Piano e Violino.
1 Ele e o Piano.
Notas iniciais
Nervoso. Virgo estava nervoso. As mãos que possuíam dedos longos e finos não paravam de tremer. Mal conseguia se concentrar enquanto ajeitava mechas de seu cabelo. Trajava um terno preto com cauda e uma gravata borboleta da mesma cor. O concerto iria começar em dez minutos, ele teria que se acalmar. Estava no banheiro se arrumando, olhou para sua figura no espelho. Será que ele parecia apresentável? Virgo alisou a roupa. Ele fechou os olhos e respirou profundamente, se lembrando de todos os treinos, desde o início da infância, quando tocou piano pela primeira vez. Lembrou da sensação que lhe invadiu, o dia que se tornou cúmplice da música clássica. Abriu os olhos verdes. Agora ele estava pronto.
Virgo ficou esperando pelos bastidores até que o chamaram. Ele foi para o palco, onde o piano estava posto. Apesar de estar no período da tarde, o local era iluminado por luzes sóbrias, dando destaque para o piano e o pianista. Virgo olhou para o público, havia uma quantidade considerável de pessoas, fato que o deixou mais nervoso. Balançou a cabeça, tentando desviar os pensamentos. Caminhou em direção ao instrumento, sentando-se na cadeira. Havia escolhido Beethoven para tocar o concerto inteiro, era um compositor bem conhecido, mas esse não era o real motivo de ter escolhido ele.
Beethoven foi um percursor do romantismo na música. Rompeu barreiras do classicismo, mudando algumas concepções sobre a música. Infelizmente, isso não poderia esconder acontecimentos tristes em sua vida. O pai, alcoólatra, obrigava Beethoven estudar o piano horas por dia, além disso, anos depois, perdera a audição, deixando-o extremamente abalado e entrou em depressão. Contudo, continuou a criar músicas, uma das mais famosas foi criada quando ficou surdo. Beethoven não era digno de pena, nem um exemplo de superação. Era um humano que amava a música e não desistira dela, assim como ela não desistira dele. Virgo lembrou de uma frase de Beethoven: "Parecia-me impossível deixar o mundo antes de ter dado a ele tudo o que ainda germinava em mim". Então, posicionou suas mãos e começou a tocar a primeira música.
Tocou as primeiras notas de Coriolan Overture op 62. A melodia em dó menor, febril, cheia de energia, representava a indignação do protagonista Coriolano, o qual se revoltou por não ser eleito pela plebe de sua cidade. O protagonista da tragédia de Shakespeare reagiu violentamente e o baniram. Como vingança, uniu-se aos volscos, povo inimigo, e decidiu atacar Roma, sua pátria. Virgo tocava incessantemente, como estivesse atacando alguém com os sons das notas do piano. Os sentimentos angustiantes presente na música pareciam nunca terminar, mas logo os sons adquiriram um carácter mais calmo, embora a antiga energia não desaparecesse. Coriolano consegue humilhar o senado romano, porém cede devido aos pedidos suplicantes da mãe, sua esposa e seu filho. Ele aceita os pedidos e o tratado de paz entre os romanos e os volscos. O clima e as notas se modificam. Um acontecimento inesperado. O protagonista vai para Volscian e é morto por conspiradores. A melodia desintegra-se e as últimas notas são os últimos suspiros de Coriolano.
Virgo parou e descansou por um minuto. Era apenas o começo. A segunda obra seria Pathétique. Parecia louco incluí-la no concerto, contudo, tinha um enorme carinho por ela que não resistiu. Iniciou lentamente a fantasia, com toques expressivos. Depois, firmou com um andamento rápido, com brilho e firmeza. A sonata também tinha um caráter trágico, mas diferente de Coriolan. Quando a música dava seus sinais de término, Virgo recomeça a todo vapor. Entretanto, não muito tempo depois, a atmosfera muda, as notas pausadas dão a chance do pianista descansar e introduzir o segundo movimento. Após segundos, uma melodia suave surge, inundando o local com sua harmonia, sua doçura e tranquilidade. O tema pouco varia, mas o acompanhamento modificava a cada vez. Assim, chegou ao terceiro movimento. O clímax. Ele ainda era mais brilhante e mais firme que o primeiro. Beethoven não fazia rondós simples, este era um bom exemplo. O tema do primeiro movimento variava com o segundo entre o desenvolvimento do terceiro. Virgo fazia o possível para dar o máximo de expressão para a música, ela teria que estar impecável. Terminou a obra por meio de um forte movimento.
Descansou, seus dedos estavam um pouco doloridos. Pegou o lenço que guardou no seu bolso e limpou os rastros de suor em seu rosto. Arriscou a observar o público enquanto limpava. Viu algumas pessoas com sorrisos nos rostos, outras pegavam um pano para enxugar as lágrimas e algumas pareciam inexpressivas, porém, um jovem na terceira fileira lhe chamou a atenção. Por ele ser atraente, talvez, no rosto dele havia um sorriso enorme e seus olhos brilhavam. Virgo ficou chocado. Ele era mesmo capaz de produzir essas expressões nas pessoas? Ele conseguira mostrar o quanto a música significava para ele? A relação que Virgo tinha com a música era profunda, as lembranças da sua infância era rodeada de sons e de melodias. Desde sempre vivera nesse mar melódico. Tocar era técnica, estudo, prática, mas nenhum pianista seria realmente bom se não houvesse amor pelas canções. Os artistas que conhecera diziam que num concerto, o público e o artista se unem, criam um atmosfera especial somente deles. Por isso Virgo conseguiu arrumar forças e organizar o concerto.
Preparou-se para tocar a última música. Für Elise. Uma das músicas mais conhecidas do compositor. Apesar de rápida, ela exigia muito de si, combinava uma variedade de notas, técnicas, toques, além da velocidade dos dedos e da exímia precisão. Não era para menos, assim como a maioria das músicas de Beethoven, havia a mudança rápida de sentimentos, juntando climas diferentes numa mesma música. Tristeza, alegria e agitação. O alemão tinha uma personalidade forte, isso era mostrado em suas composições. Era desafiante para Virgo conseguir entender a mente de Beethoven pelas partituras. Queria compreender o que ele queria dizer com cada música. Concentrado, se preparava para mudar a atmosfera de tristeza do começo para alegria. Rapidamente, a música possuiu um ritmo alegre e dançante, logo trocado pela tristeza e depois a agitação. Ajeitou subitamente suas mãos, um movimento rápido vinha. Usou de toda sua concentração e tocou. Novamente, o clima mudou, voltando ao começo e desintegrando lentamente. Tocou a última tecla e parou. Levantou-se e olhou para as pessoas.
Será que ele fez um bom trabalho? Seu corpo tremia, deveria ter errado muitas notas. E agora? Reverenciou para agradecer. Escutou perfeitamente os aplausos animados. Virgo se assustou e levantou a cabeça institivamente. Viu o jovem de cabelo ruivo meio cobre se levantar e bater palmas sorridente. Seu estômago ficou estranho. Pelo que aparentava, o público entendeu as mensagens de Beethoven. Sentiu vontade sair pulando de felicidade, mas se segurou. Entretanto, foi impossível evitar o tímido sorriso. Agradeceu outra vez e saiu do palco.
— Devia ter falado alguma coisa, não é? Mas está tudo bem. — falou seu empresário.
— Desculpe-me.
— Você se esforçou bastante, porém não esqueça de treinar. Até mais, Virgo, vá se trocar.
— Até mais.
Virgo pegou sua roupa e foi para o banheiro. Gostaria de tomar um banho, embora só pudesse fazer isso em casa. Teria que esperar. Colocou uma camisa branca de manga comprida e um calça jeans escura. Desmanchou o cabelo e o arrumou como deixava habitualmente, com a franja e solto. Quando terminou, saiu do banheiro para deixar o local. Saiu pela porta e sentiu o vento fresco na face.
— Oi! — disse um rapaz que apareceu na sua frente.
— Ah!! — Virgo gritou.
— Assustei você?! Provavelmente foi minha beleza extraordinária.
— O que você quer? — perguntou com a cara emburrada e uma sobrancelha arqueou.
— Bom... Como explicar... Senti a necessidade de falar, que achei seu concerto incrível. Eu sou incrível e tinha que falar isso. Eu não sentia algo assim por muito tempo... Simplesmente adorei sua interpretação de Beethoven, consegui absorver exatamente a essência da obra. Eu tenho um pouco de conhecimento sobre isso... Enfim, queria falar isso. Não sabe como o concerto me tocou. É... Obrigado... — pareceu ficar sem-graça ao terminar de falar.
Virgo ficou atônito. Era a realidade ou só uma fantasia? Inacreditável. Em todos anos de sua vida, nunca imaginaria que isso acontecesse. Responderia o que? Agradecia? Sua mente estava embolada e não conseguia organizar os pensamentos direito. Respirou fundo e pensou no que dizer.
— E- eu que agradeço, isso é inesperado... As obras que escolhi são complexas e receber um elogio por tocá-las, bem, é muito motivador. — o rosto enrubesceu.
— Eu sei. — sorriu brilhante.
— Bom, você agradeceu? Por que?
— Vamos dizer que sou um antigo amante da música clássica, mas algo me afastou dela... Fazia tempo que eu não apreciava a música dessa forma, por isso agradeço. — seu rosto formou um sorriso tristonho.
— Ah, sim. — concordou, contudo imaginou, curioso, a situação em que o outro se encontrava. Enquanto pensava, percebeu que ele era o jovem de pé naquele momento. Aquele de cabelo cor-de-cobre, o qual era mais bonito de perto.
— Eu não me apresentei! Sou o Leo! Leo Nemeia! — estendeu a mão.
— Virgo Erígone. — apertou a mão do outro.
— Vai ter outro concerto?
— Espero que sim...
— Com certeza vou estar lá! Espere, trabalha numa loja de cds de vinis, não é? Estava no panfleto, qualquer dia passo na loja.
— Hum, tudo bem... Melhor irmos.
— Ah... Sim, vou indo, então.
— Tchau.
Virgo parou e pensou na situação que acabara de ocorrer. Um jovem da sua idade lhe agradeceu pela apresentação. Fato um analisado. Ele era bem animado. Fato dois analisado. Aparentava ter um passado com a música clássica. Fato três analisado. O nome dele era Leo. Fato quatro analisado. Disse que acompanharia seu trabalho. Último fato analisado. Virgo chegou à conclusão que aquele acontecimento era sem sentido. Quem faria alguma coisa dessas? Leo devia ser uma pessoa bem peculiar. Entretanto, ele havia gostado muito do seu trabalho... Virgo sorriu rapidamente. Ou não, talvez Leo fosse exagerado e estive utilizando hipérbole. Virgo não se sentia tão importante daquela maneira, porém, sentiu-se realizado. Ele levaria esse sentimento agradável para sempre. Afastou seus pensamentos e finalmente tomou o caminho para sua casa.
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