Pianista Diferente
2 Rigor e Talento
Notas iniciais
O concurso de novos talentos que eu estava participando ocorreria em um teatro importante da cidade. Não era o Teatro Municipal, mas suportava bastante gente. Lá estava eu, devidamente trajado com um terno alugado. Claro que minha mãe, presente ali para prestigiar minha apresentação junto com meu pai, não parava de ajeitar minha gravata.
—Acho que já tá bom, mãe — comentei — O que importa é o som, não a aparência.
—Deixa de bobagem — falou minha mãe — Se você for tocar todo esculhambado, aposto que vai perder pontos.
—Bom, vou indo nessa. Já, já começa — falei.
—Ei, Ricardo! — ouvi uma voz gritando. Olhei para o horizonte e vi Viridian com César acenando para mim. Ela usava um lindo vestido branco, apesar de curto. César também estava com terno. Os dois se aproximaram de mim.
—Viemos torcer por você — disse ela.
—Puxa, valeu — agradeci, apesar daquele grito ter chamado um pouco da atenção.
—É sua amiga? — perguntou minha mãe.
—Ah, sim. Mãe, essa é a Viridian e esse é o César. É o pessoal com quem estou trabalhando — expliquei.
—Mesmo? Puxa, me desculpe! — falou minha mãe, sem graça — Você é uma artista famosa, mas eu não acompanho seu trabalho e…
—Relaxa. Estou em começo de carreira — disse ela — Aliás, parece que ninguém aqui me conhece. Se eu estivesse na balada encheria de fãs.
Não é surpreendente. Viridian é uma cantora de funk e o pessoal dali, bem, maioria gosta mais de ouvir coisas dos século 19 para trás.
—Apesar disso, tem bastante gente, né? — comentou Viridian.
—É um concurso livre — falei — Dá para se inscrever até agora, caso alguém fosse louco de entrar de última hora.
—Saquei — comentou Viridian.
—Puxa, mas seu vestido é tão curto — minha mãe comentou inocentemente para Viridian — Pode aparecer sua calcinha.
—Que calcinha? — perguntou Viridian.
—Como? — disse minha mãe, arregalando os olhos.
—Ah, então, acho que já vai começar — falei rapidamente para evitar mais constrangimentos — Vocês não querem se acomodar?
—É verdade. Vamos para a plateia, né? — disse César — Espero que você vá bem nesse concurso, Ricardo. Afinal, sacrificou horas de trabalho para praticar.
—Pode apostar que usei bem essas horas — falei.
—Então, boa sorte, filho — disse meu pai.
—Certo. Vou indo nessa — falei, indo para meu lugar nos bastidores.
—Você não vem? — disse César, chamando Viridian.
—Vou passar no banheiro. Depois eu vou — disse ela, totalmente despreocupada.
Fui para os bastidores. Havia bastante gente no camarim. Alguns afinando instrumentos, outros aquecendo a voz. Resolvi apenas sentar em um canto e esperar a minha vez. Depois de alguns minutos, o concurso finalmente começou.
As cortinas se abriram e revelaram um espaço amplo no palco. Ali havia um piano de altíssima qualidade para os participantes que fossem tocar interpretações de piano (seria difícil cada um levar seu próprio piano), mas a maioria tinha seu próprio instrumento. Na primeira fileira estavam os três jurados, prontos para ouvir e criticar sem dó os participantes. Dou ênfase no “sem dó” porque essa é a fama que eles tinham. Rudolph, José e Marlene, três músicos de renome que não deixavam escapar o menor erro. Marlene em seu vestido vermelho e cabelos ruivos, Rudolph com seu terno e barba bem feita, José com o cabelo mais despenteado, óculos e cara de poucos amigos.
O primeiro participante era um garoto que fez uma apresentação de violoncelo tocando uma obra pouco conhecida de Bach. Aos meus ouvidos foi uma boa apresentação, mas os jurados não compartilhavam da mesma opinião.
—Querido — Marlene foi a primeira a falar — Você realmente ensaiou para essa apresentação?
—S-Sim — gaguejou ele.
—Você perdeu o tempo logo nas primeiras notas — falou Rudolph, o maestro alemão ainda com um leve resquício de sotaque — Isso faz toda diferença.
—Eu costumava gostar dessa música de Bach — disse José, o outro maestro, com cara de pouquíssimos amigos — Mas depois de te ouvir, vou ter essa péssima lembrança toda vez que ouvir de novo.
Na avaliação, os jurados davam notas de 0 a 10 para os participantes. Aquele pobre garoto recebeu um 6 de Marlene e um 5 de Rudolph e José. Pois é. Não seria fácil.
O rigor não parava conforme os participantes se apresentavam. Poucos recebiam notas maiores que 6. Os comentários eram cada vez piores. Veja, por exemplo, a performance de uma mulher bem magrinha, na casa dos trinta anos, tocando a Fada Açucarada do Quebra-Nozes de Tchaikovsky em sua flauta transversal.
—Senhorita Eva Palomeni, certo? Você não é do ramo da música, é? — perguntou José.
—Não, senhor — respondeu ela — Mas toco flauta desde criança.
—Não é o bastante — interrompeu Rudolph — Para prosseguir nesse concurso não basta gostar de tocar. Você tem que ser excelente nisso. Quem toca só por passatempo não tem vez aqui.
—Eu…só achei que seria interessante participar…
—Na sua ficha diz que você é uma professora universitária de psicologia — comentou Marlene — Por que participar de um concurso de música? Uma competição de jogos psicológicos seria mais a sua cara.
—Nunca fui tão humilhada na vida! — disse a mulher, saindo com mais raiva do que com decepção.
Triste. Mas nem tudo era tão ruim assim. Uma outra moça, com lindos cabelos lisos castanhos, um ainda mais lindo vestido longo azul e um olhar confiante foi a próxima. Ela cumprimentou os jurados com uma pequena reverência e não parecia transparecer um pingo de nervosismo.
—Senhorita…Pandora von Schmidt, certo? — observou Rudolph.
—Exato — respondeu ela.
—Não vejo nenhum instrumento — notou Marlene — Vai tocar piano, então?
—Sim. Isso mesmo — disse Pandora, com um sorriso confiante.
—E o que você vai tocar? — perguntou José.
—O primeiro movimento da Sinfonia 40 de Mozart— respondeu a moça.
—Oh, um clássico — exclamou Marlene — Mostre o que você tem.
Pandora fez outra reverência e iniciou sua apresentação. Suas mãos deslizavam pelo piano com graciosidade e facilidade, como se tocar aquilo fosse tão fácil para ela quanto respirar. Nunca ouvi uma interpretação tão agradável daquela obra. Ao final, até os jurados tiveram que elogiar.
—Fantástico — falou Marlene — É uma música conhecida e fácil de identificar erros, mas não consegui identificar nada de errado. Impecável. Essa merece 10.
—Eu diria que o final foi um pouco mais apressado do que o esperado — comentou Rudolph — Mas merece um 8.
—É, também dou um 8 — disse José — É uma música muito manjada e, concordo com o Rudolph, correu um pouquinho ali no final.
—Como vocês são exagerados — disse Marlene — Não afetou nada a performance.
—Marlene, você dá muita moleza para esse povo — brincou Rudolph.
Pandora agradeceu e voltou para os bastidores. Eu estava por perto quando ela entrou e não resisti em cumprimentá-la.
—Foi muito bom. Parabéns — cumprimentei.
—Parabéns por quê? — retrucou Pandora — Eu treinei para ser uma apresentação impecável e ainda assim aqueles dois velhos me deram 8! Na próxima, eles vão ver só!
E ela saiu nervosa, como se fosse uma pessoa totalmente diferente do que aparentava ser no palco. É, tem gente de tudo quanto é jeito nesse mundo. Depois de outros dois participantes, finalmente chegou a minha vez. Era hora de colocar meu violino à prova. Entrei no palco nervoso, mas respirei fundo e cumprimentei.
—Boa noite — falei.
—Boa noite — disse Marlene — O que você vai tocar?
—Canon em D maior de Pachelbel— respondi.
—Outro clássico — falou Marlene sorrindo.
—Esse pessoal não gosta de sair da zona de conforto mesmo — reclamou José — Vai lá, garoto. Pode começar.
Peguei meu violino e olhei para a plateia. Pude ver minha mãe e meu pai torcendo por mim, mas também vi Viridian com um sorriso e consegui ler nos lábios dela algo como “arrasa”. Respirei fundo mais uma vez e iniciei minha performance. O Canon de Pachelbel é uma música curta, mas maravilhosa. Uma das músicas mais lindas já criadas, na minha opinião. Ninguém havia tentado tocá-la no concurso, então era minha oportunidade. Tomei o violino e toquei o melhor que consegui. Sim, foi a melhor performance da minha vida. Todo o meu tempo de prática foi colocado naqueles minutos de execução. Por um momento fechei os olhos e apenas senti a música, esquecendo que estava em uma apresentação. Foi como ir para o céu e voltar. Pena que minha volta não era lá muito perto do céu. Depois da plateia aplaudir (e Viridian fazer questão de gritar bem alto o meu nome), os jurados começaram a avaliação.
—Parabéns pelo sucesso com o público — disse Marlene, sorrindo — Mas…
O “mas’, agora é que a coisa seria dolorida.
—Erros logo nos primeiros instantes foram evidentes — disse ela — Não deu para fingir que não ouvi.
—Não só no começo — falou José — No meio e no final também deu para perceber alguns desajustes.
Rudolph foi o último a falar.
—Escuta, garoto — disse ele — Quantos anos você tem?
—Dezoito — respondi.
—Dezoito — repetiu ele — Você tem tempo ainda. Toda uma vida pela frente para poder praticar.
—Acho que valeu como primeira experiência. Uma nota 6, já que deu para perceber seu amor pela música.
—Tá bonzinho, heim, Rudolph? — disse José — Eu dou 5. Acho que…o violino não ajudou muito, né? Se seu instrumento é velho e acabado não dá para tirar algo muito bom mesmo.
De fato, meu violino não era dos melhores, mas era o que uma bicha pobre como eu poderia arcar.
—Vou dar um 5,5 para ficar entre os dois — disse Marlene — Boa sorte, querido.
Apenas sorri amarelo e voltei para os bastidores. É, foi isso. Com aquelas notas dificilmente seria classificado para a próxima semana. Muita gente estava tirando mais do que um 6 e como quem não estivesse entre os oito primeiros iria para casa já poderia dizer que minha participação no concurso terminou. Tanto tempo praticando (não só nas semanas antes do concurso, mas vários anos da minha vida) e ainda não estava no meu melhor. A vida de músico é assim mesmo. Não é fácil.
—Ricardo — falou Viridian. Ela e César vieram até os bastidores depois que saí do palco.
—Ah, oi — foi tudo que falei. Viridian correu e me abraçou. Estava difícil segurar a decepção.
—Ah, amigo — disse ela — Não fica assim.
—É, é difícil — comentei — Mas nunca disse que seria fácil. A grana ajudaria bastante, mas agora já era.
—Era para ajudar sua família, né? — perguntou César.
—Sim, mas uma grana alta dessas não cairia na minha mão tão fácil. Vocês viram, né? Ainda não sou bom o bastante.
—O cacete que não é! — retrucou ela — Você tocou maravilhosamente bem. Eles é que são exigentes demais. Por aquela performance você merecia notas bem mais altas.
—Por favor, Viridian — rebati, um tanto ríspido, mas ainda estava chateado com o resultado — Olha, eu agradeço muito sua torcida, mas o mundo da música erudita é mais complicado do que você pensa. Eu sei que para o funk algo um pouco mais elaborado já parece grande coisa, mas tem nuances e detalhes que fazem toda a diferença. Você achou bom, legal. Mas só isso não basta. Eles tinham que ter achado bom!
Viridian fez uma expressão séria.
—É isso que você acha que eu sou, né? Só uma funkeirinha ignorante — disse ela.
Logo percebi que fui mais grosso do que eu pensei.
—Não, não. Desculpa, Viridian. Não quis ser grosso, nem arrogante, é que eu…eu ainda tô meio nervoso e…
—Não, tudo bem, eu não tô chateada — disse Viridian — Sério mesmo. Só quero te pedir uma coisa.
—O quê?
—Fica até o fim do concurso.
—Ficar até o fim? Bom, não tem mais tanta gente na minha frente, então acho que não tem problema, mas por quê?
—Só fica até o fim — disse ela, ainda em tom sério.
Nem Viridian e nem César falaram mais nada. Ficamos mais algum tempo ouvindo outros participantes. Alguns tiraram notas mais baixas do que eu, alguns notas mais altas e o tempo foi passando. Viridian estava realmente quieta, sem tirar seu olhar sério. Quando praticamente todo mundo havia se apresentado, a central do concurso cochichou alguma coisa para Marlene.
—Sério? Ainda tinha uma que fez questão de ficar por último? — disse a jurada — Tá, manda ela entrar.
—Veridiana Lumini — disse o assistente chamando Viridian — Você mesmo. Pode entrar.
Meus olhos se arregalaram. Espera, como assim? A Viridian se inscreveu no concurso?
—Veridiana é meu nome de verdade — explicou Viridian — Agora é comigo. Só observa. Se depender de mim, você não vai deixar sua família na mão, Ricardo.
—O que você fez? — perguntei para ela — Você ficou louca?!
—Ela quis fazer isso — disse César, tocando no meu ombro — Também achei que foi uma má ideia, mas ela já tinha feito a inscrição quando pensei que tinha ido ao banheiro. E ainda conseguiu convencer a produção a ficar por último.
—Mas por que ela entraria em um concurso desse nível? Você tem ideia da vergonha que ela vai passar? Se isso vazar para a imprensa pode acabar com a carreira dela e…
—Só cala a boca e assiste — interrompeu César.
Eu não tinha muita escolha a não ser observar Viridian ser devorada viva por aqueles jurados. O que, diabos, ela foi fazer? Eu estava nervoso na minha vez, mas agora eu estava muito mais nervoso. O que vai ser daquela garota?
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