Piltover's Finest

15 Capítulo 14 - Deadline


Notas iniciais
"Deadline" (inglês) : 1 - Fim da linha. Prazo final. Prazo para entrega de determinada tarefa, que está chegando ao fim. 2 - (origem da expressão) Durante a guerra, os americanos estabeleciam um limite além do qual não poderia ser ultrapassado. Se ultrapassado, o sentinela atiraria. Era a linha da morte. (fonte: dicionário inFormal)

Por um momento tenso, o velho investigador permaneceu de pé, observando atentamente a movimentação ligeira da xerife, sua conversa no telefone e a miríade de expressões que tomavam seu rosto conforme a conversa ia evoluindo e as últimas informações da Patrulha chegavam a ela. Estava nervoso. Com seus anos de experiência, desenvolvera esta acurada percepção de quando algo grande, fatídico e inevitável estava por vir. E ele agora sentia-se tenso frente àquele indício de avalanche.

O celular muito lentamente, quase como se o tempo tivesse congelado, escorregou das mãos da xerife e foi encontrar-se tragicamente com o chão...

Ela estava atônita.

Levou as duas mãos ao rosto, cobrindo-o e desabando no sofá atrás de si sem emitir um som, sem dizer uma palavra. Sem sequer chorar. Nada. Por alguns instantes, não conseguiu fazer absolutamente nada. Apenas deixou-se cair sentada, com o rosto tampado, sobre o sofá... Preocupado, o ex-oficial tencionou aproximar-se e envolver-lhe os ombros, confortando-a, mas hesitou frente a essa decisão. Mesmo com os olhos tampados, ela pareceu perceber tudo isso que se passava. Silêncio.

– Ela fugiu. — falou Caitlyn por fim, com um suspiro.

~¨~

Ela corria no meio da noite, buscando esconder-se nas sombras, fugindo desesperadamente mais uma vez, como não fazia há tempos em sua vida. Porém, dessa vez, definitivamente não podia ser pega. Isso significaria o fim de toda aquela utopia que ela sonhava preservar, mesmo se não tivesse direito de fazer parte dela. Piltover... Como odiava e como, de repente, aprendera a amar aquela cidade!...

Precisava agir de forma impecável agora; esta etapa do plano absolutamente não suportaria erros. Precisava colocar os documentos num lugar seguro; precisava pegar sua luvas e... Espere. Espere; alguém poderia ajudar. É, ele tinha dito que de maneira alguma participaria de um roubo ou qualquer coisa avessa à lei... Bom, então não se importaria em prestar um favor justamente contrário a isso! Haha...

Contente pela esperta conclusão, Vi segurou aquele monte destrambelhado de papeis com mais força e começou a correr como se não houvesse amanhã. Precisava chegar até lá o mais rápido possível, o mais rápido possível...!

– BARTHRAAX!! — ela batia desesperadamente contra a pequena porta, quase derrubando-a e fazendo estremecer toda a casa, mas mantendo o respeito de não entrar sem permissão no lugar. — BARTHRAX! BARTHRAAAAX!!!

O homem acordou em seu sofá com um susto. O que era aquilo?! Mas então, mesmo assustado e confuso, parou para ouvir e prestar atenção... Não. Ele não podia acreditar! Era mesmo aquela voz que ele estava ouvindo?! Levantou num pulo e correu para abrir a porta.

– BARTHRAAAAX!!!

– VI?!

– Barthrax; graças aos deuses! — mal a porta se abriu, a menina atirou-se para abraçar o grandalhão. O velho observou confuso o estado agitado dela. — Por favor, eu sei que você disse que não queria fazer nada que fosse contra a lei, mas...

– Vi, o que você está fazendo aqui?!

– Não dá tempo de explicar!!! — ela interrompeu-o brutalmente, nervosa, mas então fez uma breve pausa e respirou. — Não dá tempo de explicar, Barthrax, mas eu juro, não é absolutamente nada que possa te incriminar; na verdade você vai prestar um serviço à Caitlyn... — ela ofegava enquanto falava sem pausas para respirar entre uma frase e outra, com uma expressão desesperada. — Por favor, eu... Eu preciso de ajuda.

O homem queria ter tempo para pensar naquilo, mas cada segundo era valioso e aproximava-os cada vez mais do destino final... Ele desejava ajudá-la, mas sabia qual era o tipo de plano que ela queria executar... Boa, porém caótica. Respirou fundo.

– Me convença.

Um sorriso sem igual iluminou o rosto da moça enquanto ela explicava rápida e sucintamente tudo o que Barthrax teria que fazer. De fato, de forma alguma aquilo era contra a lei... Esperta. Os olhos de Vi ao mesmo tempo explicavam, se animavam e suplicavam a Barthrax para que a ajudasse a fazer aquele plano louco dar certo. Ao final da curta conversa, o velho mineiro cruzou os braços sobre o peito com uma feição extremamente séria. Suspirou.

– ...Acho que a velhice está me deixando louco... Velho e louco... — lançou o olhar para a jovem baderneira à sua frente. — O que está esperando?! Me passe as coisas e vá; vá; ainda tem muito o que fazer!

Sem conseguir acreditar naquilo que acontecia, Vi mais uma vez se atirou nos braços de seu velho amigo, chegando a empurrá-lo para trás descuidadamente devido à força incalculada de seu abraço.

– Aahaha, obrigada! Obrigada, obrigada, obrigada, Barthrax! — ela sorria enquanto falava com uma voz trêmula, agradecendo-o e rapidamente passando os materiais para ele. Nem mesmo despediu-se; sentia-se atrasada e ainda tinha realmente muito o que fazer! Saiu correndo novamente para dentro das trevas da noite, sumindo à vista enquanto seguia seu rumo com carga renovada de energia. "Esperança" era o que podia se chamar aquilo.

Ela tinha que correr agora para o apartamento da xerife; uma operação ousada em que ela teria que ser extremamente cuidadosa para não causar um grande estrago em tudo o que planejara... Mas já fazia tempo demais que não reencontrava suas queridas manoplas.

~¨~

Um novo silêncio aterrador se fez. Andrès entendia o que acontecia, entendia tudo aquilo mesmo sem estar completamente inteirado do caso; compreendia principalmente a origem daquele tom entristecido e decepcionado com o qual a jovem investigadora falara... Ela tinha cometido aquele erro. O pior erro que um detetive pode vir a cometer, mesmo que não por vontade própria: apaixonar-se pela femme fatale.

O mundo parecia novamente parar enquanto a xerife jazia sentada, cobrindo o rosto, no sofá da sala de seu colaborador. Apesar do tom entristecido em sua voz, ela não aparentava sentir-se especialmente triste. Na verdade, por alguns instantes, ela simplesmente não sentira absolutamente nada. Estava inerte, torpe, perdida no tempo. Era o Destino. Era o Destino, imponente e implacável, demonstrando mais uma vez que seus ultimatos eram únicos e inexoráveis. Ela sabia que Vi ia fugir. E, por mais que quisesse que não fosse — e que tivesse se esforçado por isso — , ela já tinha decidido que iria embora e o Destino abençoara aquela decisão. A jovem xerife via-se então de mãos atadas, obrigada agora a se conformar àquilo.

Vinha sofrendo internamente de forma imensurável com a possibilidade iminente de que a rebelde louca de cabelos rosa viesse a fugir, e enfim havia aceitado que não era direito seu prendê-la para si, ao menos não daquela forma. Fora os rigores da lei, Vi era uma pessoa livre para tomar as decisões que quisesse e Caitlyn de maneira alguma iria privar-lhe disso. Mas havia um grande agravante na atual situação. Havia uma série de crimes graves interligados e uma grande investigação em curso. E em momento nenhum Caitlyn imaginou que Vi fosse capaz disso.

– Ela não só fugiu; uma série de policiais foram encontrados gravemente feridos na delegacia e ela ainda roubou documentos... — engoliu em seco. — ...roubou documentos importantes. Os tais projetos de Jayce...

Tirou as mãos do rosto e cobriu apenas a boca, não aceitando acreditar naquilo. Queria falar algo, mas pensou mil vezes naquilo. Não ousava... Os olhos incrédulos fitavam o nada. De repente, recaíram sobre as pilhas de papel impresso no seu canto de trabalho, o notebook ainda ligado, aquela investigação... Lixo, lixo, lixo!! Tudo aquilo; lixo! Só isso! Era só o que conseguia pensar de todo aquele trabalho que teve; de tudo o que aconteceu! Por que Vi fazia agora isso com ela, atingindo-a tão baixo? O que Caitlyn tinha feito de mal a ela?!

– ...Isso a torna, automaticamente, a principal suspeita do caso. — Andrès concluiu após o longo silêncio que se formara, tirando da boca de Caitlyn o pensamento que ela não ousava pronunciar.

Contudo... Engraçado. Ao ouvir aquele mesmo pensamento sendo proferido por outra pessoa, teve a oportunidade única de observar a situação de fora, ouvindo e pensando no caso através de um ponto quase completamente novo. Um vislumbre. Refletiu.

– Isso a torna automaticamente a principal suspeita... do caso do roubo dos projetos. — falou, pensativa. Ouvindo o modo com que a xerife falava aquilo, Andrès percebeu prontamente que um novo panorama se formava e enfim aproximou-se, sentando-se no sofá ao lado da investigadora, interessado. — Vê, Andrès... E se estivéssemos tratando aqui de dois casos diferentes o tempo todo como se fossem um só, só porque têm Dohran como agente em comum? Foi o que ela disse... "Ele poderia fazer o acordo que quisesse, com quem quisesse, na hora que quisesse, se fosse conveniente"... Poderiam ser dois acordos diferentes, dois... Crimes... Diferentes. Isso encaixaria melhor bastante coisa no caso, embora confunda algumas outras...

– Imagino...

A xerife ainda repassava e examinava tudo aquilo loucamente em sua cabeça. Céus; era possível que aquele caso mudasse daquele jeito, retornando à estaca zero a cada passo dado?! Era cansativo, era extremamente... decepcionante chegar sempre tão perto da resposta e então perdê-la novamente no ar. Tentava se reorganizar mentalmente, mas já não havia tempo e Caitlyn começava a confundir-se em seus pensamentos. Àquela altura, já não era tão fácil separar racionalidade de emoção. Respirou fundo, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e apoiando a testa nas mãos.

– Dois crimes... É uma possibilidade plausível. Mas por que ela só roubaria os projetos quando teve todas as oportunidades para... me matar? Ou então porque outra pessoa já não faria as duas coisas juntas, a mando de Dohran? Quer dizer... Onde esses interesses se cruzam, se é que eles se cruzam... — refletia sobre o caso, mas não conseguia parar de pensar no sorriso daquela criminosa, no seu jeito de falar, de agir... Tinha sido tudo mentira? Suspirou. — Ela vivia afirmando que era inocente... Bom, na verdade não exatamente "inocente", mas que não tinha mais parte nos planos de Dohran. E ainda assim, mesmo tratando-se de dois crimes distintos... De um ela, sem dúvida, é culpada.

~¨~

Aproximou-se com extrema cautela daquele quarteirão conhecido em que passara diversos dias e noites quase como uma convidada... Hoje voltava a ele quase na condição de bandida... Bem... Repassou uma breve listinha mental em sua cabeça: havia 1) fugido da delegacia, 2) roubado documentos oficiais e agora estava prestes a 3) arrombar a casa da xerife para 4) roubar também suas manoplas, para depois poder ir encontrar-se com um membro da gangue com o qual 5) fecharia o negócio com Dohran, visando chegar até os cristais para poder também 6) roubá-los.

É. "Quase" soava bem como um eufemismo, pensando melhor em sua situação.

Mas isso não importava! Seu objetivo agora era entrar sorrateiramente no local, pegar as manoplas e dar o fora. Aproximou-se mais do apartamento. Imaginava que o encontraria com as luzes acesas, com alguma movimentação dentro do local, e que teria que fazer das tripas coração pra conseguir entrar minimamente sem ser notada pelos vizinhos, driblar Caitlyn, que provavelmente a esta hora estaria acordada e enfiada no meio de papeis sobre a investigação, para só então, com sorte, ir embora com as manoplas sem causar qualquer confusão muito maior que a impedisse de seguir em frente. Mas aquela noite parecia guardar todo tipo de surpresas, fosse para o bem ou para o mal.

Deu a volta no bloco, procurando subir pelas escadas de incêndio. "Tomara que essa porra não tenha alarme e que não acione os bombeiros e toda aquela merda quando abrir...". Respirou fundo e... puxou a porta corta-fogo num supetão, entrou e começou a correr escada acima, depressa. Só alguns segundos depois percebeu: caracas, a porta tava aberta! E não acionou nenhum alarme! Ok, sem tempo pra comemoração, tinha que continuar correndo contra o tempo, atenta a tudo e a todos.

Chegou logo no andar que precisava. O terceiro. Saiu da escadaria de incêndio muito lentamente, tomando cuidado para não fazer barulho e não chamar a atenção de modo alg... DROGA! A maldita luz do corredor acendeu do nada; devia ter lembrado que aquela merdinha era acionada com qualquer movimento! O coração quase saiu pela garganta mas, fora o susto, aquilo não tinha sido nada demais. Olhou em volta. Provavelmente todos os vizinhos já estavam no sétimo sono àquela hora. Caminhou lentamente em direção à porta do apartamento da xerife, tirou um par de pequenas gazuas que levava sempre escondido consigo (que droga que aquela porta da cela reforçada só tinha uma fechadura do lado de fora!) e começou a trabalhar naquele trinco que já conhecia. Voilá. Não demorou para que a porta se destrancasse para ela.

Abriu-a com cuidado. Hum... Tinha mesmo visto as luzes do apartamento apagadas do lado de fora... Caitlyn deveria estar dormindo. De repente, sentiu um aperto terrível na garganta. E se ela estivesse mesmo ali, no apartamento, dormindo? Ela... Ela estava tão perto... Mas não poderia fazer definitivamente nada. Nem um beijo inocente de "boa noite" em seu rosto, nem sequer afagar seus cabelos, desejando que dormisse bem e tivesse bons sonhos enquanto ela tratava de resolver tudo aquilo por ela, para que pudesse descansar em segurança... Fechou a porta atrás de si, mergulhando na escuridão enquanto tentava conter a respiração descompassada pensando naquilo. Sua garganta doía. Os olhos estavam bem abertos, atentos a tudo em volta. As mãos repousavam atrás de si, ainda segurando a maçaneta, enquanto o corpo se apoiava nas costas quase completamente repousadas sobre a porta, tentando acalmar-se para continuar.

Soltou a maçaneta e começou a caminhar na direção conhecida, tateando o caminho no escuro. Passou em frente ao quarto e iria continuar reto, não fosse a fraca luz do luar adentrando aquele cômodo e revelando-lhe... Nada. Estava vazio. A cama estava arrumada, tudo estava na mais perfeita ordem, como se ninguém tivesse entrado lá há um tempo. Respirou fundo. Ao mesmo tempo, sentia-se decepcionada e agradecida por Caitlyn não estar lá. Uma preocupação a menos, certamente. Ainda assim, gastou uns bons segundos apoiada no batente da porta do quarto, apenas observando a cama vazia, a ausência Dela, que peculiarmente tomava conta de tudo ali... Permitiu-se aquele breve momento, como se aquilo a trouxesse minimamente mais perto da xerife... Mas tinha que prosseguir com seu plano.

Continuou seu caminho até uma portinha esquecida ao fundo do corredor. Era um armário em que Caitlyn costumava guardar as coisas que — imagina-se — teriam algum uso um dia. Roupas pesadas de inverno, como se tivesse passado uma temporada em Freljord e trazido-as de lá; um conjunto diferente de armas e munição de caça, hobby bem característico da xerife; alguns troféus velhos que ela não fazia questão de exibir pela casa, mas também não sabia onde guardar; algumas caixas com recordações... Enfim, todo tipo de tralha que saía de lá de vez em nunca. Debaixo daquilo tudo, havia um bom lugar escondido em que Vi pôde deixar suas manoplas na ocasião em que fora presa no hospital, certificando-se de que nenhum espertalhão mal intencionado iria roubá-las para fazer um estrago. As manoplas eram dela. Ela era a única autorizada a fazer estragos.

Remexeu aquele monte de coisas e tirou-as dali, voltando depois tudo ao seu devido lugar... mais ou menos. Vestiu as gigantes luvas de ferro e acionou-as com os cristais, que havia escondido em outro lugar por precaução. Sentiu aquelas toneladas de metal ganharem vida, moverem-se a seu comando, sua vontade... Abriu e fechou as mãos diversas vezes, lembrando-se deliciosamente do sentimento que era vesti-las e voar para a batalha. Hah!... Agora sim sentia-se livre. Viva. De volta à ativa! Haha! Fechou os punhos e sorriu.

– Huhum... Acho que elas também estão com saudades de você, Dohran...

Imaginava como deixaria a cara dele amassada, completamente irreconhecível quando o pegasse de jeito... Dohran não perdia por esperar.

~¨~

– Este caso está ficando cada vez mais complicado e perigoso que o normal, Caitlyn. Você tem total certeza de que não quer que te ajude?

Andrès a seguia, austero, enquanto a xerife arrumava-se apressadamente para ir até a delegacia. Vestia novamente o casaco com o qual viera, desligava o notebook e colocava-o dentro da bolsa, junto a uma quantidade enorme de papeis e um CD que tinha gravado com a cópia das informações sobre o caso; buscava seu rifle e preparava-se rapidamente para sair.

– Eu quero ajuda, Andrès, mas pra isso você não pode vir comigo. Tenho que ter alguém na retaguarda caso eu precise recuar rápido, entende? Estão atacando por todos os lados e não podemos arriscar quase nada a essa altura do campeonato; nosso jogo vai ter que ser na retranca, infelizmente. — ela seguiu à escrivaninha do anfitrião num cômodo anexo, onde ficavam os equipamentos de espionagem e um pequeno escritório. Pegou um papel e começou a escrever nele. Entregou-o para Andrès junto com um CD, com a cópia de seu relatório completo sobre a investigação. — Tome. Preciso que me rastreie. Não sei o que pode acontecer, então é bom que pelo menos alguém saiba onde eu estou. Caso ache qualquer coisa estranha, avise alguém, de preferência duas pessoas completamente distintas e sem nenhuma ligação, mas que possam me ajudar. Assim diminuímos o risco de sermos pegos por alguma surpresa.

– Aviso Johan?

A xerife parou e pareceu hesitar. Ele parecia ter sido franco com ela até agora... E, de fato, as evidências não apontavam para ele...

– Só se for realmente necessário.

Ajeitou a bolsa no ombro e pediu a chave do carro do ex-oficial emprestada. Ia seguindo para a porta e já abrindo-a, quando deteve-se.

– Andrès... Johan alguma vez enganou meu pai?

– Só quando disse que ele ia ficar bem logo e voltar à polícia.

A mulher, pensativa, assentiu com a cabeça e saiu. Sem saber, partilhava do mesmo sentimento da outra: sentia que estava sozinha nessa. E tinha que achar um jeito de se resolver. Enfim... Deu a partida no carro e foi não à delegacia, mas ao hospital para onde os policiais feridos foram levados a fim de receber tratamento. Outros oficiais estavam por lá, dando início já à investigação e recolhendo um ou outro depoimento dos poucos policiais que acordavam e que se viam em condições de falar. Um outro grupo fora acionado para ir à delegacia analisar a cena do crime e procurar alguma pista, embora já tivessem uma opinião de quem teria feito tudo aquilo...

– V-voi... Voi buito rábido. Eu vu-vui atingido belas costas, uba porrada buito... buito forte, e já caí no chão. Bais uns dois caíram co-cobigo... — o policial tremia e gaguejava, ainda em choque, e tinha dificuldade para falar com o nariz quebrado e um dente faltando na parte da frente; o rosto inchado e temporariamente deformado devido às contusões.

– O que ele disse? — Caitlyn chegou e sussurrou a um oficial que acompanhava o depoimento, pedindo mais informações.

– Nada que nos ajude muito, por enquanto. Ele disse que ouviram um barulho estranho vindo da delegacia e decidiram sair do pavilhão das celas pra averiguar do que se tratava e que, chegando ao laboratório, um grupo foi nocauteado. O primeiro grupo. O dele. Disse que foi tudo muito rápido e os policiais parecem ter sido apagados numa jogada só, mas aparentemente não viu nada relacionado a uso de arma de fogo. De fato, todos os ferimentos são contundentes e pesados... — o oficial fez uma pausa. — Você sabe que aquela prisioneira fugiu, não é, xerife?

– É claro que eu sei; eu que mandei aumentarem a segurança sobre a cela dela. — Caitlyn respondeu ainda sussurrando, porém brava. — Mais alguma coisa que... — seu celular tocou, interrompendo-a. — Só um minuto. — retirou-se um pouco mais ao longe para atendê-lo. — Alô?

– Xerife, mais um oficial foi encontrado na delegacia, trancado no banheiro da enfermaria. A chave foi deixada do lado de fora; ele disse que a fugitiva se machucou e vieram então fazer um curativo, mas ela o apagou com um murro e ele acordou assustado, trancado no banheiro... Xerife?

– Tragam-no pra cá também. — foi só o que disse, desligando o celular e passando uma mão pela testa.

– Ugh... Ah... Senhorita... Caitlyn? — a xerife ouviu uma voz debilitada chamá-la de um canto um tanto próximo. Era um policial numa maca... Era aquele rapazinho que tinha tomado conta de Vi da outra vez. Aproximou-se dele ligeiramente curiosa. — Senhorita... A Vi... Ela fugiu...

– Eu sei, eu sei; ninguém me deixa esquecer isso!

– Não, mas eu não... quero... Arg! — sentia ainda uma forte dor de cabeça, embora fosse o policial em melhor estado naquele lugar. — Não foi... ela. Os outros feridos... Não foi ela quem fez isso.

– Como assim?

– Os outros saíram para ver o que era aquele... barulho... que tinham ouvido. Eu estava servindo o jantar e Ahro vigiava a cela, quando ela se cortou... com... vidro. Sangrava bastante e o oficial foi levá-la à enfermaria, enquanto eu limpava a bagunça... Mas então tudo ficou em silêncio. E os outros ainda não tinham voltado; argh! ...eu... ...decidi ir ver o que era, e só encontrei Vi saindo sozinha da enfermaria. Pedi que ela ficasse onde estava, mas ela correu e eu a persegui até... — respirou fundo — ...até o corredor da oficina.

– Hum... — a xerife suspirou e pensou na ordem dos acontecimentos como ele os colocava. Pequenas nuances que mudavam todo o significado da situação... — Continue.

– Eu a persegui e, quando cheguei no corredor, ela sumiu. A porta da delegacia continuava trancada. As dos escritórios também. As únicas abertas eram a da oficina e a do laboratório, e ela só teria tido tempo mesmo de correr para uma dessas. Eu ouvi um barulho no laboratório e decidi procurar por lá então, mas foi quando encontrei todos... Todos nocauteados. Machucados. Foi... Foi um grande choque, xerife, e por um momento eu imaginei que tivesse sido ela, mas Vi não estava por lá... Quer dizer...

– ...ela não teria tido tempo de entrar sem ser notada, derrubar a todos e sair sem que você a visse.

– Exatamente.

Aquilo estava ficando interessante... Dois crimes...

– Pedi reforço fora da delegacia e pedi também que mandassem ambulâncias, e então fui atrás dela. Ela tinha entrado direto na oficina. De fato, ela estava roubando documentos e queria fugir com eles, mas eu a encurralei. ...Foi quando ela partiu pra briga.

Caitlyn ouvia àquele relato intrigada. Cada vez via-se mais e mais dividida sobre que caminho seguir; quais decisões tomar... O que pensar. Pousou o punho fechado em frente à boca, raciocinando arduamente, enquanto mordia o nó do dedo indicador buscando dissipar a tensão. Sem dúvida, Vi era a culpada do roubo dos documentos. E, se havia roubado-os, de acordo com as ligações e a carta, provavelmente iria levá-los de algum modo a Dohran ou algum outro integrante da gangue. "Uma negociação em algum dia próximo nos arredores da cidade", Jayce havia dito. Humpf... Havia aí um enorme conflito de interesses. Jayce estava bem na mira da xerife... Vi agora também. Suspirou... Uma hora, o gatilho teria que ser puxado.

– Xerife... — o rapaz retomou, chamando sua atenção. — Tem mais algumas coisas...

– Fale, fale. — ela aproximou-se mais, atenta e interessada no que o rapaz tinha a relatar.

– Enquanto estava encurralada, Vi repetia a todo momento que "tinha que acabar o que Dohran tinha começado" e que não era culpada... Ela parecia... Parecia desesperada.– a expressão do oficial era relutante, como se ainda se perguntasse "o que pensar de tudo isso?". — Eu estive disposto a atirar nela... Eu atirei nela... — a respiração de Caitlyn foi cortada por um segundo. — Mas não tenho certeza se ela é ou não culpada de algo... Quer dizer... As ações dela dizem uma coisa, mas os gestos dizem outra...

– É, ela pode ser bem... Complicada. — a xerife suspirou, deixando cair um pouco os ombros.

– E um dos oficiais disse que... Esse cara... Quem quer que seja a pessoa que os atacou... Esse cara levou a Elle.

– O QUÊ?!! — o coração da xerife bateu na boca e seus joelhos quase a levaram ao chão, se não tivesse segurado firme na maca com a surpresa repentina que a atacara. Rápida e precisa como um tiro, virou-se para os outros oficiais em ação no hospital e ordenou-lhes, — GUARDAS, ALGUÉM POR FAVOR VÁ VER SE ELLE ESTÁ EM SUA CASA; RÁPIDO! TENTEM LOCALIZÁ-LA EM QUALQUER LUGAR DA CIDADE! — ainda confusos, os oficiais correram para atender ao pedido inesperado da xerife, enquanto ela já abria o celular e discava o número da perita. O celular toca... Toca...

– Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de... — uma voz gravada irritantemente simpática e feliz respondia com aquela maldita mensagem conhecida.

– DROGA! — o que ela ia fazer?! O que queriam com Elle; tentar chegar ao cerne da investigação? Que idiotice; ela só tinha o capacitor consigo e nem havia conseguido examiná-lo direito; as pistas mais importantes estavam com Caitlyn!... Decidiu, do nada, discar outro número no celular. — Jayce, onde é que você está?!

– Na delegacia, Caitlyn; me chamaram há pouco junto com os outros oficiais para ajudar aqui na cena do crime. Já estamos enviando o outro policial ferido aí para você.

– Ótimo; venha junto com ele então.

– Mas estou na investigação da cena do...

Venha!

Fez-se silêncio por alguns instantes.

– ...Você sabe que anda insuportável, Caitlyn?

Ela ficou vermelha e desligou o telefone.

– AAAAARRRRRRRGGGGGHHH! — grunhiu, enfurecida. Sua vida toda andava um desastre.

~¨~

– Alô? Dohran?

– Hum, minha gatinha... Há quanto tempo...

– Corta a enrolação, colega. Já to com os documentos do heroizinho. E então? Como vai ser?

– Caramba, fazendo ligação a cobrar... Achei que você tava passando bem aí com a xerife... Achei que estivesse bem alimentada...

– Para de graça e me responde!

– Hum, e aí? Agora você vai voltar pra gente? Huhuhumm... Eu andei pensando em você, docinho. Sabia que eu to relaxando naquele sofá gostoso de...

– VÁ SE FODER, DESGRAÇADO; FALA LOGO OU EU CORTO SUAS BOLAS E USO DE BRINCO CHEGANDO AÍ!!

– Aah, sim... Uuh... Fala algo mais sujo pra mim, querida... Hahahaha!!! — o rapaz se deliciava em fazer os outros rastejarem no chão por ele. Gostava de ouvir o desespero principalmente na voz de piranhas filhas de uma puta traidoras que mandavam ele se foder num dia, mas depois vinham rastejando por ajuda, querendo apertar sua mão no outro... Vadia. Ela ia ter o que merecia quando o encontrasse...

– CARALHO, DOHRAN, ...!!! — ela se segurava para não xingar mais aquele cachorro lazarento, o que só o excitaria mais ainda. Desgraçado, vagabundo...! — Olha aqui: fala logo onde você quer que eu entregue essa p... ... ...essa "porcariazinha" desses documentos, antes que eu pense em queimar tudo, "meu amor". — ela falava sorrindo, de uma forma amável, ameaçadora e irritantemente sarcástica.

– Você não vai tocar em porra nenhuma se eu não te mandar, garota. — ele se levantou do sofá subitamente, irritado com a ameaça dela. — É melhor você se colocar no seu lugar logo, antes que eu tenha que mostrá-lo pra você...

– Que eu saiba, a gente nunca esteve num patamar diferente um do outro, "docinho". Mas quer resolver isso agora? A gente podia tirar na "guerra de polegares", haha! — movimentou as enormes luvas, transmitindo o ruído metálico pelo telefone e rindo. Invertia o jogo, tirando sarro do criminoso, displicente e debochada como sempre.

– Você acha... Hah... Você acha mesmo que vai rir por último, não é? Vi, Vi, Vi... Sabia que eu adoro essa sua imprudência? Ao mesmo tempo tão forte, tão ousada... E tão vulnerável na minha mãozinha... Continua, garota; continua falando desse jeito comigo...Anda achando que tá por cima da carne seca, Vi?

– Adivinha só, Dohran: eu to por cima da carne seca. Me encontra na merda do beco do polaco ainda hoje pra gente resolver isso. — ela bateu o telefone no gancho e deixou o orelhão naquela parte esquecida da cidade. Voltou a esconder-se.

– ...Vadia, desgraçada, FILHA DE UMA PUTA!!! — levantou-se do sofá, estraçalhando o celular ao jogá-lo no chão. Quem aquela mulher achava que era, hein?! Ele ia acabar com ela de todas as maneiras possíveis quando a encontrasse; aaah, se ia! Chutou o que restou do celular e foi até outro cômodo usar o telefone.

– Alô?

– Sua "amiguinha" vai estar esperando, daqui a pouco, num beco ao sul da cidade, do lado daquele conjunto residencial do inferno, com a fachada de tijolos à vista, no fim da rua Guershack. Faz a merda que você tem que fazer e aproveita e mata aquela filha da puta. — desligou o telefone com raiva. — NOVAAAK!

– Diga, Dohran. — o homem veio correndo, preocupado com aquela explosão de raiva repentina.

– Cadê aquela porra que eu tinha pedido pra você arrumar pra mim? HEIN?!

– O mecânico disse que já está terminando, deve ficar pronto amanhã pela tarde.

– Apressa esse desgraçado pra ele terminar logo; eu quero essa merda PRA ONTEM!

– Não tem como, Dohran! Mesmo que ele termine, não vai dar tempo de testar e...

– ENFIA NO RABO ESSA SUA MERDA DE TESTE! COMO AQUELA CACHORRA CONSEGUIU FAZER AQUILO EM CINCO MINUTOS E VOCÊS NÃO CONSEGUEM EM MAIS DE UM MÊS?!! BANDO DE TROUXAS, É ISSO QUE TODOS VOCÊS SÃO! — enquanto o homem berrava, irado, ia destruindo tudo o que pudesse e o que encontrava pela frente. Estava ardendo de raiva; o jogo, enfim, não estava tão ganho quanto ele pensava... Cadela do inferno... — OUÇAM AQUI; TODO MUNDO! — seus homens vieram todos para ouvir o que o chefe tinha em mente agora. — Eu quero... — ele começou com uma ira gélida, falando baixo e quase arrancando sangue dos próprios lábios ao mordê-los com raiva. — EU QUERO QUE TODOS VOCÊS SE PREPAREM. SE ENTUPAM DE TUDO QUANTO É ARMA, TUDO QUANTO É MUNIÇÃO... CARREGUEM ENFIADO NO RABO, SE PRECISAR; PORQUE ASSIM QUE ESTIVEREM PRONTOS... NÓS. VAMOS. DOMINAR. PILTOVER!!!

No esconderijo, todos os membros e aliados daquela corja de criminosos, inclusive aquela figura risível da magrela de cabelo azul, gritaram efusivamente, sedentos como hienas famintas à espera da oportunidade de arrebatarem a cidade para si... Huhum!!! Jinx sentia aquele furor ao redor envolvê-la cada vez mais. Olhava ao redor, com aqueles olhos injetados e um sorriso completamente insano que parecia querer se alargar cada vez mais ; mais e mais feliz com o prelúdio de confusão que se delineava ali!! Haha! Já quase explodindo de ansiedade, retirou-se rápido, sem ser notada...

– Hey, Fishbones... ACORDA, LANÇA-MÍSSEIS PREGUIÇOSO!!! ...Nós temos que começar os preparativos pra outra festinha, hihihihi... E temos que começar AGORA!

Com a fúria temporariamente aplacada, Dohran deixava o aposento, passando em meio a todos e parando ao lado de seu atual "braço direito".

– ...É bom que meu novo "brinquedinho" esteja pronto logo, Novak...

~¨~

– Pronto, Andrès; o que é que você queria? — o oficial, com seu corpo robusto, adentrava impacientemente a casa do amigo e colaborador.

– O celular de Dohran recebeu uma chamada de um número desconhecido; mas pela conversa ficou claro que marcava com Vi o local em que fechariam a negociação quanto aos documentos de Jayce.

– Oh, não... Inferno; AQUELA BASTARDA enganou a nós todos! — Johan ficava vermelho e colérico, franzindo o rosto como um animal ao pensar naquela marginalzinha.

– Calma, Johan! — Andrès, ríspido, repreendeu-o pelo descontrole na atitude. — Agora não é o momento de se descabelar e atirar tudo pro alto! ...Temos que nos concentrar e avisar Caitlyn...

– Não! Não o faça... — o velho oficial ofegava. — Não o faça... Ela... Ela vai procurar aquela imprudente se souber que ainda está na cidade e isso... — parou para tomar um tempo e respirar melhor. — Isso a levaria para um desastre certo!

– Mas então o que faremos, Johan; pense! O que faremos?! Hein?! Caitlyn vai ficar em perigo enquanto brincamos de gato e rato tentando pegar o culpado antes dela?! Me poupe; a menina sabe se cuidar; ela provavelmente já chegou ao culpado!

– ENTÃO POR QUE NÃO FALA?!

– ELA ESTÁ TENTANDO SE PROTEGER; NOS PROTEGER; PROTEGER A INVESTIGAÇÃO; NÃO SEI! — calou-se, pasmo com o modo com que falavam agora um com o outro. O que era aquilo; nunca tinham perdido o controle daquele jeito... Andrès sentiu-se mal... Sentiu-se como um animal irracional e fora de si. Passou as mãos pelos cabelos cinzentos, arrumando-os novamente no lugar. — Johan, o inimigo dela está muito próximo e ela sabe disso. Olha o que fizeram tentando mantê-la calada... Enquanto ela fingir que está no escuro nesta investigação, estará protegida. Agora, se o meliante que está fazendo isso souber que ela já tem o Ás na manga...

Johan hesitou, cansado. Não queria aceitar aquilo. De repente, observou um pequeno ponto que brilhava, grudado no canto do estofado do sofá.

– ...Onde ela está?

– Eu não sei...

– Ora, desgraçado, não minta pra mim! — foi até o estofado e retirou a pequena peça brilhante. Era um brinco que a xerife sempre usava. — Ela esteve aqui; onde ela está?!

– Eu. Não. Sei. — Andrès falou, séria e pausadamente... Mas então esboçou seu sorrisinho jocoso. Johan entendeu o que aquilo significava, mas ficou apenas mais irritado ainda.

– PARE COM SEU JOGUINHO DE PALAVRAS; ISSO NÃO É HORA DE BRINCAR DE DICIONÁRIO, OFICIAL!

– Está bem, Johan, mas não adianta me perguntar "onde ela está agora". Sim, Caitlyn passou por aqui; estava com medo de voltar para casa e sofrer outro atentado, e depois disso ela recebeu uma ligação, no meio da noite, avisando-a de que Vi tinha fugido e que havia uma bagunça considerável na delegacia... Mas então ela só disse que precisava sair e pediu que eu não a acompanhasse; que eu ficasse aqui e rastreasse sua localização como medida preventiva...

– Então... Então você tem como saber sim onde ela está agora, idiota! Você pode rastreá-la!

O senhor ergueu uma sobrancelha, como se se desse conta, de repente, de algo ridículo.

– ...Touché, cavalheiro.

Johan revirou os olhos, farto. Aquela mania de Andrès de querer ser o "intelectual misterioso mestre-dos-magos" da jogada... Humpf! Seguiram a passos rápidos para o escritório do anfitrião, onde poderiam localizá-la por triangulação de sinal através das redes de telefonia móvel. Ao chegarem no aposento, Johan percebeu um papel com o número do celular de Caitlyn repousado sobre um CD.

– Hah, o que é isso, Andrès? Outra coletânea de óperas ou parte de seu fascínio por Janna? — o oficial brincou, apontando o CD e soltando um leve riso breve.

– Tsc; deixe de ser bobo... — o investigador lançou-lhe um olhar bravo. — Na verdade, ainda não parei para ver do que se trata; o rastreamento da linha de Dohran chamou minha atenção antes... Caitlyn entregou-o antes de sair, junto com o número de seu celular.

O corpulento homem observou o fino pacote com o CD por um breve instante.

– Ora... — resmungou e tomou-o nas mãos. — Posso usar este outro computador?

Andrès assentiu com a cabeça, também curioso e preocupado quanto ao conteúdo da mídia, mas tendo que focar-se na triangulação do sinal do celular de Caitlyn. Johan, por sua vez, inseriu o CD no computador e abriu-o. Não tinha muita coisa preenchendo sua memória, em geral eram algumas pastas muito bem organizadas contendo arquivos de texto e algumas imagens salvas. Tratava-se da investigação que a xerife vinha fazendo acerca do caso dos cristais... O oficial começou a abrir os arquivos e percorrer os olhos por eles, detendo-se vez ou outra em alguma inscrição que lhe chamava a atenção.

~¨~

Minutos depois da ligação o oficial encontrado por último dava entrada no hospital, visivelmente menos ferido que os outros também, porém ainda assim estava em observação pelos médicos e com um roxo muito feio no rosto devido ao forte choque contra o mármore da pia da enfermaria. Onde estava Jayce? Ela tinha pedido claramente para que ele viesse junto...

– Caitlyn. — o comunicador com a frequência fechada da polícia soou. — Caitlyn, está na escuta?

– Jayce? Por que você não veio ao hospital como eu tinha falado?

– Estávamos a caminho, mas acabamos de receber a informação de que Vi está se dirigindo para alguma região ao sul da cidade a fim de realizar a negociação com Dohran; já estou indo para lá com um grupo de intervenção sondar a área, e imagino que você também queira vir.

A xerife hesitou.

– Me informe quanto à região e eu vou levar meu grupo, dando reforço pra vocês. — "Jogar na retranca..."

– Caitlyn, não podemos fazer uma operação muito grande; estamos atrás de apenas duas pessoas e, se as alertarmos, elas fogem e perdemos de vez nossa chance de prendê-los e reaver os planos e os cristais.

– Sem problemas, Jayce. Você sabe que eu não preciso nem chegar perto deles...

– Ok. Enfim... Fecharemos o cerco na área 34, é a região mais aproximada de onde eles estarão.

– Ok. Vejo-os lá.

– Caitlyn?

– O que foi, oficial?

– Cuidado.

Jayce enunciou em tom neutro e desligou-se. Ela não respondeu àquilo. Ligou para Andrès.

– Andrès? Está me rastreando?

– Sim, xerife, embora só consiga a localização a nível de rua...

– Tudo bem. Fique atento agora; Jayce localizou Vi e estou deixando o hospital e indo atrás deles.

– Ahaam... — o investigador demorou a falar, estranhamente. — Acho que é a hora de mandar que alguém a busque, xerife...

– Ainda não, Andrès; se eu conseguir pegá-los no flagra temos uma vitória certa tanto na polícia quanto no tribunal e fica mais fácil de chegarmos aos cristais... e ainda preciso confrontar outro suspeito. Como eu disse: fique atento; estamos entrando num campo minado agora.

A xerife ouviu Andrès desligar e então recrutou mais três policiais para acompanhá-la na intervenção. Seguiram numa viatura para a área 34, que compreendia um bairro longínquo ao sul onde a polícia ainda enfrentava problemas com uma gangue de tamanho já reduzido, conduzida por um tal "polaco", mas que ainda possuía algum controle discreto sobre a região.

Começava a chover quando eles deixaram o hospital.

~¨~

A chuva já havia cessado por aqueles lados quando a xerife chegou com seus oficiais à região designada para a busca por Vi e o negociante de Dohran. Dirigiram por um bom tempo para chegar àquela região distante. O bairro era precário, mal tinha iluminação nas ruas; o chão era irregular e tanto o asfalto quanto as calçadas tinham grandes trechos destruídos, dificultando a passagem de carros por ali; os prédios, velhos, escuros e aos pedaços, possuíam todos grades reforçadas ou placas de madeira em suas janelas — às vezes até mesmo os dois — para garantir a segurança de alguns cidadãos ou então esconder as atividades ilícitas praticadas na surdina por outros. Alguns becos encontravam-se abarrotados de lixo que não era recolhido há dias, exalando um odor pútrido horrível. Outros poucos escondiam pobres desgraçados perdidos para o vício e para a degradação; jovens largados para morrer afogados no próprio vômito misturado à lama fétida após uma overdose, moças tratadas como carne num açougue por trastes gananciosos e inescrupulosos, exibindo o jovem corpo voluptuoso aos clientes rezando para que o próximo não lhe espancasse ou desejasse qualquer loucura nojenta, tampando com maquiagem as cicatrizes em seus corpos e distribuindo sorrisos falsificados em rostos que exalavam medo; todos estes escondidos do resto da população pela sombra fria daqueles prédios que os tornavam invisíveis ao mundo... A xerife observava, sentindo raiva... Por mais que tivesse se esforçado até o último fio de cabelo, a Patrulha tinha suas limitações, e era aí que os inimigos, oportunistas, agiam. Era uma região verdadeiramente longínqua de Piltover, quase não mais considerada parte da Cidade do Progresso, colada à área externa a seus limites geográficos a que o povo comumente chamava de "arredores", ou a "fronteira sem lei". "Fronteira sem lei"... Detestava aquele nome.

Sem conseguir localizar visualmente Jayce, parou a viatura num lugar razoavelmente "seguro" e chamou-o pelo rádio.

– Oficial, chegamos na área designada; qual a sua localização?

– Dividimos a área em quatro seções e estamos concentrados nos quadrantes 1 e 4, delimitados da borda leste da área até a rua Guershack. Seu grupo pode se dividir pelos quadrantes 2 e 3 e começar a varredura; se quiser pode me encontrar no meio da Guershack...

– Tudo bem, oficial, estamos indo.

Mandou dois dos policiais que a acompanhavam começarem a busca no referido quadrante 2 e partiu com outro ainda mais ao sul, adentrando o preocupante bairro, para iniciar as buscas pelo quadrante 3. Acreditava que nem Vi, nem o outro negociante escolheriam um lugar de fácil acesso para se encontrarem, portanto quanto mais adentrasse aquele bairro, possivelmente maiores seriam as chances de encontrá-la ela mesma. No entanto, sentia que sua preocupação ali, aos poucos, mudava de foco... Jayce estava também naquilo, tramando algo... Era preciso manter um olho aberto para ele...

Caminharam, sorrateiramente, por diversas ruas, vielas e becos. O policial ia à frente, sondando o local, enquanto a xerife dava-lhe cobertura e observava a movimentação ao redor. Num momento, o rapaz correu pouco mais à frente e então estacou, prestando atenção em algo... De repente, virou-se.

– Xerife! — o policial que a acompanhava, mais à frente, sussurrou de forma a chamar-lhe a atenção. — Movimentação suspeita na próxima viela. O rapaz está armado e tenho a impressão de estar nos seguindo há algumas ruas...

A xerife ouviu-o, atenta, e então esgueirou-se pela parede do prédio que antecedia aquela estreita passagem , tentando obter uma visão do sujeito de quem o oficial falara. ...Sim, tinha avistado aquele mesmo rapaz há umas três ruas atrás também. Poderia ser ele o negociante?

– Espere ele baixar a guarda e vamos abordá-lo, policial.

O homem assentiu com a cabeça, e os dois ficaram à espreita, com suas armas empunhadas, enquanto esperavam que o suspeito desse sinais de estar desatento para que eles pudessem agir.

– ... Agora!

No mesmo instante em que a xerife dizia aquilo e começava a correr para dentro da viela, com seu policial indo à frente, sentiu algo imenso do nada atingir-lhe e levar-lhe ao chão, caindo atrás de uma enorme caçamba de lixo com algo gigantesco pesando sobre seu corpo, assustada e confusa, enquanto ouvia o som de tiros sendo disparados e seu oficial soltando um gemido doloroso de dentro da viela. Céus, o que estava acontecendo?!?! Lutou desesperadamente, debatendo-se para tirar aquela maldita... Coisa enorme de cima de si!

– SAI! MALDITO!... ME SOLTA!!!

– CAITLYN! CAITLYN, cala a boca!! Shhhh!!!

– JAYCE?!!! SEU...

O oficial tapou a boca da xerife com uma mão, com força, enquanto levava o indicador da outra levantado à frente da boca, fazendo um sinal de "silêncio". A xerife, sem entender o que acontecia e com o sangue fervendo nas veias, continuava tentando gritar e se debater, mas Jayce era grande demais...

– Caitlyn, cala a boca! Calma! Você ouviu os tiros? O negociante topou com vocês e ia matá-los enquanto vocês tentavam pegar aquele outro cara! Céus! Ainda bem que eu encontrei vocês no mesmo momento e tive tempo de te empurrar pra fora da mira daquele canalha; ele ia te acertar pelas costas! — fez-se um breve silêncio enquanto ambos recobravam o ritmo normal da respiração. O oficial passou a mão livre pelo cabelo, ajeitando-o. — Olha, ele deve ter fugido já, mas nada impede que ainda esteja por aí, alerta, esperando pra pegar a gente antes de ir pra negociação, então... Eu vou te soltar. Mas, por favor, faça silêncio.

O herói demorou-se ainda alguns pensativos instantes, observando-a — céus, como era bela! — enquanto ainda estava em cima dela. Por fim, largou a xerife e afastou-se para o lado, ainda se escondendo atrás da enorme lixeira. Ainda recobrando-se do susto, a xerife levantou-se, ficando então sentada ao lado do oficial enquanto tentava inutilmente livrar-se da lama e da sujeira que tomaram conta de suas roupas. Desistindo disso, tomou novamente seu rifle nas mãos. Jayce, furtivamente, tentava observar como estava o perímetro lá fora.

– Ele ainda está aí? — a xerife perguntou, baixo.

– Não. Sumiu...

Esticando-se para confirmar aquilo por si mesma, olhou ao redor, com seus perspicazes olhos de águia. Limpo. Aparentemente. Sem hesitar, saiu do esconderijo e foi ver como estava seu policial. Encontrou-o caído no chão sujo, no meio da viela, envolto por uma poça gigantesca de sangue... Pelo menos três dos tiros tinham acertado-o, e acertado-o pra valer. Checou a respiração e o pulso. O pulso já estava extremamente fraco. A respiração... Infelizmente, cessara completamente. Ia ainda tentar chamar uma ambulância, na vaga esperança de que o oficial pudesse ser salvo... Mas Jayce segurou sua mão assim que ela pegou o telefone.

– Não adianta, Caity, já o perdemos...

– É uma desonra deixar um oficial pra trás! — soltou sua mão da dele, nervosa.

– Caitlyn, nós precisamos sair daqui antes que...

O som de um disparo na direção deles cortou abruptamente a discussão, fazendo com que a xerife e o herói se assustassem com a proximidade da bala, que por pouco não os atingira e foi parar na parede. Viraram-se para a direção do tiro.

– É ELE! — Jayce gritou, percebendo ao mesmo tempo que Caitlyn que era aquele cara o provável negociante que tentara apagá-los, e agora fugia desesperadamente...

– VAMOS!

O homem, percebendo sua pecaminosa falha ao tentar — e não conseguir — matar os oficiais, saiu correndo, buscando despistá-los enquanto esgueirava-se por aqueles becos labirínticos e sujos da área controlada pelo tal de "polaco". Caitlyn e Jayce corriam desesperadamente atrás dele, quase perdendo o desgraçado de vista em algumas curvas bruscas de becos escuros por onde eles passavam.

– VOLTE AQUI, DESGRAÇADO! — o oficial gritava, enquanto tentava ganhar velocidade com o uso de suas ferramentas techmatúrgicas.

A xerife corria mais rápido do que nunca, aproveitando-se de brechas, quando a visão lhe era mais favorável, para tentar acertar aquele criminoso e fazê-lo parar de correr de uma vez por todas, possibilitando assim que fosse preso e interrogado para revelar onde seria a negociação, mas era extremamente difícil obter uma boa visão de tiro com aquelas ruas tão apertadas e angulosas, a iluminação tão sombriamente fraca e com o meliante correndo e se esgueirando como um rato por aqueles buracos imundos que eram aquelas vielas secundárias. Inútil: por melhor que fosse, os tiros acertavam as paredes. Conseguia assustar o criminoso, mas não pará-lo. O homem, por sua vez, disparava vez ou outra tiros na direção dos oficiais para tentar afastá-los e ganhar uma vantagem de distância, o que aos poucos ele conseguia, visto que Jayce e Caitlyn tinham que tomar cuidado para não serem atingidos acidentalmente.

O som dos tiros reverberava pelas paredes dos prédios e alertava toda a vizinhança de que alguma merda estava acontecendo em algum lugar entre as ruas daquela área ao sul e, apesar de saber que tiroteios não eram lá tão incomuns por aquela região, Vi sentia-se inquieta; um péssimo pressentimento, aquele calafrio na espinha enquanto não conseguia ficar quieta, parada, com os rolos de papel em mãos; movimentando-se, agitada, para lá e para cá, um gosto azedo subindo para a boca enquanto colocava-se estranhamente tensa a se perguntar "Que horas esse filho da puta vai surgir por aqui pra gente acabar logo com isso, hein?". Os tiros se aproximavam. Caralho, estavam já ali em volta, cada vez mais perto, perto demais! Não aguentou: não valia a pena passar nem mais um segundo ali; a merda estava prestes a atingir o ventilador e ela definitivamente não queria estar ali pra ver... Mas tinha a negociação! Merda! O que faria?! Sem saber o que fazer a seguir, começou a correr por entre aqueles becos sem rumo algum, esperando quase que milagrosamente encontrar o idiota do negociante de Dohran pra fechar aquilo e chegar aos cristais e...

O fugitivo via-se cada vez mais ameaçado, com a porra dos policiais na cola dele pra valer. Filhos da puta! Apontou a arma pra trás e puxou o gatilho, mas mal percebera que já tinha gasto todas as suas balas... PORCARIA! Acabou jogando o próprio revólver na direção da xerife, que apenas esquivou-se dele com um resmungo raivoso enquanto preparava-se mais uma vez pra atirar. Caralho! CARALHO! Dessa vez aquela cachorra ia acertar, não tinha jeito, não tinha escapatória, ele... HAHA! De repente, por um golpe talvez de sorte, o criminoso percebeu um raio rosa passar por ele correndo, entre duas ruas. Sem pensar duas vezes, mudou de rota abruptamente, virando na esquina em que a vira e tentando seguir ou até alcançar aquela desgraçada pra talvez se salvar. Naquele exato momento, Jayce deu uma investida brutal para a frente, mas perdeu o fugitivo no momento em que o bastardo dobrou a esquina, perdendo-o de vista e abrindo uma distância grande entre eles. Caitlyn, no entanto, ainda mirando o criminoso, percebeu a mudança de caminho e antecipou o tiro, conseguindo atingi-lo, mas apenas de raspão na orelha dele, fazendo-o sangrar e apavorar-se com aquele líquido rubro começando a alcançar e obstruir sua visão.

– JAYCE, ELE ESTÁ FUGINDO! — gritou, enquanto dobrava também a esquina para continuar no encalço do fugitivo, que ganhava distância mas deixava um rastro vermelho pelo chão. Jayce levantou-se e começou então a seguir a xerife, que ia já bem mais à frente para pegar aquele canalha...

Cadê aquela desgraçada?! Cadê aquela menina de cabelo rosa?!! O fugitivo varava as ruas desesperadamente, esperando ter mais um vislumbre daquela cabeleira chamativa...

Puta merda, cadê o negociante?! Aqueles tiros estão chegando mais perto!...

Esse canalha não vai fugir de mim, eu não posso deixar, de jeito nenhum!

Numa rua larga quase deserta, iluminada apenas por uma lâmpada alaranjada velha que piscava, Vi corria desorientadamente; parecia que a porcaria dos tiros começavam a segui-la, quando repentinamente algo topou com força, de lado a ela, fazendo-a girar enquanto tentava manter o equilíbrio...

– É VOCÊ! — disse quando conseguiu equilibrar-se de pé e olhar para o que a atingira, reconhecendo então o negociante da gangue.

– ME DÁ ESSA MERDA! — o homem disse, levantando-se do chão e já precipitando-se pra cima da rebelde, agarrando os papéis e tentando tirá-los da mão dela a todo custo pra sair logo dali.

– NEM VEM, SEU BOSTA; SOLTA ISSO! — deu um tabefe nele com a grande mão de ferro, mas não podia de fato feri-lo; precisava dele para levá-la até o esconderijo de Dohran e para os cristais e...

– PARADO AÍ OU EU...!

– Caitlyn?!

Vi arregalou os olhos ao ouvir aquela voz que soava furiosa da outra extremidade da rua. A xerife finalmente conseguira alcançar aquele bastardo fugitivo, estava pronta para atirar nele e acabar com aquela história, mas mesmo sabendo que fora lá, àquela região inóspita da cidade, para encontrar Vi, definitivamente não imaginava o que aconteceria... O que faria quando a encontrasse. E agora ela estava ali, atarracada com o criminoso, com os papéis de Jayce em mãos, estava... Evitou pensar muito e levantou novamente o rifle.

– PARADOS AÍ OU EU ATIRO!

Não tinha como parar! O filho da puta estava tentando roubar os papéis de Vi e fugir, ela não podia deixar que aquilo acontecesse, mas também não podia começar uma briga, e ao mesmo tempo ali estava Caitlyn, com o rifle apontado para eles; o que ela podia fazer, o que ela podia fazer?!

– CAITLYN, NÃO...

No instante em que tentou pedir à cupcake que não atirasse, uma bala cortou sua frase ainda no começo e quase acertou sua perna. Com o susto, recuou, mas o criminoso, ainda em cima dela tentando pegar os papéis, quase a fez cair, o que obrigou Vi a, involuntariamente, soltar os papéis para segurar em alguma parede e se equilibrar novamente. Foi a oportunidade daquele canalha desgraçado do inferno recolher os papéis do chão e sair correndo, enquanto a xerife ainda atirava, agora na direção do fugitivo que levava consigo os documentos. Vi, assim que equilibrou-se, tentou mais uma vez falar algo, mas Caitlyn já se aproximava em alta velocidade, com o rifle empunhado e pronto para um abate, implacável. Era melhor começar a correr também. Virou-se e começou a, desesperadamente, tentar alcançar o criminoso, mas, para sua surpresa, um gigantesco martelo estremeceu toda a terra, surgindo do nada de uma das ruas adjacentes à que ela se encontrava e por muito pouco quase atingindo-a em cheio. Vi reconhecia aquele martelo; lembrava bem da bela surra que tinha levado dele...

– JAYCE! — DESGRAÇADO, ELE TAVA METIDO NISSO! Aquilo era muito pior do que ela esperava!

– CAITLYN, NÃO DEIXE QUE FUJAM! — o herói berrava, agitado, enquanto a perseguição recomeçava, agora ainda mais fatal.

Esgueirando-se do caminho do martelo e chegando a apoiar uma mão no chão antes de retomar a desesperada corrida, Vi seguia para cada vez mais longe, seguindo o negociante ladrão rumo à fronteira de Piltover. Merda! Não era pra ter sido nada assim; bosta; e agora, como faria com seu plano?!!!

Seguindo-a de perto, com a mira apontada também para ela, Caitlyn corria com o coração apertado: ela tinha que atirar, ela tinha que atirar, ela sabia que ela tinha que atirar, mas como poderia ousar machucar aquela... Aquela... GGRRRHH! Como ela teve a... A cara-de-pau de fazer tudo aquilo?! De... Conseguir a confiança dela, nos graus mais íntimos, e então... Não tinha certeza sobre o que acreditar; aquilo era impossível, impossível!

O criminoso ganhava vantagem com toda a confusão, já estava bem longe, quase inalcançável, fugindo com os documentos... Merda, aquilo não ia funcionar mais mesmo; agora a única chance que tinha era através da tarefa dada a Barthrax... Inesperadamente, Vi decidiu mudar de rota, deixando de seguir o fugitivo, que já se perdera na escuridão, e desviando-se numa direção que ainda não conhecia, buscando apenas distanciar as duas de Jayce; ter ele na jogada seria apenas um perigo a mais na atual situação. Correu sem rumo definido, perdendo-se naquelas ruas desertas, e Caitlyn a seguiu, o rifle em mãos, agora já sem conseguir atirar.

Numa certa altura, a mulher, com seus berrantes cabelos rosa, vivos, contrastando com a podridão daquele lugar escuro, parou de correr e virou-se, quase que encarando sua perseguidora; uma atitude com um toque quase que de insanidade ao colocar-se vulnerável a qualquer disparo da arma da xerife. Parou de correr e virou-se, vendo Caitlyn surgir à distância, rapidamente aproximando-se. Começou a caminhar, determinada, na direção dela.

– Caitlyn, pare, você tem que me escutar!

A xerife aproximava-se e achava completamente estranho Vi ter parado de correr e agora estar vindo... Estar vindo na direção dela. ...as luvas! Ofegando com certo temor de que aquele ser titânico viesse a atacá-la, levantou novamente o rifle, firme.

– Acho que, pra mim, você já disse tudo o que tinha que dizer, Vi. Sua conversa agora é com o juiz no tribunal. — disse, com o rosto escondido por trás da mira da arma. Seu coração pesava.

– Caitlyn, não é o que parece; eu nunca poderia me virar contra você, de jeito nenhum!

– Então o que é tudo isso, Vi?! Me diz, o que é tudo isso?! — sua voz não conseguia mais ser simplesmente autoritária. Havia um toque de tristeza e confusão em suas palavras. Ela ainda queria acreditar no que Vi falava... Ela ainda queria...

– Eu só preciso chegar aos cristais; eu não queria que você...

– A FUGITIVA! NÃO DEIXE-A ESCAPAR, CAITLYN! — Jayce finalmente alcançou-as, surgindo correndo como o vento, cortando Vi sem ao menos saber o que se passava ali.

A rebelde assustou-se com aquela surpresa. Maldito... Virando-se, também surpresa, Caitlyn perdeu a noção do que acontecia, vendo o oficial passar por ela como um raio e brandir o martelo à frente, na direção de Vi.

– NÃO!!!

Os olhos de Vi quase saltaram das órbitas ao ver novamente aquele martelo brutal, agora carregado de energia arcana, aproximar-se à toda velocidade de sua direção. Caiu no chão de costas e levantou as luvas num movimento reflexivo, procurando proteger o rosto, mas já esperando o estrondo e a pancada que dividiria seu crânio em dois...

Com um grito desesperado, a xerife alcançou o herói e deu-lhe um pesado jogo-de-corpo, com toda a força que conseguiu, fazendo-o desviar seu golpe e não acertá-lo na fugitiva. Caíram para o lado, perdendo o resto da ação. Caitlyn, num salto, pôs-se de pé novamente, rápida e precisa como um gato, mas teve tempo apenas de ver Vi começando a correr para longe deles. Em seu desespero de não poder deixá-la ir, mal mirou com o rifle e já puxou o gatilho, acertando o nada e fazendo aquela... Filha da mãe de cabelos rosa olhar para trás, desistindo de sua corrida por alguns segundos, parada, olhando de volta para ela...

Mas então ela apenas continuou correndo, perdendo-se à distância da vista da xerife. Caitlyn bateu seu rifle favorito com fúria contra o chão, as lágrimas escorrendo silenciosamente por seu rosto.

– Sua cadela... — Caitlyn virou-se, de repente, perplexa ao ouvir aquilo de Jayce dizia ao levantar-se...

– O que é isso, Jayce?!!!!

– VOCÊ ARRUINOU TUDO!!! VOCÊ SEMPRE ARRUINA TUDO!

Ela já sabia; se preparava para o ataque dele há tempos, mas a situação estava especialmente voltada contra ela... Sozinha. Naquele bairro hostil. Nenhuma forma de alertar alguém para ajudá-la... empunhou o rifle e apontou para ele.

– Isso não estava nos seus planos, oficial?

– Não... Mas eu também sei improvisar...

~¨~

Johan tinha agora sua atenção completamente presa por aqueles documentos que Caitlyn gravara, principalmente um relatório final detalhadíssimo sobre toda sua investigação. Lia aquilo tudo sem conseguir acreditar em todas as provas e a hipótese sólida que lhe eram apresentadas. Estava pasmo... E, ao mesmo tempo, furioso!

– Canalha! — disse ao final de longos minutos de silêncio, lendo atentamente as considerações daquele relatório. — Canalha, desgraçado, filho de uma...

– O que é isso, Johan?! Por que essa raiva repentina? — Andrès preocupou-se.

– Olhe tudo isso aqui; leia! — o oficial vociferava, vermelho e inchado como se fosse explodir, indicando com raiva a tela do computador. O outro investigador aproximou-se, receoso, e começou a ler.

– ...Céus. Caitlyn já havia chego à resposta.

– É muito pior que isso, Andrès; é... É Jayce! Se qualquer idiota me dissesse isso eu sentava-lhe um murro na cara; é impossível de se acreditar, mas as evidências estão aí!!! Está... Está tudo muito bem explicado, muito bem relatado, ela ligou todos os pontos!

– Céus... — era só o que o experiente investigador conseguia repetir, perplexo. — Mas por que ela não o engaiolou logo?!

– Hah, apesar da boa mira, "atire depois pergunte" não é o lema da xerife... Ela prefere seguir ao máximo as regras.

– Estava esperando ter provas suficientes para confrontá-lo e levá-lo ao tribunal...

– Ela estava também em dúvida quanto àquela delinquente que ela protegia.

– Sim, comentou isso comigo hoje mais cedo... Johan, é preciso ir atrás dela o mais rápido possível!

– Já tem a localização?

– Sim, eu...

O telefone de Andrès tocou, silenciando todo e qualquer outro barulho na sala. Os músculos de Johan se retesavam, enquanto o outro observava-o com um olhar hesitante e preocupado.

– Vamos, atenda logo! Eu não estou aqui! — sussurrou para Andrès.

O investigador atendeu o telefone, e Johan manteve-se de orelhas em pé, completamente atento para tentar captar a conversa. Era Caitlyn do outro lado da linha; ele pôde facilmente identificar... Falavam sobre rastreamento, "localização a nível de rua"... Num momento, Andrès proferiu um longo "Ahaaam", virando-se para Johan com um olhar aflito, mas mantendo a compostura em sua voz. Gesticulou para o amigo, mas ele não entendeu o que este queria falar, e teria que esperar até que a ligação acabasse para saber o que acontecia. Inferno! Como era sufocante não saber o que se passava! Enfim, Andrès deu-lhe um sinal.

– Acho que é hora de mandar que alguém a busque, xerife... — fitou concentradamente Johan, indicando que era para ele aquela frase de atenção. O telefone foi desligado e Andrès virou-se de súbito para o amigo. — Caitlyn está com Jayce perseguindo Vi.

– NÃO! — aqueles eram simplesmente os três nomes que Johan definitivamente NÃO queria ouvir juntos numa frase agora.– Pra onde ela vai?!

– Só disse que está saindo do hospital, mas temos a localização dela e eu posso te guiar enquanto vai atrás deles.

O oficial imediatamente checou sua arma, ligou seu celular ao de Andrès, entrou no carro e começou a dirigir rumo ao hospital.

– Está me escutando claramente, Johan?

– Sim; está chovendo, mas acho que isso não vai causar nenhuma interferência no sinal. Pode ir passando as coordenadas.

– Ótimo. Ela deixou o hospital já faz um tempo e está se dirigindo ao sul, está aparentemente próxima da avenida Tungsten...

– Ela já está longe... — sussurrou para si mesmo, desejando que tivesse tempo de chegar para protegê-la. — Oh, céus... Que os deuses nos ajudem...

~¨~

Algo atingiu Caitlyn pelas costas com muita força, fazendo-a cair desacordada. Jayce aproximou-se do corpo caído.

– Huhum... Agora vamos ver quem manda, "xerife". — disse, segurando uma mecha do cabelo dela que caíra sobre seu rosto, para poder vê-la melhor. — Levem-na daqui pro esconderijo! — falou para um dos homens que o acompanhara naquela empreitada maligna. — Vamos começar a por o plano em prática.

Voltando ao carro da polícia que deixara estacionado algumas quadras atrás, fez uma voz de completo desespero e passou um chamado à Patrulha, agora quase completamente desestruturada pelo enorme desfalque do zoológico, os policiais feridos na delegacia e os grupos que se dividiam entre procurar a perita Elle, que simplesmente havia sumido do mapa, e investigar o que acontecera na delegacia. Caos. Huhum...

– AJUDA! AJUDA!!! PELO AMOR DOS DEUSES, A XERIFE FOI LEVADA POR AQUELE TRATOR COR-DE-ROSA E SUA AMIGA TERRORISTA ZAUNIANA; SÓ OS DEUSES SABEM O QUE ELAS E AQUELE CRIMINOSO DOHRAN PODEM DESEJAR FAZER!!! SOCORRO, PELO AMOR DOS DEUSES!!!!!!

Desligou o rádio comunicador com um sorriso, ligou as sirenes do carro da patrulha e saiu rumo à delegacia.

~¨~

– Johan, qual a sua localização?

– Estou ainda dirigindo pro sul, como você disse! Entrando naqueles bairros barra-pesada; mais um pouco e eu chego na fronteira da cidade... Tem certeza de que você está me guiando certo, seu velho míope?!

– Absoluta. O sinal dela está parado nesta região já faz um tempo; está há umas... Seis quadras à esquerda da rua Guershack. Céus, ela está bem enfiada nesse bairro... Provavelmente você terá que seguir a pé, meu velho.

Ora... Aquilo não era nada bom... Se ela estava parada naquele lugar há algum tempo, preferia pensar que já estivesse com os criminosos na mira, apenas esperando o melhor momento para atirar.

Seguia com o carro o máximo que podia para perto da localização aproximada que Andrès lhe dava, entrando numa rua bem escondida a fim de estacioná-lo e... De repente, ouviu um carro de polícia ligar suas sirenes e ficou alerta, tenso. Desceu do carro rapidamente e seguiu o som até uma rua aberta, porém pobremente iluminada. Aliás, pobremente iluminada como quase todo o bairro. Escondeu-se nas sombras e ficou observando o que se passava: havia uma van poucos metros atrás, cuja porta da carroceria uns homens acabavam de fechar. Um deles entrou no banco do passageiro, enquanto outro dirigiu-se ao carro de polícia e pareceu conversar algo com quem estava lá dentro. Depois retornou à van, sentando no banco do motorista. O carro de polícia então saiu, passando diretamente pela rua na qual Johan se escondia, lançando suas luzes vermelhas como sangue sobre ele e quase revelando o velho oficial em seu esconderijo. Entretanto, o carro apenas passou reto, permitindo ao gordinho ver quem ia dentro dele... Observou o semblante austero, tomado apenas por um duvidoso sorriso, o cabelo perfeitamente arrumado...

– Jayce...

Ao perceber que a van também ligava seu motor, voltou rapidamente para seu carro. Iria segui-los para ver o que tinham pego e levavam consigo. Esperou o veículo passar em frente ao seu e então saiu de onde estava estacionado, seguindo-os com cautela, à distância, para evitar levantar suspeitas.

– Johan?! Johan, pelos céus, você ainda está me ouvindo?! Alô!?

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– Fale, Andrès.

– O sinal da xerife está começando a se mover; está saindo dessa região e indo em direção ao norte novamente. Você já chegou a ela?

– Eu imagino que sim, colega... E acho que vamos precisar de reforço...

Notas finais
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