanho... Tudo começou a tremer, e o lugar estava vindo à baixo. Todos tentavam correr para fora, mas muitos foram impedidos ao serem acertados quando pedras maiores começaram a cair. Houve homens pisoteados... Quase na saída da mina, vi a cabelo-rosa e o valentão discutirem, então aproveitei para voltar e ver como estavam os meus homens. Foi quando ficamos presos no fundo devido a um desmoronamento massivo. A mina estava se despedaçando e não teríamos tempo o suficiente para cavar nossa saída através daquelas rochas. Já estávamos aceitando nossa morte certa, quando ouvimos alguém praguejando de dentro do muro!... Quer dizer, foi um pouco difícil acreditar que ainda tinha alguém lá; uma voz, xingando, do meio das pedras... Mas tinha. A pessoa estava aparentemente irada, então começamos a ouvir socos e as pedras se movendo... De repente a cabelo-rosa é cuspida do meio das pedras, vermelha como um pimentão. Um dos homens criticou-a, nervoso, e levou um murro sem igual na cara.
– Ele foi morto?
– Se tivesse engolido o dente que ela arrancou, provavelmente teria se asfixiado. Mas ele conseguiu cuspir...
– A-ham... Okay... — a xerife murmurava baixo e lentamente, incrédula com os pequenos absurdos da situação. Aquele homem estaria mesmo em condições de dar um depoimento? — Continue.
– Bem, ela percebeu o velho mecha quebrado que costumávamos usar pra facilitar a retirada de centenas de quilos de cristal. Avisei que não funcionava mais, mas ela começou a mexer e desconectar as manoplas e conectar nas dela... Energizamos as manoplas gigantes com o cristal e deu certo! Foi... monstruoso. Ela abriu caminho com os punhos como se rasgasse papel, e estávamos praticamente saindo da mina quando...
O homem parou de falar.
– ...quando...? — inquiriu Caitlyn.
O senhor, enorme, aproximou-se dela, com sua cara constantemente fechada e carrancuda, o que fez a xerife recuar minimamente e preparar-se caso precisasse reagir... Mas o homem apenas falou, fitando-a determinadamente dentro dos olhos.
– Olhe, se a senhorita não quiser acreditar, não acredite. Eu provavelmente teria batido num desgraçado que viesse me contar isso se não tivesse visto acontecer com meus próprios olhos; e estou completamente são. Pergunte a meus homens e eles te confirmarão tudo isso, mas peço que faça um esforço e acredite...
A mulher percebeu a seriedade no tom do velho mineiro. O que viria a seguir, fosse o que fosse, deveria ser levado em grande consideração para o futuro estudo do caso, ao menos aparentemente.
– ...diga.
Ele se afastou novamente e continuou o relato.
– Uma rocha gigante... Capaz de bloquear toda a saída da mina sozinha... A pedra se desprendeu do teto e ia cair bem em cima da menina. Eu fechei os olhos, pois... — por um instante, um lampejo de comoção passou pelo rosto do homem — Deixa. Mas, quando os abri novamente, lá estava ela, segurando a pedra com as mãos! E depois ela ainda ergueu a pedra para que todos passassem! Digo: ela poderia simplesmente ter dito "Foda-se" e fugido junto com os outros, mas voltou e agora estava em maior risco que qualquer um de nós! Houve uma hora em que virei para trás e a vi tremendo; achei que não ia mais aguentar segurar aquele peso descomunal... De repente, ela me sustenta a pedra com uma mão só e, com a outra, dá um soco e a despedaça!... Estávamos todos a salvo.
Por um instante, a xerife quedou-se atônita frente ao homem. Era realmente inacreditável. Realmente inacreditável!
– E onde ela está agora?!
– Foi embora correndo quando soube que a polícia estava a caminho.
A xerife levantou-se, com o gravador ainda em mãos. Ajeitou a alça do vestido roxo, mexeu na raiz dos cabelos longos. Não conseguia digerir bem tudo aquilo, mas ainda assim... Ainda assim, sentia que era possível. E, se era possível, era ao mesmo tempo fantástico e imensuravelmente preocupante o que aquela pessoa era capaz de fazer. ...mas era racionalmente inacreditável. Andou um pouco de um lado para o outro, pensativa, quando então dirigiu-se novamente ao mineiro, um tom bem mascarado de revolta em sua voz.
– Senhor Barthrax, tem ideia de como é difícil aqui, agora, minha situação ao ouvir tudo isso? Digo, é bem difícil de acreditar que...
– Mas é verdade! — um homem mais ao longe firmemente gritou.
Caitlyn olhou para ele; era um mineiro com uma perna completamente enfaixada, com as bandagens tingidas de vermelho vivo e aparentemente deformada, que estava sentado dentro de uma das ambulâncias.
– Ela voltou pra dentro uma vez e tirou eu e um outro cara ferido de lá, depois voltou de novo, e eu consegui ver isso aí de fora da mina antes deles saírem!
– Vocês estão dizendo, então, que ela, a ladra, voltou e ajudou vocês? Só ela, o grupo não?
– Foi isso aí. Olha, concordo que são todos uns filhos da puta por terem feito toda essa confusão, mas a rosinha voltou e ajudou muita gente.
– Foi feio hoje... — retomou Barthrax, com seu tom peculiar de tempestade serena — ...mas não ouso pensar o quão pior poderia ter sido se aquela maluca não tivesse voltado.
Caitlyn continuou pensativa por alguns minutos. Levou o microfone do gravador à altura dos lábios e concluiu.
– ...vou recolher o depoimento de mais alguns de seus amigos, senhor Barthrax. Xerife Caitlyn terminando o depoimento. São 18 horas e 56 minutos.
A xerife agradeceu aos homens e pediu que os guardas coletassem as informações sobre eles e os outros mineiros desse afortunado grupo, para que pudesse depois dar continuidade à investigação. Aparentemente, estava com um caso um tanto quanto complicado nas mãos, o que muito provavelmente interferiria de forma intensa em seu sono à noite, até que pudesse ter uma visão mais completa do que aconteceu para entender a história.
– Caitlyn, você está um trapo. Parece que foi atingida por um caminhão agora há pouco...
– Humpf, agradeço o elogio. — ela riu, irônica, percebendo repentinamente que o amigo estivera ali observando-a. — Mas não foi exatamente um caminhão, Jayce. Está mais para um soco no estômago... Um soco muito bem dado.
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