Piedade
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem da história, fiquem a vontade para fazerem críticas construtivas.
Boa leitura!
Era um dia quente. Quente não, infernal. O verão de Salvador era sempre assim, mas eu nunca me acostumava. Eu odiava o calor, talvez por ele sempre me lembrar a minha condição de padre, um padre que não abria mão da batina, mesmo nos dias mais quentes.
No dia em questão, eu caminhava pelo centro da cidade, ele estava abarrotado de gente e não poderia ser diferente. Afinal tratava-se do fim do ano, as pessoas estavam preocupadas com a roupa que usariam nesse período tido como tão especial, tudo isso graças ao maldito capitalismo, sempre guiando as nossas supostas escolhas…
Eu andava rápido, tinha pressa de chegar ao meu destino, precisava fazer aquilo o quanto antes… Em meio aos passos rápidos, tentava mentalizar coisas boas, apesar da minha grande agonia. Eu tinha um terço em minhas mãos, um lindo terço de madeira com a cruz de ouro, meu companheiro das horas de aflição.
Pensei em pegar um ônibus, pois o meu destino final era a praça do Campo Grande, destino esse que com um pouco de boa vontade e paciência poderia até ser feito a pé, porém não num dia de tanta pressa, e tanta gente na rua, como aquele.
Fui para o ponto de ônibus da praça da Piedade, localizado em frente à igreja de mesmo nome. Lá fui o centro das atenções, as pessoas achavam curioso ver um padre de batina e não me poupavam olhares e eu também não as poupava dos meus olhares, por vezes, insistentes e fixos.
Sendo bem sincero, invejei a menina de short curto, que de vez em quando, me dirigia o olhar. Ah, como gostaria de vestir algo mais leve do que a preta batina... Se eu quisesse até poderia, mas não, não seria certo, eu precisava me dar o respeito, eu era um sacerdote e já fazia muitas coisas inadequadas a um sacerdote, não poderia acumular mais.
Quando o ônibus Federação chegou, muita gente foi em direção a ele, mas felizmente não o bastante para enchê-lo e eu pude ir sentado, sentei ao lado da janela. No curto caminho permiti-me devanear um pouco. E se eu não fosse padre? Era o questionamento insistente feito a mim mesmo.
Cheguei ao meu destino rápido, talvez de forma mais veloz do que uma piscadela de olhos. Em realidade ainda não estava precisamente onde objetivava estar, desci defronte à reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA), poderia ter descido antes, na frente do antigo Hotel da Bahia, porém estava distraído e perdi o ponto.
Da reitoria até a praça do Campo Grande fui caminhando de forma vagarosa, a pressa anterior havia desaparecido por completo. Ainda tinha o terço em minha mão, de vez em quando o apertava um pouco, era como se aquilo fizesse eu me dar conta da realidade daquela situação, situação que seria preferível tratar-se de um horrível pesadelo.
Ao finalmente chegar ao local desejado, dei uma rápida olhada pela praça, procurei a pessoa com quem havia marcado o encontro, mas nada dela. Eu havia tomado um zignal¹? Não, Amanda não faria aquilo comigo. Procurei um banco e me sentei, ela não deveria demorar a aparecer.
Esperei por ela pacientemente e depois de algum tempo, a doce Amanda veio ao meu encontro.
— Pensei que não fosse aparecer — disse com um leve sorriso no rosto.
— Oxe², padre como eu poderia fazer isso com o senhor? Principalmente tratando-se de um encontro tão importante como esse — disse, sentando ao meu lado.
Importante? Qual seria a importância de tal encontro? Para mim seria apenas algo casual, uma forma de amenizar um pouco a saudade que sentíamos um do outro.
— Desculpe, mas por que é tão importante?
— É o nosso último encontro — Aquelas palavras chegaram até mim como um tiro — Nós pecamos e eu não quero mais pecar — completou.
— Amanda, eu… Eu..
Antes de conseguir achar as palavras certas fui interrompido por ela.
— Não, não diga nada. Eu já sei que você será bispo... Você fez a sua escolha e nem ao menos me comunicou dela — declarou visivelmente irritada.
— Isso ainda não está completamente definido, por isso não falei nada — argumentei em vão.
— João, é melhor a gente se afastar antes que isso se torne mais profundo.
— O nosso amor é apenas isso? — indaguei indignado.
Naquele momento percebi que a amava — apesar de nunca ter dito isso a ela — todavia aquele amor não era pra mim, nunca consegui ser o homem esperado por Amanda. Ela era mais jovem do que eu, estava no auge dos seus vinte anos, enquanto eu me encontrava na decadência dos cinquenta, e ainda por cima, era padre, quase bispo, ou seja, nunca poderia ser dela de fato.
— Por favor, não chame o que vivemos de amor, digamos que foi apenas uma aventura, assim será menos doloroso.
— Tudo bem. Se você prefere assim, quem sou eu para dizer o contrário?
Ela não disse mais nada, apenas me deu um beijo no canto da boca e foi embora sem olhar para trás, Amanda não teve um pingo de piedade. Ela me deixou ali, sozinho, sozinho não, eu ainda estava com o terço em minhas mãos, entretanto, por algum motivo, não tive forças para segurá-lo e o deixei cair. Não fiz questão de pegá-lo, aquele terço me lembrava que eu era padre e Amanda me lembrava que eu era homem. Naquele momento, percebi que não desempenhava direito nenhuma das duas coisas e a frustração tomou conta de mim. Permaneci um bom tempo sentado ali até tomar coragem e partir. Não peguei o terço, não valeria a pena me agachar e ainda correr o risco de sujar a minha bela batina. Eu deveria seguir em frente, sem Amanda, sem terço. Só e Deus.
Notas finais
Oxe²: geralmente significa um "como assim?", é usado para exprimir surpresa.
Muito obrigada por ter lido ♥
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