Piltover's Finest

9 Capítulo 8 - "Clarity"


Notas iniciais
De volta à ação com energia total, a parceria mais espetacular de Piltover continua cumprindo com estilo seu dever de manter a ordem na cidade, enquanto a busca aos cristais persiste incansável. Essa parceria começa dar certo à medida que a xerife e a rebelde começam finalmente a confiar uma na outra. Contudo... Poderia essa confiança e companheirismo mútuos estarem evoluindo para... ? " 'Cause you are the piece of me I wish I didn't need; chasing relentlessly, still fight and I don't know why..." - "Clarity"; Zedd feat. Foxes

– BARRICADA NA ESQUINA COM A 21! REPITO: ALVO FUGINDO EM ALTA VELOCIDADE, ARMADOS; LEVANTAR BARRICADA NA ESQUINA COM A 21!

Um carro um tanto velho, mas com um motor surpreendente, varava as ruas de Piltover; amarelo, barulhento e desenfreado como um raio. Os homens dentro dele oscilavam entre o êxtase de milhares de notas de valor altíssimo e documentos importantes nas mãos, e a preocupação de ter a elite da polícia concentrada em seu encalço.

– HAHAHA! — um deles abria um maço de notas e atirava-as para cima, tentando agarrá-las novamente com a boca. Todos os três riam, de tempos em tempos olhando para trás e ainda vendo a corrida desesperada da polícia para pegá-los.

– PISA NESSA MERDA, FILHO DA PUTA; PISA, PISA!!!

O motorista trocava a marcha e afundava o pé no acelerador, chegando ao limite de velocidade que o carro poderia atingir.

– DESGRAÇADO; MAIS RÁPIDO!

– NÃO DÁ MAIS, JÁ TÁ NO MÁXIMO! — ele pisava raivosamente no acelerador várias vezes para demonstrar que não havia mais como confiar apenas na velocidade para a fuga.

– Inferno! Deixa que eu cuido disso...

O homem no banco do passageiro destravou o revólver, abaixou o vidro e colocou metade do corpo para fora, mirando no carro da polícia que os seguia.

– PROTEJAM-SE! — a xerife, na viatura, gritou, fazendo com que imediatamente todos se abaixassem, até mesmo o motorista, com certa dificuldade. Ouviram-se seis disparos seguidos, um deles atingindo o vidro blindado da viatura.

– HAAAAA!!! SEUS BOSTAS! HAHAHAHA! QUER ME PEGAR? VEM ME PEGAR, XERIFE!

– Huhum, tem certeza? — ela murmurou sorrindo dentro do carro, preparando uma pistola clássica ao melhor estilo faroeste. — Eu adoro uma boa caçada!

O bandido no carro da frente puxou o gatilho e nada aconteceu. O pente tinha acabado.

– Merda! — apertava ainda o gatilho como se algo magicamente fosse sair dali.

A xerife apóia-se na janela da viatura com um braço esticado firmemente para a frente, um olho fechado e o outro instantaneamente calculando o alvo do tiro. Em questão de milésimos de segundo, mirou e disparou, uma vez no pneu do carro, fazendo o motorista perder o controle e quase capotar e, no mesmo instante, disparou no braço do homem, fazendo um estrago considerável e obrigando-o a largar o revólver que empunhava.

– AAAAARGH, VADIA DESGRAÇADA!!! — o homem pressionava o braço ensanguentado; o rosto vermelho e as veias do pescoço saltadas enquanto berrava com a dor cruciante.

– Caitlyn, que merda foi essa?!

A xerife voltou para dentro da viatura e pegou o rádio.

– Sem problemas; eles atiraram mas já retomei o controle. Mantenha a posição, Vi; a barricada vai detê-los.

Não, aquilo não parecia "sem problemas". Não, a barricada não ia detê-los. Vi tinha isso em mente; acha que algum bandido ia parar no sinal vermelho só porque é arriscado continuar? Dane-se, eles iam é varar aquela merda de barricada e levar tudo junto com eles!

– IMBECIL! VAI FAZER, FAÇA DIREITO! — o bandido no banco traseiro, irado com a situação, tirou de uma mochila uma metralhadora e abriu a janela de seu lado esquerdo.

– Caity, isso tá...

– Vi, lembra do que combinamos de não fazer mais loucura e seguir o plan...

A viatura foi bombardeada por uma rajada de balas; o motorsita, quase morto de susto, ziguezagueava para tentar escapar, repentinamente fazendo todos se debaterem dentro do carro devido às manobras bruscas desesperadas.

– HAHAHAHAHAHAHAHA! ENGOLE CHUMBO, CACHORRA!!! HAHA!

O bandido descarregava a metralhadora sem remorso algum sobre o carro da polícia, que por pouco não atingiu um dos postes da via. O capô, então, começou a pegar fogo, ameaçando os policiais agora não somente de tomar um tiro ou sofrerem uma trágica capotagem, mas também de uma explosão que não pouparia ninguém.

– FREIA! — um dos oficiais gritou, sendo obrigado a por um fim à perseguição.

– CAITY! — do outro lado do rádio era possível ouvir e imaginar o desastre. Na verdade, não precisava nem imaginar: no horizonte, ao longe, já era possível vê-los aproximando-se vertiginosamente da barricada. Metralhadora e carro da polícia em chamas?! — ...Plano o meu rabo!

Vi não esperou mais um segundo sequer, sabia o que ia fazer e que tinha que fazer; um pequeno improviso. Deixou a barricada sob o protesto de muitos oficiais que ainda a repreendiam pela atuação no mercado, mas estava se lascando para eles! Saiu como um tanque de guerra ao encontro da confusão dos carros, correndo contra o tempo determinada a dar um fim naqueles bastardos que atiravam no carro da...

Já estava próxima deles, os dois blocos em rota de colisão visível e inevitável, e então de repente parou onde estava.

– Meu deus, VI! — a xerife pôde notar a mulher parada exatamente no caminho do carro dos bandidos; eles iam atravessá-la!

– HAHA... UOOU!

O demolidor amarelo deu de frente com a demolidora rosa e seus gigantes punhos, numa disputa de força entre titãs. Vi esperou o carro aproximar-se a toda velocidade e usou a própria inércia a seu favor: na iminência da colisão, segurou a frente do carro com uma das mãos de ferro e com a outra acertou um gancho que lançou o carro no ar. Ainda aparando-o com uma das mãos, girou-o, girando também seu próprio corpo, e empurrou-o para baixo com força, quase enterrando o carro de ponta-cabeça no chão com um estrondo.

Todos observavam maravilhados. Alguns reafirmando o quanto aquela mulher poderia ser letal à polícia caso se descontrolasse, visivelmente incomodados com a permanência dela na corporação... Mas, em geral, maravilhados.

A lutadora ofegava, observando o carro tombado em sua frente. Nenhum movimento. Mortos?... Não, aquilo não tinha sido um exagero tão grande de força.

– Vi!

Olhou para trás; a viatura da polícia havia parado a metros de distância, todos já fora dela tentando conter o incêndio que poderia levar a uma explosão. De longe, com as botas na altura do joelho, uma saia bege plisada e colete, Caitlyn vinha correndo preocupada.

– Você ficou louca? Não faça mais isso! — abraçou de súbito a outra que, absolutamente não acostumada com o ato, ficou com os braços esticados para baixo, junto ao corpo. Logo depois, decidiu levantar uma das grandes mãos e retribuir o gesto.

Afastou-se da xerife para fazer uma observação.

– ...velho oeste, xerife? — olhava de cima a baixo com uma expressão cômica o modo com que a xerife, literalmente de xerife, se vestia.

– Bem, se você quer fazer isso... Faça com estilo.

As duas riram e, enquanto conversavam e os policiais se mobilizavam para prestar assistência à viatura baleada e chamar os bombeiros para que ajudassem a resgatar os bandidos e remover o carro capotado, um dos ladrões, extremamente ferido mas ainda assim movido pela raiva, conseguiu alcançar uma das armas que carregava... Com dificuldade, arrastou-se um pouco para fora do carro; a visão muito debilitada pela pancada na cabeça quando o carro fora virado e também devido ao sangue que escorria em profusão, caindo sobre seus olhos... Concentrou-se bem nas duas megeras cadelas do inferno... Riam ali na frente... Está tudo bem com vocês, não está, suas putas?...

O homem levantou um braço e começou a atirar.

– AAARGH! — a xerife recuou, desequilibrada, e caiu.

– NÃO!

Tudo pareceu acontecer em segundos, mas parecia passar em câmera lenta, como se durasse uma eternidade!

O som dos disparos. Todos, num susto, abaixando-se e buscando proteção. Ao mesmo tempo, Caitlyn caindo... Sangue. O homem no carro com a arma na mão, atirando desordenada e raivosamente. Uma escolha: do que cuidar primeiro? Infelizmente, deixou a xerife cair e já se dirigia ao homem no carro com fúria.

– Volta. Pro. INFERNO! — chutou a cabeça do homem de baixo para cima com vontade, acertando o queixo, ou o nariz... Sei lá! Achou ter ouvido um estalar, mas dane-se se o pescoço daquele desgraçado quebrasse, se a cabeça fosse arrancada; ela não era policial mesmo! Podem processar. Mas aquele canalha tinha que sentir muita dor na pele.

A fúria parcialmente aplacada, voltou-se para onde a xerife havia caído, onde agora havia um círculo em volta dela. Sentiu um frio repentino na barriga, náusea... Jayce se aproximou do círculo, nervoso, e retirou a xerife carregada de lá. Deuses, o que havia acontecido?!

Ainda como se o mundo passasse em câmera lenta, como num pesadelo, tentou correr para alcançá-los, mas sentia as pernas como se estivessem chumbadas no chão, presas; e a angústia de querer mas não conseguir mover-se... O corpo finalmente começava a obedecer, porém irritantemente lento!

...Jayce colocou Caitlyn no banco traseiro de uma viatura, junto a outro policial; deu a partida e saiu. Tarde demais.

– Não, não! Deixe-me ver, deixe... eu... — os outros oficiais tentavam novamente contê-la, embora não com a bestialidade que o fizeram da outra vez na delegacia. Viam-se amedrontados com o que poderia acontecer, Vi estava claramente exaltada. — Me soltem... — ela apenas relaxou o corpo e, a este sinal, os guardas reagiram dando espaço a ela.

Quedou-se lá, todos os músculos do corpo flácidos, torpe. Olhava a viatura que partia com as sirenes acesas, a toda velocidade.

...deuses.

– Hey, Vi... — o guardinha tencionava aproximar-se, ainda com algum receio. — Calma, vai dar tudo certo.

– Estão indo pro hospital... — ela falava, surpreendentemente derrotada.

O policial, ignorando o medo, apoiou a mão nas costas dela.

– Vão cuidar dela. Além do mais, a xerife é durona! Vamos lá, levante... Quem sabe na delegacia a gente não receba notícias?

Ela observou o colega policial firmemente durante um bom tempo. Sem dizer mais nada, com a expressão fechada mas a postura visivelmente abatida, levantou-se; o guarda inutilmente apoiava-a, porém mais como um gesto de encorajamento do que uma ajuda para pôr-se de pé. Para a delegacia, então.

~¨~

Sentiu dores delirantes em seu corpo... Tentando desviar, caiu... Vi saiu de vista... Rostos se amontoando... O mundo revirava... Jayce?... A viatura... Uma pequena confusão lá fora?... Luzes e correria... Muitas pessoas, tudo branco... O corpo... Torpe... E dorme.

~¨~

Ao chegarem, sentiu um mal-estar repentino, uma vontade desenfreada de escancarar a porta da delegacia e procurar por notícias, mas ao mesmo tempo experimentava um medo terrível de entrar naquele lugar que a hostilizava e... Não sabia. Medo de ser jogada numa cela pra sempre e não receber notícias de Caitlyn? Medo de entrar e encontrar todos com o olhar no chão, chorando em luto a... Não, argh! Para de pensar merda!

Mas, à medida que aproximavam-se de entrar, sua respiração se acelerava e os pulmões queimavam, mais ou menos como o sentimento de ter segurado sozinha aquela pedra gigantesca na mina... Sentia como se fosse se desintegrar no momento em que atravessasse aquela porta...

Enfim, mesmo a despeito de todos os medos e todo o receio que nunca admitira ter sentido antes, Vi atravessou a porta e, logo de cara, avistou Johan no corredor.

– Johan... Johan! — correu até ele, segurando-o pelo braço para chamar sua atenção. — Johan, já receberam alguma notícia do hospital?!

O homem desvencilhou-se, soltando o braço.

– Não. Pelo menos nada diferente do esperado. Ela chegou e já foi encaminhada direto para a cirurgia, então não temos como saber o que está acontecendo. Eu realmente espero que você não tenha tido parte nisso.

– Foi. O. Bandido. — ela falou pausadamente, fitando-o com desprezo.

– De todo modo, teremos que esperar Jayce chegar para termos mais notícias.

O homem acenou com a cabeça, virou-se e foi embora. Infeliz; depois ia lidar com ele... E agora, o que faria? Teria que esperar mais ainda até Jayce chegar? Aquilo era terrível, ter que sentar e esperar, sem poder fazer nada! Sentia-se completamente inútil! Tentou a sala da xerife, onde poderia esperar, mas a porta estava trancada. Ia dirigindo-se à oficina, quando Johan saiu da porta de sua sala e a chamou.

– "Vi".

Ela virou, esperando algo.

– Venha aqui...

Desconfiada, a mulher voltou e entrou na sala do oficial logo atrás dele. O tom do homem era grave, com um toque de austeridade. Indicou o sofá para que se sentasse, a jovem aceitando a sugestão.

– Se importa se eu fechar a porta? O assunto que vamos abordar é delicado...

Não gostava daquilo. Contudo, ainda estava com as manoplas. Concordou. O velho fechou a porta, caminhou até sua mesa e sentou-se, observando-a com firmeza. Projetou o corpo para frente, apoiando os cotovelos sobre a mesa, as duas mãos fechadas, uma segurando a outra. Depois de um longo silêncio de julgamento entre os dois, o homem começou.

– Eu realmente espero que você não tenha tido parte nisso.

– Eu não fiz nada!

– É a segunda vez que a vida de Caitlyn é colocada em risco com você do lado. Na primeira vez, era claramente uma armadilha... Você quer mesmo que eu acredite que você está aqui só por caridade?

– Foda-se o que você acredita, eu não fiz nada.

– Tem certeza, sua rata?

O homem abriu uma gaveta, tirou um papel e bateu-o sobre a mesa, na direção de Vi. Ela desativou as luvas, tirou-as e, com as mãos nuas e com desdém no olhar, pegou o papel e leu-o.

"Ora, ora, mas vaso ruim não quebra mesmo, hein? Sobreviveu depois de toda aquela merda na mina como se fizesse milagre! Haha! E eu soube que você tem novos brinquedinhos... Sabe, gata, eu fiquei um pouco... "decepcionado" quando vi que você tinha mesmo decidido deixar o grupo... Nós somos sua família, não é?! E não se trata a família que nem merda, Vi, a não ser que você esteja bem preparada pra quando a merda atingir o ventilador. Se aliar à polícia? Isso foi um puta chute no saco, garota. Então eu tive que fazer aquilo, os caras no mercado... Contratei um bando deles, eles pareciam durões! Mas, sabe... Todos uns incompetentes... Umas porcarias de uns incompetentes. Viu como você é importante pra gente, Vi? Quando precisa, você dá conta do recado. O problema é: seu filme tá queimado, bem queimado por aqui... Conta pra mim: é o heroizinho Jayce ou a gostosa da xerife, hein? Quem tá comendo? Huhuhum! Que se dane, o negócio é o seguinte: você sabe o que eu tenho e deve saber o que eu quero. Tô bem disposto a te receber de volta, braços abertos, confete e tudo mais... Se você trouxer pra mim o que eu quero. Por que não dá uma passada aqui pra conversar, matar a saudade...? Ah, sim, e venha logo ou eu vou ter que continuar mandando estes "lembretes" pra você.

Beijos nessa boca gostosa."

– ...de onde você tirou isso?

– Você é uma viborazinha...

– DE ONDE VOCÊ TIROU ISSO?!!

– Por que não me soca pra obter a resposta?

– Aaah, não peça duas vezes... — ela riu, irônica, segurando-se para manter-se colada ali no sofá. Era esse joguinho de "tapa com luva de pelica" que ela tinha que jogar ali, e claramente havia uma desvantagem. O homem levantou-se e contornou a sala.

– Ele tentou fazer contato... Estava passando uma tarefa pra você, queria que levasse pra ele os estudos de Jayce sobre os cristais, mas eu interceptei o bilhete.

– E por que não avisou logo os outros? Podia ter me ferrado pra valer naquele dia.

O homem fez um breve silêncio.

– Eu queria primeiro falar com você, sabe; dar uma chance pra essa louca da Caitlyn estar certa sobre você... E olha onde ela está agora! Céus, só os deuses sabem se ela pode estar morrendo!

Cala a boca! – Vi levantou-se, impondo ordem naquela discussão. Pegou o papel, enfiou-o dentro do espartilho, vestiu as luvas e começou a sair.

– Aonde você pensa que vai?!

– Vou resolver toda essa merda.

– Você está proibida de sair dessa delegacia!

Ela voltou, pegando o homem pelo colarinho.

– Ah, é? E quem vai me impedir? — falou entredentes, desafiadora.

Johan ficou vermelho, como sempre fica quando está no máximo de seu nervosismo ou raiva, mas ficou calado. Quando Vi saía pelo corredor para deixar a delegacia, ele anunciou.

– GUARDAS! VIOLAÇÃO DE CONDICIONAL!

Os oficiais, pegos de surpresa, levaram algum tempo para entender o que acontecia, ficando um pouco apaspalhados até se mobilizarem. Mas a essa altura, a mulher já estava longe...

Correu o dia inteiro praticamente sem parar. Ignorava que os músculos protestavam, que respirar havia há muito tornado-se uma tarefa dolorida, que os olhos estavam em brasa pela raiva, angústia e as lágrimas seguramente contidas que ela continuaria sem derramar. Era forte. Muito mais forte que isso, tudo isso, e acostumara-se a causar pânico às pessoas... Estava na hora de ensinar isso novamente a alguns.

Já era noite alta quando chegou à terra esquecida pela lei, onde nasceu, em arredores longínquos de Piltover. Provavelmente, não era bem vinda ali por milhares de motivos, mas ainda assim, quando passava, causava tensão no ambiente. As histórias sobre ela haviam se espalhado por ali... Sabendo procurar o beco certo, encontrou um informante conhecido.

– Cadê o Dohran?

– Fácil assim, Vi?

Sem uma gota de paciência, agarrou o homem pelo ombro e deu-lhe uma cabeçada que o deixou desnorteado, depois empurrou-o contra a parede, na prisão inescapável de suas mãos.

– Tô trazendo um presente pra ele, mas se você fizer muita questão, posso te dar uma amostra grátis... — ela aos poucos apertava-o entre seus dedos, causando uma pressão esmagadora que fazia faltar ar ao homem...

– UGH!... Tá... Tá bom! Tá bom!... — ele sentiu a pressão ser ligeiramente aliviada para que pudesse respirar. — Ele se retirou da cidade, o lugar aqui tá marcado...

– E pra onde ele foi?

– Não é você o braço direito dele? Devia saber. — o rapaz foi puxado e depois jogado contra a parede, os dedos da luva da inquisidora afundando no concreto ao seu lado. — AAAH!... Sul!

Largou o homem lá e prosseguiu sua viagem. A gangue tinha esconderijos espalhados em lugares diversos caso precisassem sumir um pouco. "Saiu da cidade" era uma informação de merda, agora "sul"... Ela sabia pra onde ir.

Próximo à pedreira desativada, onde ficavam os escritórios da há muito falida companhia de mineração, a gangue estabelecera um "santuário" para fuga, no meio de escritórios abandonados e containers.

Uns assistiam TV quando ouviram alguém bater na porta. O lugar, de repente, ficou em silêncio enquanto todos olhavam uns aos outros, desconfiados. Ninguém de fora do grupo deveria saber daquele lugar... Mas não era alguém "de fora" do grupo, e Dohran já imaginava isso. Saiu do escritório onde estava, apenas de calça jeans, e pegou um revólver.

– Shhh, bando de mulas! — murmurou para os outros enquanto posicionava-se do lado da porta. — Quem está aí?

– Vim vender biscoito! — uma voz doce e feminina soou do lado de fora.

Dohran riu com a ousadia daquela cadela debochada.

– Você sabe que eu não gosto de biscoito, Vi!

– ENTÃO QUE TAL UMA BOLACHA NA CARA?! — ela disse isso "abrindo" uma porta na parede de gesso do escritório com os punhos, lançando pedaços de gesso e poeira pra todo lado e já se precipitando furiosa para dentro.

Levantou Dohran pelo pescoço e estava pronta pra dar a ele a maior surra de sua vida, quando percebeu o revólver apontado no meio de sua testa. O tempo parou.

– Me ponha. No chão.

Com os dentes trincados, ofegante de raiva, baixou o homem lentamente.

– Que bom... Que bom que não esqueceu quem é que manda... — ele andava para o lado, descrevendo um semicírculo, com o revólver sempre apontado para o rosto de Vi.

– Você nunca mandou em mim.

– Mas o metal frio sim... Esse manda em todos nós.

Ela permaneceu calada, torturando-o mentalmente e transmitindo isso no olhar, enquanto acompanhava aquela estranha e mortal dança em círculo...

– O que você quer aqui? Me matar? Me matar e levar pra tua "xerifezinha"?

– Cala a boca. — era exatamente o que viera fazer, mas sabia que tinha que ser cautelosa com as respostas agora. Afinal, já estivera do outro lado do cano da arma junto de Dohran e sabia como aquilo funcionava. Precisava ganhar tempo. — Que merda foi aquela carta? O policial pegou. — Dohran ficou surpreso. — Você não sabia?!

– Como assim "o policial pegou"?

– Hah! ...caralho, vocês não dão conta mesmo sem mim...

– Hum... Alguém vai ter uma conversa mais tarde... — na sala, os rapazes se retesaram. — Mas, então, você veio pelos negócios, eu espero...

– A papelada do Jayce... Você tá com os cristais aí?

– Haha, gostei... Direta ao ponto como sempre, amor... — ele sorria, malicioso e chulo como sempre. — Por que eu traria eles pra cá comigo? Pff! Olha só como você entrou; qualquer outro idiota que descobrisse esse lugar poderia fazer o mesmo e a gente tava ferrado! Huhum... Eles estão bem guardadinhos... Agora me diz: por que eu deveria confiar de novo em você? Olha, eu queria mesmo fazer as pazes, docinho, mas você tem sido difícil... Façamos assim: você volta, de "mamãe Noel", trazendo meu presentinho, e está bem vinda de novo no grupo. Combinado?

Ela apenas meneou a cabeça, assentindo.

– Agora dá o fora daqui.

Ela se virou, a contragosto, e começou a caminhar, pegando o caminho de volta. Em momento algum pensou em olhar para trás: sabia que o cano da arma acompanhava cada um de seus movimentos. No esconderijo em ruínas, Dohran esperou pacientemente com o dedo no gatilho até o ponto rosa sumir no horizonte. Reuniu os seus homens.

– Vamos dar o fora daqui.

Ainda caminhando em silêncio no escuro, Vi ia bolando um novo plano para conseguir o que queria: melhor do que trazer a cabeça de Dohran numa badeja; ela traria de volta os cristais à polícia. Não voltou à delegacia. Ao invés disso, deu um jeito de descobrir em que hospital Caitlyn estava e foi vê-la.

Entrou no quarto escurecido e vazio... Bem... Vazio não fosse por ela, deitada ali, desacordada. O barulho das máquinas lhe açoitava: "bips" vazios, pulsos frequentes, monótonos, o som do respirador que se apossava do rosto dela, o gotejar do soro, quase imperceptível, mas que naquele silêncio mortal, parecia ensurdecedor...

Aproximou-se da cama. Não ligava para como a xerife se vestia. Em geral, achava até bom; ela se vestia bem. Mas aquela bata azulada de hospital... Era terrível vê-la assim. Ficou um bom tempo observando-a, lutando mentalmente para saber se aquilo tinha sido ou não culpa sua. Por fim, puxou uma cadeira e sentou-se ali do lado.

– ...tá difícil, Caitlyn. Ninguém, em lugar nenhum, bota fé em mim... — ela riu um fugaz riso magoado. — Por que então justo você, hein, xerife? Não podia ter... me matado na primeira oportunidade? Humpf... Você é má. Meticulosamente cruel. Você me... prende. Sem precisar de algemas, sem resistência quase nenhuma. Hah, como pode?! — passou a mão pelos olhos. — Eu acho que sei como recuperar os cristais, mas vou ter que fazer isso sozinha... Sei lá, tem algo de muito errado dentro da polícia, pode crer, eu tenho faro pra isso. Provavelmente, tem ligação com esses últimos ataques... Não se preocupe, eu vou dar um jeito, cupcake, só... Volte. Ok?

Gastou mais tempo parada ali, contemplando. Olhou para as mãos, cobertas com as enormes luvas... Queria tirá-las, mas para isso precisava de um lugar minimamente confiável para guardá-las. Decidiu passar rapidamente em casa e deixá-las lá, saindo sorrateira e esgueirando-se direto para o apartamento de Caitlyn. Arrombou a fechadura — anos na rua a ensinaram essas coisas — e foi procurar um lugar para deixar as manoplas. Quase saindo, olhou para a cozinha e teve uma ideia.

Afobada, pegou os ingredientes, misturou-os correndo, fez a massa e meteu-a no forno, na temperatura máxima pra ir mais rápido.

– Vai, coisa, fica pronta logo!

Impaciente, tirou do forno, colocou chantily e uma cereja em cima, com pressa. Deu um jeito de trancar o apartamento novamente e voltou para o hospital. Novamente no quarto, tarde da noite, percebeu mais alguém lá. Entrou devagar. A pessoa se virou.

– Ah, você é a acompanhante dela?

– ...sim. — mentiu com veemência.

– Hum, bom. É triste quando não há ninguém que os visite.

Vi sorriu. Aquela era a enfermeira. Sentiu-se um pouco melhor ao ver que ela realmente estava sendo bem cuidada.

– ...ela vai ficar bem?

– Sim, sim... Provavelmente acorde por esses dias, embora não possa ainda sair.

– Ok. E eu... Posso ficar aqui?

– Se você é a acompanhante...

Deu um breve sorriso encabulado para a enfermeira, que já se retirava do quarto. Depois seguiu até a mesa ao lado da cama e deixou o "presente" e um bilhete. Sentou-se na mesma cadeira que havia deixado ali mais cedo; estava disposta a ficar ali, alerta, em vigília, até que a xerife acordasse...

Seriam longas horas.

~¨~

Sentiu algo pesado, algo apertado... Era seu corpo; seu corpo pesava e havia algo apertando-a. Subitamente percebeu que tomava consciência de si mesma, embora tivesse perdido o que havia acontecido. Diante da ansiedade, acordou.

Era noite, não tinha ideia o quanto, mas estava escuro. Luzes bem fracas iluminavam pontos específicos do quarto: os aparelhos ligados à paciente, uma mesinha de apoio e uma poltrona no canto do quarto. A paciente era ela. Na mesinha, uma enfermeira preparava uma seringa e tinha consigo alguns remédios.

– Oh, acordou! Boa noite, senhorita Caitlyn. — a enfermeira falava com aquela doçura intrínseca à profissão... Era uma mulher bem corpulenta, de pele escura e feições extremamente simpáticas. — Como se sente?

– Bem, eu... — não sabia como descrever. — ...estranha? — olhava para si mesma com algum espanto.

– Haha! Sim, imagino... A senhorita está acostumada a acertar tiros, não levá-los... Eu entendo. É como quando eu fico doente. Alguém cuidando de uma enfermeira? Hah. A ironia é estranha.

– O que aconteceu?

– A senhorita não se recorda? Acertaram dois tiros, um na perna e outro pouco acima do quadril. Quando foi trazida para cá ainda estava consciente, mas não respondia ao que perguntávamos, nem falava.

– Confusa, sim... Lembro de algumas partes. — tentou sentar-se. A enfermeira ajudou-a, levantando um pouco a cama. Tirou o cabelo da testa, segurando-o para trás, com uma expressão um tanto chocada.

– Correu tudo bem, embora a senhorita tenha que passar uns dias "de molho" para recuperar-se. Seus amigos ficaram preocupados. Esta aqui, por exemplo, depois que pisou no quarto não quis mais sair e só foi dormir agora, depois de uns três dias. Acho que ficou exausta... Disse que sairia quando a senhorita acordasse.

Caitlyn, de repente, olhou em volta e prestou atenção à poltrona pela qual havia passado batido antes. Estava mesmo lá, com os cabelos cor-de-rosa despenteados, contorcida para aconchegar-se na poltrona, as mãos nuas, tão simples sem as luvas... Sentiu um alívio súbito seguido de uma euforia inexplicável.

– Ela também trouxe isto.

A enfermeira apontou uma mesinha bem ao lado da cama. Nela, um bolinho enfeitado... Um pouco desleixado. Mas era um cupcake. Debaixo dele, uma nota:

"Volte logo, cupcake, a delegacia tá um porre. =P"

Passou uma mão sobre o colo do peito e respirou fundo, percebendo de forma divertida que fazia isso para acalmar-se. Hah!

– Está bem, senhorita Caitlyn? — a enfermeira perguntava, atenta, depois de injetar um medicamento junto ao canal de soro ligado à xerife e observar aquela reação.

– Sim, sim, é só... Está tudo bem. — sorriu para a enfermeira, tranquilizando-a.

– Ok. Preciso ir então, mas, qualquer coisa, é só apertar o botão ali do lado.

A mulher sorriu, despediu-se com um aceno e deixou o quarto.

"Cupcake"...

Decidiu provar o doce; esticou-se um pouco e sentiu uma pontada no quadril, fazendo-a parar e prestar atenção no que era. Ignorou e tentou de novo, dessa vez trazendo o bolinho e o bilhete para si. Deu uma mordida... Ok, ok. Fez uma careta: não estava lá essas coisas, a massa tinha ficado bem crua no meio e com gosto de farinha. Riu. Valeu a intenção.

Leu mais uma vez a pequena nota. Colocou o cupcake mordido na mesa e percebeu a presença de uma caneta, provavelmente a usada para escrever o bilhete. Fez uma anotação nele, depois retornou papel e caneta à mesa. Antes de virar-se para dormir novamente, deparou-se mais uma vez com a parceira toda desajeitada dormindo na poltrona, mas ainda assim, lá.

– ...obrigada. — sussurrou e virou-se.

Pela manhã, a luz do sol despertou Vi, que esticou-se preguiçosamente, imaginando o que praguejar por ter caído no sono contra sua vontade, mas sem dizer nada, ainda aproveitando o benefício proporcionado pelo cochilo como leve descanso. Nada havia mudado. O sol entrava pela janela, mas o quarto continuava monótono. Suspirou... Recolheu as duas pernas sobre a poltrona, abraçando-as e apoiando o queixo nos joelhos. Olhou para a cama da paciente. Nada ainda?

Levantou-se e se aproximou. Tudo normal de acordo com os aparelhos. A cama estava um pouco mais inclinada; a enfermeira da noite devia ter mexido... Tirou o cabelo que caíra sobre o rosto de Caitlyn, permitindo então que visse-a e concluísse que sim, ainda respirava bem e normalmente. Levantou o braço, mas hesitou, a mão pairando estática no ar... Finalmente pousou-a sobre a mão da xerife, segurando-a com cuidado como uma peça importante de um mecanismo delicado. O escalpe que prendia-se à mão dela era perturbador, injetando soro o tempo todo. Ia virar-se para o lado para olhar a bolsa de soro, quando reparou na mesinha os itens mexidos: o cupcake com uma mordida, o bilhete com algo novo escrito....

"Volte logo, cupcake, a delegacia tá um porre. =P

Logo. :)"

Seu batimento acelerou desesperadamente com a descoberta, mas chegou quase a explodir quando sentiu algo apertando sua mão. Virou imediatamente para encontrar a xerife desperta!

...aquele sorriso podia facilmente ofuscar o sol.

– Caity! — sussurrou em êxtase.

A xerife assentiu com a cabeça.

– Eu acordei ontem e te vi aqui... Obrigada.

O rosto de Vi ia ficando cada vez mais avermelhado, os olhos trêmulos; ela mordia o lábio inferior, parecia que talvez fosse chorar, mas tinha o olhar destemido... De repente, inclinou-se em direção à cama, aproximando-se da xerife, e os lábios se tocaram, ansiosos, pedintes. Súbito a xerife assustou-se, soltando a mão de sua cativa... Mas então sentiu seu beijo. Sentiu os lábios quentes e macios que a pediam... Levou a mão que havia soltado ao rosto dela, segurando-a com ternura num pedido mudo de que não a deixasse, nunca. A fugitiva, percebendo que era retribuída, estreitou-a então num abraço completamente apaixonado, embora apertado, o que fez com que Caitlyn soltasse um leve gemido de dor e se afastasse.

– Ai!... — colocou a mão sobre a atadura acima do quadril.

Vi percebeu que havia pressionado um ferimento. Deu-se conta, de repente, no mesmo momento, de tudo o que acabara de fazer. Emaranhou os dedos nos cabelos curtos e parecia surpresa.

– Xerife! Me desculpe, eu... Eu... Te machuquei?

Caitlyn acariciou o rosto de Vi, docemente delineando aquelas marcas que carregava. A moça fechou os olhos e repousou a face na mão da xerife. Caitlyn então percorreu seu braço e tomou a mão dela, pousando-a delicadamente sobre as ataduras acima do quadril.

– ...não.

Antes que pudessem se aproximar novamente, a porta do quarto se abriu e um batalhão de oficiais começou a entrar empunhando armas, pegando as duas completamente desavisadas. Caitlyn não entendeu o que acontecia, muito menos Vi, que se afastou da xerife ao ver que as armas apontavam para si. Tinha primeiro que tirá-la da mira, tirar Caitlyn de perigo. Tudo acontecia rápido demais, e Jayce entrou, já acercando-se de Vi, falando algo que ela não conseguia entender, não prestava atenção...

– O que...

...seguraram-na pelo braço e bateram-lhe duramente na parte de trás de sua perna, fazendo-a cair sobre um joelho...

– Jayce, o que é isso?!! — Caitlyn se esticava na cama, tentando ver e entender ou obter uma resposta do que faziam, por que faziam?

...torceram o braço de Vi para trás e botaram-lhe uma algema...

– Violação de condicional, xerife. — lançaram um papel para Caitlyn, que lia com uma expressão incrédula.

...mas Vi pôde quebrar a algema simplesmente fazendo força; tentou socar um oficial e ficar de pé; os "bips" dos batimentos de Caitlyn se aceleraram e ela sentiu vertigem, um policial apoiou-a para deitar-se novamente; Vi desconcentrou-se completamente ao ver aquilo; meteram-lhe mais três algemas; ela forçou, mas não pôde quebrá-las, sentia como quando se acaba de acordar e os músculos recusam-se a fazer força; foi tirada do quarto com grande dificuldade, ainda lutando contra os policiais...

– Caity! — sussurrou com dor na voz ao conseguir ter um vislumbre dela novamente desacordada no quarto, um oficial abanando-a, a enfermeira entrando correndo, e ela sendo levada para longe sem poder fazer nada...

Notas finais
"...If our love is tragedy, why are you my remedy? If our love is insanity, why are you my clarity?" - "Clarity"; Zedd feat. Foxes *E esse capítulo me leva às origens... O primeiro esboço do que viria a ser essa loucura toda veio depois de ver exatamente esta imagem apresentada no capítulo e, presa num p*** congestionamento, ter tempo pra parar, ouvir e realmente prestar atenção na letra da música "Clarity"... Tão linda... (E, sim, memórias pipocaram na cabeça, that's why I was touched, rs) Sabe-se lá por que, mas imaginei que pudesse ser Vi a dizer aquilo. Na linha de frente de uma mega batalha, ela se desconcentra e quase se dá muito mal por estar preocupada com Caity dando cobertura a ela. Ao ir "brigar" com a xerife, agitada, entretanto, ela não consegue explicar qual o motivo da desconcentração ou do nervosismo... " 'Cause you are the piece of me..." Hehe. É... Se há alguém a se agradecer pelo início dessa malucada... Zedd, Foxes, "thank you for the music". :D