Piaget
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Há cegueiras que não se referem necessariamente à ausência de visão. Mesmo para
aqueles que possuem a visão considerada “normal”, existe um “ponto cego”, ou seja, um
ponto em que, na ausência de cones, bastonetes e receptores visuais, não se pode ver.
(Foerster, 1996, p.60). Mas existem outras tantas cegueiras.
Como professora de música, tenho refletido sobre a cegueira dos ouvidos — daqueles
que ouvem, mas não escutam. Há pontos cegos na escuta, ou melhor, há escutas que, por se
limitarem a pontos fixos, se tornam cegas. Castro (1988) as denominou “ponto de escuta”,
conceito que pode ser entendido ao misturarmos suas palavras às de Boff: todo ponto de
escuta é a escuta de um ponto. Escutar de um ponto significa limitar a escuta ao que se está
acostumado a ouvir, não mover a escuta, fixá-la em determinado lugar, imobilizá-la. A
escola de música tradicional, ao valorizar e limitar a escuta ao repertório dos séculos XVIII
e XIX, cega o ouvinte.
Uma das inúmeras lendas do Conde Drácula também pode ilustrar bem o que
significa compreender para ver. Diz-se que um conde romeno apaixonou-se por uma
cantora de ópera em Paris que morreu subitamente. O conde amargurado voltou ao seu
castelo, mantendo sua amada viva todas as noites ao ouvir árias gravadas por sua suave voz
e ao admirar, também todas as noites, a estátua de mármore de sua amada. Mas enquanto
para o conde aquele era um meio de superar a ausência da amada, para os camponeses que
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habitavam em sua propriedade, a visão denunciava a “verdadeira” identidade do conde. Por
não conhecerem a possibilidade de gravar a voz, os camponeses não poderiam supor que a
voz feminina que preenchia as noites do conde era produzida por uma engenhoca mecânica
chamada fonógrafo, e não, por uma mulher morta. Entretanto, ao associarem a visão da
estátua à audição de uma voz feminina, imaginaram os camponeses que o conde era um
drácula que, em romeno, quer dizer, diabo. Viam um drácula que ressuscitava os mortos.
Viam o que compreendiam.
Ao alargarmos o conceito de visão, podemos afirmar que também só se ouve o que
se compreende.
E para “ver melhor com os ouvidos”, temos de ampliar nossos pontos de escuta,
tentando desenvolvê-los de modo a distinguir figura de fundo sonoro (Schafer, 1991), de
modo a estranhar o que é tão “natural” ou “óbvio” que nossos ouvidos simplesmente
ignoram. Diria Stravinsky: “o verdadeiro criador pode ser reconhecido por sua capacidade
de sempre encontrar à sua volta, nas coisas mais simples e humildes, detalhes dignos de
nota” (1996, p.57).
Embora a atividade musical seja baseada no som, muitas escolas de música
acreditam que para ensinar música é necessário começar pelo ensino da leitura e da escrita
musicais, fazendo com que a representação musical tenha mais importância que o “fazer
música” (Castro, op. cit.). O compositor Villa-Lobos já denunciava tal prisão quando
alertava os compositores para os perigos do encarceramento na “música-papel” e do
esquecimento da “música-som”.isso gera podem ser leitores de música, mas não, musicistas.
A atividade musical aprisionada
nos olhos atrofia também os ouvidos que deveriam estar sendo sensibilizados pelos sons do
instrumento. A relação do instrumentista com o
instrumento empobrece-se porque se prende à condição visual-motora, tratando os sons
como “cadáveres imóveis”, diria Schafer (1991, p.123).
A música, no âmbito da escola regular é, sobretudo, atividade de grupo. A ação do professor se dará no sentido de trabalhar o grupo. Realidade diferente é encontrada na prática conservatorial e também na prática de aulas individuais, muito freqüentes no que tange a linguagem musical.
Em ambas situações, questões relacionadas ao aspecto psicológico são enfrentadas
quotidianamente pelo professor. Falando da importância da psicologia da educação,
Salvador argumenta que a psicologia se dividiu no esforço de se aliar a pedagogia.
“as diferentes concepções da psicologia da educação que coexistem
atualmente são uma expressão da importância relativa atribuída por cada
uma aos componentes psicológicos no esforço de explicar e de compreender
os fenômenos educativos.” [SALVADOR: 1999. p. 39]
“a moral heterônoma é aquela cujas regras são legitimadas com referência a
uma instância superior, a uma autoridade; na moral autônoma, pelo
contrário, as regras ganham legitimidade sem nenhuma referência a algo que
transcenda os indivíduos: são legítimas se nasceram de acordos realizados
entre pessoas iguais e livres.” [DE LA TAILLE: 1999]
Neste sentido, o professor deverá diferenciar a sua prática, no sentido de que na
situação de lecionar para crianças nos primeiros estágios de desenvolvimento, deverá se
situar como modelo a ser imitado, este deverá organizar o grupo. Quando a moral autônoma
é alcançada pelos alunos, há a possibilidade de uma auto-organização, estando então o
professor de música mais próximo da possibilidade de trabalhar pela sua auto-extinção,
como nos fala Schafer (1991), em seu artigo intitulado “Um rinoceronte na sala de aula”:
“Não há mais professores. Apenas uma comunidade de aprendizes.”[SCHAFER: 1991. p.
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Na teoria de Piaget, o desenvolvimento cognitivo é resultado da ação do indivíduo
com o objeto. Tal afirmação encontra aplicação direta na compreensão do processo
individual de aprendizagem tanto da linguagem musical quanto no desenvolvimento
relacionado ao domínio técnico de um instrumento. Nas situações anteriormente
apresentadas, tanto no ensino regular como no caso de aulas individuais, será a prática
musical o elo para a compreensão dos conceitos. Embora a realidade da Educação Musical
aponte que nem sempre esta é a postura utilizada, sobretudo nos temidos “cursos de Teoria
Musical”...
Segundo Beyer (abordando Piaget em discussão sobre a dicotomia fazer/entender
música), o desenvolvimento da cognição parte de uma ação do corpo para um tipo de ação
preponderantemente mental.
“...é através da ação sobre o objeto que o bebê vai formando os esquemas
sensório-motores, sendo esta ação modificada e modificadora ao longo de
vários estágios do desenvolvimento, até chegar então nas operações formais
no pensamento. Ou seja, de uma ação preponderante do ‘corpo’, o ser
humano vai passando por um desenvolvimento até alcançar um tipo de ação
onde prepondera a atividade da `mente`.” [BEYER: 1999. p. 13]
é esta atividade da representação mental que
possibilita ao ser humano um fazer musical em dimensões mais amplas. A autora denomina as imagens mentais “calcadas” sobre a audição como sendo
“imagens aurais”. “São as imagens aurais que possibilitam a um indivíduo que evoque
simbolicamente a realidade musical ausente.
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