Piltover's Finest
11 Capítulo 10 - Linhas Cruzadas
Notas iniciais

Vi se agarrava à cabeceira da enorme cadeira estofada da sala da xerife, os dedos afundando-se no couro enquanto ria discretamente, mordendo o lábio inferior. Adorava as visitas de Caitlyn! Era uma das únicas coisas que a faziam esquecer a agonia de ter que passar dias encarcerada, sem contato nenhum com sua tão prezada vida lá fora. Quem poderia dizer... Caity era realmente sua melhor companhia. Talvez a melhor que já tivesse encontrado em toda a vida. Quando ela surgia, mesmo tarde da noite, na delegacia, era como se uma nuvem se afastasse no céu fechado, permitindo-a ver o brilho da Lua em meio à escuridão. Conversavam sobre o caso dos cristais, tentavam, juntas, pensar em soluções para os problemas que surgiam na delegacia... Conseguiam facilmente conversar sobres coisas cujas quais não imaginariam poder compartilhar com mais ninguém. E, ocasionalmente... Huhum!
Caitlyn subiu, salpicando beijos leves pelo pescoço de Vi, segurando as mãos dela onde estavam, estendidas para cima, agarrando a cabeceira da poltrona.
– Mãos ao alto! — sussurrou, rindo.
– Hum... Agora é aquela parte em que você chega com as algemas? — sorrindo, Vi impulsionou-se um pouco para a frente, conseguindo dar um beijo rápido em Caitlyn, que retribuiu com outro mais longo e verdadeiramente apaixonado. Colocou-se de lado, aninhando-se no colo de Vi.
A mulher de cabelo rosa abraçou-a, num silêncio contente e confortável... Mas então pensou numa série de coisas nas quais estava envolvida. Pensou numa série de acontecimentos e escolhas erradas, e em todas as coisas condenáveis que ainda provavelmente teria que cometer antes de se ver livre de...
– Caitlyn...
– O que é? — beijou Vi, interrompendo-a. Por melhor que fosse, a rebelde teve que se afastar.
– Caitlyn, eu preciso te contar algo... E preciso que você preste atenção e, pelos céus, não conte a ninguém.
– Deuses, Vi, você está me preocupando...
– E com razão. É sobre Dohran. Eu...
Um barulho foi ouvido do outro lado do corredor, como se uma porta tivesse sido aberta com uso de um pouco de força... Àquela hora? Ficaram em silêncio para tentar ouvir do que se tratava.
– ...fique aqui, vou ver o que é.
Ainda tentando imaginar o que poderia ter ido à delegacia àquela hora, a xerife cuidadosamente tomou um revólver e saiu pela porta...
~¨~
Em seu laboratório particular parcialmente reconstruído após o ataque de Viktor, Jayce rabiscava freneticamente entre dezenas de papéis milimetrados, plantas de projetos bélicos, folhas de cálculos mil, complexos, envolvendo física, mecânica, conhecimento arcano... E, a cada vez que rabiscava um número e o substituía por outro, ou apagava o desenho de uma peça para fazer alguma modificação necessária, sua fúria parecia crescer ainda mais.
– AAAARGH! — empurrou uma pilha de papéis para longe da mesa, fazendo uma confusão no laboratório. — Dohran, maldito!
Precisava dos cristais arcanos. O conhecimento sobre eles era restrito a poucos da elite geral do conselho de Piltover, um segredo precioso que deveria ser mantido a sete chaves. Sua força era utilizada secretamente para a geração de energia limpa para a cidade, e quem quer que desejasse efetuar estudos com eles precisava de um requerimento oficial rigoroso, que dava acesso a apenas uma certa quantia delimitada e considerada "segura" pelo conselho. E, agora, o oficial via-se enraivecido e sem alternativa, sem acesso a mais nada.
Por mais que refizesse, repensasse e remodelasse cada um de seus projetos, não conseguia, não era suficiente; não podia energizá-los, não sem um abastecimento apropriado de cristais, drasticamente reduzido desde o incidente na mina. Como poderia avançar assim em direção ao futuro de seus estudos?!
...lembrou-se do acordo que fizera.
Precisava fazer uma ligação.
~¨~
O velho oficial limpava a escrivaninha de sua casa, livrando-se do que não mais precisaria, eliminando tudo que pudesse atrapalhá-lo e reorganizando o lugar. E, no meio de uma papelada inútil verdadeiramente antiga guardada por ele sabe-se lá por que — nostalgia, talvez? — , encontrou uma foto, realmente velha, de uns vinte e poucos anos atrás.
Tinha o rosto mais jovem, uns bons quilos a menos. Os cabelos ainda eram dourados e seu bom-humor ainda era mais vivo, mais presente em sua alma, menos... cansado. Ao seu lado, um homem igualmente jovial e forte, embora com algumas faixas já esbranquiçadas em meio aos fartos cabelos castanho-escuros. O outro homem, seu grande amigo e parceiro de trabalho, carregava no colo, na ocasião, uma menininha. Muito pequena. Ela brincava com o distintivo do pai. Era a ocasião do aniversário do xerife, e haviam ainda acabado de resolver um importante caso. Na foto, todos os três riam.
Quando foi que as coisas mudaram tanto? Por que o velho xerife não havia deixado-o se encarregar de tudo quando ainda havia tempo? O velho Johan sentiu um peso enorme abater-se sobre seu desgastado coração.
– Querida, vou precisar sair um momento! — avisou de seu escritório para a esposa que assistia à televisão.
Caitlyn, aquela pirralha descabeçada... Mas ele podia ainda fazer mais alguns movimentos antes do cheque-mate.
...lembrou-se do acordo que fizera.
Precisava fazer uma ligação.
~¨~
Quando Caitlyn deixou-a em sua sala, sem que pudesse ouvir o que ela tinha a revelar, Vi hesitou mais ainda, perguntando-se se devia deixar a xerife a par daquilo, ou se simplesmente devia dar um jeito no problema e depois explicar-se... Caminhava sobre o gume da faca, sabendo que as consequências seriam, de uma forma ou de outra, desastrosas. Ela conhecia bem aquele submundo. Conhecia Dohran. Nada saía sem chumbo daquele tipo de negociação...
Desejou, por um instante, nunca ter entrado em tudo aquilo. Nunca ter feito parte do assalto à mina. Ou melhor, nunca ter cruzado o caminho de Dohran ou ter encontrado... Caitlyn. Como ia saber, naquela época, que aquelas pequenas coisas mudariam tanto sua vida? Que não conseguiria sair indiferente a tudo o que aconteceu? Quando é que imaginaria poder encontrar dessa forma alguém que... apostasse tanto nela. Confiasse. A fizesse sentir verdadeiramente valiosa, verdadeiramente... bem.
E, agora, tinha colocado na mira maldita de Dohran a pessoa que mais... bom... ela se importava.
Estava decidida a resolver aquilo. E deixando a cupcake o mais longe possível do perigo. Não lhe contaria nada.
...lembrou-se do acordo que fizera.
Precisava fazer uma ligação.
~¨~
Sentado no bar há horas, tarde da noite, já na sexta ou sétima caneca de cerveja, o braço invisível manipulando o submundo impacientava-se. Quem era o filho da puta que achava que podia fazê-lo de trouxa, deixando-o esperar daquele jeito para uma conversa importante em que haveria dinheiro rolando? Dohran batia o pé no chão freneticamente, irritado, cansado de esperar.
– Novak, onde você arrumou pra conversar com esse incompetente? Ele já devia estar aqui há pelo menos duas horas pra fechar o contrato.
– Deve entender, Dohran, que trata-se de alguém completamente imprevisível, porém inigualavelmente eficiente em termos de destruição. Também tive dificuldade até conseguir entrar em contato, ela aparece e some do nada como bem entender!
– Sim, eu entendo, meu amigo... — Dohran falava numa voz ironicamente simpática e compreensível. — ...mas estamos num momento crucial aqui... — foi interrompido por seu celular que tocava. Praguejando mentalmente, pegou-o para ver quem ligava. Sorriu ao bater os olhos no visor. — Mas que privilégio... Achei que nunca mais daria notícias.
– Dohran, precisamos dar um fim nisso o quanto antes.
– Certo, certo... Digamos que estou de bom humor hoje, então vou deixar você fazer sua proposta de bunda-mole. Já pegou a xerife?
– Ainda não, mas já tenho tudo planejado pra acabar com dois coelhos numa cajadada só.
– Olha só, que maravilha... — o criminoso tirava sarro, sendo sarcástico.
– Mas preciso que marquemos uma data e local para você dizer onde estão os cristais.
– Hum, legal. Olha, façamos assim: eu tô um pouco... "ocupado" agora. Depois eu te ligo e aí fica tudo certo e blablabla.
– Ok. Estarei esperando. Considere tudo pronto.
– E você considere o prazo... — falou, já distante do aparelho e desligando-o. — ...esgotado. Já está na hora de retomar as rédeas da situação.
O homem sorriu para si mesmo, infinitamente deliciado com sua própria malícia. O telefone tocou novamente. Olhou para o visor, dessa vez com uma expressão confusa. Ao atendê-lo, porém, ficou espantado.
– Você?! Haha, agora sim eu fiquei surpreso! Ligou pra que, matar saudade?
– Eu sei como conseguir o que você quer. Só preciso de uma oportunidade. Me encontre daqui cinco dias, à noite, nos becos da parte sul de Piltover. Tá entendido?
– Objetividade é a alma do negócio... Melhor ainda, eu te darei a oportunidade, fofura. Será um prazer.
O telefone foi desligado rapidamente do outro lado da linha. Se estava antes animado, estava agora eufórico com a improbabilidade do que acabara de acontecer! Haha!! Via o jogo todo de repente desenrolar-se à sua frente, assistindo de camarote ao pandemônio que se delineava, inevitavelmente por vir... Hahahahaha, não podia se conter de ansiedade!
– Garçom! Vê uma rodada de cerveja pra todo mundo nessa espelunca que eu pago!
Imediatamente, o rosto do velho garçom se iluminou e pôde-se ouvir a comemoração de todos no bar saudando o rei dos canalhas, que fazia um agrado a seus súditos. Hah, aquilo era demais para Dohran... Aquilo era um sinal! O sinal de uma nova era que começaria logo...
– Dohran.
– O que é?! — virou-se nervoso por ter sido interrompido em seu momento de comemoração.
– Acho que ela chegou. Está lá fora.
– Pois que entre!
– Ahn... Complicado.
– Como assim "complicado"?
– Ela... Bem... Senhor, por favor, vá vê-la. E tome cuidado.
– Mas que merda é essa?...
O homem, nervoso, saiu a passos duros em direção à porta dos fundos do bar que o capanga indicava. Ao sair, deparou-se apenas com o silêncio e o beco, cheirando a sujeira fermentada, vômito e mijo, deserto.
– Mas o que esse desgraçad...
Um projétil passou numa diagonal decrescente, quase arrancando a ponta de sua orelha e instalando-se no chão à sua frente. Ouviu um riso vindo de cima do telhado do bar.
– FILHO DA PUTA! DESCE JÁ DAÍ!
– Hahaha! Como você é péssimo como alvo!
Uma figura magrela saltou lá de cima sem hesitar, pousando com destreza notável no chão ao lado dele. Definitivamente não era a aparência ou o comportamento que Dohran esperava de alguém "ameaçador".
– Pff! É você que todos temem pelos arredores de Zaun e por onde passa?
– Hum... Achei que esses fossem os cobradores de impostos... Mas, se sou eu, legal. — ela falava com uma animação quase tonta, com sua magreza peculiar e palidez espectral. Dohran respirou fundo.
– Se é o que dizem... Vamos logo. — fez sinal para que entrasse com ele no bar e sentaram-se à mesa. — Bem, eu tenho uma proposta que pode ser muito interessante pra você. Uma proposta irrecusável...
~¨~
Saindo pela porta de sua sala e atenta com os arredores, a xerife caminha pouquíssimo até ouvir a maçaneta da porta de Johan girar. Preparou-se, arma em punho, para o que viesse a surgir dali. Logo, sai pela porta ninguém menos que... Johan?
– Xerife! — diz, tomando um susto ao perceber que ela o peara ali de surpresa.
– Johan? O que faz aqui?
– Pergunto o mesmo, Caitlyn. Decidiu começar a fazer hora-extra?
A xerife não se deixou atingir. Johan sabia o que andava acontecendo? Não se importava. Continuou firme com a arma apontada para o oficial.
– O que você está fazendo aqui? — indagou séria e pausadamente.
– Acho que esta situação já foi longe demais. Está na hora de começar a tomar algumas providências, e eu mesmo me encarregarei disso...
– Do que você está falando? Que "providências" são essas?
– Abaixe a arma. Você está cometendo um erro, Caitlyn... Um grave erro. — o homem avançou um passo.
A xerife, firme como uma rocha onde estava, não moveu-se um milímetro, mesmo com o tom sério de Johan de quem está escondendo algo. Mesmo com aquele tom grave subliminarmente ameaçador. Continuava lá, com o rosto fechado e a arma estendida em direção ao homem.
– Acha mesmo que está confiando nas pessoas certas? — o homem, depois de um curto silêncio, apontou a cabeça na direção da sala de Caitlyn. — Ela vai sumir da sua vida assim como entrou, na primeira oportunidade, e você vai ficar se perguntando como pôde se deixar levar por algo tão juvenil e insensato, como deixou chegar a este ponto. - então ele sabia!
– Você não faz ideia do que está falando...
– Ah, sim, eu faço! Você é que não faz ideia do que está fazendo, menina. E eu, particularmente, sugiro que fique muito atenta com onde você pisa. A situação anda muito perigosa e não me está parecendo assim tão difícil puxar o tapete sob seus pés...
– Sugiro que tente...
– Veremos.
O homem, com a magnitude severa de todos os seus anos, passou pela jovem armada, ainda em posição de disparo, com total indiferença, sem se importar que, até mesmo atravessando a porta da delegacia e já metros à frente no estacionamento, ela ainda poderia acertá-lo. Caitlyn seguiu-o com o olhar e a mira do revólver até que deixasse o prédio e, ainda depois de partir, permaneceu alguns segundos com a arma empunhada. Tentava não pensar naquilo, mas as palavras de Johan já haviam tocado e revolvido o mais fundo de seu inconsciente...
Guardou a arma. Levou uma mão à cabeça, esfregando a testa. Dúvidas. Não exatamente dúvidas, mas rachaduras ínfimas em suas convicções. Baixou a cabeça, pensativa, as mãos apoiadas na cintura enquanto perambulava em pequenos passos a esmo. Respirou fundo. Bah, que idiotice aquilo! Decidiu relevar e voltar ao seu escritório.
Abrindo a porta da sala, deparou-se com as mãos de Vi sobre seu telefone; um pequeno susto por parte da mulher quando a xerife abriu a porta. Naquele instante, a respiração de Caitlyn parou.
– Caity! Caramba, que susto!
A xerife sentiu uma única batida muito mais forte de seu coração estranhamente amedrontá-la, fazendo-a sentir um frio repentino na barriga.
– ...Vi. — sorriu normalmente, como sempre. — Então, você disse que precisava falar algo importante...
– Não, não era nada... — ela tentava fazer parecer com que fosse banal. — Quem era lá fora?
– Johan. Ele já sabe de algo. — falava em termos vagos, tentando desvencilhar-se de qualquer assunto. — Vi, preciso ir embora.
– Aconteceu algo?
"Sim."
– Não, mas acho que, pelo menos por hoje, devemos manter a guarda alta. — ela dizia isso arrumando uma série de coisas sem sentido em sua sala. Vi observava-a sem entender por que fazia aquilo. Ela estava evitando-a? O silêncio foi quebrado por seu suspiro.
– Está bem... — esticou os braços, sem vontade, esperando o momento desgraçado de retomar as algemas.
A xerife parou com este ato. Olhou as algemas sobre sua mesa por longos segundos. Pegou-as, com a cabeça baixa, e abriu-as. Levantou o olhar e caminhou, firme, até Vi.
– ...vamos.
Retornou-a à sua cela, numa despedida estranhamente fria entre elas.
~¨~
– Veja só, a tarefa é ridiculamente simples: eu quero que você cause... Um pouco de caos em Piltover, de forma que a polícia fique tão perdida imaginando por onde devem começar que passem a perseguir o próprio rabo.
A "ameaça" ficou quieta, com uma mão segurando o queixo, como se pensasse, olhando para o lado. Dohran viu então, do lado oposto ao qual ela olhava, surgir lentamente, vindo debaixo da mesa, um... lança-mísseis?!!?! Contudo, ao invés de atirar, o lança-mísseis com carinha de tubarão começou a... "conversar" com a mocinha.
– Hey, eu acho que nós não devíamos aceitar um trabalho maldoso como esse por parte de um criminoso. Talvez você atrapalhe as pessoas e também as magoe... — o lança-mísseis "falava" com sua voz lenta e sonsa, numa demonstração peculiar de ventriloquismo meia-tigela por parte da menina. "Interrompendo" o tubarão, mandando-o de volta para baixo da mesa com um empurrão, a moça resmungou.
– Cala a boca, Fishbones, não tá na hora de você dormir?! Droga de lança-mísseis chato...
– Bom, posso oferecer uns... 50 mil pelo trabalho. Então, o que me diz, maluca?
– Peraí, tô pensando... — o homem ficou um longo, realmente longo tempo esperando ela dar uma resposta. — Ah, o que é isso?! Eu não preciso pensar nem mesmo uma vez pra explodir legal! — repentinamente completamente animada, ela se movimentava na cadeira como se tivesse tomado um copo de cafeína pura, sorrindo como uma louca. — Cara, a galera em Piltover vai pirar!!
– Hehe, vai, com certeza... Mas vá com calma. Dê um tempo... Faça eles se desesperarem um pouco... Sem pressa. Eu quero que Piltover se afunde no medo... — Dohran sorriu maliciosamente, com um brilho maligno no olhar.
– Hum... Interessante.
~¨~
O dia começava bem cedo para aqueles trabalhadores, antes mesmo do Sol sequer cogitar despontar no horizonte. Ainda mal recuperados da labuta árdua do dia anterior, tinham já que levantar-se; novo dia, novas forças, mais gemas inimaginavelmente fantásticas esperando para serem desenterradas de sua prisão de pedra. Mais toneladas de pedra a serem quebradas. E, ao final do dia, era só mais um dia que acabava. Voltar pra casa. Lavar o suor. Preparar-se para o mesmo dia que viria amanhã. E depois de amanhã. E depois...
O velho homem era um semi-gigante respeitado dentre os seus. Temido por alguns, obviamente devido a seu tamanho destacável, o tronco musculoso de quem já não se importava de marretar os túneis ao redor da cidade e carregar centenas de quilos de rochas, o semblante sempre nebuloso, sempre austero, e a voz do deus do trovão que raramente se manifestava, mas quando o fazia, tinha a certeza de ser ouvido por quem se dirigia.
Mais um dia insuportavelmente pesado... Mas não para Barthrax. O velho Atlas levantava-se na madrugada, esfregando o rosto para afugentar o sono inoportuno que todos os dias tentava-o a desistir de tudo e permanecer ali, inerte, naquele projetinho de casa. Levantou-se, preparou um café rápido, que tomou sem sequer sentir o gosto, e caminhou quase que mecanicamente ao ponto em que o caminhão sempre passava para recolher os trabalhadores que iriam às minas.
Não tinha noção do quanto seu trabalho era importante para Piltover, "a cidade do progresso". Ou, na verdade, tinha, mas ignorava esse fato. Poucas coisas eram hoje capazes de comover de qualquer forma o velho e desgastado Barthrax. Pouquíssimas coisas...
Elora era lindíssima. Pequena, loira, parecia um elfo. Ou uma fada de energia e alegria intermináveis que zapeava sempre por ali e por aqui, sempre fazendo algo, sempre em busca de alguém. Era caixa e entregadora da pequena padaria da vila vizinha à qual Barthrax viera e por isso conhecia muita gente. Foi dessa forma que conheceu o rapaz hercúleo que trabalhava como carregador, abastecendo os navios que chegavam às docas. Encontrá-la, com seus cintilantes cabelos dourados e aquele sorriso de luz, dava um novo significado ao Sol que geralmente o açoitava: os raios que incidiam sobre ele eram então imaginados como carícias dela; o brilho era o de seu sorriso. Foi um fascínio imprescindível à primeira vista, florescendo num romance calmo e maravilhoso entre os dois jovens. Não imaginava poder experimentar maior alegria no mundo do que quando enfim casaram-se, mas veio a descobrir mais tarde o quão sublime era saber que seria pai!
Naquele dia, Barthrax não pôde conter a emoção do presente que sua infinitamente amada esposa lhe dava. ...mas o mais horrível dos sentimentos também veio a acometer-lhe pouco depois, quando Elora morreu durante o complicado parto. Naquela tarde fatídica, com filho recém-nascido em um braço e a esposa esmaecida em outro, o jovem e forte Barthrax chorou. O velho e forte Barthrax soltou um suspiro doloroso ao lembrar-se disso.
Criou o menino com todo o carinho e atenção que podia lhe dar, mas eram tempos difíceis... A vila colada ao mar tornara-se o inferno com a chegada de piratas saqueadores e assassinos. Conseguiu fugir de lá com o filho e o pouco que pôde carregar, indo recomeçar a vida num lugar um pouco mais tranquilo. Piltover. Mas, conforme crescia, aquilo não parecia ser o bastante para o rapaz... Lembrou de como seu coração endureceu subitamente no momento em que o xerife mostrou o corpo de seu filho no necrotério. Nunca mais conseguiria sentir nada. Apenas uma eterna indiferença ao mundo, à vida, à morte...
...até que surgiu aquela filha da mãe daquela menina na mina. Lembrava-lhe a disposição incansável de Elora. Lembrava-lhe a teimosia e o futuro perdido de seu filho...
...precisava ajudá-la.
Foi assim que surgira aquela amizade meio "aparentada" e toda peculiar. De uns tempos para cá, Barthrax finalmente começava a acreditar que ainda podia haver algum motivo, alguém com quem se importar no mundo. Todas as tardes, após o duro trabalho na mina, ia visitar o desastre de cabelo rosa na cadeia, dar-lhe apoio e fazer-lhe companhia.
– Barthrax! Haha, você não cansa de trabalhar não?
– Eu até descansaria, mas você não para de comer!
– Culpa sua, esse "bolo de Elora" que você faz é muito bom... Só seria melhor se trouxesse uma cerveja junto. — dizia Vi, já abrindo o embrulho e enfiando um pedaço indelicadamente grande na boca. — Toma, pega um pedaço também. Como andam as coisas lá fora?
– Basicamente o mesmo de sempre... O trabalho na mina vai bem; Noxus e Demacia estão tendo seus desentendimentozinhos novamente; a Patrulha está tomando conta da cidade...
– ...tudo na mais perfeita paz. — Vi pareceu concluir com certo pesar. Barthrax não gostou de como aquilo soou. Fez-se silêncio. — Barthrax, as coisas na verdade não andam tão bem quanto parece, pelo menos não por aqui. Tem... Tem bastante coisa pesada ainda por vir e... — ela suspirou — Me desculpe, de verdade, meu amigo, mas preciso da sua ajuda e provavelmente não vai ser algo tranquilo...
O velho sentiu uma terrível sensação de déjà-vu que repentinamente o encheu de pânico. Deuses, fora exatamente a sensação que experimentara quando Elora partiu e quando seu filho...
– Vi, pelos deuses, no que você está pensando?...
– Barthrax, por favor, me ouça!
– Não!
– Barthrax! ...por favor... — ela falava num tom desesperado de quem está apostando em sua última esperança. Isso era terrível. A voz de Vi tremulava. — Por favor... Essa é a única maneira de me livrar do canalha do Dohran e deixar a Caitlyn em paz... — ela abaixou a cabeça, perdida. — Com ajuda, pode ser que essa loucura venha a dar certo. Mas sem ela... é suicídio.
O homem ouvia aquelas coisas sentindo o coração já novamente ser estraçalhado... Não... Não; a menina caminhava para a mesma tragédia que seu filho! Como pode ser que a história se repita tantas vezes sem que ninguém aprenda nada? Barthrax, que havia se levantado com indignação e incredulidade, olhava para aquela menina... Queria vê-la sair da cadeia, simplesmente, e ir para uma casa. Queria que encontrasse o amor de sua vida. Queria que casasse, que tivesse filhos, ou então um cachorro; que o visitasse de tempos em tempos quando estivesse verdadeiramente velho e que contasse como as coisas andavam maravilhosamente bem em sua nova casa... Mas não conseguia. Via aquele futuro interrompido naquele momento, e sentia sua garganta apertar, segurando com todas as forças suas lágrimas. Sentou-se novamente.
– ...o que você quer que eu faça?
A jovem levantou a cabeça com uma nota de esperança...
~¨~
Sentada no sofá de casa, a xerife começava a reavaliar tudo o que sabia sobre o caso dos cristais. O mistério começava a abrir-se por uma perspectiva nova que ela por vezes recusou-se a aceitar, mas agora mostrava-se urgentemente necessário... Precisava incluir novos nomes, novos fatos e novos lugares à lista de suspeitos. Começou a escrevê-los.
"Johan
Inocente:
– Oficial antigo da Patrulha de Piltover, braço direito do antigo xerife. Ficha limpa.
– Não possui motivos aparentes para querer os cristais.
Culpado:
– Esteve fora da delegacia no período em que o informante de Dohran esteve na cidade.
– Conduta impertinente à atividade policial ultimamente.
– Constantes embates que inspiram ameaça...
– Estava na delegacia tarde da noite; atividade suspeita.
– Algum oficial não informou a contagem correta de inimigos na ocorrência do mercado."
"Jayce
Inocente:
– Herói de Piltover, jurou proteger a cidade no caso de um contra-ataque de Zaun
– Membro do Conselho
– Oficial da polícia há mais de 2 anos; ficha limpa.
Culpado:
– Constantes pedidos de aumento no fornecimento de cristais para suas pesquisas.
– Ainda guarda ressentimentos em função do ataque de Viktor e pelo Conselho de Piltover ter descartado a possibilidade de um ataque aberto à cidade de Zaun
– Paradeiro desconhecido durante a passagem do informante de Dohran pela cidade
– Algum oficial não informou a contagem correta de inimigos na ocorrência do mercado"
Fez uma pausa hesitante e respirou fundo antes de começar o próximo.
"Vi
Inocente:
– Tem colaborado com a polícia
Culpada:
– Ex-integrante da gangue de Dohran
– Participou ativamente do assalto à mina de cristais
– Comportamento explosivo e destrutivo
– Possível emboscada no mercado
– Ódio latente pela polícia e/ou qualquer autoridade
– Ficha criminal extensa
– Única a se saber que teve contato com o informante em Piltover. Pegou-o, mas deixou escapar.
– Aparentemente, mexeu no telefone ao ser deixada sozinha na sala da xerife
– Conhecimento e uso de tecnologia hextech"
Parou de escrever e observou a lista, mantendo-se séria e racional apesar do toque de angústia ao comparar o desequilíbrio entre os prós e contras de cada um dos novos suspeitos, e principalmente ao comparar as fichas entre si. Não era nada conclusivo, mas tinha um vislumbre de uma preocupante — e entristecedora — realidade.
Ia aprofundar sua investigação sobre o tópico, focando agora alguns pontos mais cruciais daquela história: a ocorrência no mercado, a passagem do informante por Piltover e a razão pela qual cada um dos suspeitos podia ter desejado envolver-se com os cristais. Fez uma pausa e foi à cozinha colocar água na cafeteira para começar a preparar o café.
Sabia que seriam estas noites insones...
~¨~
– Não... Você tem ideia do quanto isso é errado, Vi?!
– Mas você prometeu que ajudaria, Barthrax!...
– Isso... — o homem coçava a grande barba branca. — Isso configura roubo e traição! Vai ser uma grande confusão! E a troco de que?! De mais dor e sofrimento por parte de todos?
– A troco de liberdade! De paz! De ver todos nós livres, de uma vez por todas, desse fardo maldito que é Dohran!
– Se essa é a sua paz, Vi... Então eu não a quero. É melhor que desista dessa ideia.
O sorriso esperançoso no rosto de Vi lentamente foi esvaindo-se... Era aquilo então. Era aquilo... Sentiu-se, repentinamente, inconsolavelmente sozinha frente à hidra que iria matar. Então seria isso. Pularia completamente sozinha no fosso, sem cordas, sem garantias, somente com a vaga e idealizada esperança de que aquele último esforço não fosse em vão... Era isso...
Levantando-se com a mesma expressão austera e carrancuda de sempre, Barthrax enterrara com aquilo o último pedaço vivo de seu coração. Sabia o fim daquela história. Alimentar esperanças era iludir-se que algo um dia mudaria. Deu a volta na mesa e deu um rápido abraço apertado em sua menina.
– ...eu realmente esperava que você desistisse...
Afastou-se e foi embora, de volta à mesma casa, comer a mesma comida, dormir na mesma cama, viver o mesmo dia eternamente... A partir daquele momento, seu coração endureceu. Não sentia absolutamente mais nada.
Vi, ainda chocada, retornou atônita à sua cela. Quando a porta de ferro maciço encerrou-a novamente no escuro e solidão daquelas paredes frias, contudo, seu olhar felino predador tomou um brilho de determinação inabalável... Havia marcado cinco dias? Pois em cinco dias sairia dali para dar um fim àquilo.
5...
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