Piano e Violino.
5 Ele e Ele.
Notas iniciais
— Finalmente, Sol! — exclamou Leo.
— Sim.
— Vamos, lá, anime-se! Não é todo dia que o céu está limpo desse jeito.
— É verdade, milagre. — disse Virgo antes de olhar para cima e contemplar o céu. — As nuvens estão brancas. E você, está treinando?
— Quer dizer o violino? Ah, sim, estou bem enferrujado, estou aprendendo tudo outra vez, um dia chego lá.
— Está gostando? Eu sei que isso é delicado para você, não quis obriga-lo a nada.
— Ei, ei, é diferente. Os tempos mudaram, eu mudei, as coisas são diferentes. É novo, posso dizer que gosto disso.
— Entendo.
O empresário de Virgo havia dado uma folga para ele. Leo, sabendo disso, o chamou para sair. Virgo concordou desde que fosse para um lugar tranquilo e o único que pensou era a praça, a qual organizou o festival anteriormente. O céu estava azul e o sol aparecera, era o dia perfeito para sentar num banco e sentir os raios quentes no rosto. Leo falava na maioria do tempo, Virgo escutava e criticava, em consequência, Leo abusava de toda sua dramaticidade para demonstrar sua indignação, mesmo que brincando. Virgo tentava esconder suas risadas quando via as caretas que o outro fazia. Era estranho como tudo parecia natural. Há pouco tempo, sempre havia desentendimentos. Virgo descobriu que Leo era uma companhia agradável, sentia-se confortável com ele. Leo era bonito também. Bonito? Ele apenas pensou que o cabelo cor de cobre, os olhos castanhos e pele quase bronzeada do amigo pareciam bonitos na luz da enorme estrela. Sentiu as batidas do coração ficarem rápidas e mais rápidas.
— Virgo? Virgo?
— O que?
— Está tudo bem? Parece estar com febre.
— É. Realmente, vou ir para casa e tomar algum remédio.
— Eu poss...
Não terminou de completar a frase e Virgo já estava longe.
***
— Como isso foi acontecer? Virgo, você é um idiota. — falava e andava de um lado para o outro. — E agora? Como você vai encara-lo? Esconder isso vai ser difícil.
— Falando sozinho, meu neto?
— É? Porque seu cabelo está azul agora?
— Porque a azul é cor mais quente.
— Mas o que faz aqui? Não estava aproveitando seus dias de folga com seu namorado?
— Nam... QUE? — Virgo engasgou com sua própria saliva.
— Não vai dizer que não estão juntos. — zombou Aquarius.
— É claro que não!
— Você está sendo dramático. Quando é o casamento?
— Por favor, não...
— Mas você gosta dele, não é?
Virgo ficou em silêncio.
***
Leo tentava contatar Virgo há dias. Foi para a loja, mas não o achou. Decidiu ir até sua casa, porém sem sucesso. Ele se perguntava se tinha feito algo de errado. Ligou e deixou várias mensagens, no entanto, sem respostas. Todo dia ligava para Virgo. Então, Leo imaginou que poderia ser um problema familiar, pois a loja estava fechada por semanas. Os dias se passaram e Leo ficava cada vez mais ansioso. Nenhuma resposta. Nenhum sinal. A preocupação e estresse foram suas companhias nesses dias. Visitava a loja depois do trabalho, contudo, aparentava estar fechada permanentemente. Exausto mentalmente, Leo foi verificar o local novamente e para sua surpresa estava aberta. Esperava encontrar Virgo, porém alguém diferente atendia. O estabelecimento não mudara. O balcão de madeira logo na entrada era o mesmo. As estantes, que percorriam praticamente todas paredes com caixas repletas de discos, ainda estava lá.
— Oi? O senhor conhece alguém chamado Virgo Erígone?
— É você! Vamos entre!
— Ah, sim.
— Quer saber do meu neto, não é? Ele está bem, bem... Fisicamente.
— O senhor é o vô dele? E como assim só fisicamente?
— Sim, eu sou. Bom, é difícil explicar, amanhã vou conseguir que ele venha para cá, assim poderão conversar.
— É muito grave?
— Depende. Vamos, vá embora, verá Virgo amanhã.
— Ei! Tudo bem, já saio!
***
Virgo organizou por horas os discos da loja. O avô conseguiu desarrumar eles num só dia de trabalho. Impossível. Ele se concentrou tanto em arruma-los que esqueceu da sua fuga. Leo poderia vê-lo a qualquer momento. Por sorte, lembrava dos horários do amigo, estava muito cedo. De repente, ouviu o som da porta se abrindo. Seu coração apertou. A pessoa que ele mais temia viera.
— Virgo! Finalmente, está bem?
— Não...
— O que foi? Por que sumiu todos esses dias?! Faz ideia do quanto fiquei preocupado?!
— Eu... Não é da sua conta.
— Como não é da minha conta?! Eu pensei que tínhamos alguma coisa!! Essas olheiras horrendas não estão aqui por nada!! Fiz algo de ruim, não é? É a única explicação...
— Não... Você não fez nada...
— Então o que?! — socou o balcão.
— É difícil de explicar, vá embora.
— Eu não vou embora antes que me explique tudo.
— Você não entende!!
— Como que eu vou entender se não explica?!! — gritou Leo, sua testa suava e a cabeça latejava.
— Ten... — tentou falar, mas as palavras desapareciam. — Tenho... Medo... Medo de continuar e me machucar... Sou o único idiota aqui, sou um tolo...
— Virgo, você não é um tolo. Nunca foi e nunca será. — disse e se aproximou de Virgo.
— Sou o único que vai se machucar, você é dessa forma com todos. Nunca entenderá.
— Machucar? Entender o que?
— É lógico... É impossível você perceber. Você pode ser irritante, iniciar conversas, as quais são geralmente monólogos, de assuntos ridículos, se preocupar demasiadamente sobre sua aparência, ser impulsivo, mimado, mas... Leo, você sempre esteve aqui quando eu precisei. Tudo parecia leve, simples e fácil de lidar com sua presença. Eu sei que agiria desse jeito qualquer um, mas... Continua sendo duro para mim admitir que sua presença me faz feliz.
Acabou. Ele disse.
— Eu... O que dizer? Virgo, você não tem ideia de como é especial para mim. Acha que sou assim com todo mundo? Chega ser ofensivo. Procurei você porque quis, fui em seus concertos, porque eu quis. É tão difícil perceber meus sentimentos?
Virgo paralisou, porém as batidas do seu coração aceleravam. Seu estômago estava estranho. Na sua mente somente restava o branco. Não recordava de nenhum guia no planeta dizendo passo-a-passo de que forma agir quando alguém correspondesse seus sentimentos. Enquanto isso, Leo se aproximava lentamente. Notou braços envolvendo e o puxando para perto.
— Porque me abraça?
— Querido, você poderia ser um cacto, eu um balão e eu abraçaria mesmo assim.
Eles podiam sentir a respiração quente na pele, tanto a de Leo, tanto a de Virgo. Sem saber, respiravam no mesmo ritmo. Como música. Os dois se separaram uns milímetros. Os olhos castanhos encaravam o rosto de Virgo, o qual chegou mais perto. Leo sentiu a maciez dos lábios de Virgo e calor da sua boca. Tentaram aprofundar o beijo, porém, o desespero confundiu-os. Leo beijou e mordeu levemente o lábio inferior de Virgo, que aproveitou a deixa e devolveu o beijo, experimentando usar a língua. Leo puxou Virgo pela cintura e intensificou o ósculo. Virgo puxou a cabeça do outro, diminuindo o mínimo de distância que havia. De repente, ouviu-se um barulho.
— Finalmente! Já não aguentava! Vamos abrir um champanhe!
— Vovô!! — berrou Virgo, claramente vermelho, Leo riu.
***
— Já estou vendo as capas de revistas! Novo pianista prodígio se apresenta em Viena! Moscou! Paris! Orgulho define!
— Calma, são só pequenas apresentações.
— Pequenas?! Pare de ser modesto! Eu sabia que ultrapassaria os limites da cidade! Vivi agora é internacional!
— Estou num relacionamento com um idiota.
— Ei! Tadinho de mim!
— Desculpa. — riu Virgo.
— Desculpo só se me der um beijo.
— Abusado; feche os olhos.
Leo fechou e sentiu algo grudento nos seus lábios. Abriu os olhos e viu que era um adesivo de flor.
— Fui enganado! Calúnia!
— Mas é bonitinho! Uma fã me deu, disse que eu ficaria bonito se usasse uma coroa de flores.
— Você ficaria lindo de qualquer jeito.
— Vamos? — Virgo ignorou o elogio de Leo.
— Pronto! — Leo posicionou o violino no ombro e Virgo posicionou seus pés corretamente no piano.
A melodia era fresca e alegre. Nostálgica, manifestava a saudade do musicista Antonín Dvořák pela sua terra natal, Boêmia. O primeiro movimento se chamava ‘’Alegro risoluto’’. O som do violino era marcante e o piano o acompanhava com notas delicadas de se ouvir. Dvořák disse que jovens e adultos entenderiam a Sonatina em Sol maior para violino e piano. Ele não estava errado. Leo e Virgo conseguiam entender perfeitamente a alegria dele, porém já tinham o que precisavam.
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