Piel de Lava
2 E então aconteceu...
Notas iniciais
Naquela noite não consegui dormir.Bento mexeu com algo dentro de mim, algo que nunca foi despertado.
Acordei com o canto dos pássaros na janela de meu quarto.
_ Bom dia Consuelo.
_ Bom dia Sinhá. O que a fez acordar tão cedo?_ Perguntou Consuelo me servindo o café.
Nunca tinha me questionado sobre Consuelo,a única coisa que eu sabia sobre ela, era que já trabalhava para nossa família antes de eu nascer.
_Usted nunca se casou,Consuelo?
_Não,Caetana. _Respondeu ela com desânimo._Mas um dia irá aparecer um moço tão guapo e de olhar apaixonado,igual aquele que veio aqui ontem,e me levará._Respondeu ela sorrindo enquanto lavava os pratos.
_"Olhar apaixonado" que bonito. _ Sorri.
_ Acho que sei o que fez vosmecê acordar tão cedo e tão feliz assim. _Disse ela me encarando._O tal moço,Bento,que veio aqui ontem e virá hoje te buscar.
_No,no é isso...
_Caetana,te conheço desde bebê, não minta para mim.
***
Passei a manhã esperando por Bento, já era três da tarde quando mamãe veio me dizer que Bento estava na nossa sala,a minha espera.
_ Está mui guapa. _Disse mamãe sorrindo.
Estava vestia com um vestido preto e cinto apertado,sem anáguas e com botas para montaria.
_ Só vou escolher um cavalo._ Disse me envolvendo em um xale.
_Tudo bem querida.Agora vá, ele está te esperando.
Ao chegar na sala me deparei com Bento sentado no sofá, conversando com meu pai.
Meu coração disparou e quando ele me encarou, minhas bochechas coraram, não entendi o porque.
_Bem,ai está minha filha._Disse papai se levantando.
_Mui encantadora,Caetana._Disse ele beijando minha mão._Não vamos perder mais tempo.Senhor Narciso,dona Maria,ao fim da tarde Caetana estará de volta.
Papai avia selado um cavalo para mim.Assim,eu e Bento fomos cavalgando até sua estância.
_Nestas baías estão os cavalos que acho que serão de seu grado._Disse ele sorrindo enquanto olhava para mim.
_São belos animais.
_Vieram do Sul do Brasil._Disse ele com orgulho.
_O que fez um moço, igual à vosmecê Senhor Bento...
_Eu já não te disse que é para você me chamar de Bento? Não sou casado e muito menos velho.
_Me desculpe.
_Tudo bem._Ele sorriu._Usted pode me chamar do que quiser._Passou um mecha do meu cabelo para trás da orelha._Menos de Senhor.
_Tudo bem,Bento._Sorri novamente.
_Bem, respondendo sua pergunta, eu vim desincorporado como Cabo._Disse ele se esticando.
_Então usted é um homem de pelejas.
_Como a grande maioria dos homens do Sul.
_De que guerra você veio desincorporado?
_Primeira Campanha Cisplatina._Disse novamente todo orgulhoso de si.
_Você fala todo orgulhoso de si._Suspirei._Enquanto ustedes estão nas guerras comemorando a morte de seus inimigos e vingando outras,se acostando com outras mulheres. Enquanto suas mulheres ficam em casa,fiéis,rezando para que ustedes voltem vivos.
_Não fale assim.Sou um homem fiel.Em minha vida só terá espaço para apenas uma mulher,e dela será todos os meus pensamento e motivos para que eu volte vivo para casa.
O jeito que ele falava, me encarando com aqueles olhos verdes, me estremecia, fazia meu coração palpitar mais rápido, mais forte.
_Quero esse._Disse apontando para o lindo corcel preto na última baía.
_O nome dele é Avalon.Foi minha irmã que deu esse nome._Disse rindo.
_Tem irmãs?
_Sim, três irmãs e um irmão.
Então o passeio que seria apenas para a compra de um cavalo se estendeu. Enquanto conversávamos sobre nós e nossas família, vimos o quanto erámos parecidos e buscávamos por coisas iguais.
_ Já esta tarde Bento,tenho que ir para casa.
_Claro._ Disse suspirando. _ Vou te deixar em casa.
_Não precisa. Gosto de cavalgar sozinha no cair da tarde.É bom para refletir. _Disse enquanto puxava as rédeas do meu cavalo.
_Parece que até nisso somos parecidos._Disse ele sorrindo.E que belo sorriso. Era de tirar o folego,era de despertar desejos.
Coloquei o pé no estribo, mas me desequilibrei.Se não fosse Bento para me segurar eu teria me desmontado no chão.
Então girei de vagar com seus braços ainda me segurando, nossos rostos ficaram colados,e aconteceu : Nos beijamos. E foi como se eu ansiasse por aquilo à muito tempo.
_Preciso ir._Disse me afastando.
***
_Então,não vai me dizer como foi o encontro?_Perguntou Isabel.
_Quantas vezes terei que lhe dizer que não foi um encontro?
_Sua boca diz uma coisa,seus olhos outra.
_É mesmo Isabel Eleuteria?_Franzi a testa._O que meus olhos dizem?
_Seus olhos verdes feito esmeraldas nunca estiveram tão brilhantes.Eles dizem que você está enamorada.
Me levantei e me encarei no espelho.Isabel estava certa,eu não consigo nem disfarçar.
_Você vai mesmo dormir no outro quarto?
_Não quer falar sobre o assunto.Tudo bem,eu entendo._Disse em tom de deboche._Sim,esse quarto está ficando pequeno para nós duas. _ Disse ela girando o dedo indicador
_Guria insolente._Disse colocando a mão na cintura.
_Se mudar de ideia e quiser conversar, estarei no quarto ao lado.
***
Bento tomara conta dos meus pensamentos novamente. Não sabia o que fazer,não queria que percebessem algo de errado comigo,a minha distância.Mas também não queria que ele saísse de minha mente.
Terminei de fazer minha oração e já ia me deitar quando ouvi barulho de pedrinhas na minha janela.A abrir de vagar,olhei para baixo e lá estava Bento,de poncho e uma espada na cintura.
_O que você esta fazendo? _Sussurrei.
Ele fez sinal para que eu esperasse e saiu.Alguns segundos,e ele voltou com uma escada.
_Ensandeceu?_Sussurrei novamente.
Sem me dar ouvidos ele subiu.
_Seria muita ousadia se eu pedisse para entrar no seu quarto?_Perguntou ele com os braços apoiados na suleira da janela.
_Mas é claro! Se meu pai te pega aqui,é bem capaz dele querer te matar!
_Não seria. Ele é um bom homem.
_O que você pensa que está fazendo?
_Te dando boa noite.
_Assim?_Ri.
_Sou romântico._Riu.
Ouvi passos no corredor e alguém mexendo na porta.
_Minha mãe._Sussurrei.
Puxei as cortinas rapidamente e a porta se abriu.
_Ouvi risos,pensei que sua irmã estivesse aqui._Disse mamãe dando uma boa olhada em todo quarto.
_Estava,mas acabou de ir para o outro quarto.
_Claro._Ela sorriu._Buenas noites.
_Buenas mama.
E ela deixou o quarto.
Abri as cortinas de novo e ele continuava lá.
_Por pouco. Vai,você tem que ir embora. _Disse apontando para baixo.
_Embora assim? Subi na sua janela,sua mãe quase pegou a gente, e estou correndo o risco de ser visto por alguém,e você quer que eu vá embora assim,Caetana?
O beijei, lentamente e delicadamente,agora como se já tivesse feito aquilo muitas vezes.
_Te verei novamente?_Perguntou ele entrelaçando seus dedos nos meus.
_Amanhã, no jequitibá, quando o sol estiver se pondo.Agora vá!
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