Pictures of Us
13 Moving In || Oliver
Notas iniciais
― Isso é mesmo necessário? ― elevei um pouco minha voz, o ombro encostado no batente da porta do banheiro do quarto. ― Já passa das quatro da manhã!
― Sim! ― Felicity gritou de dentro do closet.
― Eu já meio que morava aqui, amorzinho, não serão mudanças tão grandes assim.
― Aí que você se engana, meu bem. ― Ela saiu toda descabelada, meu pijama de moletom todo torto nela, me fazendo rir. ― Que cara é essa?
― Você entrou no modo "louca da arrumação", quase uma Mônica Geller. É engraçado.
― Palhaço ― acusou de volta, sem conseguir segurar um risinho no canto do lábio, então soltou os cabelos, os penteando rapidamente com os dedos e arrumando as roupas parcialmente. ― Vamos lá, peixinho, primeiro o banheiro.
― Vamos lá. ― A acompanhei até o armário que ficava em cima da pia e atrás de um espelho.
― Primeira prateleira, é sua. Creme de barbear, desodorante, seu creme dental, já que insiste em não usar o meu, e o que sabe-se lá Deus você mais usa, fica nesse lugar, certo? ― Confirmei com a cabeça.
― Em minha defesa, seu creme dental tem gosto de planta, não é colorido e nem faz espumas legais.
― O seu é de criança, mas não vou entrar nesse mérito agora. ― Dispensou a continuidade daquela conversa com um gesto de mão. ― Segunda, terceira e quarta prateleira são minhas. E a última é nossa, tem os materiais de primeiros socorros.
― Não me parece uma divisão justa, babe.
― Se conseguir arrumar meus cremes apenas em duas, de um modo prático e eficiente, pode ficar com mais uma prateleira.
― Não podem ser tantos…
― Para o pé, hidratante, esfoliante, de limpeza e desodorante, para a mão, dois, um para dias secos e outro para dias úmidos. Do rosto, hidratante dia e noite, controle de brilho, máscara de pepino, demaquilante para pele e outro para olhos, preparador e fixador de maquiagem. Para o corpo, tem o óleo e o hidratante. Creme depilatório, protetor solar para rosto e corpo, o que mais?
― Okay, entendi! ― a interrompi, ou ficaríamos ali a noite toda. ― Quer ficar com minha prateleira também?
― Não, obrigada. ― Deu aquele sorrisinho vitorioso. ― Esse dispositivo é uma inovação e você terá a oportunidade de usá-lo, olha que beleza! ― Me mostrou um pequeno negocinho de plástico transparente.
― Que merda é isso? ― Peguei a coisa entre os dedos.
― Você foi bem no ponto. É pra você colocar ao redor das cerdas da sua escova de dentes. Ela fica em cima da pia junto com a minha, então é pra proteger dos coliformes fecais e outras bactérias que podem ter no banheiro.
― Como é? Coliformes o quê?
― Partículas de fezes, Oliver ― explicou já perdendo a paciência. ― Você não quer passar isso nos seus dentes, e eu também não quero, já tenho o hábito de te beijar. Por falar nisso, marquei dentista, médico e terapeuta pra você.
― Você fez o quê? Pra que preciso de um terapeuta?
― Seu trabalho é estressante, você lida com perdas e pessoas complicadas todos os dias. Tem que cuidar da mente também.
Okay, Felicity estava levando aquilo a outro nível. Era o primeiro dia e eu já me sentia numa escola militar.
― …você tá me escutando?
― Sim, claro ― menti. Tinha viajado nos últimos minutos enquanto ela explicava a prateleira que ficava dentro do box.
― Eu sei que não, então vou repetir. Esses aqui são meus sabonetes: íntimo, corpo e rosto. E esses aqui meus produtos do cabelo. E isso é o seu sabonete/shampoo/condicionador/pós-barba. ― Fez uma careta, analisando o único frasco que eu havia posto ali. ― Nossa, é tão estranho morar com um cara. Ah, esse dispositivo de limpeza chama rodo. Serve para não deixar água acumulada.
― Pronto?
― Não. Tá vendo isso aqui? ― Ela pegou a tampa do vaso sanitário e começou a abrir e fechá-la. ― Olha como é interessante, ela levanta e abaixa, levanta e abaixa. Mágico.
― Okay, entendi essa. Agora sim, acabamos por aqui?
― Só mais uma coisa. ― Se dirigiu até a porta. ― Isso aqui é um porta toalhas. E aqui temos outro. ― Então ela saiu até o quarto. ― Isso aqui NÃO é um porta toalhas. ― Fez um gesto amplo para a cama.
― Felicity, como eu disse, já passava mais tempo aqui do que no meu antigo apartamento. Sei como gosta de manter as coisas.
― Não, você não sabe, meu amor. Eu tentava ser a Felicity de boas, mas quando você saía, eu ia atrás arrumando sua bagunça. Não vou conseguir fazer isso com você aqui, então... A cama não é um porta toalhas!
― Tá bom, sem toalha em cima da cama, tampa do vaso abaixada, não misturar nossas coisas, não mexer nas suas inúmeras prateleiras, colocar o negocinho na escova de dentes.
― Protetor de cerdas.
― Colocar o protetor de cerdas na escova de dentes ― recitei como uma criança. ― Podemos pular para a parte divertida de morar junto? ― A puxei pela cintura, beijando seu pescoço. ― Agora entendi porque cheira tão bem, todos esses cremes.
― Closet. ― Escapou de meus braços, me fazendo soltar um murmúrio chateado.
― O que tem o closet?
― Esse é seu lado. Já arrumei suas roupas nele, agasalhos em cima, moletons em seguida, paletós, camisas e jaquetas nos cabides, uma prateleira para jeans, duas para camisetas. Observação, você precisa de mais camisas de botões e algumas gravatas.
― Mas…
― Essa gaveta é para meias, observe que usei um divisor de compartimentos para organizá-las por cores, igual fiz com as cuecas. ― Me mostrou a outra gaveta. Se não fosse trágico, seria hilário.
― Amor, espero que esteja ciente que não vou conseguir manter isso organizado um dia sequer.
― Qual é, Oliver, você precisa se esforçar!
― Eu me esforço para coisas que valham a pena, mas eu não vou gastar metade do meu tempo de descanso arrumando gavetas, fala sério. E nem espero que faça isso pra mim, só pra esclarecer.
― E vai deixar tudo virar uma zona?
― Eu gosto das minhas coisas a mão quando preciso, e não ter que me preocupar em que compartimento eu coloco minha cueca amarela dos Simpsons!
― Ai, eu odeio aquela cueca!
― Mas eu amo minha box dos Simpsons, amo minhas gavetas bagunçadas e amava não ter que fazer terapia, mas pelo jeito, vou precisar morando com você!
― Eu estou te enlouquecendo, Oliver? ― Caminhou até mim. Engraçado como ela conseguia parecer ameaçadora quando queria, mesmo perdida dentro daquela roupa muito além do seu tamanho. ― Porque se eu estiver, não é tarde demais para você desistir disso aqui.
― Eu não vou desistir de nada, Felicity, só não quero me sentir numa escola militar na minha própria casa! ― Dei voz aos meus pensamentos.
― Tá me chamando de exigente demais?
― Como um coronel dos compartimentos de cuecas e meias!
Quando pensei que conseguiria uma réplica acalorada, Felicity explodiu em gargalhadas na minha frente. Ela ria tanto ao ponto de se curvar com as mãos nos joelhos, eu fazendo a cara mais confusa que alguém poderia fazer.
― A gente acabou de ter nossa primeira briga como semi-casados? ― ela conseguiu falar quando diminuiu as risadas.
― Acho que sim. E por causa da cueca dos Simpsons, que humilhante. ― Agora que entendi o ponto de suas risadas, já estava rindo mais que ela. ― Não é uma boa história para se contar aos netos.
― Por favor, fica entre nós ― pediu. ― Olha, amor... Tenho plena ciência que eu posso ser bem difícil com todas as regras, mas é o jeito que eu consegui sobreviver a morar com minha mãe. Entendo que não posso exigir tudo isso de você logo de cara, mas é que nunca morei com ninguém além dela antes.
― Eu compreendo. Sei que posso ser um pouco bagunceiro e meio desligado, mas quero fazer isso com você. Vou tentar melhorar, prometo. ― Segurei suas mãos, as beijando.
― E eu prometo tentar ser menos neurótica e manter meu TOC sob controle ― prometeu, rolando olhos para as próprias atitudes.
― Temos um acordo.
― Ótimo. Agora vamos para a cozinha.
― Nada disso, também tenho umas regras e explicações a dar. ― A impedi de sair, ficando em seu caminho.
― Ah, tem?
― Tenho sim. Começando por… Sabe esse móvel grande no meio do quarto que NÃO é um porta toalhas? ― Apontei didaticamente para a cama.
― Hm, sei. A cama.
― A gente usa em sua prioridade para dormir, mas também tem outra utilidade bem interessante.
― Qual? ― Se fez de desentendida.
― Eu te mostro. ― Segurei firme em sua cintura e nos joguei na cama, a beijando.
― Você acha mesmo que sua vida a partir de agora vai ser sexo todos os dias e a hora que quiser? ― questionou entre risadas, enquanto eu escorregava meus lábios por seu pescoço alvo.
― Não é pra isso que as pessoas casam?
― Iludido! ― cantarolou.
― Eu fui enganado? ― Ergui meu rosto para olhá-la, encenando choque. ― Me devolve esse anel aqui!
― Nada disso. ― Felicity sorriu girando a mão esquerda na frente dos olhos. ― Pediu porque quis, agora vamos ficar para sempre coladinhos grudadinhos. ― Apertou minhas bochechas.
― Eu não sou nem maluco de pedir de volta. Não tem outro lugar no mundo que eu queira ficar ― declarei.
― Sempre sabe exatamente o que dizer, Queen.
Felicity era decidida sobre o que queria, rápida o bastante para já estar puxando a barra da minha camiseta para cima, e tinha energia demais para alguém que passou o dia todo fazendo mudança. Dava pra amar mais essa mulher?
― Peixinho, a campainha ― me alertou quando eu passava minha blusa pela cabeça.
― O quê? Onde?
― Oliver, a campainha, estão tocando! Quem será a essa hora? Será bandido?
― Que bandido você conhece que toca campainhas, Felicity? ― Nem dei importância à sua preocupação excessiva, voltando a distribuir beijos em seu colo.
― É sério, vai lá! Aliás, não, não. Melhor não ir, vamos ligar pra polícia.
― Sério, pra polícia?! ― ironizei, apontando o indicador para mim mesmo.
― Ah, desculpa, por um segundo esqueci que você é policial. Mas não podemos dizer que você é policial, vai que é uma armadilha. Uma vez eu vi uma série que eles mandavam garotas baterem na porta das pessoas, daí quando abriam, eram assaltantes.
― Você não vai relaxar até essa coisa parar de tocar, não é?
― Por favor. ― Fez beicinho.
― Não demoro. ― Beijei seus lábios rapidamente, vestindo minha blusa de novo.
Desci as escadas de dois em dois degraus, obstinado a despachar quem quer que fosse o desocupado batendo na minha porta quase às cinco da manhã, e atrapalhando meu momento com Felicity.
― Já vai! ― gritei para a porta, e logo que a abri, qual não foi minha surpresa ao encontrar minha irmã parada na varanda. ― Tinha que ser!
― Atrapalho? ― perguntou cinicamente, rindo da minha cara.
― Imagina… Eu estava tomando chá à sua espera, irmãzinha ― ironizei.
― Rude ― rebateu, passando por mim. ― Licença. Vem, Roy. ― O coitado entrou em meu campo de visão, contorcendo os dedos, parecendo querer cavar um buraco e se jogar nele.
― Detetive ― me cumprimentou todo sem jeito.
― E você trouxe um amigo. Para minha casa. Em plena madrugada.
― É a hora que saio da boate, você sabe. Nossa, que bagunça! ― exclamou, olhando ao redor com as mãos na cintura. ― Como tem sido a vida nova, mano? ― Suspirei.
Não dava para argumentar com Thea, minha irmã era a pessoa mais obstinada do mundo e sempre conseguia o que queria, ou deixava todo mundo maluco até conseguir. E se ela queria uma conversa às cinco da manhã, não ia embora até ter sua conversa às cinco da manhã.
― Minha vida nova tem sido ótima, querida irmã. E a sua?
― Oliver…
― Okay, tem sido… Diferente.
― Sinônimo para "quero me jogar na frente do primeiro caminhão que passar na rua"?
― Não, é só diferente. Felicity é muito organizada, cada cômodo tem uma série de regras e estou me adaptando a elas. Pronto.
― E do jeito que você é bagunceiro e desleixado, isso aqui vai virar um manicômio. ― Fez um gesto amplo com as mãos para a casa. ― Ai meu Deus, me deixa instalar câmeras aqui e fazer disso um reality? Iríamos ficar famosos e bem mais ricos, Keeping Up with the Queens! ― Bateu palminhas animadas.
― Não viaja, Speedy! Tem seu lado bom também.
― Por exemplo…
― Por exemplo, nós temos nosso cantinho de isolamento, para quando um tiver a ponto de enlouquecer o outro, e um quadro de tarefas diárias, semanais e mensais. A cada tarefa que eu completar, eu ganho uma estrela dourada, e a cada dez, posso escolher um presente. Não é legal? ― Ela me olhava tentando segurar uma risada. ― O que foi?
― Parabéns, irmão, você está morando com a Super Nanny! ― Deu dois tapinhas no meu ombro.
― Uma Super Nanny bem gostosa, eu espero. ― Felicity surgiu no alto da escada. ― Achei que tinha ouvido sua voz, Thea... E o Roy está aqui também ― finalizou com surpresa, me abraçando por trás.
― Ela me arrastou ― o outro se justificou.
― Lissy, minha cunhada preferida! E pelo jeito, a única que vou conseguir ter, já que meu outro irmão é um vadio ― completou rolando olhos. ― Enfim, é sempre um prazer te ver!
― O que deu nela? ― Minha noiva perguntou para mim, então apenas dei de ombros.
― Eu te conheço o bastante para saber que o assunto aqui é outro, Thea. Desembucha!
― Okay, vou dizer. Mamãe mandou uma coisa. ― Bufei.
― Olha, uma conversa que eu não vejo a hora de perder. ― Felicity se soltou de mim. ― Eu vou passar um café, já está mesmo quase amanhecendo. Você vem, Roy? ― Ele que não era bobo nem nada, não perdeu a chance de escapar também.
― Olha o que você fez, agora vamos ter que tomar o café dela!
― Não pode ser tão ruim.
― É intragável, vai por mim.
― E por que ela oferece isso pras visitas? Ela me odeia tanto assim?
― Não, mas ela se orgulha de fazer café bem. Mas já faz um ano que, enquanto ela toma banho pela manhã, eu faço outro café e troco antes que ela perceba.
― Que maneira honesta de começar um casamento.
― Direto ao ponto, Speedy!
― Certo. A gente devia sentar? Vamos sentar, né? ― Indicou o sofá com os dois polegares, e tirei algumas sacolas de cima do estofado antes de sentarmos. ― Mamãe te mandou isso. ― Me entregou um envelope que tirou da bolsa. ― Ela disse que é um presente de casa nova pra você, mas acho que ela também vê isso como o pedido de desculpas que ela não tem a capacidade de colocar em palavras. ― Estreitei os olhos para minha irmã, abrindo o envelope e tirando um cheque de dentro.
― Um milhão de dólares, que generoso! ― ironizei, vendo o valor do cheque. ― Diz que eu mandei ela se ferrar ― falei, rasgando o cheque em quatro partes, os pedaços de papel picado voando até o chão. Minha mãe mesmo a distância conseguia acabar com meu humor.
― Ollie, não seja tão intransigente…
― Thea, ela tentou acabar com meu noivado nos primeiros dias dele! Foi um plano sórdido usar Helena pra me fazer terminar com Felicity, Moira ainda é a mesma que dissimula e usa pessoas, e eu não quero contato.
― Na cabeça da nossa mãe, você precisava ter certeza que era isso que queria. Só entre nós, irmão, você nem sempre foi tão comprometido com nada.
― Então ela que fizesse igual uma mãe normal e conversasse comigo, ao invés de mandar minha ex tentar me reconquistar e me agarrar na frente da minha noiva! Sabe quão errado as coisas poderiam ter dado?
― Eu sei, eu sei, foi horrível, estou totalmente do seu lado nessa, mas ela está arrependida. E mandou esse cheque pra vocês comprarem uma casa maior, ela agora sabe que é de verdade.
― Quando ela vai entender que não estou a venda?
― Mamãe está com medo, como eu nunca havia visto a dama de aço ficar. E até sinto que ela tenta mudar, mas esse medo tem movido grande parte das ações dela nessas últimas semanas.
― Você tem 22 anos, Speedy, não viveu o bastante para ver as coisas como elas são. ― Thea respirou fundo para mandar outro contra-argumento, mas suspirou, desistindo de tentar.
― Daqui a pouco é a primeira sessão quimio, ela está apavorada, mesmo que nunca vá assumir. Você poderia ser superior e aparecer, vai ser na Oncologia do Star General Hospital, às nove horas.
― Entendi a coisa do cheque, queria comprar um acompanhante fiel. Diz que ela arrumaria enfermeiros mais dedicados por bem menos que um milhão.
― Mas nenhum deles seria você. ― Fez carinho em meu braço, ficando em pé. ― Bom, eu já vou. Você não tem noção do quanto ela tem sido insuportável comigo, mas ainda sim, tenho que estar lá.
― Que sutil, Thea. ― Ela sorriu.
― Se cuida, mano, boa sorte na vida nova ― desejou me abraçando. ― Tchau, Lissy! Vem, Roy! ― gritou.
― Espera, vocês já vão? ― Minha noiva chegou na sala, seguida de perto por Roy. Fui para o seu lado a abraçando e beijando seus cabelos, seu cheiro sempre me confortava quando eu estava mal. ― O café está quase pronto.
― Um café cairia bem agora.
― Não cairia não, vai por mim ― Thea refutou a ideia rápido demais. ― Sério que ninguém vai perguntar por que nós dois estamos juntos a essa hora? ― Olhei para Felicity e ela até poderia estar curiosa como eu, mas brincar com a cara de Thea era mais divertido.
― Não ― respondemos juntos, sem interesse.
― Dois sem graça ― reclamou por não ter causado impacto com sua companhia como pretendia. ― Vamos, Roy. ― E saíram, batendo a porta com mais força que o necessário.
― Sua irmã é uma força da natureza, mas tem um coração de ouro ― falou e concordei, sem saber se a primeira parte havia sido um elogio ou não. ― Você tá bem? ― Felicity me perguntou, o rosto colado no meu peito enquanto fazia carinho nas minhas costas.
Eu não estava. Já não bastasse toda a raiva que minha mãe me fazia sentir, agora eu sentia culpa por não estar lá com ela. E sentia culpa por sentir culpa quando só deveria sentir raiva.
― Só me abraça.
― Por quando tempo você precisar, amor.
Me apertou mais forte, e ficamos ali, em um silêncio cúmplice, por não sei nem quanto tempo. Nem lembro exatamente como paramos no sofá, minha cabeça em seu colo e quando ela fazia cafuné.
― Mas se quer minha opinião, você deveria ir ― falou baixinho.
― Ir para aonde?
― Para onde ― corrigiu minha gramática como sempre. ― E você sabe de onde estou falando.
― Você ouviu?
― É uma casa pequena e vocês não estavam falando baixo, peixinho. ― Deu de ombros. ― Olha, eu não tenho a ilusão que vou conseguir ter com sua mãe a mesma relação que você tem com a minha. Deus me livre trocar mensagens com minha sogra todos os dias como você faz com a sua, o que é estranho, só pra constar, mas ela é sua mãe, Oliver. Não quero ficar batendo na mesma tecla, mas boa ou ruim, ela precisa de você, principalmente agora.
― O que ela fez em Vegas…
― Foi horrível, concordo, é um jeito super protetor e meio psicótico de se preocupar, mas ainda mostra que ela se importa. É mais do que muitos filhos podem dizer de suas mães.
― Como você consegue ser tão generosa sobre isso?
― Eu não sou perfeita, você sabe bem disso, eu estava te enlouquecendo ainda a pouco em um assunto idiota sobre gavetas! Mas quando eu tiver um filho, e fizer algo ridiculamente super protetor e psicótico, não quero que ele me odeie para sempre.
― Te amo tanto. ― Sentei ao seu lado, tomando deu rosto com as mãos e a beijando.
― Só não ama meu café, tô sabendo.
― Sobre aquilo…
― Relaxe, eu descobri na segunda vez que fez isso. Na primeira, achei estranho meu café ter ficado bom do nada, e só aconteceu de novo quando você estava aqui. Foi só somar dois e dois.
― Você seria uma detetive e tanto! ― elogiei. ― Mas não explica porque não me disse nada.
― E parar de levar o crédito pelo seu café maravilhoso, eu não! Nos últimos meses, eu nem me esforçava mais, só misturava o pó de qualquer jeito. ― Jogou a cabeça para trás e soltou uma daquelas risadas esquisitas e anasaladas que só ela tinha.
― Você é muito esperta, senhorita Smoak. ― Puxei suas pernas, fazendo seu corpo escorregar para baixo do meu. ― E eu te amo mesmo com a obsessão por organização.
― Te amo mesmo com a obsessão por bagunça.
― Thea tem razão, nós dois morando juntos numa mesma casa vai ser uma jornada e tanto.
― Uma que dure para sempre. ― Sorriu, puxando meu rosto para si.
Horas mais tarde, acabei seguindo o conselho de Felicity e fui acompanhar a quimioterapia da minha mãe. Ela e Thea pareciam que iam ter uma coisa, tamanha a surpresa de me ver ali. Não falei nada, apenas sentei ao seu lado durante todo o procedimento e logo que acabou, fui embora sem dizer uma palavra sequer. Eu não tinha certeza se estava pronto para perdoá-la, muito menos conviver, mas uma certeza eu tinha. Havia escolhido a pessoa certa para me casar.
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